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Capítulo 3

作者: Myosotis
Ninguém se moveu.

Ninguém respirou.

Julian ficou me encarando, a mão pressionada contra a bochecha, os olhos arregalados de choque.

Em trinta anos, eu nunca sequer havia levantado a voz para ele, muito menos lhe dado um tapa. Aos olhos dele, eu podia muito bem ser uma estranha.

Meu pai rugiu de raiva da porta.

Ele agarrou meu braço e me arrastou escada acima, me jogando dentro do meu quarto e trancando a porta.

— Você só sai daí quando voltar ao seu juízo! — gritou do outro lado da porta.

Seus passos pesados ressoaram escada abaixo.

Já era tarde da noite quando a porta foi destrancada por fora.

Era Lydia.

Ela parou no meio do meu quarto, sorrindo como se fosse a dona da casa.

— Julian me ama — sussurrou. — Sempre amou. Mas ele é honrado demais para abandonar você depois de todos esses anos.

Ela deu mais um passo à frente, com a voz suave e venenosa.

— Então ele vai se casar com você. Vai lhe dar o nome dele, a casa dele, os filhos dele. E, para compensar o que eu sacrifiquei, ele me deu isto.

Ela tirou do casaco a verdadeira carta de aceitação e a balançou diante dos meus olhos, enquanto o selo de Vassar reluzia à luz do lampião.

— Depois desta noite, você vai pertencer a ele. Vai passar o resto da vida preparando as refeições dele e criando os filhos dele, presa nesta cidadezinha. E amanhã de manhã eu estarei no trem para Poughkeepsie.

— Sinceramente, Elena, eu simplesmente não entendo por que você abriria mão de uma vida de luxo só para ir à universidade. Para mulheres como nós, a prioridade é casar bem e cuidar da família. E Julian é exatamente a escolha certa, não é?

— Saia daqui — falei, com a voz tremendo de raiva.

— E por que eu iria? — ela riu.

Avancei para pegar a carta, mas ela recuou, guardando-a novamente sob o casaco.

Passei correndo por ela, escancarei a porta do quarto e desci as escadas. Encontrei Julian na sala de estar, servindo-se de um copo de uísque.

— Onde está? — exigi, batendo as duas mãos sobre a mesa. — Onde está a minha verdadeira carta de aceitação? Você a deu para ela, não foi? Você roubou a minha vida e a entregou para ela!

Julian pousou o copo lentamente, enquanto sua expressão endurecia.

— Lydia precisa de Vassar mais do que você — respondeu friamente. — Ela não tem ninguém. O pai dela morreu salvando a minha vida, e desde então ela ficou sozinha. Você tem a mim, Elena. Você tem seus pais. Do que mais poderia precisar?

— Eu preciso da minha vida de volta! — gritei. — Eu conquistei aquela carta! Estudei durante anos, entrei para o corpo de enfermagem, fiz tudo certo! E você simplesmente a entregou para ela como se não significasse nada!

— Isso não é nada comparado ao que eu devo a ela. — Ele deu um passo em minha direção. — O casamento é amanhã. Você estará lá. E não vai dizer uma palavra sobre isso a ninguém.

Me virei e corri em direção à porta da frente, mas ele me segurou pelo braço, fazendo-me girar de volta.

— Aonde pensa que vai? — rosnou. — À universidade? Contar que entreguei a sua vaga para Lydia? Ninguém vai acreditar em você. Amanhã de manhã, você será a Sra. Julian Marchetti. Uma mulher casada não vai para a faculdade, Elena. Ninguém vai levá-la a sério.

Ele me arrastou escada acima novamente e me jogou de volta no meu quarto, trancando a porta mais uma vez.

— Você vai ficar aí até o casamento — disse do outro lado da porta. — E nem pense em tentar fugir. Coloquei um homem vigiando a porta dos fundos.

— Amanhã você nem vai mais precisar do nome Elena Conti — sussurrou a voz de Lydia pela fresta da porta.

Os passos dos dois desapareceram escada abaixo.

Escorreguei até o chão, encostada na porta, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Alguns minutos depois, ouvi passos leves do lado de fora da porta.

Fiquei sentada no escuro pelo que pareceu uma eternidade até sentir algo rígido no bolso do meu vestido.

Era o isqueiro prateado que Sebastian Whitmore havia me dado.

Tirei-o do bolso e passei o polegar sobre o nome gravado. Ele havia dito que me ajudaria, acontecesse o que acontecesse.

Levantei-me e fui até a janela.

Era antiga, com a moldura de madeira empenada pelos anos. Quando criança, eu havia escapado por ela centenas de vezes.

Forcei-a a abrir com as duas mãos, reprimindo um arquejo quando a madeira arrancou a pele da palma da minha mão.

A queda até o quintal fez o ar fugir dos meus pulmões.

Fiquei deitada na grama molhada por um segundo, olhando para a janela escura do quarto onde esperavam que uma noiva acordasse na manhã seguinte.

Então me levantei.

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