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CAPÍTULO 5 - Duas Portas

last update publish date: 2026-08-30 06:35:32

*#Aurora#*

O palácio era ainda maior de perto.

Quando o carro atravessou os enormes portões de ferro, fiquei em silêncio diante da janela.

Torres escuras se erguiam contra o céu noturno.

As paredes de pedra eram iluminadas por tochas, criando sombras que se moviam sobre a fachada.

Era lindo.

Imponente.

Quase assustador.

Eu deveria ter ficado maravilhada.

Uma parte de mim ficou.

Sempre fui uma mulher que acreditava em histórias bonitas.

Em grandes salões.

Em castelos.

Em finais felizes.

Mas aquela noite havia me ensinado que nem todo conto de fadas começava com amor.

Alguns começavam com contratos.

O carro parou diante da entrada principal.

E, mais uma vez, Kael desceu primeiro.

Ele abriu minha porta e estendeu a mão.

Aceitei.

Assim que meus pés tocaram o chão, senti aquela estranha sensação de segurança voltar.

Era irritante.

Eu não queria me sentir protegida por ele.

Não queria começar a depender de uma pessoa que mal conhecia.

Principalmente porque ele parecia tão distante.

Entramos no palácio.

O interior era ainda mais impressionante.

Grandes colunas de pedra.

Tapetes escuros.

Lustres enormes.

Retratos de antigos reis e rainhas observavam cada passo nosso das paredes.

Eu caminhei ao lado de Kael em silêncio.

Nenhum dos dois falou.

Até que ele parou diante de uma grande escadaria.

— Vou mostrar seu quarto.

Meu coração apertou.

Seu quarto.

Não nosso.

Aquilo deveria ter sido um alívio.

Mas, por algum motivo, não foi.

Subimos as escadas.

Seguimos por um corredor silencioso.

Então ele parou diante de uma porta.

— Este será seu quarto.

Olhei para a porta.

Depois para ele.

— Meu quarto?

— Sim.

Ele abriu.

O quarto era lindo.

Havia uma enorme cama no centro.

Cortinas claras.

Uma varanda com vista para os jardins.

Uma lareira.

Flores frescas sobre uma mesa.

Tudo havia sido preparado cuidadosamente.

Era exatamente o tipo de quarto que uma garota romântica como eu teria imaginado um dia.

E, mesmo assim, naquela noite, parecia vazio.

— O seu quarto fica onde? — perguntei.

Kael apontou para a porta do outro lado do corredor.

— Ali.

Olhei para ela.

Uma porta separava nossos quartos.

Uma simples porta.

E, estranhamente, aquela distância parecia enorme.

— Entendi.

Kael permaneceu parado.

Eu esperei.

Talvez ele dissesse alguma coisa.

Talvez perguntasse se eu estava bem.

Talvez falasse sobre o casamento.

Talvez simplesmente dissesse boa noite.

Mas ele não fez nada disso.

Apenas me olhou.

Novamente aquele olhar.

Intenso.

Difícil de compreender.

Meu peito apertou.

— Boa noite, Majestade.

A expressão dele mudou quase imperceptivelmente.

— Boa noite, Aurora.

Meu nome na voz dele soou diferente.

Íntimo demais.

Desviei os olhos.

Entrei no quarto.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, fechei a porta.

Encostei as costas nela.

E finalmente permiti que minha expressão desabasse.

O silêncio era enorme.

Eu estava sozinha.

Completamente sozinha.

Olhei ao redor.

A cama enorme.

As flores.

A lareira apagada.

O vestido ainda sobre meu corpo.

A coroa sobre meus cabelos.

Eu era uma rainha.

E nunca havia me sentido tão pequena.

Sentei na beirada da cama.

Por alguns minutos, apenas fiquei ali.

Então tirei a coroa.

Coloquei-a sobre a mesa.

Meu casamento estava terminado.

A festa havia acabado.

O reino havia me recebido.

E agora eu estava em um quarto que não conhecia, em um palácio que não era meu, ao lado de um homem que eu não conhecia.

Meu marido.

A palavra ainda parecia estranha.

Passei os dedos pelos cabelos.

Eu queria chorar.

Mas não chorei.

Não permitiria.

Eu havia sido criada para ser forte.

E, naquela noite, eu precisava ser.

Talvez amanhã fosse diferente.

Talvez com o tempo eu aprendesse a viver naquele lugar.

Talvez aprendesse a conhecer Kael.

Talvez até pudesse encontrar alguma felicidade.

Mas, naquela noite, eu não permitiria que meu coração criasse expectativas.

Porque havia uma verdade que precisava aceitar.

Kael não tinha escolhido aquele casamento por mim.

Ele havia escolhido pelo reino.

Assim como eu.

Era apenas um acordo.

Uma aliança.

Um contrato vestido de branco.

E eu não seria tola o suficiente para esperar amor de um homem que nunca havia olhado para mim como uma mulher.

Fechei os olhos.

Mas imediatamente me lembrei do beijo.

Meu coração apertou.

Aquele beijo tinha sido diferente.

Mágico.

E era justamente por isso que eu precisava esquecê-lo.

Não podia transformar um momento em uma esperança.

Eu precisava me proteger.

Então me levantei.

Retirei o vestido.

Coloquei uma camisola simples.

Apaguei as luzes.

Deitei.

Mas o sono não veio.

Fiquei olhando para o teto escuro.

Pensando em tudo que havia acontecido.

Até que uma última pergunta surgiu.

Por que ele me olhava daquela maneira?

Não encontrei resposta.

E, naquela noite, decidi que não procuraria.

Ainda não.

*#Kael#*

Fechei a porta do meu quarto.

E permaneci parado.

Não conseguia respirar direito.

Ela estava aqui.

Aurora.

No quarto ao lado.

Depois de tantos anos, ela estava finalmente dentro do meu palácio.

Minha esposa.

A mulher que eu havia procurado sem sequer saber se algum dia teria a chance de encontrá-la.

Passei a mão pelo rosto.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Quando aceitei aquele casamento, pensei que receberia uma desconhecida.

Uma mulher que eu aprenderia a conhecer com o tempo.

Uma aliança política.

Nada mais.

Por isso havia preparado dois quartos.

Um para mim.

Um para ela.

Uma distância segura.

Limites.

Controle.

Agora eu queria rir da minha própria ingenuidade.

Se eu soubesse que era ela...

Não teria preparado um segundo quarto.

Talvez tivesse preparado uma vida inteira.

Fechei os olhos.

A lembrança do beijo voltou imediatamente.

Eu havia esperado anos para tocar aqueles lábios.

E quando finalmente aconteceu, precisei fingir que não significava nada.

Que era apenas uma tradição.

Um beijo entre dois desconhecidos.

Mas ela não era uma desconhecida.

Nunca foi.

E eu não sabia o que fazer com isso.

Porque havia uma diferença enorme entre reencontrar a garota que eu amara em segredo e descobrir que ela seria minha esposa.

Eu queria entrar naquele quarto.

Queria perguntar se ela se lembrava.

Queria dizer o nome que eu carregava na memória.

Queria contar tudo.

Mas não podia.

Ainda não.

Eu não sabia o que ela sentia.

Talvez ela realmente não se lembrasse.

Talvez tivesse esquecido tudo.

Talvez aqueles anos tivessem significado apenas para mim.

E eu não suportaria descobrir isso da pior maneira.

Então manteria distância.

Por enquanto.

Seria o rei que ela esperava encontrar.

Frio.

Controlado.

Racional.

Se Aurora acreditava que aquele casamento era apenas uma aliança, eu deixaria que acreditasse.

Era melhor assim.

Porque se ela soubesse a verdade...

Se descobrisse que o homem que acabara de beijar era o mesmo garoto que um dia conheceu...

Eu não sabia o que aconteceria.

E, pela primeira vez em muitos anos, o homem que todos chamavam de rei sentiu medo.

Não da guerra.

Não dos inimigos.

Não do futuro do reino.

Mas de uma mulher.

Da única mulher que ainda tinha o poder de destruir tudo dentro dele apenas com um olhar.

Abri os olhos.

A parede que separava nossos quartos estava diante de mim.

Uma parede.

Dois quartos.

Dois estranhos.

Pelo menos era isso que ela acreditava.

Eu caminhei até a janela.

Do outro lado do corredor, a luz do quarto dela ainda estava acesa.

Ela não estava dormindo.

Eu sabia.

Assim como sabia que ela estava pensando demais.

Talvez estivesse se perguntando por que eu era tão distante.

Talvez estivesse convencida de que não sentia nada.

Talvez fosse melhor que pensasse assim.

Por enquanto.

Porque eu não podia entregar a ela tudo aquilo que guardei durante tantos anos.

Não sem saber se seria correspondido.

Não sem saber se, ao revelar quem eu realmente era, ela me escolheria...

ou desejaria nunca ter me encontrado novamente.

Então permaneci em silêncio.

Observando a luz sob a porta do quarto dela.

E desejando, pela primeira vez desde que me tornei rei, que uma simples parede pudesse desaparecer.

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