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Capítulo 03 - A Casa Que Ele Deixou

Penulis: Annanda
last update Tanggal publikasi: 2026-10-16 22:39:41

“Há lugares que continuam esperando por nós, mesmo quando já não sabemos como voltar.”

Adrian ainda olhava para a tela do celular quando Gabriel estacionou diante da mansão.

Lívia não havia respondido à última mensagem.

Talvez tivesse finalmente ido dormir. Talvez estivesse preparando outra resposta atrevida. A lembrança dela segurando a barra da camiseta, com o queixo erguido e os olhos firmes nos seus, trouxe um sorriso breve ao seu rosto.

— Chegamos — Gabriel avisou.

Adrian guardou o aparelho e olhou para a casa.

O sorriso desapareceu.

As luzes da entrada permaneciam acesas, iluminando os degraus de pedra e as duas colunas junto à porta. Tudo parecia no mesmo lugar, e aquela familiaridade o incomodou mais do que esperava.

— Quer que eu entre com você?

Adrian demorou um instante para responder.

— Não precisa. Vá descansar.

Gabriel desligou o motor.

— Posso ficar um pouco.

Ele se virou para o amigo.

— Você está tentando me dizer alguma coisa?

Gabriel sustentou seu olhar antes de baixar os olhos para as chaves.

— Só estou oferecendo companhia.

Adrian soltou o ar devagar.

— Obrigado. Mas preciso entrar naquela casa sozinho em algum momento.

O amigo assentiu.

Antes de descer, Adrian tornou a pegar o celular. Abriu a conversa com Elena e escreveu:

“Já cheguei. Descanse, minha principessa. Espero você de manhã.”

Permaneceu olhando para a mensagem por alguns segundos, depois guardou o aparelho.

— Avise quando chegar — disse a Gabriel.

— Pode deixar.

O carro só partiu depois que Adrian alcançou a porta.

Ele encontrou a chave certa no molho, embora tivesse passado boa parte do caminho tentando lembrar onde a havia guardado. Girou-a na fechadura e entrou.

O cheiro da casa o atingiu primeiro.

Madeira encerada, flores frescas e alguma coisa que vinha da cozinha. Maria provavelmente havia preparado café quando soube que ele estava voltando.

Adrian fechou a porta com cuidado.

A mala estava junto ao aparador, onde alguém a deixou depois de buscá-la no carro. Ao lado, um vaso ocupava o lugar de uma antiga peça de porcelana que sua mãe nunca permitia que os filhos tocassem.

Noah tinha quebrado a tampa numa tarde em que os dois jogavam bola dentro de casa, mas Adrian, que sempre foi o mais impulsivo e danado e já estava acostumado aos castigos, assumiu a culpa, apesar da insistência do irmão, que passou o restante do dia tentando convencê-lo a contar a verdade.

A lembrança veio acompanhada de uma vontade absurda de ouvir sua voz.

Adrian tirou o paletó e o colocou sobre a mala.

— Senhor Adrian?

Maria apareceu na passagem para a sala, usando um casaco sobre a roupa de dormir. Seus cabelos estavam presos e, apesar do cansaço, ela se aproximou depressa.

Ele franziu a testa.

— Por que ainda está acordada?

— Estava esperando.

— Não precisava.

Maria parou diante dele e examinou seu rosto com a atenção de quem ainda procurava reconhecer o menino sob a barba e os anos de ausência.

— Encontrou minha menina?

— Encontrei. Está na casa de uma amiga.

Os ombros dela relaxaram.

— Da Lívia.

— Você a conhece?

Pela primeira vez, Maria sorriu.

— Conheço.

Adrian se lembrou da porta aberta, da discussão e do dedo apontado em sua direção.

— Imagino que ela já tenha dado algumas ordens por aqui.

— Algumas — Maria respondeu, sem esconder o carinho. — Principalmente quando acha que alguém não está cuidando direito da Elena.

Ele baixou os olhos por um instante.

— Ela deixou isso bastante claro.

Maria não respondeu.

Adrian percebeu o silêncio e voltou a encará-la.

— Elena disse que vem de manhã.

— Ela falou com o senhor?

— Um pouco. Estava cansada.

Maria apertou uma das mãos na outra.

— Sim. Ela precisa descansar.

Havia alguma coisa na maneira como a mulher pronunciou aquelas palavras, mas Adrian estava exausto demais para compreender o quê.

— Amanhã conversamos — acrescentou. — Quero entender por que ela não está ficando aqui.

Maria abriu os lábios, hesitou e assentiu.

— Preparei seu quarto.

— Obrigado.

Ela tocou seu braço antes que ele se afastasse.

— É bom ter você em casa.

Adrian olhou para a mão enrugada sobre sua camisa e a cobriu com a sua.

— Vá dormir, Maria.

Esperou que ela se recolhesse antes de pegar a mala e subir.

Conhecia a distância entre os degraus. Sabia qual deles fazia um ruído discreto sob seu peso e onde o corrimão havia sido restaurado depois de uma queda de Elena, ainda pequena.

Noah havia ficado mais assustado que a filha.

Ela chorou durante dois minutos enquanto o seu irmão passava o restante da noite conferindo se o pequeno corte no joelho precisava de outro curativo.

Adrian parou no corredor.

A porta do quarto de Elena estava entreaberta. Mais adiante, a do irmão permanecia fechada.

Ele levou a mala até o próprio quarto, acendeu a luz e a deixou junto à cama.

Maria havia colocado toalhas limpas no banheiro e uma garrafa de água sobre a mesa. As cortinas estavam abertas, e o jardim surgia escuro do outro lado das janelas.

Adrian retirou a gravata, desabotoou o colarinho e ficou imóvel no meio do cômodo.

Embora pudesse tomar um banho e se deitar até o amanhecer, Adrian voltou ao corredor e parou diante do quarto de Noah, segurando a maçaneta enquanto se lembrava da discussão que tinha tido com o irmão na última vez em que estiveram ali juntos.

Noah queria que ele ficasse para um jantar. Adrian tinha um voo marcado e nenhuma disposição para outra noite de cobranças do pai.

A conversa havia terminado mal.

Ele ainda se lembrava da expressão do irmão quando lhe disse que não podia reorganizar a própria vida sempre que a família decidisse reuni-los à mesa.

Agora, daria qualquer coisa para ter perdido aquele voo.

Abriu a porta.

O quarto estava arrumado, sem roupas sobre as cadeiras nem livros abertos junto à cama. Adrian entrou devagar e acendeu o abajur.

Uma fotografia de Noah com Elena permanecia na mesa de cabeceira.

A sobrinha devia ter oito ou nove anos. Estava sem um dos dentes da frente e segurava um peixe pequeno, enquanto o pai sorria atrás dela, orgulhoso demais para alguém que passou horas tentando ensinar a filha a lançar uma linha.

Adrian pegou o porta-retrato.

Foi ele quem tirou aquela fotografia.

Passou o polegar pela borda e tornou a colocá-lo no lugar. Ao afastar a mão, percebeu a ponta de um envelope sob a gaveta mal fechada.

Puxou-a para acomodar o papel e percebeu que dentro havia uma caixa estreita de madeira.

Adrian a reconheceu. Noah a usava para guardar cartas, fotografias e pequenas coisas que se recusava a jogar fora.

Sentou-se na beirada da cama e ergueu a tampa, encontrando vários envelopes presos por uma fita e endereçados com a letra do irmão, mas franziu a testa ao reconhecer o nome escrito no primeiro.

“Samantha.”

Adrian aproximou o envelope da luz.

A data era de poucas semanas antes da morte de Noah. Por um longo momento, apenas olhou para aquelas letras.

Depois, desdobrou a primeira página.

“Há uma verdade que eu devia ter tido coragem de contar a você.”

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