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Capítulo 5 - Valentina (parte 3)

Autor: Sia Paiomas
last update Fecha de publicación: 2026-10-16 13:44:03

Escutei em silêncio, cada detalhe reforçando a impressão de que minha presença naquela mesa era apenas uma formalidade.

Quando o café chegou, ele tomou um gole e voltou a me olhar.

— Minha família espera conhecê-la melhor.

— Já nos conhecemos.

— Não dessa maneira. Minha mãe gostaria de recebê-la para jantar. Podemos organizar algo ainda esta semana.

— Vou verificar minha agenda.

— Valentina.

O modo como pronunciou meu nome me fez erguer os olhos.

— Não precisa transformar tudo em uma negociação.

Quase sorri diante da ironia.

— Foi você quem me chamou para conversar sobre um casamento negociado.

Matteo não achou graça.

— Quero que isso funcione.

— Então comece me tratando como alguém que tem o direito de escolher.

Ele permaneceu em silêncio, e aproveitei para me levantar.

— Preciso ir.

Matteo também se levantou.

— Espero que tenha entendido o que conversamos.

Peguei minha bolsa e ajeitei o vestido.

— Entendi perfeitamente.

— E?

Olhei diretamente para ele.

— Ainda não concordei em me casar com você.

Passei por ele antes que pudesse responder.

**

O caminho de volta para casa pareceu mais longo do que o habitual.

Assim que entrei no carro, apoiei a cabeça no encosto e fechei os olhos. O motorista não fez perguntas. Conhecia bem o silêncio que eu precisava quando estava cansada.

A conversa com Matteo não havia esclarecido nada. Pelo contrário, deixara ainda mais evidente que havia algo por trás daquele casamento que ninguém estava disposto a me contar.

Meu pai falava em dever. Matteo, em consequências. Minha mãe, em proteção.

E eu continuava sem saber exatamente do que precisava proteger minha família.

Quando cheguei em casa, encontrei Beatrice sentada na sala, com as pernas dobradas sob o corpo e um livro aberto sobre o colo. Ela ergueu os olhos assim que entrei.

— Você demorou.

Deixei a bolsa sobre uma poltrona.

— Precisei resolver algumas coisas.

Ela fechou o livro.

— Conversou com ele?

Assenti.

Beatrice me observou atentamente.

— E como foi?

Sentei-me ao seu lado e tirei os sapatos.

— Matteo acredita que o casamento já está decidido.

— Mas não está.

— Para ele, está.

Ela franziu a testa.

— O que ele disse?

Olhei para minha irmã. Havia uma preocupação sincera em seu rosto, e por um instante considerei esconder parte da conversa. Não queria que ela carregasse mais um peso, mas também não queria continuar fingindo que estava tudo bem.

— Disse que existem compromissos assumidos e que quebrá-los pode ter consequências.

Beatrice ficou imóvel.

— Que tipo de consequências?

— Não explicou.

Ela desviou os olhos para as próprias mãos.

— Valentina, eu não quero que você se case por minha causa.

Aproximei-me e segurei sua mão.

— Eu sei.

— Não, acho que você não sabe. Você sempre faz isso. Assume tudo, resolve tudo e depois age como se não estivesse acontecendo nada.

— Bea…

— Eu estou falando sério.

Sua voz vacilou, mas ela não desviou o olhar.

— Se existe alguma coisa errada, você precisa me contar. Não quero descobrir depois que você estava tentando me proteger de alguma coisa que eu poderia ter enfrentado ao seu lado.

Aquelas palavras tocaram um lugar sensível dentro de mim.

— Não estou escondendo nada de você. Só ainda não sei o que está acontecendo.

— Então vamos descobrir.

Passei o braço ao redor de seus ombros e a puxei para perto.

— Você precisa tomar cuidado, Beatrice. Não quero que se envolva em algo que possa colocá-la em perigo.

Ela se afastou um pouco para me olhar.

— E você? Não está em perigo?

Não consegui responder.

Beatrice soltou uma respiração curta e encostou a cabeça no meu ombro.

— Eu só queria que, pelo menos uma vez, alguém perguntasse o que nós queremos.

Olhei para o corredor que levava à sala de jantar. A casa estava silenciosa, mas eu sabia que meu pai ainda estava acordado, provavelmente trabalhando em algum dos inúmeros assuntos que pareciam sempre exigir sua atenção.

— Também queria isso — murmurei.

Ficamos ali por algum tempo, sem dizer mais nada.

Quando Beatrice finalmente se levantou para ir ao quarto, permaneci no sofá, observando a luz suave dos abajures refletida nas paredes.

Eu não sabia o que meu pai havia prometido aos Moretti. Não sabia por que Matteo estava tão seguro de que o casamento aconteceria, nem o que significavam as consequências que ele mencionara.

Mas havia uma coisa que eu sabia.

Não podia continuar esperando que os outros decidissem o que seria feito da minha vida.

Levantei-me e caminhei até a janela. Do lado de fora, os jardins estavam iluminados, as árvores balançavam suavemente com o vento e tudo parecia exatamente como sempre fora.

Apenas eu já não conseguia olhar para aquela casa da mesma maneira.

Amanhã, conversaria novamente com meu pai.

Dessa vez, não aceitaria respostas pela metade.

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