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2.1

last update publish date: 2026-09-05 15:27:12

Dante

A chuva em Miami era um incômodo persistente, daqueles que grudam na pele e deixam o ar pesado. Eu odiava chuva. Odiava o som dela contra os vidros do carro, odiava o cinza do céu, odiava a umidade que fazia meu terno parecer mais apertado do que já era. Mas, naquele momento, a chuva era apenas um detalhe insignificante diante do caos que se tornara minha manhã.

Acordei com a cama vazia.

Não que isso fosse incomum. Vivian raramente passava a noite inteira. Ela dizia que precisava do próprio espaço, que dormir junto todas as noites estragava o mistério, que acordar ao meu lado todos os dias a faria se acostumar demais com a minha presença. Eu aceitava. Sempre aceitava. Vivian era a única mulher que eu realmente amava, e por ela eu tolerava coisas que nunca toleraria de mais ninguém.

Mas aquela manhã tinha sido diferente.

Ela saiu antes de o sol nascer, deixando apenas o cheiro do perfume no travesseiro e um bilhete rabiscado na mesa de cabeceira: "Negócios em Nova York. Volto em dois dias. Não sinta minha falta."

Senti.

Sempre sentia.

Vivian Whitmore era tudo o que um homem como eu poderia desejar. Elegante, ambiciosa, implacável quando necessário. Filha de um magnata do mercado imobiliário, ela entendia o meu mundo como ninguém. Não se intimidava com o meu temperamento, não se ofendia com a minha frieza, não exigia declarações românticas nem promessas vazias. Ela me aceitava como eu era.

E, na cama, ela era insaciável.

A noite anterior tinha sido prova disso. Ainda sentia as marcas das unhas dela nas minhas costas, o gosto do seu batom na minha boca, o som dos seus gemidos abafados contra o meu pescoço. Vivian gostava de intensidade. Gostava de ser dominada, de ceder o controle, de me provocar até o limite e depois se render completamente. Era um jogo que jogávamos havia três anos, desde que ficamos noivos, e eu nunca me cansava dele.

— Vai embora de novo? — perguntou Dominik, a voz arrastada pelo sono, quando passei pela sala.

Meu irmão estava esparramado no sofá, vestindo apenas uma calça de moletom velha e uma camiseta surrada. O cabelo escuro, idêntico ao meu, estava bagunçado, e os olhos carregavam aquelas olheiras perpétuas que ele insistia em ignorar.

— Tenho entrevistas hoje — respondi, ajeitando o paletó. — E você deveria procurar um emprego.

Dominik riu, aquele riso curto e debochado que me tirava do sério.

— Para quê? Você sustenta a casa muito bem sozinho, irmão.

— Isso não é uma casa. É um hotel cinco estrelas com serviço de quarto gratuito.

— E eu sou o hóspede preferido.

Ele pegou o controle remoto e aumentou o volume da televisão, encerrando a conversa. Eu poderia ter insistido. Poderia ter lembrado que ele tinha trinta e dois anos, que era formado em economia, que estava desperdiçando o potencial em uma espiral de autocomiseração. Mas não tinha tempo para essa batalha.

Não hoje.

Hoje eu tinha que substituir mais uma secretária incompetente.

---

As secretárias eram um problema recorrente na minha vida.

A primeira durou três semanas. Era eficiente, organizada, mas tinha a irritante mania de fofocar com as assistentes dos outros andares. Descobri quando a vi cochichando com a recepcionista sobre um boato envolvendo a fusão com uma empresa concorrente. Demiti na hora.

A segunda era silenciosa demais. Nunca falava, nunca questionava, apenas obedecia. Parecia perfeita, até o dia em que encontrei um currículo escondido na gaveta da mesa dela. Estava procurando outro emprego enquanto fingia lealdade. Demiti com uma carta de recomendação falsa para queimá-la no mercado.

A terceira foi o pior caso.

Chamava-se Melissa. Bonita, ambiciosa, competente. Mas cometeu o erro de interpretar mal a minha cortesia profissional. Começou a usar roupas mais decotadas, a se inclinar sobre a mesa de propósito, a tocar meu braço "sem querer" durante reuniões. Quando finalmente tentou me beijar no elevador, eu a afastei com uma frieza que a fez chorar.

Ela pediu demissão no dia seguinte.

Eu não senti nada.

O trabalho era isso: trabalho. Eu não misturava negócios com prazer. Vivian era a única mulher que ocupava esse espaço na minha vida, e eu não tinha intenção de mudar isso.

Então, quando Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo uma sobrevivente de naufrágio, eu não esperava nada além de mais uma entrevista tediosa.

Estava enganado.

---

O dia da entrevista começou com o incidente do carro.

Eu vinha pela Collins Avenue, o Porsche preto cortando a chuva como uma lâmina, quando a vi. Uma mulher correndo pela calçada, os braços cruzados sobre o peito, a pasta pressionada contra o corpo. Ela não olhou para o lado antes de atravessar a poça, e o carro passou exatamente no momento em que ela estava no ponto mais baixo da sarjeta.

A água explodiu.

Eu vi o jato atingi-la em cheio, encharcando-a da cabeça aos pés. Vi a blusa branca colar no corpo, revelando curvas generosas e redondas. Vi o cabelo escuro transformar-se em uma massa de cachos molhados.

E então ouvi.

— SEU FILHO DA PUTA! SEU CORNO DE MERDA! NÃO OLHA POR ONDE DIRIGE, NÃO? TÁ CEGO? SUA DESGRAÇA!

Parei o carro.

Não porque me importasse com o que ela estava dizendo. Parei porque a voz dela, carregada de sotaque brasileiro e raiva genuína, despertou minha curiosidade. Eu queria ver o rosto da mulher que tinha coragem de me xingar daquele jeito.

E quando o vidro desceu, eu vi.

Ela era... inesperada.

Não bonita no sentido tradicional. As curvas eram abundantes demais para os padrões das mulheres com quem eu costumava me envolver. O rosto era redondo, com bochechas coradas pela raiva e lábios carnudos que tremiam de indignação. Os olhos castanhos, porém, eram magnéticos. Escuros, intensos, cheios de fogo.

— Você fala comigo? — perguntei, a voz carregada de tédio calculado.

Ela explodiu novamente.

Eu ouvi cada palavra, cada insulto criativo, cada acusação. E, em vez de me irritar, senti um divertimento inesperado. Aquela mulher não tinha medo de mim. Não sabia quem eu era, não se importava com o meu status. Ela apenas estava furiosa, e expressava isso com uma honestidade brutal.

— E eu deveria me importar... por quê? — respondi, erguendo uma sobrancelha.

Ela ficou boquiaberta.

E então veio a frase final, gritada com toda a força dos pulmões:

— TOMARA QUE SUA ESPOSA TE TRAIA COM O PERSONAL TRAINER!

Fechei o vidro.

E fui embora.

Mas o rosto dela ficou gravado na minha memória.

---

Duas horas depois, eu estava no meu escritório, analisando currículos.

A vaga de secretária executiva precisava ser preenchida com urgência. Os negócios não paravam, e a ausência de uma assistente estava começando a afetar minha produtividade. Amanda estava sobrecarregada, os e-mails se acumulavam, e eu não tinha paciência para lidar com detalhes burocráticos.

Entre os candidatos, um nome chamou minha atenção: Bianca Rossi.

Formação em administração. Cinco anos de experiência como assistente executiva em São Paulo. Fluente em três idiomas. Carta de apresentação bem redigida, profissional, sem erros gramaticais.

A foto anexada mostrava uma mulher de cabelos escuros e sorriso contido, vestida com um blazer cinza. Era difícil conciliar aquela imagem com a fúria que eu tinha presenciado na rua.

— Amanda — chamei pelo interfone. — Confirme a entrevista com a senhorita Rossi para hoje.

— Sim, senhor Moretti.

Eu não sabia se era curiosidade, sadismo ou simples coincidência. Mas queria vê-la novamente.

Queria ver se ela teria a mesma coragem quando descobrisse quem eu era.

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