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Mia Collins
O ar dentro do The Velvet Room era denso, carregado de perfume caro, fumaça aromatizada e o tilintar abafado de taças de cristal. Para qualquer um que olhasse de fora, aquele lounge exclusivo na cobertura de um dos prédios mais caros de Manhattan era o ápice da sofisticação e do sucesso. Para mim, no entanto, não passava de um esconderijo temporário. Um refúgio covarde onde a música baixa de jazz tentava, sem sucesso, sufocar os gritos estridentes da minha própria mente.
Encarei o copo enquanto o balançava. O líquido âmbar do uísque bateu contra o gelo, desenhando círculos lentos. Já era a minha terceira dose pura. Minha garganta queimava com uma aspereza que eu acolhia quase com gratidão. A queimação física era infinitamente mais fácil de tolerar do que o nó sufocante instalado no meu peito desde o meio-dia.
“Você devia agradecer de joelhos, Mia. É a chance de ouro da nossa família.”
A voz estridente de Helena, minha madrasta, ainda ecoava no fundo dos meus ouvidos como um zumbido corrosivo. Ela havia dito aquelas palavras com um sorriso asqueroso no rosto, enquanto apontava para um catálogo de vestidos de noiva horríveis jogados sobre a mesa de centro da casa do meu pai.
Ao lado dela, Cecília, minha meia-irmã, examinava as próprias unhas postiças com um ar de vitória doentia. E o meu pai? Robert Collins permaneceu encostado no batente da porta, com os olhos baixos, acovardado, como sempre esteve desde o dia em que minha mãe deu seu último suspiro naquele hospital frio há sete anos.
Eles tinham falido. Robert perdeu quase tudo em investimentos idiotas e dívidas de jogo, e a solução brilhante que a víbora da esposa dele encontrou foi simples: me vender. Literalmente me empurrar para a cama e para o altar de Gregory Stone, o velho chefe asqueroso do meu pai, um homem de quase sessenta anos conhecido no submundo corporativo por seu temperamento violento e por colecionar esposas troféu para depois descartá-las como lixo.
— Beba devagar, garota. Se você apagar no meu balcão, vou ter que chamar a segurança.
A voz grossa do barman cortou meus pensamentos. Ele limpava um copo com um pano branco, me encarando com uma mistura de tédio e compaixão profissional.
— Não vou apagar — murmurei, apoiando os cotovelos no mármore polido e engolindo mais um gole generoso. — Eu só preciso de silêncio. Por uma noite. Apenas uma.
Ele deu de ombros, acostumado com os desgraçados de coração partido ou encurralados pela vida que apareciam por ali nas noites de quinta-feira, e se afastou para atender um grupo de engravatados no outro extremo do balcão.
Fechei os olhos por alguns segundos. Minha cabeça girava levemente, amortecendo a dor aguda da traição. Eu sempre soube que Helena me odiava. Sabia que Cecília competia comigo por migalhas de atenção. Mas achar que o meu próprio pai assinaria embaixo da minha destruição sem pestanejar? Aquilo tinha arrancado o chão sob os meus pés. A sensação de abandono era uma lâmina afiada cravada no meu estômago.
Foi quando o ar ao meu redor mudou.
Não foi um barulho alto, nem um toque físico. Foi uma alteração sutil na atmosfera, uma presença que se impôs com tanta força que minha pele se arrepiou antes mesmo que eu erguesse a cabeça. Um cheiro marcante invadiu meu espaço pessoal: notas profundas de sândalo, couro nobre e o frescor cortante de uma colônia masculina cara.
Olhei de soslaio.
Ele havia acabado de se sentar no banco exatamente ao meu lado, deixando um espaço mínimo entre nós.
Era o tipo de homem que não precisava abrir a boca para comandar um ambiente. Tinha os ombros largos cobertos por um paletó escuro de corte sob medida impecável. A camisa branca estava com os dois primeiros botões abertos, revelando a base de um pescoço forte e uma linha de mandíbula tão quadrada e bem delineada que parecia esculpida em granito. Mas foram os olhos dele que me prenderam.
Eram escuros, tempestuosos e carregados de uma intensidade quase perigosa. Ele não estava sorrindo. Na verdade, a expressão em seu rosto era tão sombria e exausta quanto a minha devia parecer.
— Bourbon duplo. Sem gelo — a voz dele ressoou baixa, um barítono rouco e aveludado que reverberou diretamente na base da minha coluna.
O barman serviu a bebida quase instantaneamente, com um respeito imediato que homens daquela envergadura costumam arrancar sem esforço. O desconhecido pegou o copo, virou metade do líquido de uma vez só e soltou uma respiração lenta e pesada pelo nariz.
Fiquei encarando. O álcool já havia desarmado os meus filtros habituais de prudência. Eu não conseguia desviar o olhar do perfil imponente dele, da maneira como os dedos longos e firmes seguravam o copo, da tensão evidente nos músculos de suas costas largas.
Sem virar a cabeça na minha direção, ele falou:
— É falta de educação encarar, sabia?
Um arrepio desceu pela minha nuca. Dei uma risada baixa, rouca pelo uísque, sem recuar um único milímetro.
— Você sentou do meu lado num balcão com vinte lugares vazios. Achei que quisesse atenção.
Ele finalmente virou o rosto para mim. Seus olhos passaram lentamente pelos meus cabelos castanhos ondulados caídos sobre os ombros, desceram pelo decote simples do meu vestido preto e voltaram para a minha boca, terminando nos meus olhos. O calor daquele olhar fez o sangue correr quente nas minhas veias.
— Não quero atenção — ele rebateu, a voz mantendo aquele tom grave e pausado que parecia quase uma carícia involuntária. — Eu só queria uma bebida forte para esquecer que o mundo lá fora é composto por abutres e incompetentes.
— Que coincidência curiosa — soltei, erguendo meu copo quase vazio na direção dele com uma ironia amarga nos lábios. — Eu estou aqui tentando esquecer que a minha própria família é uma alcateia de hienas querendo me vender ao melhor ofertante.
Uma sobrancelha escura se arqueou na testa dele. Havia uma fagulha nova na escuridão dos seus olhos agora. Curiosidade. E algo mais sombrio, mais magnético.
— Família? — ele perguntou, apoiando um cotovelo no balcão e virando o corpo levemente para o meu lado. — Eles costumam ser os piores inimigos. Sangue não garante lealdade. Garante apenas desilusão.
— Você fala por experiência própria?
— Falo — ele respondeu sem hesitar, o olhar fixo no meu. — Pessoas esperam demais de nós. Ou querem tirar tudo o que temos até que sobre apenas uma casca vazia.
Engoli em seco. Era exatamente aquilo. Aquele homem misterioso, vestido com roupas que deviam valer o salário de um ano inteiro do meu pai, resumiu a agonia sufocante que eu vinha engolindo há semanas com apenas duas frases.
— Então temos um acordo silencioso aqui — declarei, sentindo meu corpo se inclinar involuntariamente na direção dele, atraída pelo magnetismo quase palpável que emanava da sua postura. — Dois desastres ambulantes fugindo da realidade.
— Um acordo me parece justo — ele disse, com o primeiro vestígio de um sorriso cínico surgindo no canto dos lábios bem desenhados. — Sem nomes. Sem profissões. Sem perguntas incômodas sobre quem vai pagar a conta amanhã.
— Sem amanhã — completei em um sussurro corajoso, sentindo meu coração disparar contra as costelas. O efeito do álcool misturado à adrenalina pura me fazia sentir invencível pela primeira vez em meses. — Só esta noite.
O desconhecido pousou o copo vazio no balcão com um estalo firme. Ele tirou a carteira do bolso interno do terno, jogou várias notas de cem dólares sobre a bancada sem sequer contar e se levantou. Com mais de um metro e oitenta e cinco de altura, ele parecia gigantesco sobre mim, dominando todo o espaço.
Ele estendeu a mão direita. Grande, quente, com a pele ligeiramente áspera nas pontas dos dedos.
— Tem uma suíte reservada no meu nome no último andar deste hotel. Vamos continuar nossa fuga lá em cima.
O bom senso gritou em algum canto distante do meu cérebro para que eu recusasse. Disse que era loucura subir para um quarto com um completo estranho cujo nome eu nem sabia. Mas a dor que me esperava do lado de fora daquele prédio, o casamento forçado, a covardia do meu pai, a humilhação premeditada por Helena, era mil vezes mais assustadora do que qualquer coisa que aquele homem pudesse fazer comigo.
Eu só queria esquecer. Queria sentir que o meu corpo ainda pertencia a mim. Queria ser desejada por quem eu era naquele instante, não usada como uma moeda de troca podre para salvar dívidas alheias.
Coloquei minha mão pequena sobre a dele.
Os dedos dele se fecharam ao redor dos meus com uma firmeza possessiva, quente e irresistível. Uma onda de eletricidade pura subiu pelo meu braço.
— Me leve pra lá — pedi, com a voz firme apesar do tremor nos joelhos.
O trajeto até o elevador privativo foi um borrão de passos apressados e olhares carregados de fome reprimida. Assim que as portas de metal espelhado se fecharam, cortando o restante do mundo, as defesas caíram. Ele não esperou que chegássemos à suíte. Com um movimento ágil e preciso, ele me prensou contra a parede espelhada do elevador, suas mãos firmes segurando minha cintura enquanto seus lábios tomavam os meus em um beijo devastador.
Foi um choque. Ele beijava como se precisasse daquilo para respirar, com uma urgência voraz que me tirou o fôlego e qualquer resquício de lucidez. Minhas mãos subiram involuntariamente para os ombros largos dele, agarrando o tecido fino do seu paletó enquanto eu abria a boca para receber sua língua, me entregando a um calor que nunca havia sentido na vida.
Quando o elevador apitou anunciando o trigésimo andar, nós mal conseguíamos manter os olhos abertos de tanta intensidade. Ele me puxou pelo corredor silencioso, destravou a porta da suíte master com o cartão e me empurrou para dentro no escuro, chutando a porta para fechá-la atrás de nós.
A cidade inteira brilhava através das paredes de vidro do quarto, luzes infinitas de Nova York como pequenas estrelas artificiais, mas a única coisa que eu conseguia enxergar era a silhueta daquele homem se livrando do paletó e vindo em minha direção.
Ali, na penumbra daquele quarto luxuoso, nós nos despimos de tudo: das roupas, do peso do mundo e de todas as mágoas que carregávamos nos ombros. Os toques dele na minha pele eram fogo puro, uma mistura alucinante de aspereza máscula e uma atenção minuciosa que fazia cada terminação nervosa do meu corpo vibrar em puro êxtase. Eu me perdi no cheiro dele, no calor do seu peito contra o meu, nos gemidos baixos e roucos que ele soltava contra o meu pescoço quando me possuía com uma intensidade que arrancava a minha alma do lugar.
Por algumas horas, eu não era a filha traída de um covarde. Não era a jovem que seria sacrificada por conveniência. Eu era apenas uma mulher viva, entregue a uma paixão furiosa e anônima nos braços de um homem que me fazia esquecer até mesmo como se respirava.
Quando a exaustão finalmente nos venceu, me aninhei contra o calor firme do peito dele, ouvindo as batidas compassadas do seu coração no escuro. Aquele ritmo forte parecia uma promessa silenciosa de segurança, um porto seguro ilusório no meio da minha tempestade.
Abracei aquela ilusão com todas as minhas forças e fechei os olhos, caindo em um sono pesado e sem sonhos, sem fazer ideia de que aquela noite não seria apenas uma fuga…
…mas o início de toda a minha vida.
Capítulo 20 — O Rastro e o ConcretoEthan VanceQuando o aparelho vibrou contra a minha coxa, puxei a tela com uma curiosidade quase cínica. No visor, o identificador de chamadas não exibia nenhum dos nomes salvos. Em vez de um número de Manhattan, brilhava o código de discagem internacional: mais quatro quatro, seguido pelo prefixo metropolitano de Londres.Um meio sorriso involuntário puxou o canto da minha boca antes mesmo de eu deslizar o botão verde.Londres.A pequena estrategista de casaco amarelo não tinha perdido tempo. Ela não apenas gravou os dez dígitos na cabeça com a facilidade de quem pisca os olhos, como havia pegado o telefone da mãe e colocado a audácia em prática antes que o carro dobrasse a terceira esquina.Atendi rindo, preparando uma provocação à altura da insolência daquela garota. Mas o que recebi do outro lado não foi a dicção cantada da Chloe.Foi o pânico puro, doce e aveludado de uma mulher.— M-me... me perdoe, senhor! Foi... foi um engano terrível!A li
Capítulo 19 — EcoMia CollinsEu fiquei presa naquela voz mais do que deveria. Aquele timbre áspero, encorpado, com uma modulação arrastada de quem comanda o mundo com uma tranquilidade insolente... provocou uma vibração tão visceral e profunda no meu peito que minhas costelas pareceram comprimir meu coração. Não era apenas a voz de um executivo arrogante acostumado a flertar com a sorte. Havia algo de magnético, um peso invisível e perturbador naquela cadência que fez o sangue queimar sob a pele do meu pescoço, despertando uma memória corporal violenta, um eco adormecido no escuro que eu não conseguia identificar.Minha visão periférica oscilou. Minha boca secou instantaneamente.Ao meu lado na cama, Chloe apoiava as duas mãozinhas no queixo, com um sorriso de pura vitória rasgando seu rostinho corado. Ela me cutucava com o joelho sob o lençol, os olhinhos faiscando em êxtase.— Viu, mamãe? Eu disse que ele atendia! Fala com ele, fala!Do outro lado da linha, o homem percebeu o vác
Capítulo 18 — A voz… Mia CollinsA pasta de couro com as garantias financeiras internacionais pesava contra a lateral do meu corpo, mas o peso no meu peito havia diminuído pela metade.Depois de quase quarenta minutos na tesouraria do térreo assinando formulários em três vias, apresentando comprovantes bancários do Reino Unido e validando a apólice especial de transporte com o auditor do hospital, a estadia de Chloe estava formalmente blindada. Nenhum procedimento seria interrompido por burocracia.Comprei o copo de suco de maçã verde na cafeteria do saguão e subi pelo elevador privativo com passos rápidos, ansiosa para reencontrar minha garotinha.Ao cruzar a porta do quarto da semi-intensiva, no entanto, a cena que encontrei me fez parar no batente com um sorriso involuntário nos lábios.Chloe já estava de volta à cama, devidamente acomodada sob o lençol macio de nuvens, com a mantinha azul esticada sobre as pernas e a prancheta de acrílico apoiada no colo. Mas o que me chamou a a
Capítulo 17 — O Segredo na TelaEthan VanceDesbloqueei o aparelho com o leitor biométrico e abri a tela de informações do meu cartão de contato, onde o meu próprio número aparecia no topo: o código de área de Manhattan seguido por sete dígitos. Estendi o visor na direção dela, mantendo a distância exata de um braço.— Três segundos, senhorita Chloe — desafiei, arqueando uma sobrancelha com um ceticismo divertido. — Valendo.Chloe nem piscou.Seus olhos escuros fixaram-se no vidro iluminado com uma precisão que beirava o cirúrgico. As pupilas dela se dilataram ligeiramente, varrendo a sequência numérica de ponta a ponta em um movimento ágil da esquerda para a direita. Não houve murmúrio, nenhuma repetição labial dos algarismos para tentar decorar pelo som. Era como se a lente de uma máquina de altíssima resolução tivesse acabado de registrar o visor por dentro da mente daquela garota.— Um... dois... — contei em voz baixa, puxando o braço de volta e bloqueando a tela com o polegar. —
Capítulo 16 — O Encontro no Jardim de VidroEthan VanceA burocracia médica conseguia ser mais irritante do que uma assembleia de acionistas minoritários em dia de balanço negativo.Eu estava no mezanino do New York-Presbyterian há quase quarenta minutos, esperando que a secretária do doutor Henderson carimbasse e liberasse o laudo impresso do ecocardiograma de estresse e do Doppler carotídeo do meu avô. Arthur havia feito os exames na primeira hora da manhã e já estava de volta à mansão em Long Island, sob os cuidados do enfermeiro particular, reclamando por mensagem de texto que o chá de camomila tinha gosto de grama cortada.— Senhor Vance, o sistema da central de laudos caiu para uma atualização de segurança — a recepcionista da cardiologia explicou pela terceira vez, com um sorriso contido e constrangido. — O técnico garantiu que os arquivos serão impressos e assinados pelo doutor Henderson em cerca de quinze a vinte minutos. Se o senhor preferir aguardar no saguão...— O saguão
Capítulo 15 — O Fôlego e a FrestaMia CollinsQuarenta e oito horas.Dois giros completos do relógio na parede da unidade semi-intensiva pediátrica, onde os segundos não eram medidos por números, mas pelo som intermitente das bombas infusoras e pelo gotejar contínuo de bolsas de sangue filtrado.Eu não saí da poltrona reclinável de courvim azul nem para tomar um banho decente. Meus olhos ardiam pelo ar-condicionado filtrado e pela falta crônica de sono. Minhas roupas, a mesma calça de alfaiataria amassada e a camisa de seda com que embarquei em Londres, pareciam pesar toneladas sobre os meus ombros. Sophie insistiu várias vezes para que eu fosse descansar no hotel por algumas horas, mas meu corpo simplesmente se recusava a deixar o quarto.Se o coração da Chloe parasse de bater, eu precisava estar ali para segurar sua mão. Se a respiração dela vacilasse, eu precisava ser a primeira a gritar por socorro.Nesta manhã de quinta-feira, no entanto, o silêncio pesado da semi-intensiva foi







