LOGINO beijo em seu pescoço foi breve, mas deixou uma marca ardente na pele de Isadora, como ferro em brasa selando posse. Hélio a soltou com um leve impulso, deixando-a cambaleante, com a respiração irregular. A camisa branca larga que vestia escorregou de um ombro, revelando a clavícula delicada e a pele ainda úmida do vapor do banho.
Hélio a observava com expressão neutra, como se a reação do corpo de Isadora — o coração acelerado e o rubor nas bochechas — fosse apenas uma variável técnica em sua missão.
— Sente-se — ordenou.
Ele não esperou resposta. Caminhou até o pequeno bar no canto da sala, servindo um líquido âmbar em um copo de cristal. O som do gelo batendo contra o vidro ecoou alto no silêncio do apartamento isolado.
Isadora obedeceu. Sentia as pernas fracas.
— Por que você fez isso? — sua voz saiu rouca, quase um sussurro. — Aquele beijo… não estava no contrato.Hélio se virou, deu um gole no uísque e apoiou o quadril no balcão. Seus bíceps se destacavam sob a luz baixa.
— Aquilo não foi um beijo, Isadora. Foi um aviso. Para que você se lembre de quem está no controle aqui. Se quiser sobreviver a Otávio e Beatriz, vai ter que se acostumar com o meu toque. Em público, precisamos parecer um casal que não consegue ficar longe um do outro. Se você ficar rígida como um cadáver cada vez que eu encostar em você, eles vão perceber que é falso em segundos.
Isadora fechou os punhos sobre o colo. A camisa áspera roçava a parte interna de suas coxas, criando uma sensação estranha e inquietante.
— Eu não sou atriz. Nunca fingi amar alguém como você.— Você não precisa me amar — Hélio se aproximou novamente, desta vez com o copo na mão. Parou bem diante dela, obrigando-a a olhar para cima. — Só precisa obedecer. Neste mundo, a obediência vale muito mais do que o amor.
Ele colocou o copo sobre a mesa e tirou um pequeno estojo de veludo preto do bolso da calça tática. Ao abri-lo, um anel de diamante com corte esmeralda, grande e cortante, brilhou intensamente.
— Dê-me sua mão.
Isadora hesitou por um instante antes de estender a mão esquerda. Os dedos grandes e calejados de Hélio envolveram os dela. A diferença de tamanho deixava claro o quanto ele poderia destruí-la com facilidade, se quisesse. Ele colocou o anel em seu dedo anelar.
— Este anel era da minha mãe — disse Hélio, a voz mais baixa, quase inaudível. — É a única coisa valiosa que restou da família Valente antes de ser destruída por gente como Otávio Menezes.
Isadora olhou para o anel, depois para o rosto endurecido dele.
— Então isso é vingança? Você está me usando como isca para atrair Otávio?Hélio não respondeu diretamente. Em vez disso, segurou o queixo dela, forçando-a a encarar seus olhos escuros e frios.
— Você é uma isca muito cara, Isadora. E o meu trabalho é garantir que o pescador não afunde junto quando ela for puxada.
De repente, um alarme discreto soou no tablet sobre a mesa. Hélio a soltou e foi verificar. Sua expressão ficou tensa.
— Eles já estão no seu apartamento — murmurou.
Ele virou a tela para ela. Por uma câmera escondida, Isadora viu dois homens mascarados revirando seu quarto. Um rasgava os lençóis com uma faca; o outro vasculhava o cofre.
Isadora levou a mão à boca, segurando o choro.
— Eles realmente querem me matar… Meu pai… ele sabe disso?— Seu pai está em Brasília, cuidando de assuntos políticos. Foi mantido longe de propósito para dar liberdade a Otávio — respondeu Hélio friamente, desligando o tablet. — A partir de hoje, Isadora Cavalcanti está “morta”. Amanhã, o mundo vai conhecer Isadora Valente. Esposa de um empresário de segurança privada que acabou de voltar do exterior.
Ele apontou para uma porta no fim do corredor.
— Aquele é o seu quarto. Já deixei roupas lá dentro. Tudo novo, sem rastreadores, sem histórico. Tome um banho e apague qualquer vestígio de Cavalcanti do seu corpo. Amanhã de manhã, sua verdadeira vida começa.Isadora se levantou, mas parou ao passar por ele.
— Onde você vai dormir?O olhar de Hélio fez seu estômago revirar.
— No sofá. Bem em frente à sua porta. Não tente trancar. Preciso poder entrar a qualquer momento se houver ameaça.— E a minha privacidade?
Hélio soltou um som baixo, quase um riso amargo.
— Sua privacidade morreu quando você assinou o contrato, querida. Agora vá, antes que eu perca a paciência.Isadora entrou no quarto com emoções conflitantes. O espaço era amplo, luxuoso… mas parecia uma prisão. Ao fechar a porta — sem trancá-la — encostou-se nela, o coração ainda descompassado.
Do lado de fora, Hélio ficou imóvel, encarando a porta. Inspirou profundamente, sentindo o cheiro de Isadora ainda no ar — jasmim e medo puro. Seu punho se fechou. Ele sabia que estava brincando com fogo. Isadora não era apenas um recurso; era a tentação mais perigosa que já enfrentara.
Hélio caminhou até a grande janela com vista para a cidade. As luzes do Rio brilhavam ao longe como joias espalhadas. A guerra contra a família Cavalcanti tinha apenas começado — e Isadora era a arma mais letal que ele possuía… se ele conseguisse resistir à tentação de destruí-la primeiro.
Naquela noite, Isadora tomou um banho quente, tentando lavar o medo. Ao sair do banheiro envolta apenas em uma toalha, encontrou uma caixa sobre a cama. Dentro, havia uma camisola de seda preta, extremamente fina.
Hélio realmente sabia como mexer com sua mente. Aquela roupa não era proteção — era poder.
Ela vestiu a peça, sentindo o tecido deslizar sobre sua pele sensível. Deitou-se na cama desconhecida, olhando para o teto, consciente de que, do outro lado da porta, havia um homem talvez mais perigoso do que os assassinos em seu apartamento. Ainda assim, pela primeira vez, sentia-se… viva.
De repente, a porta se abriu um pouco. A luz da sala invadiu o quarto.
Hélio estava parado na entrada, vestindo apenas uma calça. A luz destacava os músculos definidos de seu abdômen e a cicatriz de bala em seu ombro esquerdo.
— Mais uma regra — disse ele, com a voz mais pesada na escuridão.
Isadora sentou-se rapidamente, puxando o lençol para cobrir o peito.
— Qual?— Nunca saia deste quarto sem a minha permissão. Entendeu?
O lobby do Copacabana Palace naquela noite brilhava sob a luz de um enorme lustre de cristal, refletindo o luxo intoxicante da alta sociedade do Rio de Janeiro. O cheiro de perfumes caros, o aroma de charutos e o tilintar de taças de champanhe preenchiam o ar. Em um canto do salão, Beatriz Cavalcanti estava de pé, usando um vestido vermelho sangue que abraçava seu corpo perfeitamente. Ela sorria amplamente, tomando seu drink enquanto recebia condolências veladas de colegas de negócios.— Uma pena sobre a Isadora — sussurrou uma socialite mais velha. — Um acidente trágico na estrada… a polícia disse que o carro dela queimou completamente, não foi?Beatriz tocou o canto dos olhos secos com uma atuação impecável.— Estamos devastados. Ela era tão jovem, tão imprudente com seu carro esportivo. Nossa família ainda está de luto, mas esta ação beneficente precisa continuar. Isadora teria desejado isso.Otávio Menezes estava ao lado dela, vestindo um caro smoking preto. Seus olhos percorriam
A luz do sol do Rio de Janeiro se infiltrava timidamente pelas frestas das cortinas automáticas do penthouse de Hélio. Isadora despertou com uma dor latejante nas têmporas. Por alguns segundos, esqueceu onde estava, até perceber a camisola de seda preta colada ao seu corpo — um presente do homem que agora era dono da sua vida.Ela se levantou da cama, os pés descalços tocando o chão de madeira frio. Ao abrir a porta do quarto, foi recebida pelo aroma forte de café e de pão tostado. Mas havia outro cheiro ainda mais dominante: o aroma masculino de Hélio, que agora parecia o próprio oxigênio daquele ambiente.Hélio estava sentado à mesa de jantar de granito, olhando para o laptop com óculos de leitura de armação preta, o que o fazia parecer dez vezes mais perigoso — inteligente e letal ao mesmo tempo. Já estava bem vestido; a camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos revelava as veias salientes nos braços que, na noite anterior, haviam segurado a cintura de Isadora.— Você es
O beijo em seu pescoço foi breve, mas deixou uma marca ardente na pele de Isadora, como ferro em brasa selando posse. Hélio a soltou com um leve impulso, deixando-a cambaleante, com a respiração irregular. A camisa branca larga que vestia escorregou de um ombro, revelando a clavícula delicada e a pele ainda úmida do vapor do banho.Hélio a observava com expressão neutra, como se a reação do corpo de Isadora — o coração acelerado e o rubor nas bochechas — fosse apenas uma variável técnica em sua missão.— Sente-se — ordenou.Ele não esperou resposta. Caminhou até o pequeno bar no canto da sala, servindo um líquido âmbar em um copo de cristal. O som do gelo batendo contra o vidro ecoou alto no silêncio do apartamento isolado.Isadora obedeceu. Sentia as pernas fracas.— Por que você fez isso? — sua voz saiu rouca, quase um sussurro. — Aquele beijo… não estava no contrato.Hélio se virou, deu um gole no uísque e apoiou o quadril no balcão. Seus bíceps se destacavam sob a luz baixa.— Aqu
Hélio Valente movia-se como uma sombra no meio da tempestade. Isadora só conseguiu fechar os olhos, enterrando o rosto na curva do pescoço dele enquanto atravessavam a escuridão do jardim. O cheiro de Hélio — uma mistura de chuva, pele e um aroma masculino intenso — parecia entorpecer seus sentidos, fazendo-a esquecer por um instante que aquele homem era um estranho que acabara de arrancá-la da beira da morte.Quando a porta de um SUV preto escondido atrás dos arbustos se abriu, Hélio não foi gentil. Ele praticamente lançou Isadora no banco traseiro frio antes de saltar para o banco do motorista. O motor ronronou baixo, quase inaudível, e o veículo disparou, deixando para trás a Barra da Tijuca.Durante trinta minutos, o silêncio dentro do carro foi tão denso que Isadora podia ouvir o próprio coração disparado. Hélio não disse uma palavra. Seus olhos permaneciam fixos no retrovisor, monitorando cada movimento atrás deles com a atenção de um predador.Por fim, chegaram a um apartamento
A tempestade que atingiu o Rio de Janeiro naquela noite não era apenas uma chuva de verão comum; era um dilúvio que parecia querer lavar os pecados impregnados no mármore Carrara da mansão da família Cavalcanti.No distrito da Barra da Tijuca, as palmeiras se curvavam sob o chicote do vento, e o som dos trovões ecoava pelas paredes de vidro da sala de estar como o rugido de uma fera aprisionada.Isadora Cavalcanti caminhava apressada pelo corredor da ala oeste. O tecido frio de seda do vestido de grife que vestia roçava em suas pernas, um lembrete constante da vida privilegiada que sempre levara. Mas, naquele momento, todo aquele luxo parecia sufocante.Ela só precisava pegar seu celular. Havia deixado o aparelho sobre a mesa de carvalho no escritório de seu pai depois de um jantar de negócios que durou horas — um jantar no qual, como sempre, fora tratada apenas como uma peça de exibição, bonita e silenciosa.Ao se aproximar da sólida porta de madeira de teca, Isadora percebeu que ela







