LOGINMia Collins
Cada passo parecia um castigo sobre brasas, embora a chuva de Nova York estivesse gelada a ponto de adormecer meus dedos. Meus pés descalços já não sangravam apenas pelos cortes da queda; o asfalto áspero e os cacos microscópicos da rua haviam transformado as solas em carne viva.
O avental cirúrgico verde, encharcado e transparente pela água, colava ao meu corpo trêmulo. As pessoas na calçada se desviavam de mim com expressões de asco e medo, achando que eu era apenas mais uma usuária de drogas ou uma moradora de rua em surto psicótico.
Ninguém estendeu a mão. Ninguém perguntou se eu precisava de socorro. Em uma metrópole como aquela, a dor alheia era invisível por conveniência.
Dobrei a esquina da Rua 48 com as mãos cruzadas sobre o ventre, respirando o ar úmido em golfadas arfantes. A vista começava a escurecer nas bordas de novo. Eu sabia que estava no meu limite físico absoluto: a perda de sangue, a droga no meu organismo e a hipotermia iminente cobravam seu preço a cada metro percorrido.
Quando a fachada de tijolos vermelhos do prédio de Sophie surgiu na minha frente, soltei um soluço rouco que se perdeu no barulho dos trovões.
Subi os três degraus da entrada cambaleando. O porteiro do turno da noite, um senhor idoso que lia um jornal no saguão envidraçado, deu um pulo assustado quando me viu bater com a palma da mão espalmada contra o vidro da porta principal.
— Socorro... — minha voz não passava de um chiado patético. — Apartamento 4B. Por favor.
O homem hesitou por alguns segundos, com a mão no interfone e o olhar desconfiado, mas o desespero cru no meu rosto e o rastro de água barrenta que escorria pelas minhas pernas o fizeram destravar a trava magnética.
Entrei aos tropeços, deixando marcas escuras no carpete limpo do saguão. Não esperei o elevador. Subi os lances de escada puxando o corrimão de ferro com os dois braços, usando o peso do meu próprio corpo para alavancar cada degrau. Quando cheguei ao quarto andar, minhas pernas finalmente cederam.
Caí de joelhos diante da porta 4B. Com as forças que me restavam, soquei a madeira com a testa e os nós dos dedos ensanguentados.
— Sophie... abre... por favor.
O barulho da tranca interna girando pareceu uma eternidade. A porta se abriu de supetão, revelando minha amiga vestindo um pijama de flanela e segurando uma xícara de chá. A caneca escorregou das mãos dela, estilhaçando-se no chão em um estrondo seco.
— Meu Deus... Mia! — o grito de Sophie rasgou o ar.
Ela não hesitou um segundo sequer. Não se importou com a lama, com o sangue ou com a água imunda que cobria meu corpo. Ela se jogou no chão do corredor, passou os dois braços por baixo dos meus ombros e me puxou para dentro do apartamento com uma força impressionante, batendo a porta e passando as três trancas de segurança.
— O que aconteceu com você?! Quem fez isso com você, Mia?! — ela chorava descontrolada, passando as mãos pelo meu rosto gelado enquanto eu tremia convulsivamente no tapete da sala dela.
— A clínica... — tentei falar, mas os meus dentes batiam com tanta violência que eu mal conseguia articular as palavras. — Eles me doparam, Sophie. O meu pai... a Helena... eles iam tirar o meu bebê. Eles iam matar ele.
Sophie empalideceu. A boca dela se abriu em choque absoluto, mas o pânico inicial deu lugar, em questão de segundos, a uma fúria gélida e focada. Sophie era a pessoa mais pragmática e leal que eu já havia conhecido na vida. Se havia alguém capaz de agir sob fogo cruzado, era ela.
— Respira. Você está segura agora. Eu estou aqui — ela disse com firmeza, me erguendo nos braços com esforço e me levando em direção ao banheiro.
Ela ligou o chuveiro na água morna, despiu o avental cirúrgico rasgado com cuidado para não machucar os cortes na minha coxa e me colocou sob o jato acolhedor. Enquanto a água lavava o sangue, a lama e a podridão daquela clínica clandestina do meu corpo, Sophie pegou a caixa de primeiros socorros.
Com mãos ágeis e precisas, ela desinfetou os cortes nos meus pulsos causados pelas fivelas de couro. Quando saí do chuveiro, ela aplicou pomada cicatrizante e envolveu minhas mãos e tornozelos com ataduras limpas. Ela me vestiu com um moletom grosso e me fez engolir uma caneca de chá quente com açúcar para elevar minha pressão.
Sentei na beirada da cama dela, segurando a xícara com as duas mãos trêmulas. O calor começava a voltar para os meus dedos, mas o terror continuava vivo dentro do meu peito.
— Eles vão me procurar aqui, Sophie — sussurrei, encarando a janela da sala com medo de ver os faróis dos carros dos capangas de Helena surgirem na rua. — O meu pai sabe que você é a minha única amiga de verdade. Se eles vierem aqui...
— Eles não vão te achar, Mia. Porque você não vai estar aqui quando eles chegarem — Sophie cortou, abrindo o próprio armário e jogando uma mala de bordo sobre a cama.
Olhei para ela, confusa pelo cansaço mental.
— O quê?
— Onde estão seus documentos? E o seu passaporte?
— Minha bolsa deve ter ficado em casa, e o passaporte está na gaveta do meu escritório... mas eles devem estar vigiando meu prédio agora.
Minha amiga parou por alguns instantes como se estivesse maquiando algo, até que um brilho atingiu seus olhos.
— Não precisamos ir até seu escritório — Sophie rebateu, abrindo uma gaveta da escrivaninha e puxando uma pasta de couro. — Você deixou a sua segunda via e uma cópia autenticada dos seus documentos aqui mês passado, quando fomos fazer a inscrição daquele concurso internacional de arquitetura? Lembra?
Um sopro de esperança, tão raro e precioso quanto ar em alto-mar, atingiu meu peito.
— Sim... eu tinha esquecido completamente.
— Pois eu não esqueci — Sophie disse, sentando-se diante do notebook na mesa da sala e digitando furiosamente no teclado. — O Gregory Stone tem conexões com juízes, com a polícia local e com meio mundo de criminosos de colarinho branco dessa cidade. Se o seu pai e aquela víbora da Helena estão agindo com o dinheiro dele por trás, você não tem como lutar contra eles aqui. Nem a polícia vai te proteger a tempo se eles falsificarem um laudo de internação psiquiátrica involuntária contra você.
Engoli em seco, lembrando das palavras da mulher na clínica clandestina sobre meu pai assinar a papelada dizendo que eu era instável.
— O que você está fazendo, Sophie?
— Comprando a sua passagem. Só de ida — ela respondeu sem desgrudar os olhos da tela iluminada. — Londres. Há um voo da British Airways saindo do aeroporto JFK em exatamente três horas e meia. É o voo noturno das onze.
— Londres? Mas eu não tenho dinheiro para me manter lá, não tenho onde morar...
— Você tem a minha prima Claire — Sophie rebateu em tom resoluto, virando o notebook para mim. — A Claire divide um apartamento pequeno em Camden Town e trabalha num escritório de design comercial. Ela deve a vida à minha mãe e vai te receber sem fazer uma única pergunta indiscreta. E quanto ao dinheiro...
Sophie pegou uma bolsa de dentro do armário, abriu o compartimento interno e tirou um maço grosso de notas de dólares, colocando-o diretamente na minha mão.
— Sophie, não! Isso é o dinheiro que você estava juntando para abrir o seu próprio estúdio... eu não posso aceitar!
— Você pode e vai aceitar — ela segurou meus pulsos com força, me obrigando a olhar nos olhos dela. Havia lágrimas presas nos cílios da minha amiga, mas a determinação na voz dela era inabalável. — Dinheiro a gente trabalha e ganha de novo, Mia. A sua vida e a desse bebê não têm preço de reposição. Você vai pegar essa mala, vai entrar naquele avião e vai sumir do mapa. Mude de número. Delete suas redes sociais. Não mande mensagens para ninguém até que esteja instalada e segura do outro lado do oceano.
As lágrimas desceram quentes pelas minhas bochechas, mas dessa vez não eram de pânico. Eram de uma gratidão profunda, daquele tipo que palavras nunca conseguiriam pagar.
— Eu vou te devolver cada centavo, Sophie. Eu juro pela vida do meu filho que vou vencer lá fora e vou te pagar tudo.
— Eu sei que vai — ela sorriu com ternura, limpando o meu rosto com o polegar. — Agora levanta. Temos que ir de metrô até o aeroporto. Pegar um táxi na porta do meu prédio seria deixar um rastro fácil demais caso alguém já esteja monitorando a rua.
O trajeto até o aeroporto internacional JFK foi o teste de resistência mais angustiante da minha vida. Cada pessoa de terno escuro que cruzava meu caminho parecia um perseguidor enviado por Helena. Minhas pernas doíam a cada passo, mas o calor reconfortante do moletom da Sophie e a presença protetora dela ao meu lado mantinham meus pés em movimento.
Chegamos ao terminal internacional com quarenta minutos de antecedência para o encerramento do embarque. Minha amiga falou com a prima por mensagem enquanto eu esperava soar o aviso para embarcar.
O voo foi anunciado e diante do portão de controle de segurança, Sophie me abraçou com tanta força que o cheiro do sabonete dela pareceu fincar raízes na minha memória.
— Quando chegar a Londres, ligue para a Claire da cabine do aeroporto. — ela colocou um papel na minha mão. — Ela já está te esperando. — Sophie sussurrou contra o meu ouvido. — Cuide de você, Mia. E cuide desse bebê. Ele já é um guerreiro antes mesmo de nascer.
— Obrigada por me salvar, Sophie. De verdade.
— Não precisa agradecer. Apenas viva. E prove para todos aqueles desgraçados do que você é capaz.
Passei pela checagem de passaportes com as pernas bambas. Quando o carimbo do agente federal bateu na folha em branco do meu documento e ele me devolveu a caderneta com um indiferente "Tenha uma boa viagem, senhorita", soltei o ar que parecia preso no meu peito há dias.
Caminhei pelo finger em direção à aeronave. Ao entrar na cabine, procurei meu assento ao lado da janela na classe econômica, me sentei e afivelei o cinto com dedos trêmulos.
Minutos depois, as turbinas da aeronave rugiram alto, cortando o silêncio da pista úmida. O avião acelerou com força, levantando voo e cortando a cortina de nuvens escuras que cobriam o céu de Nova York.
Olhei através do vidro pequeno. As luzes da cidade, as mesmas luzes douradas e frias que eu havia contemplado daquela cobertura ao lado do homem misterioso poucas semanas antes, foram diminuindo até se transformarem em pequenos pontos cintilantes na imensidão da noite.
Coloquei a palma da mão direita sobre a minha barriga ainda plana.
O medo ainda estava ali, vivo e pulsante. Eu estava deixando para trás meu país, minha casa, meu nome e tudo o que eu conhecia, rumo a uma terra estranha sem ter quase nada além de uma mala de mão e o dinheiro emprestado de uma amiga.
Mas o monstro do aborto forçado havia ficado para trás. Gregory Stone havia ficado para trás. A covardia do meu pai nunca mais alcançaria nós dois.
— Nós vamos conseguir — sussurrei contra o vidro frio da janela, sentindo a vibração suave do motor ecoar nas minhas costelas. — Eu vou construir um mundo inteiro para você, meu amor. Custe o que custar.
Fechei os olhos enquanto o avião cruzava o Atlântico rumo ao desconhecido. Minha velha vida tinha morrido naquela clínica clandestina.
Mas uma nova Mia estava prestes a nascer.
Capítulo 17 — O Segredo na TelaEthan VanceDesbloqueei o aparelho com o leitor biométrico e abri a tela de informações do meu cartão de contato, onde o meu próprio número aparecia no topo: o código de área de Manhattan seguido por sete dígitos. Estendi o visor na direção dela, mantendo a distância exata de um braço.— Três segundos, senhorita Chloe — desafiei, arqueando uma sobrancelha com um ceticismo divertido. — Valendo.Chloe nem piscou.Seus olhos escuros fixaram-se no vidro iluminado com uma precisão que beirava o cirúrgico. As pupilas dela se dilataram ligeiramente, varrendo a sequência numérica de ponta a ponta em um movimento ágil da esquerda para a direita. Não houve murmúrio, nenhuma repetição labial dos algarismos para tentar decorar pelo som. Era como se a lente de uma máquina de altíssima resolução tivesse acabado de registrar o visor por dentro da mente daquela garota.— Um... dois... — contei em voz baixa, puxando o braço de volta e bloqueando a tela com o polegar. —
Capítulo 16 — O Encontro no Jardim de VidroEthan VanceA burocracia médica conseguia ser mais irritante do que uma assembleia de acionistas minoritários em dia de balanço negativo.Eu estava no mezanino do New York-Presbyterian há quase quarenta minutos, esperando que a secretária do doutor Henderson carimbasse e liberasse o laudo impresso do ecocardiograma de estresse e do Doppler carotídeo do meu avô. Arthur havia feito os exames na primeira hora da manhã e já estava de volta à mansão em Long Island, sob os cuidados do enfermeiro particular, reclamando por mensagem de texto que o chá de camomila tinha gosto de grama cortada.— Senhor Vance, o sistema da central de laudos caiu para uma atualização de segurança — a recepcionista da cardiologia explicou pela terceira vez, com um sorriso contido e constrangido. — O técnico garantiu que os arquivos serão impressos e assinados pelo doutor Henderson em cerca de quinze a vinte minutos. Se o senhor preferir aguardar no saguão...— O saguão
Capítulo 15 — O Fôlego e a FrestaMia CollinsQuarenta e oito horas.Dois giros completos do relógio na parede da unidade semi-intensiva pediátrica, onde os segundos não eram medidos por números, mas pelo som intermitente das bombas infusoras e pelo gotejar contínuo de bolsas de sangue filtrado.Eu não saí da poltrona reclinável de courvim azul nem para tomar um banho decente. Meus olhos ardiam pelo ar-condicionado filtrado e pela falta crônica de sono. Minhas roupas, a mesma calça de alfaiataria amassada e a camisa de seda com que embarquei em Londres, pareciam pesar toneladas sobre os meus ombros. Sophie insistiu várias vezes para que eu fosse descansar no hotel por algumas horas, mas meu corpo simplesmente se recusava a deixar o quarto.Se o coração da Chloe parasse de bater, eu precisava estar ali para segurar sua mão. Se a respiração dela vacilasse, eu precisava ser a primeira a gritar por socorro.Nesta manhã de quinta-feira, no entanto, o silêncio pesado da semi-intensiva foi
Capítulo 14 — Sombras no EspelhoEthan VanceA chuva fina que castigava Manhattan desde a madrugada havia transformado a vista do décimo andar do New York-Presbyterian em uma imensa aquarela cinzenta e disforme. Do parapeito da janela do quarto privativo, eu observava o vaivém incessante das ambulâncias que entravam e saíam da baía do pronto-socorro. Sirenes abafadas pelo vidro triplo cortavam a manhã como sussurros urgentes de uma cidade que nunca aprendia a desacelerar.E eu, que sempre me orgulhei de ter o controle absoluto sobre cada variável do meu dia, sentia meus pensamentos girando em falso.Não dormi. Passei a noite anterior jogado no sofá de couro do quarto hospitalar, fingindo fechar os olhos toda vez que a equipe de enfermagem entrava para checar os sinais vitais do meu avô. Mas, assim que a penumbra voltava a dominar o cômodo, o mesmo padrão se repetia: o eco arranhado daquela voz feminina no corredor, a curvatura tensa daquele queixo pálido e o rastro fantasmagórico da
Capítulo 13 — Entre Corredores e BatimentosEthan VanceO cheiro de álcool etílico e piso recém-encerado nunca me agradou, mas na ala privada da cardiologia do New York-Presbyterian, a atmosfera tentava parecer um hotel cinco estrelas do Upper East Side. Móveis de mogno, luzes indiretas em tom âmbar e quadros impressionistas pendurados nas paredes. Ainda assim, o som intermitente das bombas de infusão traía a realidade: aquilo continuava sendo um hospital.— Se você suspirar mais uma vez com essa cara de velório, Ethan, juro que arranco esses fios colados no meu peito e vou almoçar um bife com fritas no clube — a voz rouca e firme do Arthur quebrou o silêncio do quarto.Desviei os olhos da tela do meu telefone, onde três notificações de reuniões pendentes piscavam com urgência. Meu avô estava sentado na cama articulada, com a camisola hospitalar de linho azul aberta no peito e meia dúzia de eletrodos monitorando seu ritmo cardíaco. Apesar da palidez típica de quem passou a madrugada
Capítulo 12 — O Retorno e o AlarmeMia CollinsO zumbido ensurdecedor dos motores da aeronave diminuiu gradativamente até se transformar em um silvo metálico e contínuo. Pela escotilha dupla da classe executiva, o céu de Nova York se desdobrava em tons plúmbeos de fim de tarde, com as luzes dos terminais do Aeroporto Internacional John F. Kennedy piscando em vermelho e âmbar sob o asfalto molhado.Sete horas de travessia atlântica.Sete horas mantendo os dedos entrelaçados aos de Chloe, vigiando o ritmo do peito miúdo dela a cada respiração, monitorando a temperatura da sua pele com o dorso da minha mão e rezando para que a bolsa profilática de plaquetas infundida ainda em Londres sustentasse a pressão do voo sem intercorrências vasculares.— Atenção, tripulação: autorizados a abrir as portas da aeronave — a voz mecânica do comandante soou nos alto-falantes da cabine.Respirei fundo. O ar condicionado gelado do avião parecia arranhar minha garganta. Ao meu lado, Sophie fechava a malet







