LOGINEle sentiu tudo de uma vez: a leveza quase frágil do ombro dela, a temperatura mais fria da pele em contraste com o calor que irradiava do seu próprio corpo, a ausência total de tensão muscular — como se ela não tivesse percebido o contato ou, pior, como se ele não representasse nenhuma ameaça. O perfume dela chegou logo depois, suave, quase medicinal, com um fundo limpo que não tinha nada de artificial.
Nyana se recompôs no mesmo instante, sem pressa, sem sobressalto, sem o menor sinal de desconforto. Endireitou a postura com precisão automática, como se o toque tivesse sido apenas uma interferência física qualquer, nada mais.
— Desculpe — disse ela, voz serena, sem baixeza, sem culpa. — A manobra foi inesperada.
Ela não corou. Não gaguejou. Não desviou o olhar.
Apenas voltou ao ponto neutro.
E foi exatamente isso que atingiu Araziel em cheio.
Ele não respondeu de imediato. A voz dela ainda ecoava baixa dentro do carro blindado, calma demais, controlada demais. O braço dele ainda formigava no ponto exato onde ela havia encostado, como se a pele dela tivesse deixado uma marca invisível. Um calor incômodo subiu pela nuca dele, misturado com irritação.
Como ela conseguia fazer aquilo?
Como conseguia tocar nele — mesmo que por acidente — e voltar ao estado de sempre, como se nada tivesse acontecido?
Ele apertou o maxilar, lutando contra a vontade quase primitiva de estender a mão e tocar o ombro dela novamente, só para ver se ela reagiria. Só para ver se conseguia tirar dela algo além daquela serenidade irritante.
— Continue — disse por fim, a voz mais baixa e rouca do que pretendia.
Nyana nem pareceu notar a mudança no tom.
Apenas assentiu e voltou a falar sobre os parâmetros do almoço, voz clara e profissional como sempre.
Mas dentro do carro, o ar havia mudado.
E Araziel, pela primeira vez naquele dia, sentiu que estava perdendo o controle de algo que nem sabia que queria controlar.
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A sala privativa do restaurante era ampla, revestida de madeira escura, com iluminação baixa e isolamento acústico perfeito. Na mesa, três homens aguardavam — representantes da área de segurança federal. Dois mais velhos, com postura rígida e olhar treinado, experientes o suficiente para saber que, diante de alguém como Araziel Vael, cada palavra deveria ser medida com cuidado. O terceiro — mais jovem — tentava parecer igualmente profissional, mas não conseguia esconder a curiosidade inquieta que brilhava em seu olhar.
O nome no crachá improvisado era Ricardo Martins. Trinta e poucos anos. Analista tático. Ambicioso. E visivelmente ansioso para impressionar.
A porta abriu com o som suave da fechadura eletrônica. Araziel entrou primeiro. A sala se reorganizou instintivamente, como sempre acontecia quando ele aparecia. Os mais velhos se endireitaram na cadeira. Ricardo engoliu em seco.
— Senhor Vael — cumprimentou um dos mais velhos, apertando a mão dele com respeito contido.
— Vamos direto ao ponto — respondeu Araziel, sem rodeios.
Sentaram-se. O clima ficou pesado, profissional, técnico e seríssimo. Arquivos digitais foram abertos, protocolos discutidos e especificações listadas: drones, radares, softwares de predição, mapas urbanos de calor criminal. Tudo seguia o fluxo perfeito.
Até que a porta se abriu novamente.
E Nyana entrou.
Postura impecável, passos silenciosos, elegância sem intenção. Os óculos de sol discretos agora repousavam sobre a cabeça, já que a luz era baixa. O cabelo preso, o rosto neutro, o corpo organizado naquele tipo de precisão que não é exibida — é natural. Ela empurrava o carrinho de serviço com café, água e as pastas impressas que seriam distribuídas.
Os dois homens mais velhos a notaram — claro que notaram —, mas foram discretos. Um ajeitou a gravata. O outro simplesmente assentiu, quase sem olhar. Profissionais experientes.
Mas Ricardo…
Ricardo paralisou.
O olhar dele se abriu um pouco mais, traiçoeiro, revelando um tipo de surpresa que não pertencia àquele ambiente. O tipo de surpresa que carregava história por trás.
— N… Nyana? — escapou, baixo, mas perfeitamente audível.
Ela levantou os olhos apenas o suficiente. Neutra.
— Senhor Martins — respondeu, no mesmo tom profissional com que diria “bom dia”.
Araziel levantou o olhar devagar. Não foi dramático. Foi o tipo de movimento que um predador faz quando detecta algo errado no ambiente. Seus olhos foram de Nyana para Ricardo e voltaram para Nyana.
Ela colocou a xícara diante de cada convidado com precisão impecável.
— Café? Açúcar? — perguntou, sem qualquer adorno na voz.
Os dois mais velhos agradeceram, discretos.
Ricardo, no entanto, sorriu de um jeito que já dizia demais.
— Sempre tão… eficiente — comentou, tentando soar casual.
Nyana apenas assentiu, sem responder ao subtexto.
Mas Araziel ouviu o subtexto. E não gostou. Nada.
O jovem continuou falando quando não devia, a voz meio insegura, meio emocionada:
— Não esperava te ver aqui. Faz tempo… desde o porto, lembra? Você sumiu de lá de uma hora pra outra—
— Senhor Martins — interrompeu Araziel.
Frio. Baixo. Cortante.
Ricardo congelou. Nyana permaneceu imóvel.
Araziel apoiou o antebraço na mesa, olhando diretamente para o rapaz com um daqueles olhares que anulavam carreiras.
— Foco — disse, sem precisar elevar a voz.
Os dois mais velhos ficaram imóveis, silenciosos, quase aliviados por não serem o alvo. Ricardo empalideceu.
— S-sim, claro. Desculpe, senhor Vael.
— Ótimo.
E então — por um único instante, só um — Araziel voltou o olhar para Nyana. Ela apenas recolocava a jarra no carrinho, pronta para sair. Plena. Indiferente. Alheia ao caos que gerava.
A porta se fechou atrás dela.
O jovem analista, mesmo tentando disfarçar, não conseguia controlar o rubor que subia pelas orelhas. Os dois mais velhos o encararam como quem presencia um novato pisar num campo minado.
Araziel voltou ao laptop.
— Continuando — disse.
Mas a frieza da voz dele era glacial.
E todos na sala sabiam: o problema não era Nyana. Era o interesse de Ricardo. E o fato de que Araziel havia notado.
Isso reacendeu um incômodo que ele ainda não estava disposto a nomear.
***
A reunião estava chegando ao fim. Araziel havia fechado a pasta preta e os dois homens mais velhos dos órgãos de segurança se levantaram com aquela postura contida de quem sabe navegar ambientes de risco. Foram educados, profissionais e curtos nas palavras.
Ricardo levantou-se por último. O entusiasmo dele destoava discretamente do clima da sala.
Nyana entrou no momento exato, carregando uma bandeja com café extra. A presença dela — silenciosa, limpa e precisa — novamente chamou a atenção dos três, mas apenas Ricardo segurou o olhar por tempo demais. Os mais velhos desviaram rápido. Ele não.
Nyana colocou a bandeja sobre a mesa, serviu o café e começou a recolher as pastas impressas, sem apressar nem dramatizar nada. Profissionalismo absoluto.
E Ricardo… perdeu o timing. Deu dois passos na direção dela.
— Nyana? — disse, num tom baixo, mas não o suficiente para passar despercebido.
Ela ergueu os olhos por um instante. Nenhuma emoção. Nenhum incômodo.
— Senhor Martins — respondeu, apenas correta.
Araziel não se moveu imediatamente. Não precisava. Mas ouviu. E isso bastava.
Os dois homens mais velhos trocaram um olhar. Reconheceram a imprudência antes mesmo de ela se completar.
Ricardo ajeitou a pasta no braço, claramente nervoso, mas tentando parecer técnico.
— Eu… preciso alinhar um ponto específico do relatório tático com você — disse, com um sorriso que tentava ser profissional, mas forçava demais a neutralidade. — Você poderia me passar seu contato corporativo?
Nyana analisou a pergunta como se fosse um pedido de caixa postal. Literal, frio, objetivo.
— Claro — respondeu, e ditou o número com completa naturalidade. — Esse é o de uso interno.
Ricardo sorriu como alguém que conseguiu algo raro. Os mais velhos mantiveram o olhar preso à mesa.
E Araziel… sua primeira reação foi nenhuma. Ele apenas fechou a pasta, direita, exata, sem pressa, e colocou-a debaixo do braço. Só então olhou para Ricardo. Não havia dureza explícita, nem hostilidade, nem irritação visível. Havia apenas avaliação — a mesma avaliação que ele aplicaria a qualquer funcionário que tivesse cometido um deslize técnico.
— Martins — disse, com a voz baixa e controlada. — Questões operacionais passam pela minha equipe direta. Incluindo ela.
Era sutil. Profissional. Irrefutável.
Ricardo empalideceu um pouco.
— Sim, senhor. Desculpe, não quis—
— Está alinhado — cortou Araziel, sem dureza, apenas encerrando o assunto.
Nyana continuou recolhendo as pastas, como se nada tivesse acontecido. Nenhuma mudança de postura. Nenhum olhar curioso. Nenhum entendimento subentendido. Para ela, era apenas protocolo.
Para Ricardo, foi uma advertência gentil, mas firme. Para os dois mais velhos, foi um lembrete silencioso do tipo de hierarquia que Araziel mantinha.
Para Araziel… foi algo menor que uma irritação, mas maior que um detalhe. Um incômodo técnico. Nada mais. Ou pelo menos era o que ele dizia a si mesmo.
Após o encerramento, Nyana se aproximou com a bolsa em mãos.
— Podemos ir, senhor Vael? — perguntou ela, monótona.
— Sim — respondeu ele imediatamente, talvez rápido demais, mas ainda natural.
Saíram juntos. Nenhuma palavra. Nenhum comentário. Mas enquanto caminhavam até o corredor privativo, Araziel repassava mentalmente a cena: o jeito como Ricardo havia se aproximado, o sorriso excessivamente familiar, o tom que carregava história. “Ele não deveria ter se aproximado daquele jeito”, pensou, seco. A irritação era silenciosa, mas profunda. Ricardo não era apenas um analista. Era alguém que já tinha conhecido Nyana antes. Alguém que achava que tinha direito de chamá-la pelo primeiro nome na frente dele.
Nyana mal teve tempo de respirar. Araziel a segurou de frente para ele, colocando-a contra a borda da cama larga que ocupava quase toda a suíte privada. Ele se ajoelhou devagar entre as pernas dela, os ombros largos forçando as coxas dela a se abrirem.— Araziel… — ela sussurrou, a voz ainda rouca da adrenalina do dia.— Quieta — murmurou ele, rouco, já deslizando as mãos grandes por baixo das nádegas dela. — Deixa eu cuidar de você.Com um movimento firme e possessivo, ele ergueu os quadris dela, posicionando-os sobre os próprios ombros. Os calcanhares de Nyana se apoiaram nas costas dele, os pés se cruzando instintivamente. A saia executiva subiu até a cintura, revelando as coxas pálidas e macias, a calcinha branca já úmida colada à pele, tudo que ele queria ver e possuir.A posição era perfeita. Vulnerável. Exposta. Totalmente entregue.(Porra… olha pra ela. Depois de tudo — tiros, sangue, deserto —, ainda confia em mim pra isso. Ainda abre as pernas e me deixa comer ela como se o
Foi nesse instante que o ronco de motores se aproximou rapidamente.Dois SUVs surgiram pela lateral da estrada, levantando uma enorme nuvem de areia. Omar estava no primeiro, de pé na caçamba com uma metralhadora montada, o rosto endurecido.Ele pulou para o chão antes mesmo do carro parar completamente e abriu fogo contra os homens de Malik.— Limpo! — gritou Omar, já avançando.O tiroteio final foi curto e brutal. Omar, seus dois agentes e os guarda-costas restantes de Araziel neutralizaram o resto dos atacantes com eficiência impiedosa.Quando o último corpo caiu, o deserto voltou ao silêncio absoluto, quebrado apenas pelo vento quente e pelo crepitar de metal.Araziel se levantou, sujo de poeira e sangue alheio, e estendeu a mão para Nyana.— Entra. Vamos embora.Nyana segurou a mão dele. Seus dedos ainda tremiam levemente quando ele a puxou para dentro do carro de resgate.O carro sacolejava pela estrada de terra, afastando-se rapidamente do local da emboscada. O cheiro de pólvor
O elevador descia devagar, os números piscando no painel. Cada segundo parecia mais longo que o anterior.O silêncio entre eles era denso, carregado de adrenalina, medo contido e algo mais primitivo — a consciência aguda da proximidade do corpo do outro.O SUV blindado saiu da garagem de manutenção do Burj Al Arab pela rampa de serviço, mergulhando na escuridão que antecedia o amanhecer. Três veículos idênticos, todos pretos, mesmos vidros fumês, mesmas placas falsas, partiram em intervalos de trinta segundos por rotas diferentes. Omar estava em um deles, atuando como isca principal.Dentro do carro do casal, o silêncio era pesado.O deserto se abriu à frente deles como um mar escuro e infinito. A luz do amanhecer começava a tingir o horizonte de um laranja avermelhado, mas o ar ainda estava frio, cortante. O asfalto deu lugar a uma estrada de terra batida, e o veículo sacolejava suavemente, o motor ronronando baixo. O cheiro de poeira seca entrava pelas ventilações.Nyana, ainda vest
10:45h — Suíte Presidencial do Burj Al ArabAraziel abriu a porta da suíte com mais força do que o necessário. O clique da fechadura soou como um tiro abafado no silêncio luxuoso do Burj Al Arab. A luz dourada da manhã entrava pelas janelas altas, refletindo no mármore claro e nos detalhes dourados, mas o ar dentro da suíte já não tinha mais o peso calmo da noite anterior. Agora carregava urgência.Nyana ergueu o olhar do tablet, o corpo se tensionando imediatamente ao ver a expressão dele. Araziel ainda vestia o uniforme operacional preto, mas havia algo diferente no modo como se movia — mais afiado, mais predatório.— Eles confirmaram — disse ele, voz baixa e cortante, sem preâmbulos. — Amir e Malik vão tentar de novo. Esta noite. Não vamos esperar sentados.Ele atravessou a sala em poucas passadas largas e parou na frente dela. Sem pedir permissão, abriu uma maleta preta sobre a mesa e tirou uma pistola compacta com silenciador. A arma era pequena, leve, quase delicada — feita para
Araziel se afastou um passo, cortando a conversa com o corpo.— Éramos todos soldados em uma operação complicada... — começou Omar.— Eu era o responsável por tudo e por vocês — completou Araziel.— Mas isso não te faz menos humano — retrucou o amigo.Araziel parou por um breve momento, de costas.— Qual é lobo, nada daquilo que aconteceu era sequer previsível.Ele se virou apenas o suficiente para que Omar visse o perfil duro.— Eu não sou previsível.E se afastou, voltando a focar na operação, a voz voltando ao tom frio e operacional:— Vamos descer. Quero os dois na sala de interrogatório antes que o dia esquente.Omar balançou a cabeça devagar, resignado.— Maldito teimoso.Nyana, ainda sentada à mesa, não ergueu os olhos do tablet. Mas seus dedos pararam por meio segundo sobre a tela.Uma pontada quente e inesperada atravessou o peito dela — rápida, afiada, como uma agulha fina. Ciúme. Puro, incômodo, ridículo. Ela apertou o tablet com mais força, forçando a respiração a permanec
06:45h — Suíte Presidencial do Burj Al ArabNyana acordou devagar, o corpo ainda pesado de uma noite que parecia ter durado dias. O lençol fino escorregava sobre sua pele nua, e o ar-condicionado da suíte presidencial soprava frio contra os ombros expostos. Antes mesmo de abrir os olhos, o cheiro a alcançou: café forte, rico, recém-passado. E algo mais. O cheiro dele — pele limpa, sabonete caro, um vestígio sutil de metal e couro.Ela se sentou, segurando o lençol contra o peito. Araziel estava de pé junto à mesa de serviço, já banhado e trocado. Não era o terno habitual. Era um uniforme operacional preto completo — calça tática, camisa de manga longa justa ao corpo, colete leve por cima, botas de combate discretas. O tecido escuro moldava os ombros largos, o peito largo, os braços que ela sabia, agora, exatamente quão fortes eram. Ele parecia pronto para guerra. Imponente. Perigoso. E absurdamente atraente.O rubor subiu pelo rosto dela como fogo lento, impossível de conter. Desceu p







