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CAPÍTULO 9: A Posse da Fera

Author: Lu Viana
last update publish date: 2026-09-25 07:06:10

​O sangue pulsava com força descompassada nos meus ouvidos, martelando em compasso com o zumbido das fornalhas que esfriavam às minhas costas.

​A menção aos mastins de Silver Moon fez o chão sob minhas botas parecer suspenso sobre um abismo. Eu conhecia bem aquelas feras de caça; eram mantidas nos canis reais sob a supervisão direta da guarda de elite de Zander. Eram alimentadas com carne crua e sangue de presas em fuga, treinadas para farejar dissidentes, escravos em revolta ou alvos feridos através de dezenas de léguas de mata fechada. Se aqueles cães encontrassem o marco divisório e começassem a cavar a camada fina de neve soprada pelo vento, encontrariam vestígios.

​Uma lasca de couro da minha bota desgastada nas pedras pontiagudas. Fios de lã verde-oliva da túnica que vesti ao fugir de Oakhaven. O cheiro de cinzas ancestrais impregnado nos meus poros. Saberiam que a loba errante não era uma criatura indefesa qualquer, mas a herdeira da Linhagem de Ferro que ousara erguer o queixo e cuspir no orgulho frágil da nobreza do Sul.

​— Se eles estiverem com cães da guarda do herdeiro — dei um passo na direção de Rowan, sentindo a adrenalina subir pela minha garganta e romper o controle que tentei manter diante dos operários —, eles não vão parar na linha do cascalho. Vão cavar sob a geada. Vão achar meus rastros na encosta sul antes do corte do desfiladeiro. Saberão que estou viva. E que cruzei as defesas da sua cordilheira.

​Rowan não parou a caminhada em direção à rampa de subida. Ele apenas virou o torso largo com uma lentidão calculada, e a imponência física do soberano de Frostveil pareceu absorver toda a claridade que restava naquele setor subterrâneo.

​— E se souberem? — a voz dele veio baixa, áspera e cortante como a lâmina de uma adaga de gelo raspando em pedra. — Você imagina que os portões de ferro de Frostveil se abrem porque meia dúzia de batedores com casacos de pele fina e cães ganindo exigem passagem?

​— Você não conhece o cinismo e a soberba de Silver Moon — retruquei, avançando mais um passo e sustentando aquele olhar cinzento e turbulento, recusando-me a me apequenar mesmo quando minha loba interna se agachava, inquieta sob o peso de sua dominância inata. — Zander e o conselho de anciãos do Sul não toleram perder o controle sobre o que julgam possuir. Eles usam tratados de paz e tréguas de trinta invernos como enfeite de parede, mas atacam pelo flanco como serpentes venenosas. Se souberem que a última forjadora de ferro negro está viva e abrigada dentro da sua fortaleza, farão disso um motivo de afronta de honra. Usarão isso como pretexto para mover regimentos para a fronteira. Não quero que a minha existência seja o estopim de uma carnificina nos seus portões.

​Um rosnado surdo, abafado e cavernoso brotou do fundo do peito de Rowan. O ar vibrou com uma ressonância tão densa que fez a fuligem assentada sobre a beirada da bigorna subir em espirais tênues.

​Ele deu dois passos largos na minha direção, devorando a distância que nos separava. A presença dele era avassaladora, uma muralha viva de calor e força que sufocou a frieza que subia do chão de lajes. O aroma inebriante de agulhas de pinheiro amassadas pela geada, tempestade iminente e ozônio invadiu meus pulmões, acelerando meu pulso em uma reação involuntária da minha carne à presença do macho que me tomara na montanha.

​Sua mão grande e pesada ergueu-se com agilidade espantosa. Seus dedos calejados fecharam-se ao redor da linha da minha mandíbula, firmes, autoritários, mas sem o aperto de quem deseja infligir dor física. O polegar áspero traçou uma linha sobre minha maçã do rosto, limpando uma mancha de carvão com uma lentidão que enviou uma faísca elétrica direto pela minha espinha. A sensação fez a mordida de contenção no meu ombro esquerdo pulsar, uma fagulha quente que desceu pelas minhas entranhas em resposta direta ao toque daquele macho.

​— Olhe para mim, Freya — ordenou ele, e o comando vibrou contra meus ossos. Havia labaredas escarlates dançando no fundo de suas pupilas dilatadas.

​Ergui a cabeça, sustentando o contato visual enquanto meu peito farto subia e descia descompassado contra o linho suado e o couro do avental de forja. O calor da respiração dele cortava o ar gélido, atingindo meus lábios entreabertos.

​— Se Silver Moon realmente quisesse você — disse Rowan, a voz rouca e gutural soando tão perto que cada sílaba parecia ser martelada a ferro em brasa na minha consciência —, aquele moleque do Zander não teria rejeitado o laço sagrado diante de uma corte inteira. Eles não sabem o valor da mulher que tinham sob o teto. Foram cegos demais, fúteis demais e covardes demais para enxergar o fogo, o sangue e a força ancestral que você carrega nessa carne.

​Os dedos dele ajustaram-se à curva do meu maxilar com uma posse inegociável, e ele inclinou o rosto para a frente até que sua sombra me envolvesse por inteiro.

​— Agora é tarde para o arrependimento do Sul. Eles descartaram você na poeira achando que você rastejaria de volta... mas você cruzou a minha serra. Queimou o seu cio na minha rocha. Carrega a minha marca de contenção no ombro e come do meu sal. Você agora pertence a Frostveil. Você pertence a mim. E nenhum macho daquelas terras de cortesãos vai tocar as patas no que é meu.

​O ar sumiu da minha garganta. O peso daquela palavra ecoou dentro de mim como o repique de um gongo de guerra. Não era a posse degradante e humilhante com que Zander me tratara — encarando minhas curvas fartas e meus braços fortes como anomalias que envergonhavam sua corte estética. Era a reivindicação primordial de um soberano de guerra, um macho que via beleza no poder, perigo no fogo e honra na força.

​Rowan afrouxou o aperto na minha mandíbula com relutância quase imperceptível e virou-se bruscamente para Torin, cortando a corrente invisível que nos unia antes que ela se tornasse inquebrável.

​— Conduza-a de volta para os meus aposentos — determinou o Alfa, as palavras secas e imperativas estalando na caverna. — Mantenha as sentinelas no corredor leste e proíba qualquer movimentação estranha naquele andar. Ninguém entra, ninguém sai sem a minha autorização direta.

​— Rowan, eu não aceito ser confinada como um fardo covarde! — avancei um passo, com as mãos fechadas em punhos firmes ao lado do corpo, a indignação rompendo a névoa do toque dele. — Meu lugar é na armaria! Eu posso preparar lâminas para as sentinelas da muralha, posso derreter as ligas para reforçar as lanças dos seus soldados se houver confronto...

​— Você passou horas martelando minério bruto com um ferimento recente e o corpo recém-saído de uma febre biológica violenta — rebateu ele sem sequer virar a cabeça para trás, ajustando as manoplas reforçadas com lâminas de ferro nos nós dos dedos. — Você vai subir. Vai tirar essa cinza da pele, vai comer o que a cozinha mandar e vai ficar sentada aguardando meu retorno.

​Ele parou no início da rampa larga de pedra que levava aos níveis superiores e virou apenas o queixo largo sobre a gola alta de pele de urso. Seus olhos eram pura tempestade de inverno.

​— Espere por mim, Freya. Quando eu descer da Crista das Agulhas, nós dois teremos muito o que acertar sobre o seu lugar nesta fortaleza.

​Sem esperar por qualquer réplica minha, o Alfa Supremo virou as costas e subiu a passos pesados pela rampa principal em direção aos pátios superiores, sua capa escura chicoteando o ar gélido com a violência de uma asa de corvo na nevasca.

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