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O FIM DA TRAVESSIA E O INÍCIO DO FIM

last update Tanggal publikasi: 2026-09-16 04:05:12

O estouro abafado dos motores da van blindada de carga ecoou contra as paredes de pedra úmida do antigo complexo industrial abandonado nos arredores de Salzburgo. Após sete dias de uma odisseia implacável — ziguezague ando por estradas vicinais da Europa Central, evadindo postos de controle alfandegários e despistando mercenários a serviço da velha guarda —, o silêncio que se abateu sobre a cabine teve o peso de uma revelação.

Anthony desligou a ignição. O painel digital apagou-se, mergulhando o interior do veículo em uma penumbra cinzenta que apenas a luz fraca do amanhecer alpino conseguia perfurar através do para-brisa empoeirado.

Ele virou o rosto lentamente para o banco do carona.

Elena estava recostada contra a porta, com os olhos castanhos fixos no horizonte montanhoso onde, escondida sob séculos de arquitetura gótica e feitiçarias de camuflagem, erguia-se a imponente Câmara dos Imortais. Ela trazia as marcas visíveis da exaustão nas olheiras leves, mas a postura continuava inflexível, a lâmina de titânio perfeitamente encaixada no coldre oculto sob o blazer.

— Estamos chegando no nosso destino, enfim — sussurrou Elena, a voz suave carregando uma mistura profunda de alívio e adrenalina contida. Ela ergueu a mão e tocou levemente a bochecha de Anthony, sentindo o calor firme e a pele envelhecida pelo tempo, mas ainda pulsando com a força inegociável de um homem que desafiou o destino. — Sete dias, Anthony. Nós vencemos a travessia.

Anthony cobriu a mão dela com a sua, apertando-a com firmeza enquanto seus olhos prateados analisavam a silhueta gótica do santuário do Conselho à distância. O ultimato de quarenta e oito horas havia estourado dias atrás; para a aristocracia milenar das sombras, eles já eram fantasmas condenados à execução sumária.

Mas a realidade que aguardava a Câmara era totalmente diferente daquela que os anciãos planejaram.

Não havia presas trêmulas chegando acorrentadas. Não havia arrependimento na alma do ex-conde de Valmont. O que marchava em direção àquela fortaleza era a união perfeita entre o intelecto brilhante de uma alquimista genial e a fúria indomável de um predador que aprendera a sangrar, a amar e a morrer.

Anthony destravou a porta do veículo e empurrou-a para fora, sentindo o ar cortante e gélido dos Alpes encher seus pulmões. Ele estendeu a mão para Elena, ajudando-a a descer para o solo rochoso.

— Eles queriam um julgamento, Elena — disse Anthony, a voz grave ressoando como um trovão abafado entre as montanhas, enquanto seus olhos prateados faiscavam com um brilho letal e definitivo. — Vamos dar a eles uma revolução. Venha. Vamos terminar o que começamos.

De mãos dadas, sem olhar para trás, eles caminharam rumo aos portões de ferro forjado da Câmara dos Imortais. O acerto de contas havia chegado.

O vento da manhã uivava suavemente entre as gargantas de pedra, trazendo o farfalhar das folhas secas e o eco distante dos sinos de Salzburgo. Cada passo sobre o cascalho ressoava com a solenidade de uma sentença já proferida. Anthony adjusted o casaco pesado sobre os ombros, sentindo o peso da decisão que tomara e a certeza absoluta de que, desta vez, não haveria recuo nem misericórdia. O Império dos Anciãos estava prestes a ruir.

Porém, a ilusão de um acerto de contas direto desmoronou no exato momento em que cruzaram os portões enferrujados. Um baque metálico ensurdecedor ecoou pelo pátio de pedra, e as pesadas grades de ferro despencaram atrás deles, lacrando a única saída do complexo. Do alto das amuras do castelo, refletores de luz ultravioleta acenderam-se de golpe, cegando Anthony e Elena por alguns segundos.

— Mas o que é isso?! Uma emboscada?! — gritou Elena, sacando a lâmina de titânio num reflexo treinado, enquanto colocava as costas coladas às de Anthony.

— Ora, ora, ora... veja se não é a minha garota prodígio e o seu mascote imortal renegado! — debochou uma voz estridente e teatral vinda da varanda superior do pátio.

Das sombras do balcão de pedra, surgiu Dr. Henrique, o lendário investidor que financiara a construção do laboratório de Elena em São Paulo e que todos acreditavam ter sido devorado por vampiros rebeldes anos atrás. Ao seu lado, vestindo uma túnica bordada com fios de prata e ostentando o cetro da alta cúpula, estava Beatriz, a melhor amiga da infância de Elena e sua advogada pessoal.

— Doutor Henrique?! Beatriz?! — engasgou Elena, sentindo o chão desmoronar sob seus pés em mais uma reviravolta estarrecedora. — Beatriz, você... você me jurou lealdade! Você cuidava dos meus bens!

— Lealdade não paga as minhas contas de luxo na Europa, minha querida amiga — debochou Beatriz, ajustando os óculos escuros enquanto dava uma risada venenosa. — Você passou a vida toda achando que era a única gênia da família, Elena. Enquanto você se matava de estudar em laboratórios mofados, eu assinei o contrato de venda do seu antídoto para o Conselho por vinte milhões de euros!

Anthony deu um passo à frente, cobrindo o corpo de Elena. Seus olhos prateados faiscavam com um fogo assassino, e a veia de seu pescoço saltava com uma fúria contida.

— Vocês dois são apenas vermes ambiciosos se rastejando para monstros mais velhos — rosnou Anthony, a voz vibrando como um trovão perigoso. — Cadê os membros da Câmara?! Cadê os anciãos que mandaram o ultimato?!

— Os anciãos? Ah, meu caro Conde de Valmont, você ainda é tão ingênuo... — gargalhou o Dr. Henrique, dando um passo até a balaustrada. — A alta cúpula do Conselho não existe mais há séculos! Quem comanda esta farsa somos nós, os humanos que descobriram como usar a ganância e a ciência para controlar as sombras! E o seu pai, Elena... o falecido e amado pai que você tanto venerava... foi quem criou essa aliança!

Elena sentiu um golpe seco no peito, um ardor de dor e decepção tão profundo que as lágrimas queimaram instantaneamente em seus olhos.

— O meu pai... usou você e a Beatriz para me vigiar?! — sussurrou Elena, a voz embargada pelo choque absoluto.

— O seu pai forjou a própria morte e está vivo bem atrás de você, Elena! — revelou Beatriz com um sorriso macabro.

No mesmo segundo, as portas de carvalho do hall principal abriram-se lentamente. Das sombras do castelo, caminhou um homem alto, de cabelos grisalhos, terno sob medida e olhar gélido como o gelo dos Alpes: Dr. Otávio, o pai de Elena, que todos acreditavam ter morrido num trágico acidente de carro há mais de dez anos.

— Pai?! — explodiu Elena, o coração batendo descontrolado enquanto caía de joelhos sobre as pedras geladas do pátio. — Como o senhor pôde fazer isso comigo?! O senhor destruiu a minha vida!

— Eu não destruí a sua vida, minha filha, eu a construí! — declarou Otávio, sem demonstrar um único pingo de afeição paternal. — Cada pesquisa sua, cada passo dado para encontrar a cura do Valmont foi orquestrado por mim. A fórmula que você criou não purifica o vampirismo... ela transforma o sangue do Anthony no reagente que nos concede a juventude eterna sem as fraquezas da noite!

Anthony rosnou como uma fera ferida, avançando dois passos em direção ao sogro cruel, mas dez mercenários armados com fuzis táticos surgiram das portas laterais, engrenando as armas e apontando diretamente para o peito de Anthony.

— Nem mais um passo, ex-conde! — ameaçou Otávio, tirando uma seringa de extração de titânio do bolso do sobretudo. — Chegou a hora de colhermos o fruto da ingenuidade da minha filha. Peguem o Conde e amarrem a Elena na mesa de observação!

Com a fúria e o desespero atingindo o ponto de ebulição, Elena olhou para Anthony, e ambos souberam que aquela não seria apenas uma travessia pela sobrevivência, mas o capítulo mais sangrento de uma guerra em que a própria família era o pior inimigo. O suspense sufocante tomou conta do pátio congelado, com o destino da humanidade e da imortalidade suspenso por um único fio.

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