Masuk“Há lugares que continuam esperando por nós, mesmo quando já não sabemos como voltar.”
Adrian ainda olhava para a tela do celular quando Gabriel estacionou diante da mansão.
Lívia não havia respondido à última mensagem.
Talvez tivesse finalmente ido dormir. Talvez estivesse preparando outra resposta atrevida. A lembrança dela segurando a barra da camiseta, com o queixo erguido e os olhos firmes nos seus, trouxe um sorriso breve ao seu rosto.
— Chegamos — Gabriel avisou.
Adrian guardou o aparelho e olhou para a casa.
O sorriso desapareceu.
As luzes da entrada permaneciam acesas, iluminando os degraus de pedra e as duas colunas junto à porta. Tudo parecia no mesmo lugar, e aquela familiaridade o incomodou mais do que esperava.
— Quer que eu entre com você?
Adrian demorou um instante para responder.
— Não precisa. Vá descansar.
Gabriel desligou o motor.
— Posso ficar um pouco.
Ele se virou para o amigo.
— Você está tentando me dizer alguma coisa?
Gabriel sustentou seu olhar antes de baixar os olhos para as chaves.
— Só estou oferecendo companhia.
Adrian soltou o ar devagar.
— Obrigado. Mas preciso entrar naquela casa sozinho em algum momento.
O amigo assentiu.
Antes de descer, Adrian tornou a pegar o celular. Abriu a conversa com Elena e escreveu:
“Já cheguei. Descanse, minha principessa. Espero você de manhã.”
Permaneceu olhando para a mensagem por alguns segundos, depois guardou o aparelho.
— Avise quando chegar — disse a Gabriel.
— Pode deixar.
O carro só partiu depois que Adrian alcançou a porta.
Ele encontrou a chave certa no molho, embora tivesse passado boa parte do caminho tentando lembrar onde a havia guardado. Girou-a na fechadura e entrou.
O cheiro da casa o atingiu primeiro.
Madeira encerada, flores frescas e alguma coisa que vinha da cozinha. Maria provavelmente havia preparado café quando soube que ele estava voltando.
Adrian fechou a porta com cuidado.
A mala estava junto ao aparador, onde alguém a deixou depois de buscá-la no carro. Ao lado, um vaso ocupava o lugar de uma antiga peça de porcelana que sua mãe nunca permitia que os filhos tocassem.
Noah tinha quebrado a tampa numa tarde em que os dois jogavam bola dentro de casa, mas Adrian, que sempre foi o mais impulsivo e danado e já estava acostumado aos castigos, assumiu a culpa, apesar da insistência do irmão, que passou o restante do dia tentando convencê-lo a contar a verdade.
A lembrança veio acompanhada de uma vontade absurda de ouvir sua voz.
Adrian tirou o paletó e o colocou sobre a mala.
— Senhor Adrian?
Maria apareceu na passagem para a sala, usando um casaco sobre a roupa de dormir. Seus cabelos estavam presos e, apesar do cansaço, ela se aproximou depressa.
Ele franziu a testa.
— Por que ainda está acordada?
— Estava esperando.
— Não precisava.
Maria parou diante dele e examinou seu rosto com a atenção de quem ainda procurava reconhecer o menino sob a barba e os anos de ausência.
— Encontrou minha menina?
— Encontrei. Está na casa de uma amiga.
Os ombros dela relaxaram.
— Da Lívia.
— Você a conhece?
Pela primeira vez, Maria sorriu.
— Conheço.
Adrian se lembrou da porta aberta, da discussão e do dedo apontado em sua direção.
— Imagino que ela já tenha dado algumas ordens por aqui.
— Algumas — Maria respondeu, sem esconder o carinho. — Principalmente quando acha que alguém não está cuidando direito da Elena.
Ele baixou os olhos por um instante.
— Ela deixou isso bastante claro.
Maria não respondeu.
Adrian percebeu o silêncio e voltou a encará-la.
— Elena disse que vem de manhã.
— Ela falou com o senhor?
— Um pouco. Estava cansada.
Maria apertou uma das mãos na outra.
— Sim. Ela precisa descansar.
Havia alguma coisa na maneira como a mulher pronunciou aquelas palavras, mas Adrian estava exausto demais para compreender o quê.
— Amanhã conversamos — acrescentou. — Quero entender por que ela não está ficando aqui.
Maria abriu os lábios, hesitou e assentiu.
— Preparei seu quarto.
— Obrigado.
Ela tocou seu braço antes que ele se afastasse.
— É bom ter você em casa.
Adrian olhou para a mão enrugada sobre sua camisa e a cobriu com a sua.
— Vá dormir, Maria.
Esperou que ela se recolhesse antes de pegar a mala e subir.
Conhecia a distância entre os degraus. Sabia qual deles fazia um ruído discreto sob seu peso e onde o corrimão havia sido restaurado depois de uma queda de Elena, ainda pequena.
Noah havia ficado mais assustado que a filha.
Ela chorou durante dois minutos enquanto o seu irmão passava o restante da noite conferindo se o pequeno corte no joelho precisava de outro curativo.
Adrian parou no corredor.
A porta do quarto de Elena estava entreaberta. Mais adiante, a do irmão permanecia fechada.
Ele levou a mala até o próprio quarto, acendeu a luz e a deixou junto à cama.
Maria havia colocado toalhas limpas no banheiro e uma garrafa de água sobre a mesa. As cortinas estavam abertas, e o jardim surgia escuro do outro lado das janelas.
Adrian retirou a gravata, desabotoou o colarinho e ficou imóvel no meio do cômodo.
Embora pudesse tomar um banho e se deitar até o amanhecer, Adrian voltou ao corredor e parou diante do quarto de Noah, segurando a maçaneta enquanto se lembrava da discussão que tinha tido com o irmão na última vez em que estiveram ali juntos.
Noah queria que ele ficasse para um jantar. Adrian tinha um voo marcado e nenhuma disposição para outra noite de cobranças do pai.
A conversa havia terminado mal.
Ele ainda se lembrava da expressão do irmão quando lhe disse que não podia reorganizar a própria vida sempre que a família decidisse reuni-los à mesa.
Agora, daria qualquer coisa para ter perdido aquele voo.
Abriu a porta.
O quarto estava arrumado, sem roupas sobre as cadeiras nem livros abertos junto à cama. Adrian entrou devagar e acendeu o abajur.
Uma fotografia de Noah com Elena permanecia na mesa de cabeceira.
A sobrinha devia ter oito ou nove anos. Estava sem um dos dentes da frente e segurava um peixe pequeno, enquanto o pai sorria atrás dela, orgulhoso demais para alguém que passou horas tentando ensinar a filha a lançar uma linha.
Adrian pegou o porta-retrato.
Foi ele quem tirou aquela fotografia.
Passou o polegar pela borda e tornou a colocá-lo no lugar. Ao afastar a mão, percebeu a ponta de um envelope sob a gaveta mal fechada.
Puxou-a para acomodar o papel e percebeu que dentro havia uma caixa estreita de madeira.
Adrian a reconheceu. Noah a usava para guardar cartas, fotografias e pequenas coisas que se recusava a jogar fora.
Sentou-se na beirada da cama e ergueu a tampa, encontrando vários envelopes presos por uma fita e endereçados com a letra do irmão, mas franziu a testa ao reconhecer o nome escrito no primeiro.
“Samantha.”
Adrian aproximou o envelope da luz.
A data era de poucas semanas antes da morte de Noah. Por um longo momento, apenas olhou para aquelas letras.
Depois, desdobrou a primeira página.
“Há uma verdade que eu devia ter tido coragem de contar a você.”
“Depois de conhecer a boca dele, sentar ao seu lado exigia uma coragem diferente.”Lívia MoreauA porta se fechou depois da saída de Elena e Gabriel, e fiquei alguns segundos olhando para os lírios que tinha colocado num vaso.Adrian ainda estava perto da entrada quando me virei.— Você esqueceu de perguntar o tipo sanguíneo.Ele guardou o telefone no bolso e me encarou.— De quem?— Do Gabriel. Já conferiu a reserva, o endereço e o horário. Podia aproveitar e completar o cadastro.O canto de sua boca se moveu.
“Eu conhecia o cuidado dele. Naquela noite, descobri o desejo de ficar.”Elena CastelliGabriel demorou alguns instantes para responder. Seu sorriso deu lugar a uma expressão pensativa, e esperei, com os dedos ainda junto ao guardanapo.— Não sei dizer um dia exato.— Mas lembra de alguma coisa?Ele assentiu.— Lembro de uma tarde em que você foi à empresa, quando seu pai ainda estava vivo. Você tinha dezessete anos. Ficou na minha sala esperando por ele, e conversamos por quase uma hora.Sorri com a lembrança.
“Eu tinha passado o dia escolhendo o vestido. Quando ele chegou, esqueci até o que pretendia dizer.”Elena Castelli— Se você trocar de vestido outra vez, vou sair com Gabriel no seu lugar.Encontrei o olhar de Lívia pelo espelho.— Você disse que gostou mais do preto.— E gostei. Também gostei dele quando você vestiu pela primeira vez, há vinte minutos.Passei as mãos pela saia, tentando decidir se estava curta demais. O vestido terminava um pouco acima dos joelhos, tinha alças delicadas e um decote discreto. Eu gostava dele. Sempre gostei.
“Bastava ele me olhar para eu esquecer o cuidado que tinha prometido ter.”Livia MoreauEntramos na piscina pouco depois.Elena nadou até a outra borda, e acompanhei mais devagar, gostando da água fresca depois do calor. Ficamos apoiadas lado a lado, conversando sobre o restaurante que Gabriel escolheu e sobre o vestido que ela ainda não tinha decidido usar.Eu tentava convencê-la de que não precisava esvaziar o guarda-roupa quando ouvi a porta da varanda.Adrian saiu segurando uma xícara.A camisa estava aberta no colarinho, as mangas dobradas e o cabelo ainda levemente úmido. Ele parou perto da mesa, olhou para n&oacu
“Ela queria me contar sobre o primeiro beijo. Eu precisava tomar cuidado para não deixar escapar o meu.”Lívia MoureuElena esperou que eu me acomodasse na espreguiçadeira para anunciar:— Gabriel me beijou.Parei com a garrafa de água a meio caminho da boca e virei o rosto.Ela estava sentada na cadeira ao lado, com as pernas dobradas e um sorriso que tentava esconder desde que descemos para a piscina.— E você esperou até agora para me contar?— Ontem eu procurei você, mas tinha sumido.Baixei a garrafa.Eu tinha uma lembrança bastante precisa de onde estava.— Nos desencontramos. Depois, com todo mundo indo embora…— Eu sei. E você foi dormir cedo.Tinha me recolhido cedo, já dormir era outra história.Adormeci ainda excitada, lembrando a boca de Adrian, as mãos na minha cintura e tudo o que fiquei querendo depois que saí do escritório. Naquela manhã, as lembranças continuavam tão vivas que precisei me esforçar para sentar à mesa diante dele e responder a Maria sem perder o fio da
“Eu conhecia todos os motivos para parar. Mesmo assim, queria combinar quando aconteceria outra vez.”Adrian CastelliLívia olhou para os botões da minha camisa antes de erguer o rosto com um sorriso.— Você está me dando ideias, titio.Segurei sua mão antes que os dedos avançassem até o próximo botão.— Você já tem idéias demais.— E você parece gostar de algumas.Sorri, ainda segurando sua mão. Negar àquela altura seria ridículo, principalmente com a outra mão firme em sua cintura. Eu tinha acabado de beijá-la contra a estante do meu escritório, ainda sentia suas unhas na minha nuca e continuava segurando sua cintura, excitado demais para soltá-la. Minha vontade mesmo, era arrancar aquele biquíni e fazer ela gemer o meu nome por horas. Ela acompanhou meu olhar até sua boca.— Vai me mandar sair mesmo?— Estou tentando.Lívia soltou uma risada baixa, satisfeita demais com a dificuldade.Afastei-me o suficiente para deixá-la passar, mas ela permaneceu diante de mim, ajeitando a faix







