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Capitulo 3

Author: Anny Lago
last update Petsa ng paglalathala: 2026-09-30 03:36:01

Thomas Mitchell.

Entro em minha cobertura na companhia de Duke e a primeira coisa que me atinge é o silêncio absoluto que me espera. Sem música infantil tocando em loop infinito na TV, sem os passos acelerados pelos corredores e sem o coro frenético de "moço, ela pegou a minha boneca!" ou "moço, a água da pia tá caindo no chão!".

Porque sim, a dupla de monstrinhos conseguiu a proeza de entupir a pia do banheiro social usando rolos inteiros de papel higiênico, transformando o piso de mármore em um pequeno lago artificial em questão de minutos.

A verdade é que, no último mês, a minha vida resolveu virar de ponta-cabeça e eu simplesmente não faço ideia de como fazê-la voltar para os trilhos. Fazia oito anos que eu e minha irmã não nos falávamos. Oito longos anos de um silêncio cavado no dia do funeral dos nossos pais.

Um maldito mal-entendido — mesclado com orgulho e teimosia de ambas as partes — fez com que eu passasse quase uma década longe da vida de Dahlia. E agora que o destino decidiu intervir da pior forma possível, carrego a certeza amarga de que jamais terei a chance de pedir perdão a ela por cada uma das palavras duras ditas naquela noite.

Tranco a porta e sigo pelo corredor. Meu corpo inteiro clama por um banho quente e por algumas horas decentes de sono, sem o risco iminente de ter o meu quarto invadido às três da manhã por duas criaturinhas alegando que o bicho-papão está escondido atrás do armário.

No caminho, paro inevitavelmente em frente à porta do quarto de hóspedes que foi completamente dominado por elas. O ambiente, antes sóbrio e impecável, agora é o retrato do caos infantil: bonecas e peças de brinquedo espalhadas pelo tapete, as paredes pintadas de um rosa vibrante que contrasta violentamente com a arquitetura do apartamento, e dezenas de adesivos brilhantes colados por toda parte.

No centro do cômodo, ergue-se uma casa de bonecas gigante, tão imponente que ocupa quase metade do espaço. Eu a comprei no impulso no primeiro dia em que elas chegaram, puramente porque pensei que garotinhas daquela idade deveriam ter uma. Eu nem sabia o nome da cor favorita delas.

A verdade é que eu não estava preparado e continuo sem estar. Nunca quis ter filhos, nunca imaginei ter alguém totalmente dependente do meu tempo e do meu afeto, e essa regra sempre se aplicou até mesmo a animais de estimação. Duke foi uma exceção — a primeira e mais dispendiosa que já cometi.

Eu não planejava pedir a guarda das garotas. Eu sequer as conhecia direito, a não ser por fotos antigas. Mas era isso ou deixá-las ser entregues à família do meu tio. E, sejamos honestos, Edmond Mitchell é um completo desgraçado, um sujeito ganancioso que venderia a própria alma se isso lhe trouxesse qualquer retorno financeiro.

Por mais caóticos e exaustivos que aqueles dois goblins sejam, elas ainda são minhas sobrinhas. Eu devo isso a Dahlia. Devo pelos anos em que falhei como irmão, pelo tempo precioso que perdi da vida delas e pelo meu melhor amigo, que partiu deste mundo sem saber que eu já o havia perdoado há muito tempo.

Puxo a porta do quarto e a tranco, escondendo toda aquela bagunça colorida longe da minha vista, antes de seguir em direção à minha suíte. Eu só preciso de um banho, de uma cama e...

Os gritos agudos de Duke vindos da sala interrompem bruscamente o meu monólogo interno.

Como pude esquecer o meu alarme de quatro patas? Suspiro, dando meia-volta e retornando à sala.

O buldogue está parado na divisa com a cozinha em conceito aberto, com o peito estufado e a boca aberta em um protesto audível. Seus grandes olhos castanhos encaram a vasilha de ração completamente limpa.

Com a pouca energia que me resta, reponho a ração, troco a água, ligo o tapete aquecido sobre o qual ele ama se deitar e deixo a TV ligada em um canal de desenhos qualquer, mantendo o volume baixo.

Satisfeito com a rotina cumprida, retorno finalmente ao meu quarto, pretendendo desabar na cama e entrar em um estado de hibernação profunda pelas próximas quarenta e oito horas.

》》》》☆《《《《

Rebecca Rossi.

Com toda a sinceridade que possuo, se o senhor Mitchell quiser me pagar dez mil dólares a cada fim de semana apenas para eu tomar conta das sobrinhas dele, eu jamais seria louca de recusar.

É maravilhoso. Nesse ritmo, consigo trocar de carro muito mais rápido do que imaginava. Pense comigo: ganhar em apenas dois dias o dobro do meu salário mensal inteiro... Quem sou eu para reclamar?

Bem, é claro que a minha sala de estar agora parece um acampamento improvisado pós-apocalíptico, com colchões espalhados por todo o piso, a mesa de centro tomada por embalagens de doces e guloseimas e uma barraca de lençóis gigantesca montada bem no meio do cômodo.

Dormimos extremamente tarde ontem. Maratonamos filmes da Barbie, fizemos um karaokê improvisado usando garrafas de água como microfones e fomos passear com o Zeus. O meu pastor-belga quase arrastou as gêmeas pelo asfalto, além de, é claro, ter levado minhas próprias sobrinhas no embalo.

Sim, eu tenho duas sobrinhas, que às vezes vêm passar o fim de semana comigo quando o meu irmão e a minha cunhada "precisam de paz" — palavras exatamente deles.

Então, sim. Estou passando o fim de semana confinada com quatro goblins em miniatura. A única e gloriosa diferença é que dois deles estão me rendendo dez mil dólares verdinhos.

Encaro os colchões espalhados na sala. As quatro garotas dormem literalmente atravessadas umas sobre as outras, e o Zeus está jogado no meio delas, dormindo de boca aberta e roncando feito um idoso. Puxo o celular, tomo um gole do meu café, tiro uma foto impecável da cena e envio direto para o W******p do Thomas com a legenda:

"Não foi tão difícil assim, chefinho."

Bloqueio a tela com um sorriso vitorioso no rosto e sigo para a cozinha a fim de preparar o café da manhã: minhas famosas panquecas da Barbie. Honestamente, não passa de massa tradicional batida com um bocado de corante rosa, servida com uma montanha de chantilly, morangos frescos e calda de chocolate.

Mas as crianças da família amam desmedidamente — e eu não posso negar que também sou completamente apaixonada por essa presepada.

Eu sou a filha mais nova de três irmãos e a única mulher, obviamente. O que significa que fui tratada como a princesinha mimada da família até hoje, mesmo já sendo uma mulher adulta.

Tem o meu irmão mais velho, Caleb, de trinta e dois anos.

O Victor, o do meio, com trinta.

E existo eu, no topo dos meus vinte e seis.

De nós três, apenas o Caleb tem filhas — as minhas duas sobrinhas, é claro, a quem amo mais do que tudo nesta vida.

Deixando esse histórico de lado, a minha vida sempre foi uma espécie de caos levemente organizado. Família grande, barulhenta e extremamente unida, do tipo em que, se um de nós precisar de socorro, o outro atravessa a cidade e estende a mão sem pensar duas vezes.

Termino de arrumar a mesa, finalizo a última travessa de panquecas e a coloco no alto da geladeira. Afinal, eu tenho um cachorro endemoniado que é um verdadeiro viciado em carboidratos e faria de tudo para roubar o nosso café.

Aos poucos, as meninas começam a despertar na sala. Elas correm, meio tropeçando nos próprios pés, para se organizar antes do café, afinal, hoje iremos ao parque aquático aqui perto de casa. Com o calor escaldante que está fazendo lá fora, simplesmente não existe programação melhor no mundo.

Tomamos café todas juntas na mesa — sim, na mesa —, e depois nos dividimos para arrumar a bagunça da sala, que foi uma das minhas condições inegociáveis para irmos ao parque. Ajustamos a coleira no Zeus, pegamos as bolsas e seguimos para a minivan do meu irmão, que peguei emprestada ontem quando ele veio deixar as meninas.

Enfim, este tem tudo para ser um fim de semana absolutamente magnífico.

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