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2.2

last update publish date: 2026-09-05 15:27:23

A entrevista foi um espetáculo.

Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo um gato afogado, e a expressão de horror no rosto dela quando me reconheceu foi impagável. Os olhos castanhos se arregalaram, a boca se abriu, as mãos tremeram levemente.

Ela tentou se explicar. Gaguejou. Corou.

E então, quando eu provoquei, ela explodiu novamente.

— Ei, quem começou foi você! — disparou, apontando o dedo para mim. — Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo!

Eu me recostei na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no meu rosto era genuíno.

— E você me chamou de... como foi mesmo? Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer.

Ela corou ainda mais.

E continuou me desafiando.

A entrevista durou quarenta minutos. Perguntei sobre a experiência dela, sobre os motivos que a trouxeram para Miami, sobre como lidaria com clientes difíceis. Ela respondeu com competência, mas sempre com aquela faísca de rebeldia nos olhos.

E então, no final, quando eu estava prestes a dispensá-la, ela me chamou de motorista de merda.

E eu ri.

— Sabe qual é o seu problema, senhorita Rossi? — perguntei, voltando para a minha cadeira. — Você não tem filtro. Diz exatamente o que pensa.

— E isso é um problema?

— Para a maioria dos empregadores, sim. Para mim... é refrescante.

Era a verdade. Eu estava cansado de pessoas que sorriam para mim enquanto me apunhalavam pelas costas. Cansado de secretárias que fingiam lealdade enquanto planejavam me trair. Cansado de falsidade.

Bianca Rossi era muitas coisas. Falsa não era uma delas.

— Isso significa que... eu tenho uma chance? — perguntou ela, os olhos brilhando de esperança.

Eu poderia tê-la contratado ali mesmo. Mas queria prolongar o momento. Queria vê-la se contorcer um pouco mais.

— Significa que estou disposto a ignorar o fato de que você chegou parecendo um rato afogado e me insultou duas vezes em menos de uma hora.

— Três vezes — corrigiu ela, sem pensar.

Ergui a sobrancelha.

— Desculpe — murmurou ela, baixando os olhos. — Força do hábito.

Eu ri por dentro.

Aquela mulher era um desastre.

E eu estava prestes a contratá-la.

---

Depois da entrevista, liguei para Vivian.

Não porque precisasse da opinião dela sobre a contratação. Precisava apenas ouvir a voz da minha noiva, lembrar que havia algo constante na minha vida além do trabalho.

— Dante? — atendeu ela no segundo toque, a voz firme e controlada. — Achei que estivesse em reunião.

— Acabei de entrevistar a nova secretária.

— E?

— E é um desastre ambulante. Brasileira, temperamental, me chamou de corno na rua antes de saber quem eu era.

Houve um silêncio do outro lado.

— E você a contratou?

— Sim.

Vivian riu, aquele riso baixo e sedutor que eu conhecia tão bem.

— Você está ficando louco, Dante. Sabe disso, não sabe?

— Talvez. Mas é um risco calculado.

— Hmm. Quando eu voltar, quero conhecê-la.

— Você vai odiá-la.

— Provavelmente. Mas quero ver com meus próprios olhos a mulher que teve coragem de te chamar de corno.

Falamos por mais alguns minutos sobre a viagem dela a Nova York, sobre a reunião com investidores, sobre o jantar beneficente que teríamos na semana seguinte. A voz de Vivian era um bálsamo para o caos da minha mente, e eu me senti mais calmo ao desligar.

Vivian era o meu porto seguro.

E ninguém, nem mesmo uma secretária brasileira com olhos de fogo, mudaria isso.

---

À noite, cheguei em casa exausto.

Dominik estava exatamente onde eu o havia deixado: esparramado no sofá, cercado por embalagens de comida e latas de refrigerante. A televisão estava ligada em um canal de esportes, mas ele não parecia estar prestando atenção.

— Você saiu do sofá hoje? — perguntei, jogando a chave na mesa de centro.

— Fui até a cozinha — respondeu ele, sem olhar para mim. — Duas vezes.

— Impressionante.

— Eu sei. Sou um atleta.

Sentei-me na poltrona ao lado do sofá e soltei um suspiro. O cansaço pesava nos meus ombros como uma capa de chumbo.

— Dominik, precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre você. Sobre essa... situação.

Ele finalmente desviou os olhos da televisão. O rosto dele era um espelho do meu, mas com cicatrizes que eu não podia ver. Cicatrizes de uma guerra interna que ele lutava desde a morte do nosso pai.

— Que situação? — perguntou ele, a voz carregada de sarcasmo. — Estou muito confortável aqui, obrigado. A comida é boa, a cama é macia, e o Wi-Fi é rápido.

— Você tem trinta e dois anos. Deveria estar construindo uma carreira, não vegetando na casa do irmão.

— E quem disse que eu quero uma carreira?

— Todo mundo quer.

— Eu não.

Ele voltou a atenção para a televisão, encerrando a conversa. Eu queria insistir. Queria sacudi-lo pelos ombros e fazê-lo entender que estava desperdiçando a vida. Mas não tinha energia para essa batalha.

Não hoje.

— Vou tomar um banho — anunciei, levantando-me.

— Divirta-se.

Subi as escadas lentamente, sentindo o peso de mais um dia.

O chuveiro quente ajudou a relaxar os músculos tensos, mas não acalmou a tempestade na minha mente. A imagem de Bianca Rossi insistia em voltar. Os olhos castanhos, a boca carnuda, a raiva ardente.

Eu não deveria pensar nela.

Eu tinha Vivian. Tinha uma carreira. Tinha responsabilidades.

Mas, enquanto a água escorria pelo meu corpo, eu não pude evitar a lembrança daquela blusa branca molhada, colada às curvas generosas.

E me odiei por isso.

---

Naquela noite, antes de dormir, recebi uma mensagem de Vivian.

"Estou com saudade. O hotel está frio sem você."

Respondi imediatamente.

"Também estou. Volte logo."

"Tenho uma surpresa para você quando voltar."

"Que tipo de surpresa?"

"Você vai ter que esperar para descobrir."

Sorri no escuro.

Vivian sabia como me manter interessado. Era uma das muitas razões pelas quais eu a amava.

Fechei os olhos e tentei dormir.

Mas o sono demorou a chegar.

E quando finalmente veio, foi povoado por sonhos confusos, nos quais olhos castanhos me desafiavam de dentro de um Porsche preto, e uma voz com sotaque brasileiro me chamava de corno.

Acordei irritado.

E o dia ainda nem tinha começado.

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