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last update publish date: 2026-09-16 02:41:46

Gideon

No dia em que cheguei ao mundo, recebi também a minha sentença de morte. Trinta e seis. Esse número determina com precisão os meus dias aqui na Terra. A morte não é minha inimiga. Ela é a minha companheira desde sempre. Por isso, não desperdiço meus dias com coisas que não podem sobreviver à minha morte. E o amor é uma delas. Eu jamais traria um herdeiro para uma sentença tão cruel quanto essa.

— Senhor Volkov?

Alexander Petrov, meu diretor executivo de operações da Volkov Systems, entra na minha sala sem ser anunciado. Pela expressão dele, penso que as notícias não são boas.

— Aconteceu alguma coisa?

Petrov pressiona os lábios, acomodando-se na cadeira que fica de frente para a minha mesa. Lanço-lhe um olhar analítico. Mas ele não diz nada, e isso me irrita.

— Fale! — ordeno.

Em resposta, Alexander me estende um tablet. Eu olho para a tela e analiso algumas páginas.

— Temos um problema com a rede de Singapura — ele diz.

Fecho uma mão em punho.

— Quanto tempo até o sistema cair?

Continuo analisando os danos.

— Dezessete minutos, senhor.

O encaro duramente.

— Reúna as equipes.

— É que… as equipes estão reduzidas no momento…

— Contrate! — rujo. — Esse é um contrato bilionário, Petrov. E eu não aceito perder. Se você não se acha capaz de resolver essa situação, saia da minha frente e peça demissão.

Ele abre a boca, mas não diz nada.

— Eu… e-eu vou resolver, senhor Volkov…

— Faça isso, Petrov. É para isso que eu te pago. Agora saia da minha frente!

Meu diretor de operações se levanta num rompante, segura o tablet e sai tão rápido quanto entrou no meu escritório. Levanto-me da cadeira e aproximo-me de uma parede de vidro, de onde observo a fria Moscou, onde uma camada fina de neve já começa a acumular nos cantos das calçadas. Em três meses será o Natal, e em trinta dias farei trinta e seis anos. A certeza de que partirei muito em breve já não me atormenta mais.

Enfio as mãos nos bolsos laterais da minha calça. Respiro fundo. Mas algumas batidas na porta atrás de mim me dizem que preciso voltar ao trabalho.

— Bom dia, senhor Volkov!

Elena Weiss, minha secretária, fala ao entrar. Viro-me para olhá-la e caminho para a minha mesa sem pressa, ocupando a cadeira em seguida. Não respondo ao seu cumprimento; apenas espero que ela continue.

— Eu trouxe os relatórios que me pediu.

Ela põe algumas pastas pesadas sobre a minha mesa.

— Preciso lembrá-lo de que o senhor tem uma reunião com a equipe do Japão sobre o contrato de infraestrutura digital de um aeroporto internacional — continua.

— De que horas?

Abro uma das pastas da pilha.

— Em duas horas, senhor.

— Peça para prepararem a sala de reuniões — peço, enfiando o rosto nos papéis. — Utilize três telas para essa chamada de vídeo. Não quero perder nenhum detalhe dessa conversa.

— Sim, senhor. Com licença, senhor.

Passo o resto do meu dia atolado entre contratos, reuniões, negociações e decisões que não podem esperar. No final do dia, decido não ir direto para casa. Preciso extravasar. Esquecer o meu destino cruel, nem que seja por algumas horas. E, para isso, mantenho uma suíte que ocupa os dois últimos andares do hotel The Obsidian.

— Boa noite, senhor Volkov!

Sienna Vogel, minha concierge pessoal, diz assim que adentro o elegante, porém sombrio hall do hotel. Não lhe respondo. Apenas sigo com passos firmes para perto dos elevadores e aperto o botão.

— O quarto já está pronto, senhor Volkov — ela diz com sua postura elegante. — Sua bebida preferida o espera na entrada da cobertura.

Apenas assinto.

— A sua acompanhante estará pronta em alguns minutos.

Entro no elevador, encaro os olhos castanhos claros dela e faço outro aceno sutil de cabeça. As portas se fecham e, segundos depois, elas se abrem, revelando outro hall amplo com uma iluminação amarelada. Ao pôr os meus pés dentro do cômodo, a primeira impressão não é de um espaço sexual, mas de poder e luxo absoluto.

Adentro ainda mais, recebendo o silêncio como companhia. Observo a garrafa de uísque disposta sobre uma pequena mesa de vidro transparente e, ao lado dela, tem um copo vazio. Aproximo-me, sirvo uma dose e entorno de uma vez na boca. Depois, subo os poucos degraus que me levam para dentro de um corredor curto e encontro uma porta de madeira escura trancada. Levo uma mão à maçaneta e a giro devagar. Logo um quarto amplo se abre para mim, com suas paredes revestidas de madeira escura e painéis de pedras negras. No centro do cômodo está uma cama king-size imponente, com cabeceira alta de couro preto, coberta com lençóis em tons profundos de cinza. Atrás da cama, uma iluminação indireta percorre discretamente os painéis da parede.

Durante a noite, deixa o ambiente mergulhado em uma penumbra elegante.

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