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CAPÍTULO 1
ALYA NARRANDO: TALEGAON DABHADE, ÍNDIA. A poeira amarelada das ruas de Talegaon Dabhade parecia grudar na janela do meu quarto, assim como a rejeição daquela família grudava na minha pele todos os dias. Olhei o reflexo no espelho antigo. Eu vivia em uma casa de classe média... mas o meu quarto era o mais simples e o menor. Para quem olhava de fora, meu pai e minha madrasta ostentavam uma vida confortável, mas eu sabia a verdade podre por trás de cada parede pintada: tudo aquilo tinha sido erguido com as poucas joias que meu pai conseguira roubar da minha mãe antes de ela falecer. Eu era a filha única do primeiro casamento. Uma intrusa. Um estorvo. Vivendo sob o mesmo teto que um pai que me detestava, uma madrasta que me odiava e o filho dela, um garoto mimado que adorava me ver ser humilhada. A única pessoa daquele sangue de quem eu ainda gostava era minha meia-irmã mais nova. Eu via inocência nela, mas a confiança? Essa eu não podia dar,ela ainda era filha da Tamasi . Se eu desse um passo em falso, minha cabeça rolaria. Minha única âncora no mundo eram minha prima — minha melhor amiga e fiel escudeira — e meu melhor amigo, as únicas pessoas que me faziam lembrar de quem eu realmente era. Porque a verdade que meu pai e minha madrasta gananciosos nem sonhavam... é que eles pegaram apenas as migalhas. Três batidas leves e ritmadas ecoaram no vidro, me fazendo despertar dos meus pensamentos. Olhei em direção à janela do lado de fora e um sorriso bobo, o primeiro do meu dia, surgiu no meu rosto. Era ela. Asha. Me levantei da cama em um pulo e empurrei a trava da janela, deixando o ar fresco entrar junto com a energia caótica da minha prima. Minha madrasta, Tamasi, detestava a nossa proximidade com todas as forças. Ela fazia de tudo para nos afastar, porque sabia que Asha era a única pessoa no mundo que me entendia de verdade, a única que conseguiu enxergar através da minha armadura. — O que você está fazendo aqui, Asha? — perguntei em um tom tenso, embora meus olhos brilhassem por vê-la. — Eu vim te ver, ué! — Asha respondeu, apoiando os braços no parapeito e me encarando indignada. — Você só vive presa e enfiada nesse quarto, Alya. Vamos dar uma volta mais tarde? No mesmo segundo, meu coração deu um solavanco. Instintivamente, desviei os olhos dela e olhei para a porta fechada do meu quarto, o peito apertado pelo medo real de que os passos pesados de Tamasi estivessem subindo o corredor. Se ela escutasse a voz da minha prima ali, o inferno começaria. — Eu não posso... — engoli em seco, baixando o tom de voz. — Eu tenho muitas tarefas para fazer em casa hoje, Asha. Asha revirou os olhos, cruzando os braços e deixando transparecer toda a sua irritação com a minha realidade. — Só você trabalha nessa casa! — ela resmungou, sem esconder a revolta na voz. — Nada dura para sempre... — murmurei, sentindo o peso das minhas próprias palavras. Antes que Asha pudesse responder, o silêncio do quintal foi cortado por um grito alto e ecoante. — ASHAAAA! ASHAAA! Nós duas nos entreolhamos sobressaltadas. — É o Kabir que está chamando — Asha disse, reconhecendo a voz de imediato. Kabir era o meu melhor amigo, o cara que sempre, sem exceção, estava ao meu lado para o que desse e viesse. Eu sentia o carinho dele e, no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que ele tinha uma paixão secreta por mim. Mas a nossa realidade e o peso das nossas famílias tornavam tudo impossível. Asha me deu um último sorriso e foi embora. O dia estava apenas começando, mas o clima naquela casa já estava pesado. De repente, o estrondo na fechadura me fez sobressaltar. Meu meio-irmão, Ravan, escancarou a porta do meu quarto com força. Instintivamente, dei um passo à frente e fechei a janela, tentando isolar o vento frio da manhã e o rastro daquela conversa. — Que gritaria toda é essa? — ele perguntou, furioso, cruzando os braços no meio do cômodo. — Era só a Asha — respondi baixinho, tentando não prolongar o assunto. Ravan me encarou com desprezo. — Se a minha mãe souber que você está de conversa fiada a uma hora dessas da manhã... A casa está imunda. Desça logo e venha arrumar tudo! Ele deu as costas, saindo do meu quarto e batendo a porta com força. Engoli o cansaço matinal e desci. Comecei pelas tarefas menores: varrer e passar pano, uma rotina que é feita quase todos os dias aqui na Índia. Decidi deixar o meu próprio quarto por último. Como a sala é um dos lugares mais importantes e sagrados da casa, concentrei meus esforços ali. Comecei limpando a janela, deixando a luz do sol entrar, e logo passei para os móveis. Não demorou muito para o meu irmão aparecer, ainda irritado com a minha presença. — Daqui a pouco já é hora do almoço. A minha mãe vai te ajudar! — ele gritou da cozinha, com a voz bem alta. Eu sabia exatamente o que ele estava fazendo. Ravan falava aquilo de forma calculada, projetando a voz para que toda a vizinhança escutasse através das janelas. Ele precisava manter as aparências. Queria que todos pensassem que a mãe dele também cuidava do lar, e não que eu era a única que fazia tudo sozinha desde o amanhecer. A mesa do almoço parecia um cenário de teatro bem ensaiado. Tamasi sorria enquanto servia o meu pai, agindo como a esposa perfeita, e Ravan comia como se fosse o rei daquela casa. Eu permanecia em silêncio, apenas observando a comida no meu prato e contando os minutos para aquele inferno de aparências acabar. Kiara, estava ali também. Mais cedo, ela tinha me ajudado a preparar os pães. Ela era a única que não parecia ter nada contra mintam naquela casa.Ao me aproximar, o meu pai olhou para mim todo orgulhoso e abriu um sorriso largo para os vizinhos verem. Eu continuei séria, encarando-o com frieza. Ele podia fingir o quanto quisesse para a vizinhança, mas eu sabia a verdade. Eu nunca iria perdoá-lo O meu pai pegou na minha mão e a entregou para San-jin segurar. Eu não fazia a menor questão de que o meu pai me levasse até o altar, e a minha frieza deixava isso bem claro. San-jin olhou para mim de cima a baixo, percebendo o meu incômodo com o toque do meu pai. Ele segurou a minha mão com firmeza, e o calor dos seus dedos me fez recuperar o ar na mesma hora. Era como se ele estivesse me dizendo, sem precisar falar nada, que dali para frente eu estava segura com ele. Disfarcei o meu nervoso, sustentei o olhar dele e dei o passo definitivo para o altar, deixando o meu pai para trás onde ele realmente merecia ficar: no passado. O celebrante começou a falar, dando início à cerimônia, mas a voz dele parecia distante, como um som
San-jin tinha acabado de descer das escadas do quarto com passos silenciosos. Tamasi e Kiara estavam na cozinha quando ele cruzou a porta. — Meu querido genro, venha! Eu preparei uma refeição especial para você e a Alya — disse Tamasi, com um sorriso largo. San-jin se aproximou friamente — Por que você me chama de genro se a Alya nem sua filha é? — rebateu San-jin. Kiara olhou para a cara da mãe com aquela expressão de "eu te avisei que não era para tratar ele assim". Tamasi, que estava arrumando o prato de comida, ficou completamente sem graça e tentou disfarçar: — É... é que já é hábito... Eu a considero como uma filha. San-jin olhou para ela, sabendo perfeitamente que tudo aquilo era falsidade. Enquanto isso, Kiara ficava parada, observando cada detalhe e expressão dele. "Esse cara nem parece humano, ele é tão estranho", pensou Kiara, desconfiada daquela frieza toda. — Eu vou levar um prato para a Alya — avisou San-jin. — Todos da vizinhança te elogiam! D
— Ainda acho que você vai roubar o marido da minha irmã.Asha nem piscou, fuzilando-o com os olhos:— Vai para a merda, Ravan!E saiu da presença dele antes que ele pudesse falar mais qualquer besteira Eu entrei em silêncio, e os olhos dele me acompanharam enquanto eu fechava a porta.— Ontem você quase contou todo o nosso segredo para o Kabir — ele disse, respirando fundo.Por dentro, entrei em pânico. Eu realmente não lembrava do que tinha falado com o Kabir. San-jin se aproximou, ficando bem perto do meu rosto:— Você se lembra de alguma coisa?Eu continuei de cabeça baixa, olhando para o chão para disfarçar o nervoso.— Eu só me lembro que você deu uma rasteira nele.San-jin deu um sorriso de canto.— Que bom que você lembrou dessa parte.Olhei para ele com raiva. Na cabeça dele aquilo por acaso era bom?— Olha só, eu me lembro muito bem da nossa briga antes de eu beber — confrontei. — Lembro perfeitamente do motivo.— Exatamente — San-jin concordou. — Você deveria ter sido mais
No restaurante de luxo Adabe, a mesa estava cheia dos pratos mais caros e sofisticados do cardápio, mas o comportamento ali não tinha elegância nenhuma. Ravan e meu pai estavam comendo igual a dois porcos, limpando os pratos com pressa e mastigando de boca cheia. Eles estavam completamente fanáticos pela comida do restaurante luxuoso, aproveitando que não eram eles que iam pagar a conta.San-jin observava os dois discretamente, segurando seu copo com total elegância. O plano de despachar os dois por um tempo estava dando certo. Ele limpou os lábios com o guardanapo de tecido, olhou para o relógio de pulso e se levantou.— Eu tenho que resolver algumas pendências — explicou San-jin, com a voz calma de sempre. — Posso deixar vocês aqui? Volto em quarenta minutos.Ravan, com a boca cheia de carne, olhou para o prato quase intacto do cunhado e franziu a testa, folgado:— Nossa, você come tão pouco! O que vai fazer de tão importante agora?San-jin manteve a expressão tranquila, usando sua
Chega, Ravan! Às vezes você passa dos limites, seu idiota! — Patel brigou logo em seguida, cortando o filho para tentar consertar a burrada, com medo de irritar o genro rico.San-jin piscou, relaxou os músculos do rosto e voltou a olhar para a estrada. Num piscar de olhos, aquela energia assustadora sumiu e ele voltou a usar a sua máscara de bom moço.— Está tudo bem — falou San-jin de um jeito amigável, fingindo que nada tinha acontecido para não levantar suspeitas.Ele continuou dirigindo calmamente em direção ao restaurante, enquanto os dois sanguessugas da minha família não tinham coragem nem de respirar alto ao lado dele.A atendente olhou para nós com atenção:— Quem é a noiva?Eu dei um passo à frente, sentindo o peso do olhar de falcão da Tamasi queimar minhas costas.— Sou eu — respondi.E, naquele momento, percebi que o teatro mais perigoso da minha vida estava apenas começando.— Temos vários tipos de modelos que vão ficar lindos em você — disse a atendente, educada.Tamasi
No banco de trás, a Kiara encolheu os ombros, visivelmente sem graça ao ver a mãe agir de forma tão arrogante e sem noção. Ela olhou para mim pelo retrovisor com um pedido mudo de desculpas nos olhos.O motorista, que eu também havia contratado junto com o carro, apenas escutava aquela conversa estranha pelo retrovisor, mantendo a postura profissional enquanto o clima esquentava no banco de trás.Tamasi ajeitou o corpo no banco de couro, cruzou as pernas e disparou mais uma pergunta cheia de interesse e malícia:— E a lua de mel, onde vocês vão passar? Em Londres? Paris?Eu apertei os dentes. Estava ficando extremamente incomodada porque, obviamente, eu e o San-jin não tínhamos falado nada sobre isso. Para um casamento de fachada, uma viagem romântica internacional não era nem um pouco necessária. Eu mal conseguia olhar para ele sem lembrar do passado de mafioso, quem dirá planejar uma lua de mel!Percebendo o meu silêncio tenso, Kiara tentou intervir com a voz mansa:— Mãe, por favor







