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CAPÍTULO 4 - A Rainha

last update publish date: 2026-08-30 06:31:53

Aurora Valença.

Esse era meu nome.

E, naquela noite, eu havia me tornado a rainha dos Lycans.

Ainda parecia impossível.

As portas da igreja se abriram diante de nós.

Uma explosão de luz atravessou o corredor, acompanhada pelo som das trombetas e pelos aplausos das centenas de pessoas reunidas do lado de fora.

Meu marido estendeu a mão.

Eu hesitei por um instante.

Então a coloquei sobre a dele.

Seus dedos se fecharam ao redor dos meus.

Quentes.

Firmes.

Seguros.

Caminhamos juntos pelos degraus da igreja.

De mãos dadas.

Todos nos observavam.

Eu deveria estar sorrindo.

Então sorri.

Era o que uma rainha fazia.

Mesmo quando seu coração estava confuso.

O que eu não entendia era a sensação que aquela mão me causava.

Eu estava desconfortável.

Muito.

Mas, ao mesmo tempo, havia alguma coisa estranhamente reconfortante em caminhar ao lado dele.

Como se, enquanto estivesse segurando minha mão, nada pudesse me alcançar.

Aquilo não fazia sentido.

Eu mal o conhecia.

Por que me sentia protegida ao lado de um homem que deveria ser apenas um estranho?

Puxei minha mão discretamente.

Ele percebeu.

Mas não comentou.

Apenas diminuiu o passo para acompanhar o meu.

No final dos degraus, outra onda de aplausos nos recebeu.

Havia carruagens, carros e dezenas de membros da guarda real esperando para conduzir os convidados até o local da recepção.

A festa aconteceria em uma propriedade pertencente a uma das famílias mais antigas do reino.

O salão de celebrações ficava no coração de um enorme jardim.

E, quando chegamos, compreendi por que todos haviam falado tanto sobre aquela noite.

O lugar parecia ter saído de um conto de fadas.

Centenas de pequenas luzes estavam espalhadas pelas árvores.

Flores brancas cobriam os caminhos.

Grandes mesas haviam sido dispostas sob uma estrutura de vidro, permitindo que a luz da lua iluminasse a festa.

No centro, uma pista de dança cercada por arranjos florais aguardava os noivos.

Era deslumbrante.

E, por alguns segundos, consegui esquecer que aquele casamento havia começado como um acordo.

— Majestades.

A primeira onda de convidados se aproximou.

Kael mudou completamente.

O homem que permanecera silencioso ao meu lado tornou-se o rei.

Postura impecável.

Expressão controlada.

Olhar firme.

— Lorde Adrian Blackwood — ele apresentou.

O homem à nossa frente fez uma reverência.

— Majestade. Minha rainha.

Sorri.

— Lorde Adrian.

— É uma honra conhecê-la, minha rainha.

Ao lado dele estava uma mulher elegante, de cabelos castanhos presos em um penteado elaborado.

— Lady Helena Blackwood.

Ela fez uma reverência.

— Espero que seja muito feliz em nosso reino, minha rainha.

Aquelas palavras me pegaram desprevenida.

Muito feliz.

Eu nem sequer sabia se seria feliz.

Mas agradeci com um sorriso.

— Obrigada.

Os cumprimentos continuaram.

Vieram os representantes das grandes famílias.

Nobres.

Guerreiros.

Alfas.

Conselheiros.

Cada um recebia uma palavra educada, uma reverência ou um sorriso.

Eu tentava memorizar todos os nomes.

Nem sempre conseguia.

Kael, porém, parecia conhecer cada pessoa naquele salão.

— Duque Rowan Hale.

— Condessa Elara Voss.

— Lorde Lucian Blackwood.

— General Marcus Thorn.

Eu repetia mentalmente os nomes, tentando guardar cada rosto.

Aquela era a minha nova vida.

Eu precisaria aprender.

Precisaria conhecer aquelas pessoas.

Precisaria descobrir em quem poderia confiar.

E, acima de tudo, precisaria aprender a ser rainha.

Depois de horas cumprimentando convidados, chegou o momento do bolo.

Quando o vi, quase ri.

Era enorme.

Quatro andares cobertos por flores brancas e detalhes dourados.

No topo, duas pequenas figuras representavam um lobo e uma loba.

Kael ficou ao meu lado.

Um fotógrafo pediu que nos aproximássemos.

Ele segurou a faca.

Coloquei minha mão sobre a dele.

Novamente aquela sensação.

Calor.

Proteção.

Familiaridade.

Meu estômago se apertou.

Por que aquilo continuava acontecendo?

Cortamos o primeiro pedaço juntos.

Os convidados aplaudiram.

Eu sorri.

Kael também.

Ou pelo menos tentou.

Havia algo em seu sorriso que parecia ensaiado.

Como se estivesse interpretando o papel de marido perfeito.

Talvez ele também quisesse estar em outro lugar.

A música mudou.

As conversas diminuíram.

O mestre de cerimônias anunciou:

— É chegada a hora da primeira dança dos nossos soberanos.

Meu coração disparou.

Kael estendeu a mão.

— Venha.

Olhei para aquela mão.

— Não sei dançar.

— Sabe.

Franzi a testa.

— Como tem tanta certeza?

Por um instante, ele ficou em silêncio.

Seus olhos encontraram os meus.

Havia alguma coisa naquele olhar.

Algo que eu não conseguia entender.

Então ele respondeu simplesmente:

— Confie em mim.

Não deveria.

Mas coloquei minha mão na dele.

Kael me conduziu até o centro da pista.

A música começou.

Sua mão repousou em minha cintura.

A outra segurou a minha.

Começamos a dançar.

E, contra todas as minhas expectativas, ele conduzia com facilidade.

Eu não precisava pensar.

Apenas acompanhá-lo.

Meu vestido girava pelo salão enquanto centenas de olhos nos observavam.

Por alguns minutos, esqueci que aquilo era um casamento arranjado.

Esqueci que não conhecia aquele homem.

Esqueci que deveria estar procurando uma saída.

Havia apenas a música.

A mão dele em minha cintura.

E aquele olhar impossível de ignorar.

Quando a música terminou, os aplausos preencheram o salão.

Kael inclinou a cabeça em minha direção.

Eu sorri.

Mas assim que ele se afastou, respirei aliviada.

Eu precisava de espaço.

Precisava pensar.

Precisava entender por que aquele homem conseguia bagunçar meus pensamentos com tanta facilidade.

A festa continuou por horas.

Discursos.

Brindes.

Música.

Risadas.

Cumprimentos.

Até que os músicos começaram a diminuir o ritmo e os convidados perceberam que a noite chegava ao fim.

Eu deveria estar aliviada.

Em vez disso, meu estômago se apertou.

Porque a festa significava pessoas.

E pessoas significavam distância.

Agora, não havia mais desculpas.

Eu teria que ir com ele.

Para o palácio.

Para a nossa casa.

Para uma vida que eu ainda não sabia se queria.

Do lado de fora do salão, o carro real nos aguardava.

Preto, longo e elegante, cercado por alguns membros da guarda.

Kael caminhou ao meu lado.

Mais uma vez, estendeu a mão.

Olhei para ela por alguns segundos antes de aceitá-la.

Seus dedos envolveram os meus.

Aquela sensação voltou.

Proteção.

Calor.

E aquela estranha impressão de que, enquanto estivesse ao lado dele, nada poderia me alcançar.

Eu não entendia.

E talvez fosse justamente por isso que precisava tomar cuidado.

Entramos no carro.

Kael entrou logo depois.

A porta se fechou.

E o mundo ficou do lado de fora.

O silêncio mudou tudo.

Não havia convidados.

Não havia música.

Não havia necessidade de sorrir.

Apenas nós dois.

E ele ficou frio.

Completamente frio.

Sentei o mais longe possível.

Olhei pela janela enquanto o salão onde havíamos acabado de celebrar nosso casamento desaparecia atrás de nós.

À frente, as luzes do palácio brilhavam ao longe.

Meu novo lar.

Meu novo reino.

Minha nova prisão.

— Você está desconfortável — Kael disse.

Não olhei para ele.

— Estou cansada.

— Não foi isso que perguntei.

Apertei os dedos sobre o tecido do vestido.

— Então por que perguntou?

Silêncio.

Olhei rapidamente para ele.

Kael estava recostado no banco, observando a estrada através da janela.

A expressão dele era impossível de decifrar.

— Você foge de mim desde que chegou — disse.

Meu coração acelerou.

— Eu não estou fugindo.

Ele virou o rosto.

Seus olhos encontraram os meus.

Aquele olhar.

Novamente aquele olhar.

O mesmo que me deixara confusa na igreja.

O mesmo que parecia procurar alguma coisa em mim.

Desviei os olhos primeiro.

— Estou apenas tentando entender tudo isso.

— Eu também.

A resposta me surpreendeu.

Olhei para ele.

Mas Kael já havia voltado a encarar a estrada.

Eu queria perguntar o que aquilo significava.

Queria perguntar por que ele me olhava daquela maneira.

Queria perguntar se havia alguma coisa sobre mim que eu deveria saber.

Mas não consegui.

Então fiz a única coisa que parecia segura.

Afastei-me ainda mais.

Encostei a cabeça no vidro.

E fechei os olhos.

O carro avançava pelas estradas silenciosas em direção ao palácio.

A cada quilômetro, eu deixava para trás a vida que conhecia.

E me aproximava de uma vida que nunca havia escolhido.

Uma vida ao lado de um homem que eu não conhecia.

Um rei que escondia alguma coisa.

E um casamento que, contra toda a lógica, começava a parecer menos um acordo político...

e mais o começo de alguma coisa que eu ainda não conseguia compreender.

No banco da frente, Elias Ward mantinha os olhos fixos na estrada.

O motorista permanecia em silêncio.

Mas, pelo reflexo do espelho, observou os dois por alguns segundos.

Então voltou os olhos para a estrada.

Ele conhecia Kael havia anos.

Conhecia seu rei melhor do que quase qualquer pessoa.

E sabia que havia alguma coisa diferente naquela noite.

Algo que Kael não estava dizendo.

Algo que, aparentemente, nem mesmo a nova rainha conhecia.

O palácio surgiu no horizonte.

Imenso.

Escuro.

Iluminado apenas por centenas de janelas douradas.

Aurora abriu os olhos.

E, pela primeira vez, percebeu que estava realmente entrando no território do homem que agora chamava de marido.

Ela ainda não sabia.

Mas aquela noite não terminaria quando as portas do palácio se fechassem.

Era ali que sua verdadeira história começaria.

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