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Capítulo 02 - Entre Ordens e Cuidados 

مؤلف: Annanda
last update تاريخ النشر: 2026-10-16 22:39:13

“Ele estava acostumado a dar ordens. Ela tinha suas próprias maneiras de cuidar — e nenhuma intenção de obedecer.”

Elena havia passado os últimos dias sem coragem de atender às ligações do tio. Agora que ele estava diante dela, só conseguia pensar em chegar aos seus braços.

Desceu as escadas depressa.

Adrian a encontrou antes que alcançasse a porta e a envolveu num abraço. Elena agarrou sua camisa, escondendo o rosto contra o peito que tanto lhe lembrava o do pai.

A semelhança doeu. A saudade também.

— Eu senti tanto a sua falta…

Ele fechou os olhos e apertou o abraço.

— Eu estou aqui, minha principessa.

Lívia permaneceu ao lado deles, em silêncio. Queria acreditar que, dessa vez, ele ficaria tempo suficiente para entender o que sua ausência havia deixado.

Adrian se afastou apenas o suficiente para olhar seu rosto.

— O que aconteceu? Por que não está em casa com Maria? E por que não atende às minhas ligações?

Elena baixou os olhos.

— Estou ficando aqui com a Lívia.

— Isso eu percebi. Quero saber por que não falou comigo.

Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Lívia viu Elena apertar os lábios e baixar ainda mais o rosto. Não conseguiu ficar calada.

— Porque ela ainda não quer conversar.

Adrian ergueu os olhos.

— Eu perguntei à minha sobrinha.

— E eu estou vendo que ela não consegue responder.

— Lívia… — Elena murmurou.

A voz da amiga conteve sua irritação. Lívia tocou suas costas e afastou uma mecha de cabelo de seu rosto.

— Você quer ficar aqui?

Elena assentiu.

— Então fica.

Adrian soltou devagar os braços da sobrinha.

— Podemos conversar um instante? — perguntou a Lívia.

— Estamos conversando.

— Sem colocar Elena no meio.

Lívia apertou os lábios. Ele tinha razão naquele ponto, e isso não ajudou em nada seu humor.

Voltou-se para a amiga e ajeitou a gola de seu moletom.

— Vai beber um pouco de água. Eu já vou.

Gabriel se aproximou.

— Venha, Elena. Eu acompanho você.

Ela olhou para o tio antes de se afastar.

— Eu já volto.

Adrian esperou os dois entrarem na cozinha.

— Não decida por ela.

— Eu perguntei o que ela queria. Você ouviu a resposta.

— Você não sabe o que existe entre mim e a minha sobrinha.

— Sei que ela sente sua falta.

Ele ficou imóvel.

Lívia baixou a voz, mas continuou:

— Sei que esperou por você na formatura. E sei que não precisa ser interrogada na porta de casa às quatro da manhã.

Adrian deu um passo à frente.

— Acha que eu não queria ter estado lá?

— Não sei. Você vai ter que explicar isso a ela.

A proximidade a fez perceber o cansaço em seu rosto. Havia sombras sob seus olhos, e a camisa estava amarrotada junto à cintura.

O perfume dele chegou até ela.

Por um instante, Lívia olhou para o colarinho aberto. Quando ergueu os olhos, Adrian a observava.

O olhar dele desceu até sua boca.

Ela puxou novamente a camiseta.

— E pare de me olhar desse jeito.

— Que jeito?

— Você sabe.

Um dos cantos da boca dele se moveu.

Lívia apontou um dedo em sua direção.

— Estou falando sério.

— Eu percebi. Você tem feito isso desde que abri a boca.

— Porque você parece achar que basta chegar e dar uma ordem.

Adrian olhou para o dedo entre os dois e depois para ela.

— Estou tentando entender por que minha sobrinha não quer voltar para casa.

A preocupação na voz dele conteve a resposta que Lívia já preparava.

Baixou a mão.

— Então escute quando ela pede para ficar.

Ele olhou na direção da cozinha.

Elena estava ao lado de Gabriel, segurando um copo com as duas mãos. O amigo dizia alguma coisa em voz baixa, e ela o escutava com a cabeça inclinada.

Adrian voltou a encarar Lívia.

— Ela está bem aqui?

— Eu amo aquela menina, Adrian. Vou cuidar dela.

Ele sustentou seu olhar por alguns segundos.

Lívia não recuou. Poderia discutir com ele até amanhecer, mas precisava que entendesse aquilo.

— De manhã eu volto — ele disse.

— Venha num horário decente.

Adrian ergueu uma sobrancelha.

— Você sempre precisa ter a última palavra?

— Na minha casa? Preciso.

Dessa vez, ele sorriu, e Lívia sentiu o estômago se contrair, irritada com o efeito que aquele homem começava a provocar nela.

— Elena — ele chamou, mantendo os olhos em Lívia por mais um instante. — Venha se despedir de mim.

A amiga voltou com Gabriel e parou diante do tio.

— Você vai embora?

— Vou deixar você descansar.

Elena segurou sua mão.

Adrian olhou para os dedos dela antes de envolvê-los nos seus.

— Mas venho buscar você de manhã. Vamos tomar café juntos e conversar.

Elena apertou a mão dele.

— Não precisa vir me buscar, tio. Amanhã cedo eu volto para casa e conversamos lá.

Adrian observou seu rosto por um instante antes de assentir.

— Está bem. Vou esperar você.

Adrian tocou sua bochecha.

— Eu amo você, minha principessa. Nunca duvide disso.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Eu também te amo, tio.

Ele a abraçou mais uma vez. Lívia esperou, em silêncio, até que os dois se soltassem.

Quando Adrian se voltou para sair, encontrou Lívia junto à porta.

— Obrigado por recebê-la.

A sinceridade inesperada a desarmou por um instante.

— Elena não precisa pedir para vir.

Ele assentiu, mas, antes de atravessar a porta, seus olhos baixaram até a mão com que ela segurava a barra da camiseta.

Lívia estreitou os olhos.

— Esqueceu alguma coisa?

Adrian voltou a encará-la, com um princípio de sorriso.

— Você sempre é tão atrevida, menina?

Ela ergueu o queixo.

— Só quando o titio precisa ouvir umas verdades.

O sorriso dele se acentuou.

— Cuidado. Posso acabar gostando das nossas conversas.

— Então venha preparado para escutar.

Adrian se aproximou um pouco, o suficiente para fazê-la apertar os dedos no tecido.

— Você vai deixar?

Lívia sentiu o calor subir pelo pescoço, mas sustentou seu olhar.

— Se souber pedir com educação.

Por um instante, ele olhou para a boca dela.

— Boa noite, menina.

Lívia abriu mais a porta, indicando a saída.

— Juízo, titio.

Adrian soltou uma risada baixa antes de passar por ela, e Lívia precisou esperar que ele lhe desse as costas para soltar a barra da camiseta.

Gabriel se despediu e acompanhou o amigo até o carro.

Lívia fechou a porta, girou a chave e se virou para Elena.

— Quer mais água?

A amiga negou.

— Quero dormir.

Lívia passou um braço por seus ombros.

— Então vamos.

Começaram a subir juntas.

— Você brigou com meu tio — Elena comentou baixinho.

— Seu tio chegou procurando confusão.

— Ele chegou procurando por mim.

Lívia olhou para ela.

Elena tinha um pequeno sorriso no rosto. Cansado, ainda triste, mas era um sorriso.

Lívia apertou seu ombro e olhou para a porta.

— Seu tio é sempre assim?

— Assim como?

Ela hesitou, lembrando-se da facilidade com que ele passara da discussão àquele sorriso provocador.

— Parece que está dando uma ordem até quando deseja boa noite.

Elena soltou uma risada curta.

— Você não pareceu muito disposta a obedecer.

— Não estou.

A amiga encostou a cabeça em seu ombro, e Lívia a acompanhou escada acima, ainda tentando entender como o homem que tanto a irritava conseguiu deixá-la curiosa para o próximo encontro.

Dentro do carro, Adrian permaneceu olhando para a casa.

Gabriel colocou o cinto, mas não ligou o motor.

— Antes que diga alguma coisa, a Lívia está cuidando muito bem dela.

Adrian voltou o rosto para o amigo.

— Eu percebi.

— Ela é assim quando está preocupada com Elena.

— Assim como?

Gabriel lançou-lhe um olhar.

— Você acabou de conhecê-la. Acho que dispensa explicação.

Adrian olhou novamente para a porta fechada.

A preocupação com a sobrinha continuava ali. Havia perguntas que Elena não respondeu e um desconforto que não desapareceu ao vê-la.

Mas ela o abraçou e prometeu voltar para casa pela manhã. Adrian estaria esperando, com tempo para ouvir tudo o que a sobrinha quisesse lhe dizer.

Gabriel ligou o carro.

— E tente não discutir com a Lívia.

Adrian afrouxou um pouco mais a gravata, mas o gesto não afastou a lembrança de Lívia junto à porta, erguendo o queixo para chamá-lo de titio.

— Ela sempre foi amiga da minha sobrinha?

— Há bastante tempo.

— E sempre teve essa língua afiada?

Gabriel olhou para ele antes de voltar a atenção à rua.

— Se está pensando em provocá-la de novo, eu teria cuidado.

Adrian sorriu.

— Acha que não dou conta de uma menina atrevida?

— Acho que você já deveria estar me perguntando sobre Elena.

O sorriso desapareceu aos poucos.

Gabriel tinha razão. A sobrinha continuava sendo sua preocupação, e havia muita coisa que precisava entender pela manhã.

Ainda assim, quando o celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido, Adrian abriu imediatamente.

“Elena já está deitada. Amanhã eu a levo para casa. Não precisa tocar a campainha para conferir, titio.”

Ele releu a última palavra e salvou o número antes de responder.

“Boa noite, menina. Agora que tenho seu telefone, não vou precisar da campainha.”

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