INICIAR SESIÓNAquele silêncio começou a me incomodar de verdade.
— Pai, o que está acontecendo? Ele voltou para a mesa. — Nada que você precise resolver. — Eu sou a herdeira desta família. Se existe alguma coisa que ameaça os Bellini, eu preciso saber. — Você saberá o que for necessário. Apertei os lábios. Eu odiava aquela resposta. Era a mesma que recebia quando era adolescente e fazia perguntas sobre os negócios da família que meu pai não queria explicar. A diferença era que, naquela época, eu ainda acreditava que ele sempre sabia o que estava fazendo. — Quando vou conhecer os termos definitivos do acordo? — perguntei. — Matteo virá jantar conosco no próximo fim de semana. Vocês terão oportunidade de conversar. — Que gentil da parte dele. Meu pai ignorou o sarcasmo. — Espero que seja cordial. — Sou sempre cordial. Ele ergueu uma sobrancelha. — Valentina. — O quê? Eu sou. — Não confunda sinceridade com falta de educação. Sorri. — Nunca confundo. Levantei-me. — Posso voltar ao trabalho? Vittorio assentiu. Antes de sair, porém, parei junto à porta. — Pai? Ele ergueu os olhos. — Você realmente acredita que esse casamento é o melhor para mim? Por um momento, vi alguma coisa mudar em seu rosto. Uma hesitação. Pequena, mas suficiente para que eu percebesse. — Acredito que é o melhor para a família. Assenti lentamente. Era uma resposta. Não a que eu queria. Mas uma resposta. Saí do escritório sem olhar para trás. * Passei o restante da tarde na sede da Bellini Group. Reuniões, contratos, relatórios e uma infinidade de assuntos que exigiam minha atenção. O trabalho tinha uma vantagem: não me permitia pensar demais. Ou, pelo menos, não deveria. Às seis e meia, minha assistente entrou na sala com uma pasta. — Os documentos da expansão estão prontos para sua assinatura. — Deixe sobre a mesa. Ela hesitou. — Há outra coisa. Ergui os olhos. — Sim? — O senhor Matteo Moretti ligou. Gostaria de conversar com você antes do jantar de sábado. Pousei a caneta. — Ele disse sobre o quê? — Não especificou. Apenas pediu que eu informasse que entraria em contato novamente. Assenti. — Obrigada. Assim que ela saiu, encostei-me na cadeira. Matteo. Eu sabia que aquela conversa aconteceria em algum momento. Ainda assim, a ideia de falar com ele sobre o nosso casamento me causava uma irritação que eu não conseguia ignorar. Não sabia o que esperava daquela conversa. Talvez que ele fosse tão indiferente quanto eu. Talvez que entendesse que aquilo era um acordo entre famílias, e não uma história de amor. Ou talvez que tivesse a decência de reconhecer que nenhum de nós deveria ser obrigado a fingir entusiasmo. Peguei o celular e procurei o contato dele. Fiquei olhando para o nome por alguns segundos. Depois bloqueei a tela. Se Matteo queria conversar, poderia esperar até o jantar. Eu tinha trabalho suficiente para ocupar minha cabeça. * Quando cheguei em casa, Beatrice estava na sala, deitada no sofá, assistindo a algum programa que eu não fazia ideia de qual era. — Sobreviveu ao dia? — perguntou. Deixei a bolsa sobre a poltrona. — Por pouco. Ela se sentou. — Papai falou alguma coisa? — Nada que eu já não soubesse. — Valentina… — Bea, por favor. Ela fechou a boca. Sentei-me ao lado dela e apoiei a cabeça no encosto do sofá. Por alguns instantes, ficamos em silêncio. — Você acha que vai ser feliz? — ela perguntou. Virei o rosto. — Não sei. — Isso não é uma resposta. — É a única que tenho. Beatrice segurou minha mão. — Eu queria poder fazer alguma coisa. Olhei para ela. — Você já faz. — O quê? — Você me lembra que existe uma vida fora desta família. Ela sorriu, mas havia tristeza em seus olhos. — Então não deixe que tirem isso de você. Não respondi. Porque, naquele momento, eu não sabia se conseguiria. Olhei para a fotografia sobre a mesa de centro. Nós quatro. Meu pai, minha mãe, Beatrice e eu. Uma família que, vista de fora, parecia ter tudo. Talvez tivéssemos mesmo. Dinheiro. Influência. Uma história. Um sobrenome que abria portas. Mas havia coisas que nenhuma fortuna poderia comprar. E uma delas era a liberdade de escolher quem dividiria a vida comigo. Encostei a cabeça no ombro da minha irmã. — Promete que, aconteça o que acontecer, você não vai se meter em problemas? Beatrice soltou uma gargalhada. — Você está falando sério? — Completamente. — Não posso prometer uma coisa dessas. — Beatrice. — Está bem. Vou tentar. Fechei os olhos. Era o máximo que conseguiria dela. E, por enquanto, teria que ser suficiente. Naquela noite, fui dormir com a sensação de que minha vida havia começado a seguir um caminho que eu não havia escolhido. Ainda não sabia como sair dele. Mas sabia que não pretendia passar o resto da vida aceitando decisões tomadas por outras pessoas. Mesmo que, para mudar meu destino, eu precisasse enfrentar a própria família. Mesmo que isso tivesse um preço.Escutei em silêncio, cada detalhe reforçando a impressão de que minha presença naquela mesa era apenas uma formalidade.Quando o café chegou, ele tomou um gole e voltou a me olhar.— Minha família espera conhecê-la melhor.— Já nos conhecemos.— Não dessa maneira. Minha mãe gostaria de recebê-la para jantar. Podemos organizar algo ainda esta semana.— Vou verificar minha agenda.— Valentina.O modo como pronunciou meu nome me fez erguer os olhos.— Não precisa transformar tudo em uma negociação.Quase sorri diante da ironia.— Foi você quem me chamou para conversar sobre um casamento negociado.Matteo não achou graça.— Quero que isso funcione.— Então comece me tratando como alguém que tem o direito de escolher.Ele permaneceu em silêncio, e aproveitei para me levantar.— Preciso ir.Matteo também se levantou.— Espero que tenha entendido o que conversamos.Peguei minha bolsa e ajeitei o vestido.— Entendi perfeitamente.— E?Olhei diretamente para ele.— Ainda não concordei em me ca
Matteo me observou por alguns segundos.— Podemos construir uma relação depois do casamento.— E até lá?— Até lá, precisamos fazer o que é necessário.Desviei o olhar para a janela. Do lado de fora, algumas pessoas atravessavam a rua, apressadas para chegar a seus destinos. Por um momento, invejei a simplicidade daquela rotina.— Eu não aceitei me casar com você — falei.A expressão de Matteo mudou.— Seu pai me garantiu que você compreendia a importância do acordo.— Compreender não é aceitar.Ele apoiou as mãos na mesa, aproximando-se um pouco.— Valentina, não estou aqui para discutir a origem das palavras.— Então seja claro.— O casamento acontecerá dentro de três meses. As famílias já começaram a organizar tudo.Senti meu peito apertar.— Sem a minha confirmação?— Seu pai está cuidando dos preparativos.— Meu pai não vai subir ao altar no meu lugar.Matteo respirou fundo, claramente perdendo a paciência.— Você está tornando tudo mais difícil do que precisa ser.— E você está
O relógio sobre a mesa marcava pouco mais de seis da tarde quando meu celular vibrou.Matteo Moretti.Fiquei alguns segundos encarando o nome na tela antes de atender.— Matteo.— Valentina. Precisamos conversar.A voz dele era firme, sem qualquer vestígio de cordialidade.— Meu pai disse que você gostaria de falar comigo.— Prefiro que seja pessoalmente.Olhei pela janela do meu escritório. O céu começava a adquirir tons alaranjados, e o movimento dos carros se acumulava nas ruas.— Sobre o quê?— Sobre o nosso casamento.A palavra provocou uma sensação desagradável no meu estômago.— Estou ocupada.— Não vai demorar.Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.— Onde?— Estou no restaurante do hotel Bellini. Podemos conversar aqui.A escolha do lugar não me passou despercebida. Um dos nossos hotéis, um ambiente onde eu conhecia os funcionários e onde Matteo, teoricamente, não teria qualquer vantagem sobre mim.— Estarei aí em vinte minutos.Encerrei a ligação antes que ele pu
Por alguns segundos, não respondi. A confiança não era algo que eu distribuía para aliviar o orgulho de alguém. Era construída, testada e, quando necessário, retirada.— Não confundo confiança com negligência — falei. — E não vou deixar de proteger esta família porque você se sente ofendido.— Esta família também é minha.— Nunca disse o contrário.Matteo apertou os lábios, como se procurasse uma resposta que pudesse me atingir. Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa.— Você sempre precisa ter a última palavra.— Quando a conversa envolve a segurança dos Moretti, sim.Ele soltou uma risada amarga e pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona.— Um dia, Alessandro, você vai perceber que não pode controlar tudo.— Nunca precisei controlar tudo. Apenas o que pode nos destruir.Matteo parou junto à porta.— Não se preocupe com os Bellini. Cuide dos seus próprios assuntos.— É exatamente o que estou fazendo.Ele saiu, fechando a porta com força suficiente para deixar clar
O silêncio no escritório era interrompido apenas pelo movimento das páginas que Riccardo folheava diante de mim.Havia documentos espalhados sobre a mesa, relatórios financeiros, registros de empresas e uma pasta com informações preliminares sobre os Bellini. Nada que justificasse, por enquanto, a preocupação que minha mãe havia demonstrado.Mas eu aprendera há muito tempo que as famílias não escondiam informações sem um motivo.— Os negócios dos Bellini parecem sólidos — Riccardo comentou, fechando uma das pastas. — Pelo menos, aqueles que estão à vista.Ergui os olhos.— E os que não estão?— Ainda estamos verificando. Existem movimentações que não fazem muito sentido, mas preciso de mais tempo antes de afirmar qualquer coisa.Recostei-me na cadeira, observando-o.— Continue procurando.Riccardo assentiu e empurrou outra pasta na minha direção.— Há mais uma coisa. Matteo pediu para falar com você.Soltei uma respiração curta.— Ele sabe onde me encontrar.— Disse que é importante.
Aquele silêncio começou a me incomodar de verdade.— Pai, o que está acontecendo?Ele voltou para a mesa.— Nada que você precise resolver.— Eu sou a herdeira desta família. Se existe alguma coisa que ameaça os Bellini, eu preciso saber.— Você saberá o que for necessário.Apertei os lábios.Eu odiava aquela resposta.Era a mesma que recebia quando era adolescente e fazia perguntas sobre os negócios da família que meu pai não queria explicar.A diferença era que, naquela época, eu ainda acreditava que ele sempre sabia o que estava fazendo.— Quando vou conhecer os termos definitivos do acordo? — perguntei.— Matteo virá jantar conosco no próximo fim de semana. Vocês terão oportunidade de conversar.— Que gentil da parte dele.Meu pai ignorou o sarcasmo.— Espero que seja cordial.— Sou sempre cordial.Ele ergueu uma sobrancelha.— Valentina.— O quê? Eu sou.— Não confunda sinceridade com falta de educação.Sorri.— Nunca confundo.Levantei-me.— Posso voltar ao trabalho?Vittorio as







