FAZER LOGINA entrevista foi um espetáculo.
Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo um gato afogado, e a expressão de horror no rosto dela quando me reconheceu foi impagável. Os olhos castanhos se arregalaram, a boca se abriu, as mãos tremeram levemente. Ela tentou se explicar. Gaguejou. Corou. E então, quando eu provoquei, ela explodiu novamente. — Ei, quem começou foi você! — disparou, apontando o dedo para mim. — Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo! Eu me recostei na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no meu rosto era genuíno. — E você me chamou de... como foi mesmo? Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer. Ela corou ainda mais. E continuou me desafiando. A entrevista durou quarenta minutos. Perguntei sobre a experiência dela, sobre os motivos que a trouxeram para Miami, sobre como lidaria com clientes difíceis. Ela respondeu com competência, mas sempre com aquela faísca de rebeldia nos olhos. E então, no final, quando eu estava prestes a dispensá-la, ela me chamou de motorista de merda. E eu ri. — Sabe qual é o seu problema, senhorita Rossi? — perguntei, voltando para a minha cadeira. — Você não tem filtro. Diz exatamente o que pensa. — E isso é um problema? — Para a maioria dos empregadores, sim. Para mim... é refrescante. Era a verdade. Eu estava cansado de pessoas que sorriam para mim enquanto me apunhalavam pelas costas. Cansado de secretárias que fingiam lealdade enquanto planejavam me trair. Cansado de falsidade. Bianca Rossi era muitas coisas. Falsa não era uma delas. — Isso significa que... eu tenho uma chance? — perguntou ela, os olhos brilhando de esperança. Eu poderia tê-la contratado ali mesmo. Mas queria prolongar o momento. Queria vê-la se contorcer um pouco mais. — Significa que estou disposto a ignorar o fato de que você chegou parecendo um rato afogado e me insultou duas vezes em menos de uma hora. — Três vezes — corrigiu ela, sem pensar. Ergui a sobrancelha. — Desculpe — murmurou ela, baixando os olhos. — Força do hábito. Eu ri por dentro. Aquela mulher era um desastre. E eu estava prestes a contratá-la. --- Depois da entrevista, liguei para Vivian. Não porque precisasse da opinião dela sobre a contratação. Precisava apenas ouvir a voz da minha noiva, lembrar que havia algo constante na minha vida além do trabalho. — Dante? — atendeu ela no segundo toque, a voz firme e controlada. — Achei que estivesse em reunião. — Acabei de entrevistar a nova secretária. — E? — E é um desastre ambulante. Brasileira, temperamental, me chamou de corno na rua antes de saber quem eu era. Houve um silêncio do outro lado. — E você a contratou? — Sim. Vivian riu, aquele riso baixo e sedutor que eu conhecia tão bem. — Você está ficando louco, Dante. Sabe disso, não sabe? — Talvez. Mas é um risco calculado. — Hmm. Quando eu voltar, quero conhecê-la. — Você vai odiá-la. — Provavelmente. Mas quero ver com meus próprios olhos a mulher que teve coragem de te chamar de corno. Falamos por mais alguns minutos sobre a viagem dela a Nova York, sobre a reunião com investidores, sobre o jantar beneficente que teríamos na semana seguinte. A voz de Vivian era um bálsamo para o caos da minha mente, e eu me senti mais calmo ao desligar. Vivian era o meu porto seguro. E ninguém, nem mesmo uma secretária brasileira com olhos de fogo, mudaria isso. --- À noite, cheguei em casa exausto. Dominik estava exatamente onde eu o havia deixado: esparramado no sofá, cercado por embalagens de comida e latas de refrigerante. A televisão estava ligada em um canal de esportes, mas ele não parecia estar prestando atenção. — Você saiu do sofá hoje? — perguntei, jogando a chave na mesa de centro. — Fui até a cozinha — respondeu ele, sem olhar para mim. — Duas vezes. — Impressionante. — Eu sei. Sou um atleta. Sentei-me na poltrona ao lado do sofá e soltei um suspiro. O cansaço pesava nos meus ombros como uma capa de chumbo. — Dominik, precisamos conversar. — Sobre o quê? — Sobre você. Sobre essa... situação. Ele finalmente desviou os olhos da televisão. O rosto dele era um espelho do meu, mas com cicatrizes que eu não podia ver. Cicatrizes de uma guerra interna que ele lutava desde a morte do nosso pai. — Que situação? — perguntou ele, a voz carregada de sarcasmo. — Estou muito confortável aqui, obrigado. A comida é boa, a cama é macia, e o Wi-Fi é rápido. — Você tem trinta e dois anos. Deveria estar construindo uma carreira, não vegetando na casa do irmão. — E quem disse que eu quero uma carreira? — Todo mundo quer. — Eu não. Ele voltou a atenção para a televisão, encerrando a conversa. Eu queria insistir. Queria sacudi-lo pelos ombros e fazê-lo entender que estava desperdiçando a vida. Mas não tinha energia para essa batalha. Não hoje. — Vou tomar um banho — anunciei, levantando-me. — Divirta-se. Subi as escadas lentamente, sentindo o peso de mais um dia. O chuveiro quente ajudou a relaxar os músculos tensos, mas não acalmou a tempestade na minha mente. A imagem de Bianca Rossi insistia em voltar. Os olhos castanhos, a boca carnuda, a raiva ardente. Eu não deveria pensar nela. Eu tinha Vivian. Tinha uma carreira. Tinha responsabilidades. Mas, enquanto a água escorria pelo meu corpo, eu não pude evitar a lembrança daquela blusa branca molhada, colada às curvas generosas. E me odiei por isso. --- Naquela noite, antes de dormir, recebi uma mensagem de Vivian. "Estou com saudade. O hotel está frio sem você." Respondi imediatamente. "Também estou. Volte logo." "Tenho uma surpresa para você quando voltar." "Que tipo de surpresa?" "Você vai ter que esperar para descobrir." Sorri no escuro. Vivian sabia como me manter interessado. Era uma das muitas razões pelas quais eu a amava. Fechei os olhos e tentei dormir. Mas o sono demorou a chegar. E quando finalmente veio, foi povoado por sonhos confusos, nos quais olhos castanhos me desafiavam de dentro de um Porsche preto, e uma voz com sotaque brasileiro me chamava de corno. Acordei irritado. E o dia ainda nem tinha começado.A entrevista foi um espetáculo. Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo um gato afogado, e a expressão de horror no rosto dela quando me reconheceu foi impagável. Os olhos castanhos se arregalaram, a boca se abriu, as mãos tremeram levemente. Ela tentou se explicar. Gaguejou. Corou. E então, quando eu provoquei, ela explodiu novamente. — Ei, quem começou foi você! — disparou, apontando o dedo para mim. — Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo! Eu me recostei na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no meu rosto era genuíno. — E você me chamou de... como foi mesmo? Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer. Ela corou ainda mais. E continuou me desafiando. A entrevista durou quarenta minutos. Perguntei sobre a experiência dela, sobre os motivos que a trouxeram para Miami, sobre como lidaria com clientes difíceis. Ela respondeu com competência, mas sempre com aquela faís
Dante A chuva em Miami era um incômodo persistente, daqueles que grudam na pele e deixam o ar pesado. Eu odiava chuva. Odiava o som dela contra os vidros do carro, odiava o cinza do céu, odiava a umidade que fazia meu terno parecer mais apertado do que já era. Mas, naquele momento, a chuva era apenas um detalhe insignificante diante do caos que se tornara minha manhã. Acordei com a cama vazia. Não que isso fosse incomum. Vivian raramente passava a noite inteira. Ela dizia que precisava do próprio espaço, que dormir junto todas as noites estragava o mistério, que acordar ao meu lado todos os dias a faria se acostumar demais com a minha presença. Eu aceitava. Sempre aceitava. Vivian era a única mulher que eu realmente amava, e por ela eu tolerava coisas que nunca toleraria de mais ninguém. Mas aquela manhã tinha sido diferente. Ela saiu antes de o sol nascer, deixando apenas o cheiro do perfume no travesseiro e um bilhete rabiscado na mesa de cabeceira: "Negócios em Nova Yor
A entrevista durou quarenta minutos. Quarenta minutos de perguntas afiadas, respostas ensaiadas e aquele olhar penetrante me analisando a cada palavra. Dante Moretti não era um entrevistador comum. Ele não se contentava com respostas superficiais. Ele queria detalhes, exemplos, provas de que eu era capaz. E eu dei tudo de mim. Falei sobre minha formação em administração, sobre meus anos de experiência como assistente em São Paulo, sobre minha fluência em português, inglês e espanhol. Falei sobre minha capacidade de organização, minha discrição, minha determinação. E, para meu alívio, ele pareceu genuinamente impressionado. — Você tem um currículo sólido — admitiu ele, folheando os documentos encharcados que eu havia tirado da pasta. — Melhor do que a maioria. — Obrigada — respondi, tentando não sorrir. — Mas há a questão do seu... temperamento. Senti o sorriso morrer nos meus lábios. — Eu não costumo xingar estranhos na rua — defendi-me. — O senhor... o senhor provoc
O Moretti Group ocupava um arranha-céu inteiro no coração de Brickell, o bairro financeiro de Miami. O prédio de vidro e aço refletia as nuvens cinzentas da tempestade, parecendo tocar o céu. Eu já tinha passado por ali dezenas de vezes, sempre olhando para cima com admiração e sonhando em trabalhar naquele lugar. Agora, entrando pela porta giratória encharcada e tremendo, o sonho parecia mais um pesadelo. O lobby era grandioso, com piso de mármore branco, um balcão de recepção que parecia ter saído de um filme de ficção científica e funcionários impecavelmente vestidos que me olhavam com uma mistura de pena e espanto. Eu não podia culpá-los. Eu parecia um desastre. — Posso ajudar? — perguntou a recepcionista, uma mulher loira e magra com um sorriso falso colado no rosto. — Eu... eu vim para a entrevista — disse, tentando ajeitar o cabelo encharcado. — Bianca Rossi. Vaga de secretária executiva. O sorriso da recepcionista vacilou por um instante, mas ela se recompôs rapi
Bianca A chuva em Miami não era como a chuva em São Paulo. Em São Paulo, a chuva chegava com aviso prévio, trovoadas dramáticas, aquele cheiro de terra molhada subindo do asfalto quente. Aqui, não. Aqui, o céu simplesmente desabava. Sem cerimônia, sem aviso, sem piedade. Como se Deus tivesse virado um balde gigante sobre a cidade e decidido que hoje seria o dia de testar a paciência de todos os mortais. E, claro, tinha que ser logo hoje. Logo no dia da entrevista mais importante da minha vida. — Merda, merda, merda — murmurei, apertando o passo na calçada escorregadia. Meus sapatos de salto, aqueles que eu tinha comprado em uma promoção online e que claramente não foram feitos para sobreviver a uma tempestade tropical, afundavam em poças que mais pareciam pequenos lagos urbanos. A pasta com meus documentos estava encharcada, meu cabelo — que eu tinha alisado com tanto esforço naquela manhã — agora se transformava em cachos rebeldes e úmidos que grudavam no meu rosto. Eu pareci







