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A Gordinha Do CEO
A Gordinha Do CEO
Autor: Totomo Injobua

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last update Data de publicação: 2026-09-01 02:56:58

Bianca

A chuva em Miami não era como a chuva em São Paulo.

Em São Paulo, a chuva chegava com aviso prévio, trovoadas dramáticas, aquele cheiro de terra molhada subindo do asfalto quente. Aqui, não. Aqui, o céu simplesmente desabava. Sem cerimônia, sem aviso, sem piedade. Como se Deus tivesse virado um balde gigante sobre a cidade e decidido que hoje seria o dia de testar a paciência de todos os mortais.

E, claro, tinha que ser logo hoje.

Logo no dia da entrevista mais importante da minha vida.

— Merda, merda, merda — murmurei, apertando o passo na calçada escorregadia.

Meus sapatos de salto, aqueles que eu tinha comprado em uma promoção online e que claramente não foram feitos para sobreviver a uma tempestade tropical, afundavam em poças que mais pareciam pequenos lagos urbanos. A pasta com meus documentos estava encharcada, meu cabelo — que eu tinha alisado com tanto esforço naquela manhã — agora se transformava em cachos rebeldes e úmidos que grudavam no meu rosto.

Eu parecia um gato molhado. Um gato gordo, molhado e desesperado.

Não que eu tivesse problemas com a palavra "gorda". Eu tinha aprendido, aos vinte e quatro anos, a abraçar minhas curvas. Meu corpo plus size era parte de quem eu era, e eu me recusava a me envergonhar dele. Mas naquele momento, com a roupa colada no corpo e a maquiagem escorrendo, eu me sentia simplesmente ridícula.

O Moretti Group ficava a três quarteirões dali. Três quarteirões que, sob aquela chuva, pareciam três maratonas.

Olhei para o relógio de pulso. Quinze minutos para a entrevista.

Respirei fundo. Eu conseguia. Eu tinha sobrevivido a coisas piores. Sobrevivi a um voo de onze horas de São Paulo para Miami. Sobrevivi a três anos morando com meu irmão, Carlos, que tinha o dom especial de transformar qualquer situação em um desastre financeiro. Sobrevivi a empregos humilhantes, a chefes abusivos, a noites mal dormidas me perguntando se eu algum dia conseguiria sair do buraco.

Uma entrevista de emprego não ia me derrotar.

Eu. Conseguia.

Foi exatamente nesse momento de autoconfiança forçada que o universo decidiu me dar uma bofetada.

O carro surgiu do nada.

Bem, não exatamente do nada. Ele surgiu da esquina, rápido demais, potente demais, um Porsche preto que cortava a chuva como uma faca. Eu não tive tempo de reagir. Só senti o impacto da água suja da sarjeta explodindo sobre mim, me atingindo em cheio, me cobrindo da cabeça aos pés.

Fiquei paralisada.

A água escorria pelo meu rosto, pelo meu cabelo, pela minha roupa. Minha blusa branca, que eu tinha escolhido com tanto cuidado para parecer profissional, agora estava transparente e manchada de lama. Minha saia lápis parecia um pano molhado. Meus sapatos... bem, meus sapatos já estavam condenados antes.

Mas o choque durou apenas um segundo.

Porque a raiva veio logo em seguida.

— SEU FILHO DA PUTA! — gritei, sem pensar, sem medir as consequências, deixando que anos de frustração acumulada explodissem em palavras. — SEU CORNO DE MERDA! NÃO OLHA POR ONDE DIRIGE, NÃO? TÁ CEGO? SUA DESGRAÇA!

O Porsche parou.

O vidro traseiro começou a descer lentamente, como se o motorista tivesse todo o tempo do mundo. E quando o rosto apareceu, eu senti meu coração parar.

Não de medo. Não de vergonha.

De... algo que eu não soube nomear naquele momento.

Ele era italiano. Tinha que ser. Ninguém no mundo tinha aquele rosto sem ser italiano. O queixo forte, a mandíbula definida, os olhos escuros como café sem açúcar, o cabelo preto levemente ondulado, penteado para trás. Ele parecia ter saído de uma capa de revista, daquelas que faziam mulheres suspirarem em salas de espera de salão de beleza.

E ele estava me olhando com uma expressão que misturava tédio e desprezo.

— Você fala comigo? — perguntou ele, a voz carregada de sotaque, profunda e perigosa.

Eu deveria ter me desculpado. Deveria ter abaixado a cabeça e ido embora. Deveria ter feito qualquer coisa além de encarar aquele homem como se ele fosse o próprio diabo.

Mas eu era brasileira. E brasileira com raiva não foge de briga.

— Falo com você sim, seu motorista de merda! — respondi, gesticulando com as mãos. — Você acabou de me encharcar da cabeça aos pés! Olha o que você fez com a minha roupa! Eu tenho uma entrevista de emprego agora, seu idiota! E por sua causa, eu pareço um rato afogado!

Ele ergueu uma sobrancelha. Apenas uma. Aquele gesto arrogante, típico de quem está acostumado a ser servido, a ser obedecido, a nunca ser questionado.

— E eu deveria me importar... por quê?

A pergunta veio com uma frieza que me desarmou por um segundo. Ele não estava sendo sarcástico. Ele realmente não se importava.

— Porque... porque é o mínimo de decência humana! — balbuciei, sentindo a raiva se misturar com algo parecido com incredulidade. — Você me molhou e nem ao menos vai pedir desculpas?

— Desculpas — repetiu ele, como se estivesse saboreando a palavra pela primeira vez. — Não. Não vou pedir desculpas. Você estava no lugar errado, na hora errada. Talvez da próxima vez preste mais atenção por onde anda.

E antes que eu pudesse responder, o vidro subiu novamente.

O Porsche arrancou, me deixando ali, parada na calçada, encharcada, humilhada e com a boca aberta.

— CORNO! — gritei uma última vez, mesmo sabendo que ele não ouviria mais. — TOMARA QUE SUA ESPOSA TE TRAIA COM O PERSONAL TRAINER!

Respirei fundo, tentando recuperar o controle. Minhas mãos tremiam. Meu corpo inteiro tremia. Mas não era de frio, apesar da chuva gelada. Era de ódio.

Que homem desprezível. Que sujeito arrogante. Que...

Balancei a cabeça, tentando afastar a imagem daqueles olhos escuros da minha mente.

— Foco, Bianca. Foco.

A entrevista. Eu ainda tinha uma entrevista.

Olhei para o relógio. Oito minutos.

Corri.

Um silêncio pesado pairou no ar.

E então, para minha completa surpresa, ele riu.

Não uma risada alta ou escandalosa. Mas um som baixo, profundo, que pareceu reverberar no meu peito. Seus olhos brilharam com algo que eu não soube identificar.

— Sabe qual é o seu problema, senhorita Rossi? — perguntou ele, dando um passo para trás e voltando para a cadeira. — Você não tem filtro. Diz exatamente o que pensa.

— E isso é um problema?

— Para a maioria dos empregadores, sim. Para mim... — Ele fez uma pausa, ajeitando o paletó. — Para mim, é refrescante.

Senti uma pontada de esperança.

— Isso significa que... eu tenho uma chance?

Ele se sentou novamente, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos.

— Significa que estou disposto a ignorar o fato de que você chegou parecendo um rato afogado e me insultou duas vezes em menos de uma hora.

— Três vezes — corrigi, sem pensar.

Ele ergueu a sobrancelha.

— Desculpe — murmurei, baixando os olhos. — Força do hábito.

— Vou levar isso em consideração — disse ele, a voz carregada de ironia. — Agora, sente-se, senhorita Rossi. E me conte por que eu deveria contratá-la.

Sentei-me na cadeira em frente à mesa dele, tentando não pensar na água que escorria da minha roupa para o estofado caro. Meu coração ainda batia acelerado, mas agora por um motivo diferente.

Aquela era a minha chance.

E eu não ia desperdiçá-la.

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Último capítulo

  • A Gordinha Do CEO    2.2

    A entrevista foi um espetáculo. Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo um gato afogado, e a expressão de horror no rosto dela quando me reconheceu foi impagável. Os olhos castanhos se arregalaram, a boca se abriu, as mãos tremeram levemente. Ela tentou se explicar. Gaguejou. Corou. E então, quando eu provoquei, ela explodiu novamente. — Ei, quem começou foi você! — disparou, apontando o dedo para mim. — Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo! Eu me recostei na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no meu rosto era genuíno. — E você me chamou de... como foi mesmo? Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer. Ela corou ainda mais. E continuou me desafiando. A entrevista durou quarenta minutos. Perguntei sobre a experiência dela, sobre os motivos que a trouxeram para Miami, sobre como lidaria com clientes difíceis. Ela respondeu com competência, mas sempre com aquela faís

  • A Gordinha Do CEO    2.1

    Dante A chuva em Miami era um incômodo persistente, daqueles que grudam na pele e deixam o ar pesado. Eu odiava chuva. Odiava o som dela contra os vidros do carro, odiava o cinza do céu, odiava a umidade que fazia meu terno parecer mais apertado do que já era. Mas, naquele momento, a chuva era apenas um detalhe insignificante diante do caos que se tornara minha manhã. Acordei com a cama vazia. Não que isso fosse incomum. Vivian raramente passava a noite inteira. Ela dizia que precisava do próprio espaço, que dormir junto todas as noites estragava o mistério, que acordar ao meu lado todos os dias a faria se acostumar demais com a minha presença. Eu aceitava. Sempre aceitava. Vivian era a única mulher que eu realmente amava, e por ela eu tolerava coisas que nunca toleraria de mais ninguém. Mas aquela manhã tinha sido diferente. Ela saiu antes de o sol nascer, deixando apenas o cheiro do perfume no travesseiro e um bilhete rabiscado na mesa de cabeceira: "Negócios em Nova Yor

  • A Gordinha Do CEO    1.3

    A entrevista durou quarenta minutos. Quarenta minutos de perguntas afiadas, respostas ensaiadas e aquele olhar penetrante me analisando a cada palavra. Dante Moretti não era um entrevistador comum. Ele não se contentava com respostas superficiais. Ele queria detalhes, exemplos, provas de que eu era capaz. E eu dei tudo de mim. Falei sobre minha formação em administração, sobre meus anos de experiência como assistente em São Paulo, sobre minha fluência em português, inglês e espanhol. Falei sobre minha capacidade de organização, minha discrição, minha determinação. E, para meu alívio, ele pareceu genuinamente impressionado. — Você tem um currículo sólido — admitiu ele, folheando os documentos encharcados que eu havia tirado da pasta. — Melhor do que a maioria. — Obrigada — respondi, tentando não sorrir. — Mas há a questão do seu... temperamento. Senti o sorriso morrer nos meus lábios. — Eu não costumo xingar estranhos na rua — defendi-me. — O senhor... o senhor provoc

  • A Gordinha Do CEO    1.2

    O Moretti Group ocupava um arranha-céu inteiro no coração de Brickell, o bairro financeiro de Miami. O prédio de vidro e aço refletia as nuvens cinzentas da tempestade, parecendo tocar o céu. Eu já tinha passado por ali dezenas de vezes, sempre olhando para cima com admiração e sonhando em trabalhar naquele lugar. Agora, entrando pela porta giratória encharcada e tremendo, o sonho parecia mais um pesadelo. O lobby era grandioso, com piso de mármore branco, um balcão de recepção que parecia ter saído de um filme de ficção científica e funcionários impecavelmente vestidos que me olhavam com uma mistura de pena e espanto. Eu não podia culpá-los. Eu parecia um desastre. — Posso ajudar? — perguntou a recepcionista, uma mulher loira e magra com um sorriso falso colado no rosto. — Eu... eu vim para a entrevista — disse, tentando ajeitar o cabelo encharcado. — Bianca Rossi. Vaga de secretária executiva. O sorriso da recepcionista vacilou por um instante, mas ela se recompôs rapi

  • A Gordinha Do CEO    1

    Bianca A chuva em Miami não era como a chuva em São Paulo. Em São Paulo, a chuva chegava com aviso prévio, trovoadas dramáticas, aquele cheiro de terra molhada subindo do asfalto quente. Aqui, não. Aqui, o céu simplesmente desabava. Sem cerimônia, sem aviso, sem piedade. Como se Deus tivesse virado um balde gigante sobre a cidade e decidido que hoje seria o dia de testar a paciência de todos os mortais. E, claro, tinha que ser logo hoje. Logo no dia da entrevista mais importante da minha vida. — Merda, merda, merda — murmurei, apertando o passo na calçada escorregadia. Meus sapatos de salto, aqueles que eu tinha comprado em uma promoção online e que claramente não foram feitos para sobreviver a uma tempestade tropical, afundavam em poças que mais pareciam pequenos lagos urbanos. A pasta com meus documentos estava encharcada, meu cabelo — que eu tinha alisado com tanto esforço naquela manhã — agora se transformava em cachos rebeldes e úmidos que grudavam no meu rosto. Eu pareci

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