FAZER LOGINMATEO.
Desço pra cozinha e encontro meu pai já sentado à mesa, café na mão, um sorriso satisfeito demais estampado no rosto. Sirvo meu próprio café em silêncio, sentando na cadeira de sempre, sem me alongar em cumprimentos. — Dormiu bem? — ele pergunta, e eu sei exatamente por que está tão bem-humorado hoje. — Dormi. — dou uma rápida olhada nele e dou um gole no café, que está amargo, como gosto. — As ligações renderam bom resultado — ele continua, ignorando meu tom seco. — Já tenho três encontros marcados pra você hoje. Famílias de peso, Mateo. Vai gostar do que vai ver. Todas são lindas, por favor, preste atenção nelas, em cada detalhe. — Vou ver — respondo, tomando mais um gole do café. — Não se atrase no primeiro encontro, por favor. É importante fazer boa impressão. — ele me olha por alguns segundos e limpa sua boca após terminar de comer. Só assinto, sem discutir. Estou fazendo exatamente o que ele sempre cobrou de mim, então não faz sentido nenhum bancar o difícil agora. Termino o café rápido, levanto, e antes de sair chamo dois dos meus homens mais próximos, que já esperam no corredor. — Fiquem de olho em tudo hoje — ordeno, direto. — Quero saber de qualquer movimento estranho no perímetro, qualquer coisa fora do normal. Me mandem mensagem na hora, não esperem eu voltar pra me contar depois. — Sim, Alfa — respondem em uníssono, cabeça baixa. — Vou resolver uns assuntos fora, mas quero ficar a par de tudo o tempo inteiro. Eles assentem de novo, e eu saio direto pra garagem, entro no carro e sigo pro primeiro encontro do dia. Quero resolver essa merda logo. Conhecer essas mulheres, escolher uma, acabar com essa novela toda de uma vez. Meu pai quer isso, minha alcateia precisa disso, e eu preciso disso também, nem que seja só pra tirar da cabeça essa inquietação idiota que não me larga desde aquela festa. O primeiro encontro é com a filha de um dos sócios mais antigos do meu pai, uma loba alta, cabelos escuros, postura impecável, conversa afiada. Bonita, sem dúvida. Rica, claro. Bem-educada, exatamente o tipo de mulher que qualquer alfa aprovaria numa festa de sociedade. Ela fala bem, não desvia o olhar, não parece tímida, ótimo. Quanto mais eu olho para ela, tento apreciar cada detalhe... não sinto, nada. Fico ali sentado, ouvindo ela falar sobre viagens, sobre a empresa da família dela, sobre planos futuros, e meu lobo continua mudo. Pior que mudo, irritado, inquieto, como se quisesse sair correndo dali o mais rápido possível. Inferno. " Fica quieto, não pense ou diga nada." falo com ele, que rosna pra mim. Sorrio quando preciso, faço perguntas educadas, finjo interesse. Mas por dentro, só penso em quanto tempo falta pra esse encontro acabar. O segundo encontro é parecido. Outra mulher linda, outra conversa vazia, outro silêncio completo vindo do meu instinto. Começo a sentir a frustração crescer, um aperto no peito que não sei bem explicar. Devia ser fácil. Devia bastar estar perto de qualquer uma delas pra sentir algo, qualquer centelha, qualquer coisa parecida com o que senti naquela noite. Mas não sinto. Nada. O terceiro encontro é com uma mulher chamada Ana, loira, olhos claros, sorriso fácil, do tipo que parece genuinamente interessada, não só performando pra impressionar. Ela é gentil, engraçada até, faz perguntas de verdade sobre mim, não só sobre minha posição ou minha família. Então, digo a mim mesmo que ela pode ser a parceria perfeita, é linda, sociável, educada, de família rica, olha pra mim com paixão, parece encantada comigo. E eu... quero sentir o mesmo. Tento. Juro que tento, com ela mais do que com as outras. Presto atenção em cada palavra, busco desesperadamente qualquer resposta do meu lobo, qualquer sinal de que aquilo pode dar certo. Nada acontece. Só o vazio de sempre. Porra. ela é perfeita, olha pra ela. Digo ao meu lobo, que vira a cara pra mim, me ignorando. Que merda! Ela deve perceber alguma coisa na minha expressão, porque de repente para de falar e me encara, cabeça levemente inclinada. — Você tá bem? — pergunta, um pouco insegura. — Parece meio distante. Eu disse alguma coisa errada? — Não, não — respondo rápido, forçando um sorriso que espero que seja convincente. — O encontro tá sendo ótimo, Ana. De verdade. Só tenho uns assuntos pessoais que preciso resolver ainda hoje, minha cabeça meio dividida. Podemos nos encontrar depois. Ela sorri de volta, mas dá pra ver que não acreditou totalmente na desculpa. Um brilho triste passa pelos olhos dela por um segundo, rápido demais pra qualquer outra pessoa perceber, mas eu vejo. — Tudo bem — ela diz, gentil demais pra alguém que provavelmente sabe que não vai me ver de novo. — Foi bom te conhecer, Mateo. — Igualmente. — sorrio pra ele, segurando em sua mão por um momento, tentando ser educado e me despeço dela. Saio do restaurante e entro no carro, batendo a porta com mais força do que precisava. — Porra — resmungo baixo, socando o volante de leve. Nenhuma delas. Nenhuma mexeu comigo, nem de longe perto do que aquela mulher sem nome fez em segundos, numa festa qualquer, sem nem tentar. Fico sentado ali por um tempo, só respirando, tentando entender o que diabos está acontecendo comigo. Não faz sentido. Conheci três mulheres perfeitas hoje, poderosas, bonitas, de família certa e meu lobo continua preso em algo que devia já ter esquecido. Não quero admitir. Recuso admitir, na verdade, mas é mais forte do que eu: aquela mulher mexeu comigo de um jeito que nenhuma outra jamais conseguiu. E o pior, nem sei o nome dela. Bato a cabeça pra trás no banco do carro, fechando os olhos por um segundo, tentando organizar os pensamentos. Talvez seja só questão de tempo. Talvez eu precise insistir mais, conhecer mais lobas, dar chance suficiente pro meu instinto reagir direito com alguma delas. Não posso ficar preso numa lembrança de uma noite só, por mais intensa que tenha sido. Mas mesmo enquanto ligo o motor e sigo pro próximo compromisso do dia, uma parte de mim, teimosa e irritante, insiste em uma única pergunta. Quem era ela? Preciso saber seu nome, pelo menos isso.AMALIA. Faz alguns dias que essa sensação não me larga. Um arrepio constante na nuca, um instinto antigo que nunca tinha experimentado antes, nem quando era mais nova e mais descuidada com minha própria segurança. Sinto olhos em mim o tempo todo, na rua, no caminho até a loja, até dentro de casa às vezes, quando olho pela janela do quarto antes de dormir.— Você anda estranha — Carla comenta, um dia desses, enquanto lavamos a louça juntas. — Tá tudo bem, filha?— Tô só cansada, mãe — minto, forçando um sorriso. — Correria da gravidez, sabe como é. Me sinto estranha as vezes, cansada, mas sei que isso vai passar. - dou uma piscadela pra ela. Ela não parece convencida, mas não insiste. Só passa a fechar a porta de casa com mais cuidado à noite, e percebo Pedro dando uma volta extra pelo quintal antes de dormir, como se também sentisse que algo está diferente, mesmo sem saber exatamente o quê.Evito a floresta em horários incomuns agora. Só vou de dia, com o sol ainda alto, evitando aq
DAVID. Sigo as pistas antigas por três dias inteiros antes de finalmente chegar nessa cidade, um lugar pequeno, tranquilo demais pra esconder algo tão perigoso quanto o que eu procuro. Ao meu lado, dois soldados da nossa alcateia se movem em silêncio, disfarçados de simples viajantes, roupas comuns, nada que chame atenção.— É aqui — murmuro, parado na esquina de uma rua movimentada, os olhos varrendo cada estabelecimento com atenção calculada. — As pistas antigas apontam pra essa região. Se a linhagem sobreviveu mesmo, é aqui que vamos encontrar o rastro dela.— Como vamos identificar ela entre tanta gente? — Bruno, o soldado mais jovem, pergunta, a voz baixa.— Pelo cheiro — respondo, seco. — Sangue alfa puro não se disfarça. Vamos sentir antes de ver.Passamos o dia inteiro circulando pela cidade, atentos, disfarçados entre turistas e moradores locais, até que, no fim da tarde, paramos diante de uma pequena loja de roupas, a vitrine bem cuidada, movimento constante de clientes ent
LUCIO.A floresta que cerca meu território é diferente de qualquer outra região por aqui, mais densa, mais escura, como se a própria natureza tivesse aprendido a temer quem manda ali. Nenhuma luz artificial alcança esse trecho de mata, só a claridade fraca da lua cortando entre os galhos altos, iluminando o salão de pedra que meus ancestrais construíram séculos atrás.Sento no meu trono, um bloco de rocha esculpido, frio, impessoal, exatamente do jeito que gosto. Bato os dedos devagar no braço de pedra, um ritmo impaciente, enquanto espero o relatório que mandei buscar há dias.— Alfa. — A voz vem da entrada, e David se aproxima, cabeça baixa, respeito absoluto na postura. — Trago notícias do sul.— Finalmente — resmungo, sentindo o interesse acender por dentro. — Fala.Ele se aproxima mais, parando a poucos metros do trono, e Miguel, meu beta, se posiciona ao meu lado, braços cruzados, aquela expressão calculista que ele sempre carrega.— Os rumores são verdadeiros — David começa, a
ANA. Sinto meu corpo inteiro vibrar de satisfação assim que sento no colo dele, minha boca colada na dele, meus dedos presos no cabelo escuro que sempre imaginei tocar assim, de perto, sem pressa nenhuma.Não acredito nisso, eu realmente estou aqui, com ele, com Mateo, o meu alfa. Minha loba ruge por dentro, satisfeita, extasiada. Finalmente. Depois de tanto tempo observando ele de longe, ouvindo histórias sobre o alfa mais temido da região, sonhando silenciosamente com esse exato momento, estar perto dele, ser escolhida por ele, sentir as mãos dele no meu corpo do jeito que sempre imaginei.Sou eu. Fui eu que ele escolheu, entre tantas outras filhas de sócios do pai dele, tantas lobas de família rica e poderosa. Fui eu.O beijo aprofunda, suas mãos deslizando pelo meu corpo com uma urgência que me deixa sem fôlego, e eu me entrego completamente, decidida a mostrar a ele, ali mesmo, naquele carro, o tipo de mulher que sou. O tipo de esposa que vou ser.— Vou fazer você nunca se arre
MATEO.Horas se passam e finalmente, o jantar termina. Todos já comeram e já brindamos... mas vejo como o sorriso deles são forçados demais. Eu permaneci sério, a todo momento. Não tem necessidade de sorrir assim. Após limpar a boca, me levanto pra me despedir dos sogros com a formalidade que a ocasião exige. Pego a mão da senhora Francis, dando um beijo curto, e aperto a mão do senhor Donald com firmeza.— Estou bastante contente — ele diz, o aperto de mão se prolongando um pouco mais do que o necessário. — Sei que vai ser um casamento de sucesso. Já vejo um grande futuro pra vocês, pra nós, lá na frente. Obrigado por escolher minha filha, alfa.A última frase sai mais baixa, quase um sussurro, os olhos dele buscando os meus com um peso que entendo bem, não é só sobre Ana, é sobre alianças, sobre poder, sobre o que essa união representa pras duas famílias. Entendo bem disso. — Seremos uma família agora — respondo, o tom mais formal do que sinto por dentro.Todos assentem, satisfei
MATEO.Passo dois dias inteiros remoendo a mesma decisão na cabeça, até finalmente chegar numa conclusão que me parece a única racional.Ana. Vou ficar noivo de Ana." É a escolha certa." repito pra mim mesmo enquanto pego o celular pra fazer as ligações necessárias. Amália não tem posse nenhuma, nenhuma fortuna, nenhuma família de peso que traga vantagem pra minha alcateia ou pra empresa do meu pai. É uma mulher pobre, dona de uma lojinha qualquer, por mais que meu lobo insista em discordar veementemente disso. Separar as coisas é o que um alfa de verdade faz, sentimento de um lado, estratégia do outro. Mesmo que, no fundo, uma parte teimosa de mim sussurre que talvez ela fosse mesmo minha parceira destinada.Ignoro essa parte. Preciso ignorar.Ela não é, não é... digo várias vezes. Faço as ligações necessárias, marco um encontro com meu pai ainda naquela tarde, e assim que chego no escritório dele, vou direto ao ponto, sem rodeios.— Decidi — falo, parando na frente da mesa dele. —







