FAZER LOGINA entrevista foi um espetáculo. Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo um gato afogado, e a expressão de horror no rosto dela quando me reconheceu foi impagável. Os olhos castanhos se arregalaram, a boca se abriu, as mãos tremeram levemente. Ela tentou se explicar. Gaguejou. Corou. E então, quando eu provoquei, ela explodiu novamente. — Ei, quem começou foi você! — disparou, apontando o dedo para mim. — Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo! Eu me recostei na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no meu rosto era genuíno. — E você me chamou de... como foi mesmo? Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer. Ela corou ainda mais. E continuou me desafiando. A entrevista durou quarenta minutos. Perguntei sobre a experiência dela, sobre os motivos que a trouxeram para Miami, sobre como lidaria com clientes difíceis. Ela respondeu com competência, mas sempre com aquela faís
Dante A chuva em Miami era um incômodo persistente, daqueles que grudam na pele e deixam o ar pesado. Eu odiava chuva. Odiava o som dela contra os vidros do carro, odiava o cinza do céu, odiava a umidade que fazia meu terno parecer mais apertado do que já era. Mas, naquele momento, a chuva era apenas um detalhe insignificante diante do caos que se tornara minha manhã. Acordei com a cama vazia. Não que isso fosse incomum. Vivian raramente passava a noite inteira. Ela dizia que precisava do próprio espaço, que dormir junto todas as noites estragava o mistério, que acordar ao meu lado todos os dias a faria se acostumar demais com a minha presença. Eu aceitava. Sempre aceitava. Vivian era a única mulher que eu realmente amava, e por ela eu tolerava coisas que nunca toleraria de mais ninguém. Mas aquela manhã tinha sido diferente. Ela saiu antes de o sol nascer, deixando apenas o cheiro do perfume no travesseiro e um bilhete rabiscado na mesa de cabeceira: "Negócios em Nova Yor
A entrevista durou quarenta minutos. Quarenta minutos de perguntas afiadas, respostas ensaiadas e aquele olhar penetrante me analisando a cada palavra. Dante Moretti não era um entrevistador comum. Ele não se contentava com respostas superficiais. Ele queria detalhes, exemplos, provas de que eu era capaz. E eu dei tudo de mim. Falei sobre minha formação em administração, sobre meus anos de experiência como assistente em São Paulo, sobre minha fluência em português, inglês e espanhol. Falei sobre minha capacidade de organização, minha discrição, minha determinação. E, para meu alívio, ele pareceu genuinamente impressionado. — Você tem um currículo sólido — admitiu ele, folheando os documentos encharcados que eu havia tirado da pasta. — Melhor do que a maioria. — Obrigada — respondi, tentando não sorrir. — Mas há a questão do seu... temperamento. Senti o sorriso morrer nos meus lábios. — Eu não costumo xingar estranhos na rua — defendi-me. — O senhor... o senhor provoc
O Moretti Group ocupava um arranha-céu inteiro no coração de Brickell, o bairro financeiro de Miami. O prédio de vidro e aço refletia as nuvens cinzentas da tempestade, parecendo tocar o céu. Eu já tinha passado por ali dezenas de vezes, sempre olhando para cima com admiração e sonhando em trabalhar naquele lugar. Agora, entrando pela porta giratória encharcada e tremendo, o sonho parecia mais um pesadelo. O lobby era grandioso, com piso de mármore branco, um balcão de recepção que parecia ter saído de um filme de ficção científica e funcionários impecavelmente vestidos que me olhavam com uma mistura de pena e espanto. Eu não podia culpá-los. Eu parecia um desastre. — Posso ajudar? — perguntou a recepcionista, uma mulher loira e magra com um sorriso falso colado no rosto. — Eu... eu vim para a entrevista — disse, tentando ajeitar o cabelo encharcado. — Bianca Rossi. Vaga de secretária executiva. O sorriso da recepcionista vacilou por um instante, mas ela se recompôs rapi
Bianca A chuva em Miami não era como a chuva em São Paulo. Em São Paulo, a chuva chegava com aviso prévio, trovoadas dramáticas, aquele cheiro de terra molhada subindo do asfalto quente. Aqui, não. Aqui, o céu simplesmente desabava. Sem cerimônia, sem aviso, sem piedade. Como se Deus tivesse virado um balde gigante sobre a cidade e decidido que hoje seria o dia de testar a paciência de todos os mortais. E, claro, tinha que ser logo hoje. Logo no dia da entrevista mais importante da minha vida. — Merda, merda, merda — murmurei, apertando o passo na calçada escorregadia. Meus sapatos de salto, aqueles que eu tinha comprado em uma promoção online e que claramente não foram feitos para sobreviver a uma tempestade tropical, afundavam em poças que mais pareciam pequenos lagos urbanos. A pasta com meus documentos estava encharcada, meu cabelo — que eu tinha alisado com tanto esforço naquela manhã — agora se transformava em cachos rebeldes e úmidos que grudavam no meu rosto. Eu pareci







