INICIAR SESIÓNPor alguns segundos, não respondi. A confiança não era algo que eu distribuía para aliviar o orgulho de alguém. Era construída, testada e, quando necessário, retirada.
— Não confundo confiança com negligência — falei. — E não vou deixar de proteger esta família porque você se sente ofendido. — Esta família também é minha. — Nunca disse o contrário. Matteo apertou os lábios, como se procurasse uma resposta que pudesse me atingir. Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa. — Você sempre precisa ter a última palavra. — Quando a conversa envolve a segurança dos Moretti, sim. Ele soltou uma risada amarga e pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona. — Um dia, Alessandro, você vai perceber que não pode controlar tudo. — Nunca precisei controlar tudo. Apenas o que pode nos destruir. Matteo parou junto à porta. — Não se preocupe com os Bellini. Cuide dos seus próprios assuntos. — É exatamente o que estou fazendo. Ele saiu, fechando a porta com força suficiente para deixar clara sua irritação. Permaneci sentado, olhando para a madeira escura por alguns instantes. Meu irmão queria reconhecimento. Isso, por si só, não era um problema. O problema era o quanto estava disposto a arriscar para consegui-lo. Peguei o telefone e liguei para Riccardo. — Entre. Ele apareceu pouco depois, fechando a porta atrás de si. — Como foi? — Meu irmão está convencido de que o casamento é a melhor decisão da vida dele. — E você não está convencido. — Ainda não. Riccardo voltou à cadeira e abriu o tablet. — Quer que eu aumente a investigação? — Quero que descubra tudo o que puder sobre as finanças dos Bellini. Dívidas, empréstimos, sociedades, transferências. Principalmente qualquer movimentação que não apareça nos relatórios oficiais. — E quanto ao acordo? — Não interfira nele sem minha autorização. Por enquanto, apenas observe. Riccardo fez uma anotação. — Há algo mais que deveria saber. Enzo esteve perguntando sobre o casamento. Meu olhar se estreitou. — O que ele queria? — Saber se você pretende comparecer à cerimônia e se vai reconhecer formalmente a aliança diante dos outros chefes. Soltei uma risada baixa, sem humor. — Enzo está preocupado com a aparência da família. — Ele acredita que Matteo deveria assumir mais responsabilidades. — Matteo já tem responsabilidades. — Não é assim que seu tio enxerga. Eu conhecia bem a opinião de Enzo. Para ele, qualquer mudança era uma ameaça à estrutura que havia sustentado a família por décadas. E minha maneira de conduzir os negócios, mais estratégica e menos impulsiva, nunca fora de seu agrado. — Meu tio terá a oportunidade de expressar sua opinião quando eu convocar uma reunião — respondi. — Até lá, não quero ninguém pressionando Matteo. Riccardo assentiu. — Entendido. Voltei a atenção aos documentos sobre a mesa. A pasta dos Bellini permanecia aberta, exibindo números que, à primeira vista, pareciam perfeitamente comuns. Ainda assim, alguma coisa me incomodava. Meu pai havia desconfiado daquela família antes de morrer. Eu me lembrava de conversas interrompidas quando entrava no escritório, de reuniões que ele mantinha longe dos demais e de um nome que aparecia em alguns documentos antigos, sempre acompanhado de valores que nunca consegui rastrear por completo. Na época, eu era jovem demais para compreender a extensão dos negócios que meu pai conduzia. Quando ele morreu, herdei uma organização inteira, inimigos que não conhecia e perguntas que ninguém conseguia responder. Nove anos depois, uma delas continuava sem solução: quem havia ordenado sua morte? — Riccardo. Ele ergueu a cabeça. — Sim? — Quero que procure nos arquivos antigos tudo o que encontrar sobre as relações entre meu pai e os Bellini. Não apenas os negócios registrados. Procure correspondências, contratos particulares, qualquer coisa que tenha sido arquivada fora do sistema. Riccardo me observou com atenção. — Acha que há uma ligação? — Acho que meu pai não desconfiava de uma família sem motivo. — E se não houver nada? — Então teremos eliminado uma possibilidade. Ele fechou o tablet. — Vou cuidar disso pessoalmente. Assenti, dispensando-o com um gesto. Quando fiquei sozinho, fui até o bar no canto do escritório e servi dois dedos de uísque. Não tinha o hábito de beber durante o expediente, mas aquela noite prometia ser longa. O casamento de Matteo poderia fortalecer a família. Também poderia nos colocar no centro de uma disputa que ainda não compreendíamos. Não pretendia impedir meu irmão de se casar apenas por desconfiança. Mas tampouco permitiria que a necessidade dele de provar seu valor colocasse todos nós em perigo. Levei o copo aos lábios e olhei para as luzes da cidade. Havia acordos que se assinavam com tinta. Outros, com sangue. E eu precisava descobrir qual dos dois estava sendo firmado entre os Moretti e os Bellini.Escutei em silêncio, cada detalhe reforçando a impressão de que minha presença naquela mesa era apenas uma formalidade.Quando o café chegou, ele tomou um gole e voltou a me olhar.— Minha família espera conhecê-la melhor.— Já nos conhecemos.— Não dessa maneira. Minha mãe gostaria de recebê-la para jantar. Podemos organizar algo ainda esta semana.— Vou verificar minha agenda.— Valentina.O modo como pronunciou meu nome me fez erguer os olhos.— Não precisa transformar tudo em uma negociação.Quase sorri diante da ironia.— Foi você quem me chamou para conversar sobre um casamento negociado.Matteo não achou graça.— Quero que isso funcione.— Então comece me tratando como alguém que tem o direito de escolher.Ele permaneceu em silêncio, e aproveitei para me levantar.— Preciso ir.Matteo também se levantou.— Espero que tenha entendido o que conversamos.Peguei minha bolsa e ajeitei o vestido.— Entendi perfeitamente.— E?Olhei diretamente para ele.— Ainda não concordei em me ca
Matteo me observou por alguns segundos.— Podemos construir uma relação depois do casamento.— E até lá?— Até lá, precisamos fazer o que é necessário.Desviei o olhar para a janela. Do lado de fora, algumas pessoas atravessavam a rua, apressadas para chegar a seus destinos. Por um momento, invejei a simplicidade daquela rotina.— Eu não aceitei me casar com você — falei.A expressão de Matteo mudou.— Seu pai me garantiu que você compreendia a importância do acordo.— Compreender não é aceitar.Ele apoiou as mãos na mesa, aproximando-se um pouco.— Valentina, não estou aqui para discutir a origem das palavras.— Então seja claro.— O casamento acontecerá dentro de três meses. As famílias já começaram a organizar tudo.Senti meu peito apertar.— Sem a minha confirmação?— Seu pai está cuidando dos preparativos.— Meu pai não vai subir ao altar no meu lugar.Matteo respirou fundo, claramente perdendo a paciência.— Você está tornando tudo mais difícil do que precisa ser.— E você está
O relógio sobre a mesa marcava pouco mais de seis da tarde quando meu celular vibrou.Matteo Moretti.Fiquei alguns segundos encarando o nome na tela antes de atender.— Matteo.— Valentina. Precisamos conversar.A voz dele era firme, sem qualquer vestígio de cordialidade.— Meu pai disse que você gostaria de falar comigo.— Prefiro que seja pessoalmente.Olhei pela janela do meu escritório. O céu começava a adquirir tons alaranjados, e o movimento dos carros se acumulava nas ruas.— Sobre o quê?— Sobre o nosso casamento.A palavra provocou uma sensação desagradável no meu estômago.— Estou ocupada.— Não vai demorar.Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.— Onde?— Estou no restaurante do hotel Bellini. Podemos conversar aqui.A escolha do lugar não me passou despercebida. Um dos nossos hotéis, um ambiente onde eu conhecia os funcionários e onde Matteo, teoricamente, não teria qualquer vantagem sobre mim.— Estarei aí em vinte minutos.Encerrei a ligação antes que ele pu
Por alguns segundos, não respondi. A confiança não era algo que eu distribuía para aliviar o orgulho de alguém. Era construída, testada e, quando necessário, retirada.— Não confundo confiança com negligência — falei. — E não vou deixar de proteger esta família porque você se sente ofendido.— Esta família também é minha.— Nunca disse o contrário.Matteo apertou os lábios, como se procurasse uma resposta que pudesse me atingir. Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa.— Você sempre precisa ter a última palavra.— Quando a conversa envolve a segurança dos Moretti, sim.Ele soltou uma risada amarga e pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona.— Um dia, Alessandro, você vai perceber que não pode controlar tudo.— Nunca precisei controlar tudo. Apenas o que pode nos destruir.Matteo parou junto à porta.— Não se preocupe com os Bellini. Cuide dos seus próprios assuntos.— É exatamente o que estou fazendo.Ele saiu, fechando a porta com força suficiente para deixar clar
O silêncio no escritório era interrompido apenas pelo movimento das páginas que Riccardo folheava diante de mim.Havia documentos espalhados sobre a mesa, relatórios financeiros, registros de empresas e uma pasta com informações preliminares sobre os Bellini. Nada que justificasse, por enquanto, a preocupação que minha mãe havia demonstrado.Mas eu aprendera há muito tempo que as famílias não escondiam informações sem um motivo.— Os negócios dos Bellini parecem sólidos — Riccardo comentou, fechando uma das pastas. — Pelo menos, aqueles que estão à vista.Ergui os olhos.— E os que não estão?— Ainda estamos verificando. Existem movimentações que não fazem muito sentido, mas preciso de mais tempo antes de afirmar qualquer coisa.Recostei-me na cadeira, observando-o.— Continue procurando.Riccardo assentiu e empurrou outra pasta na minha direção.— Há mais uma coisa. Matteo pediu para falar com você.Soltei uma respiração curta.— Ele sabe onde me encontrar.— Disse que é importante.
Aquele silêncio começou a me incomodar de verdade.— Pai, o que está acontecendo?Ele voltou para a mesa.— Nada que você precise resolver.— Eu sou a herdeira desta família. Se existe alguma coisa que ameaça os Bellini, eu preciso saber.— Você saberá o que for necessário.Apertei os lábios.Eu odiava aquela resposta.Era a mesma que recebia quando era adolescente e fazia perguntas sobre os negócios da família que meu pai não queria explicar.A diferença era que, naquela época, eu ainda acreditava que ele sempre sabia o que estava fazendo.— Quando vou conhecer os termos definitivos do acordo? — perguntei.— Matteo virá jantar conosco no próximo fim de semana. Vocês terão oportunidade de conversar.— Que gentil da parte dele.Meu pai ignorou o sarcasmo.— Espero que seja cordial.— Sou sempre cordial.Ele ergueu uma sobrancelha.— Valentina.— O quê? Eu sou.— Não confunda sinceridade com falta de educação.Sorri.— Nunca confundo.Levantei-me.— Posso voltar ao trabalho?Vittorio as







