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1.2

last update publish date: 2026-09-01 02:57:24

O Moretti Group ocupava um arranha-céu inteiro no coração de Brickell, o bairro financeiro de Miami. O prédio de vidro e aço refletia as nuvens cinzentas da tempestade, parecendo tocar o céu. Eu já tinha passado por ali dezenas de vezes, sempre olhando para cima com admiração e sonhando em trabalhar naquele lugar.

Agora, entrando pela porta giratória encharcada e tremendo, o sonho parecia mais um pesadelo.

O lobby era grandioso, com piso de mármore branco, um balcão de recepção que parecia ter saído de um filme de ficção científica e funcionários impecavelmente vestidos que me olhavam com uma mistura de pena e espanto.

Eu não podia culpá-los. Eu parecia um desastre.

— Posso ajudar? — perguntou a recepcionista, uma mulher loira e magra com um sorriso falso colado no rosto.

— Eu... eu vim para a entrevista — disse, tentando ajeitar o cabelo encharcado. — Bianca Rossi. Vaga de secretária executiva.

O sorriso da recepcionista vacilou por um instante, mas ela se recompôs rapidamente.

— Claro. O senhor Moretti a está esperando no trigésimo andar. O elevador é ali à esquerda.

Assenti, agradecendo com um aceno e me dirigindo ao elevador. Minhas mãos ainda tremiam, mas agora era por outro motivo.

Nervosismo.

Não era todo dia que se entrevistava para trabalhar diretamente para um dos homens mais poderosos de Miami. Dante Moretti era uma lenda no mundo dos negócios. Italiano, herdeiro de um império bilionário, conhecido por sua inteligência afiada e por seu temperamento... difícil.

Eu tinha lido tudo sobre ele. Sabia que ele era exigente, que demitia secretárias com uma frequência assustadora, que era considerado impossível de agradar. Mas também sabia que o salário era excelente, os benefícios eram incríveis e que trabalhar para ele poderia abrir portas que eu nunca imaginei.

E eu precisava desesperadamente daquele emprego.

As portas do elevador se fecharam, e eu me vi refletida no espelho.

Meu Deus.

Minha blusa branca estava manchada de lama. Meu cabelo, que deveria estar liso e profissional, agora era uma massa de cachos úmidos e rebeldes. Minha maquiagem tinha escorrido, deixando manchas escuras sob meus olhos. E meus sapatos... bem, meus sapatos estavam oficialmente mortos.

Eu parecia um desastre ambulante.

Mas eu não ia desistir. Não depois de tudo o que eu tinha passado para chegar até aqui.

Respirei fundo, tentando ajeitar a roupa com as mãos. Não adiantou muito. Mas eu era brasileira, e brasileira não desiste fácil.

— Você consegue, Bianca. Você consegue.

O elevador parou no trigésimo andar com um som suave.

As portas se abriram.

E eu me vi diante de um dos escritórios mais elegantes que já tinha visto. Paredes de vidro, móveis modernos, uma vista deslumbrante da baía de Miami. Tudo ali exalava poder e dinheiro.

Uma mulher elegante, de cabelos ruivos e óculos de armação fina, me recebeu com um sorriso profissional.

— Senhorita Rossi? — perguntou ela, a voz suave. — Eu sou a Amanda, assistente do senhor Moretti. Ele a está esperando. Por aqui, por favor.

Assenti, seguindo-a por um corredor silencioso, sentindo meu coração bater cada vez mais forte. Meus sapatos faziam um som desagradável a cada passo, um lembrete constante do meu estado lamentável.

Amanda parou diante de uma porta dupla de madeira escura e bateu suavemente.

— Senhor Moretti, a senhorita Rossi chegou.

Uma voz respondeu de dentro.

— Pode entrar.

Meu estômago se contorceu.

Aquela voz.

Eu conhecia aquela voz.

Era a mesma voz que tinha me perguntado, com tanto desprezo: "E eu deveria me importar... por quê?"

Não.

Não, não, não, não, não.

Deus, por favor, não.

Amanda abriu a porta, e eu entrei no escritório, sentindo minhas pernas falharem.

O escritório era gigantesco. Uma mesa de mogno imponente ocupava o centro do espaço, cercada por janelas do chão ao teto que ofereciam uma vista espetacular da cidade. Estantes de livros cobriam as paredes, e um sofá de couro preto estava posicionado em um canto.

Mas nada disso importava.

Porque sentado atrás da mesa, com aqueles mesmos olhos escuros e aquela mesma expressão arrogante, estava o homem do Porsche.

Ele usava um terno preto sob medida que devia custar mais do que meu aluguel mensal. O cabelo estava perfeitamente penteado, sem um fio fora do lugar, apesar da tempestade lá fora. E ele me olhava com... divertimento.

Ele estava se divertindo.

O desgraçado estava se divertindo.

— Senhorita Bianca Rossi — disse ele, a voz carregada de ironia, provando meu nome como se fosse um vinho caro. — Que... surpresa.

Fiquei paralisada.

Meu cérebro parecia ter travado. Minhas pernas se recusavam a se mover. Minha boca se abria e fechava sem emitir som algum.

Ele era Dante Moretti.

O carrasco que tinha me encharcado com o Porsche era o homem para quem eu estava prestes a trabalhar.

O homem que eu tinha chamado de corno, de filho da puta, de desgraçado.

O universo, definitivamente, me odiava.

— Eu... eu posso explicar — balbuciei finalmente, sentindo o calor subir pelo meu rosto.

— Explicar? — Ele ergueu uma sobrancelha, o mesmo gesto arrogante de antes. — Explicar que a candidata à vaga de secretária executiva tem o vocabulário de um estivador e o temperamento de uma cadelinha raivosa?

Aquilo me despertou da paralisia.

— Ei, quem começou foi você! — disparei, apontando o dedo para ele sem pensar. — Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo!

Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no rosto dele era de puro deboche.

— E você me chamou de... como foi mesmo? — Ele fingiu pensar. — Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer.

Senti meu rosto queimar ainda mais.

— Eu... eu estava nervosa — tentei justificar. — E molhada. E a senhora... o senhor foi insuportavelmente grosseiro.

— E continua me tratando por "você" e me interrompendo — observou ele, a voz cortante. — Está fazendo um trabalho excelente em sua entrevista, senhorita Rossi.

A palavra "entrevista" me atingiu como um balde de água fria.

A entrevista.

Meu Deus, a entrevista.

Tudo o que eu tinha planejado, todas as respostas ensaiadas, toda a postura profissional que eu pretendia manter... tudo tinha ido para o espaço no momento em que aquele homem tinha me encharcado com o carro.

— Senhor Moretti, eu... — comecei, tentando recuperar o controle.

— Silêncio.

A palavra veio seca, autoritária, carregada de um poder que me fez calar imediatamente.

Ele se levantou da cadeira, e pela primeira vez percebi o quão alto ele era. Alto e imponente, com ombros largos e uma presença que preenchia todo o espaço. Ele contornou a mesa lentamente, como um predador avaliando sua presa.

Eu me senti pequena. E não era só por causa dos meus sapatos destruídos.

— Sabe por que estou procurando uma nova secretária, senhorita Rossi? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.

Balancei a cabeça negativamente.

— Porque as últimas três não duraram mais do que um mês. Uma era incompetente. A outra era fofoqueira. E a terceira... bem, a terceira cometeu o erro de se apaixonar por mim.

Ele parou diante de mim, perto demais. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.

— Eu não tolero incompetência. Não tolero fofoca. E definitivamente não tolero sentimentos inadequados no ambiente de trabalho. — Ele inclinou a cabeça, estudando-me. — Você parece ser as três coisas ao mesmo tempo.

— Eu não sou nenhuma dessas coisas — respondi, encontrando forças que não sabia que tinha. — Sou competente. Sei guardar segredos. E a última coisa que eu faria seria me apaixonar por um homem como você.

Ele sorriu.

E aquele sorriso não era de deboche. Era de... interesse.

— Um homem como eu? — repetiu ele, aproximando-se mais um passo. — E que tipo de homem eu sou, senhorita Rossi?

Senti o cheiro dele naquele momento. Amadeirado, com notas de couro e algo mais escuro, mais profundo. Era intoxicante, e eu odiei o fato de perceber isso.

— Arrogante — respondi, sustentando o olhar dele. — Grosseiro. Insensível. Mimado. E aparentemente cruel.

Ele não piscou.

— E o que mais?

— E motorista de merda.

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