Mag-log inThomas Mitchell.
Entro em minha cobertura na companhia de Duke e a primeira coisa que me atinge é o silêncio absoluto que me espera. Sem música infantil tocando em loop infinito na TV, sem os passos acelerados pelos corredores e sem o coro frenético de "moço, ela pegou a minha boneca!" ou "moço, a água da pia tá caindo no chão!".
Porque sim, a dupla de monstrinhos conseguiu a proeza de entupir a pia do banheiro social usando rolos inteiros de papel higiênico, transformando o piso de mármore em um pequeno lago artificial em questão de minutos.
A verdade é que, no último mês, a minha vida resolveu virar de ponta-cabeça e eu simplesmente não faço ideia de como fazê-la voltar para os trilhos. Fazia oito anos que eu e minha irmã não nos falávamos. Oito longos anos de um silêncio cavado no dia do funeral dos nossos pais.
Um maldito mal-entendido — mesclado com orgulho e teimosia de ambas as partes — fez com que eu passasse quase uma década longe da vida de Dahlia. E agora que o destino decidiu intervir da pior forma possível, carrego a certeza amarga de que jamais terei a chance de pedir perdão a ela por cada uma das palavras duras ditas naquela noite.
Tranco a porta e sigo pelo corredor. Meu corpo inteiro clama por um banho quente e por algumas horas decentes de sono, sem o risco iminente de ter o meu quarto invadido às três da manhã por duas criaturinhas alegando que o bicho-papão está escondido atrás do armário.
No caminho, paro inevitavelmente em frente à porta do quarto de hóspedes que foi completamente dominado por elas. O ambiente, antes sóbrio e impecável, agora é o retrato do caos infantil: bonecas e peças de brinquedo espalhadas pelo tapete, as paredes pintadas de um rosa vibrante que contrasta violentamente com a arquitetura do apartamento, e dezenas de adesivos brilhantes colados por toda parte.
No centro do cômodo, ergue-se uma casa de bonecas gigante, tão imponente que ocupa quase metade do espaço. Eu a comprei no impulso no primeiro dia em que elas chegaram, puramente porque pensei que garotinhas daquela idade deveriam ter uma. Eu nem sabia o nome da cor favorita delas.
A verdade é que eu não estava preparado e continuo sem estar. Nunca quis ter filhos, nunca imaginei ter alguém totalmente dependente do meu tempo e do meu afeto, e essa regra sempre se aplicou até mesmo a animais de estimação. Duke foi uma exceção — a primeira e mais dispendiosa que já cometi.
Eu não planejava pedir a guarda das garotas. Eu sequer as conhecia direito, a não ser por fotos antigas. Mas era isso ou deixá-las ser entregues à família do meu tio. E, sejamos honestos, Edmond Mitchell é um completo desgraçado, um sujeito ganancioso que venderia a própria alma se isso lhe trouxesse qualquer retorno financeiro.
Por mais caóticos e exaustivos que aqueles dois goblins sejam, elas ainda são minhas sobrinhas. Eu devo isso a Dahlia. Devo pelos anos em que falhei como irmão, pelo tempo precioso que perdi da vida delas e pelo meu melhor amigo, que partiu deste mundo sem saber que eu já o havia perdoado há muito tempo.
Puxo a porta do quarto e a tranco, escondendo toda aquela bagunça colorida longe da minha vista, antes de seguir em direção à minha suíte. Eu só preciso de um banho, de uma cama e...
Os gritos agudos de Duke vindos da sala interrompem bruscamente o meu monólogo interno.
Como pude esquecer o meu alarme de quatro patas? Suspiro, dando meia-volta e retornando à sala.
O buldogue está parado na divisa com a cozinha em conceito aberto, com o peito estufado e a boca aberta em um protesto audível. Seus grandes olhos castanhos encaram a vasilha de ração completamente limpa.
Com a pouca energia que me resta, reponho a ração, troco a água, ligo o tapete aquecido sobre o qual ele ama se deitar e deixo a TV ligada em um canal de desenhos qualquer, mantendo o volume baixo.
Satisfeito com a rotina cumprida, retorno finalmente ao meu quarto, pretendendo desabar na cama e entrar em um estado de hibernação profunda pelas próximas quarenta e oito horas.
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Rebecca Rossi.
Com toda a sinceridade que possuo, se o senhor Mitchell quiser me pagar dez mil dólares a cada fim de semana apenas para eu tomar conta das sobrinhas dele, eu jamais seria louca de recusar.
É maravilhoso. Nesse ritmo, consigo trocar de carro muito mais rápido do que imaginava. Pense comigo: ganhar em apenas dois dias o dobro do meu salário mensal inteiro... Quem sou eu para reclamar?
Bem, é claro que a minha sala de estar agora parece um acampamento improvisado pós-apocalíptico, com colchões espalhados por todo o piso, a mesa de centro tomada por embalagens de doces e guloseimas e uma barraca de lençóis gigantesca montada bem no meio do cômodo.
Dormimos extremamente tarde ontem. Maratonamos filmes da Barbie, fizemos um karaokê improvisado usando garrafas de água como microfones e fomos passear com o Zeus. O meu pastor-belga quase arrastou as gêmeas pelo asfalto, além de, é claro, ter levado minhas próprias sobrinhas no embalo.
Sim, eu tenho duas sobrinhas, que às vezes vêm passar o fim de semana comigo quando o meu irmão e a minha cunhada "precisam de paz" — palavras exatamente deles.
Então, sim. Estou passando o fim de semana confinada com quatro goblins em miniatura. A única e gloriosa diferença é que dois deles estão me rendendo dez mil dólares verdinhos.
Encaro os colchões espalhados na sala. As quatro garotas dormem literalmente atravessadas umas sobre as outras, e o Zeus está jogado no meio delas, dormindo de boca aberta e roncando feito um idoso. Puxo o celular, tomo um gole do meu café, tiro uma foto impecável da cena e envio direto para o W******p do Thomas com a legenda:
"Não foi tão difícil assim, chefinho."
Bloqueio a tela com um sorriso vitorioso no rosto e sigo para a cozinha a fim de preparar o café da manhã: minhas famosas panquecas da Barbie. Honestamente, não passa de massa tradicional batida com um bocado de corante rosa, servida com uma montanha de chantilly, morangos frescos e calda de chocolate.
Mas as crianças da família amam desmedidamente — e eu não posso negar que também sou completamente apaixonada por essa presepada.
Eu sou a filha mais nova de três irmãos e a única mulher, obviamente. O que significa que fui tratada como a princesinha mimada da família até hoje, mesmo já sendo uma mulher adulta.
Tem o meu irmão mais velho, Caleb, de trinta e dois anos.
O Victor, o do meio, com trinta.
E existo eu, no topo dos meus vinte e seis.
De nós três, apenas o Caleb tem filhas — as minhas duas sobrinhas, é claro, a quem amo mais do que tudo nesta vida.
Deixando esse histórico de lado, a minha vida sempre foi uma espécie de caos levemente organizado. Família grande, barulhenta e extremamente unida, do tipo em que, se um de nós precisar de socorro, o outro atravessa a cidade e estende a mão sem pensar duas vezes.
Termino de arrumar a mesa, finalizo a última travessa de panquecas e a coloco no alto da geladeira. Afinal, eu tenho um cachorro endemoniado que é um verdadeiro viciado em carboidratos e faria de tudo para roubar o nosso café.
Aos poucos, as meninas começam a despertar na sala. Elas correm, meio tropeçando nos próprios pés, para se organizar antes do café, afinal, hoje iremos ao parque aquático aqui perto de casa. Com o calor escaldante que está fazendo lá fora, simplesmente não existe programação melhor no mundo.
Tomamos café todas juntas na mesa — sim, na mesa —, e depois nos dividimos para arrumar a bagunça da sala, que foi uma das minhas condições inegociáveis para irmos ao parque. Ajustamos a coleira no Zeus, pegamos as bolsas e seguimos para a minivan do meu irmão, que peguei emprestada ontem quando ele veio deixar as meninas.
Enfim, este tem tudo para ser um fim de semana absolutamente magnífico.
Rebecca Ross. Segunda-feira. A querida chegou arrombando a porta como se fosse a polícia cumprindo um mandado de busca e apreensão. Eu tinha tido uma noite de sono magnífica, perfeitamente tranquila... isto é, até as quatro da manhã, quando Zeus decidiu por livre e espontânea vontade que claramente gostaria de acrescentar uma passagem mais prática para o andar de baixo.Que escada, que nada.O plano do meu querido pastor-malinois era muito mais ousado: cavar um buraco no chão do meu quarto para descer direto para a cozinha.Eu não deixei, é claro. Ele ficou profundamente frustrado e começou a uivar para a vizinhança inteira. E lá fomos nós caminhar às quatro e meia da madrugada, porque a culpa, no fundo, é toda minha; eu sabia perfeitamente que não era fácil ter um cão dessa raça, mas quis mesmo assim.Em fim, o puro caos.O relógio na tela do meu computador marca cerca de 10h28 da manhã quando as portas do elevador executivo finalmente se abrem. A figura de Thomas Mitchell surge na
Thomas Mitchell. O sábado e o domingo passaram mais rápido do que eu gostaria de admitir. Consegui descansar o suficiente para recuperar as energias, fui à academia apenas para espairecer a mente sufocada pela rotina, dormi um pouco e até saí no sábado à noite com Philipe, um amigo de longa data que sempre sabia onde encontrar os melhores lugares.Fomos a uma boate badalada no centro da cidade, e era exatamente disso que eu precisava para desligar o cérebro: música eletrônica pulsante, álcool de boa qualidade e mulheres atraentes para elevar meu ânimo. É óbvio que não perdi a oportunidade — caso contrário, não me chamaria Thomas Mitchell —, e saí de lá acompanhado.Fomos para um motel e, antes de ir embora nesta manhã, fiz questão de deixar a conta inteiramente paga; afinal de contas, posso ter meus defeitos, mas não sou nenhum cafajeste.Saí de lá antes que ela acordasse. Não me lembrava do seu nome e nem me preocupei em perguntar. Era apenas uma transa rápida e nada mais do que iss
Thomas Mitchell.Entro em minha cobertura na companhia de Duke e a primeira coisa que me atinge é o silêncio absoluto que me espera. Sem música infantil tocando em loop infinito na TV, sem os passos acelerados pelos corredores e sem o coro frenético de "moço, ela pegou a minha boneca!" ou "moço, a água da pia tá caindo no chão!".Porque sim, a dupla de monstrinhos conseguiu a proeza de entupir a pia do banheiro social usando rolos inteiros de papel higiênico, transformando o piso de mármore em um pequeno lago artificial em questão de minutos.A verdade é que, no último mês, a minha vida resolveu virar de ponta-cabeça e eu simplesmente não faço ideia de como fazê-la voltar para os trilhos. Fazia oito anos que eu e minha irmã não nos falávamos. Oito longos anos de um silêncio cavado no dia do funeral dos nossos pais.Um maldito mal-entendido — mesclado com orgulho e teimosia de ambas as partes — fez com que eu passasse quase uma década longe da vida de Dahlia. E agora que o destino deci
Rebecca RossiO aroma da lasanha preenche a cozinha inteira. O cheiro está de dar água na boca e, enquanto ponho a mesa, dois pares de olhos verdes a rondam com uma curiosidade genuína e infantil.Certo, eu meio que intimei meu chefe e suas sobrinhas a ficarem para o almoço. Thomas estava com uma cara tão cansada que deu até dó.Por falar em Thomas, ele está há quase uma hora parado na entrada da cozinha, de braços cruzados e olhar analítico, encarando-me como se tentasse descobrir se eu envenenei a comida.Tudo bem que ele é um babaca como chefe e no escritório nós vivemos em pé de guerra. Mas aqui é diferente... Aí você se pergunta: como? É simples, tem crianças envolvidas. Eu não enveneno crianças, e tampouco vou perder meu almoço para me vingar do meu chefe pelas minhas duas semanas de sono mal dormido.— Senhorita Becca? — uma das gêmeas me chama. A de vestido roxo, com aqueles enormes olhos verdes encarando-me com curiosidade. — A gente também pode comer na mesa?Pisco algumas v
Rebecca Ross.iA policial feminina à minha frente me encara com o semblante de quem já passou por aquela situação inúmeras vezes. O tédio é notável em sua face enquanto ela inspeciona o ambiente da minha sala de estar.— É a quinta denúncia apenas em apenas duas semanas, senhorita Rossi. Seus vizinhos apontam que existe uma criança e um animal sofrendo maus-tratos neste endereço — diz ela, mantendo o tom profissional, mesmo que sua expressão denuncie que preferia estar em qualquer outro lugar do mundo que não fosse a minha sala.— Eu se quer tenho filho, policial Rivera — respondo, sentindo o desespero crescer dentro de mim. — Cachorro sim. Tenho o Zeus, que está em algum lugar do quintal destruindo o gramado, e também estou cuidando temporariamente do Duke, o buldogue francês do meu chefe. Mas não existe criança nenhuma aqui. Posso mostrar as câmeras, e o restante da casa caso seja necessário.A policial Rivera me encara por alguns segundos, como se decidisse se aquilo realmente é ne







