LOGINA luz do sol do Rio de Janeiro se infiltrava timidamente pelas frestas das cortinas automáticas do penthouse de Hélio. Isadora despertou com uma dor latejante nas têmporas. Por alguns segundos, esqueceu onde estava, até perceber a camisola de seda preta colada ao seu corpo — um presente do homem que agora era dono da sua vida.
Ela se levantou da cama, os pés descalços tocando o chão de madeira frio. Ao abrir a porta do quarto, foi recebida pelo aroma forte de café e de pão tostado. Mas havia outro cheiro ainda mais dominante: o aroma masculino de Hélio, que agora parecia o próprio oxigênio daquele ambiente.
Hélio estava sentado à mesa de jantar de granito, olhando para o laptop com óculos de leitura de armação preta, o que o fazia parecer dez vezes mais perigoso — inteligente e letal ao mesmo tempo. Já estava bem vestido; a camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos revelava as veias salientes nos braços que, na noite anterior, haviam segurado a cintura de Isadora.
— Você está dez minutos atrasada — disse Hélio, sem tirar os olhos da tela. — Sente-se e coma. Temos muita coisa para fazer antes das duas da tarde.
Isadora puxou a cadeira à frente dele, extremamente consciente de que usava apenas um tecido fino, quase transparente.
— Duas da tarde? O que vai acontecer?
— Sua estreia como Senhora Valente. — Hélio fechou o laptop com um clique firme. Tirou os óculos e olhou para Isadora com uma intensidade que a fez querer se esconder. — Vamos a um leilão beneficente no Copacabana Palace. Otávio e Beatriz estarão lá. Eles estão comemorando sua “morte” ainda não confirmada, e nós vamos arruinar a festa deles.
Isadora se engasgou com o café.
— Você é louco? Eles vão me reconhecer imediatamente! Vão me matar ali mesmo!
— Não se você estiver comigo. — Hélio se levantou e deu a volta na mesa até parar atrás da cadeira de Isadora. Inclinou-se, apoiando as mãos no encosto, prendendo-a entre seu corpo e a mesa. — Eles não vão ousar tocar em você enquanto estiver de mãos dadas comigo. Aos olhos do mundo, eu sou o CEO da Valente Security International. Tenho contratos com o governo federal. Tocar em mim é declarar guerra ao Estado.
Hélio estendeu a mão, os dedos deslizando pelos fios bagunçados do cabelo de Isadora.
— Mas há um grande problema, Isadora. Seus olhos ainda mostram medo. A esposa de um homem como eu não treme como um coelho diante do inimigo. Você precisa parecer… faminta. Precisa parecer um predador, como eu.
— Eu não consigo fingir como você, Hélio — sussurrou Isadora, o corpo reagindo fora de controle à proximidade dele.
— Então vamos treinar. — A voz de Hélio baixou, transformando-se em um rosnado que fez o peito de Isadora vibrar. — Levante-se.
Isadora obedeceu, o coração disparado. Hélio a puxou para o centro do amplo espaço. Colocou uma mão em sua cintura fina, puxando-a até que seus corpos se tocassem. A outra segurou a mão esquerda de Isadora, agora adornada pelo grande anel de diamante.
— Apoie a cabeça no meu ombro — ordenou Hélio.
Isadora obedeceu, inalando o cheiro de sabonete e da pele dele, inebriante.
— Agora imagine que estamos no meio de uma multidão. Otávio está te olhando do outro lado da sala. Ele está calculando quanto tempo falta para te eliminar. O que você faz?
— Eu… eu desviaria o olhar — respondeu ela, honesta.
— Errado. — Hélio apertou sua cintura com mais força, arrancando um pequeno suspiro dela. Ele a fez erguer o rosto, obrigando-a a encarar seus olhos escuros. — Você não vai desviar o olhar. Vai encará-lo de volta. Vai sorrir de leve, como se soubesse um segredo que vai destruí-lo. Vai segurar meu braço, mostrando ao mundo que o homem mais perigoso da sala é seu.
Hélio começou a conduzi-los em uma dança lenta e íntima. Uma música imaginária parecia tocar entre suas respirações. A camisola de seda de Isadora roçava na calça elegante de Hélio, criando um atrito quente.
— Olhe para mim, Isadora. Não olhe para baixo — sussurrou ele.
Isadora se perdeu naquele olhar, como se estivesse hipnotizada. A presença de Hélio era esmagadora, dominante, e pouco a pouco seu medo de Otávio se dissipava, substituído por algo muito mais intenso.
A mão de Hélio deslizou da cintura para a parte inferior das costas, pressionando-a ainda mais contra ele. Isadora podia sentir o coração dele batendo forte contra o seu peito. Ficou tonta — não de medo, mas de desejo.
— Você está muito tensa — murmurou Hélio, os lábios a poucos milímetros dos dela. — Respire por mim.
Isadora puxou o ar profundamente e, sem perceber, suas mãos subiram até os ombros firmes de Hélio, os dedos pressionando o tecido da camisa. Ela fechou os olhos ao sentir o nariz dele roçar no seu.
— Isso… — elogiou Hélio, com a voz rouca. — Agora me dê um beijo que faça Otávio acreditar que você daria a vida por mim.
— Hélio…
— Faça isso, Isadora. Reivindique-me como seu.
Isadora cedeu. Ficou na ponta dos pés, envolveu o pescoço dele com os braços e uniu seus lábios aos dele. No início, foi um beijo hesitante, mas Hélio rapidamente assumiu o controle. Beijou-a com uma fome crua, dominadora, exigindo mais, e Isadora correspondeu.
O mundo ao redor desapareceu. Não havia mais família Cavalcanti, nem traição. Apenas o calor que se espalhava pelo corpo de Isadora e a mão firme de Hélio que a erguia, fazendo com que ela envolvesse suas pernas na cintura dele.
Hélio soltou um gemido baixo, como um predador que encontrou sua presa perfeita. Levou Isadora até a mesa de granito, sentando-a ali sem interromper o beijo. Sua mão começou a subir por baixo da camisola fina, tocando a pele sensível de sua coxa.
Mas, no momento em que tudo se intensificava, o celular de Hélio começou a vibrar com força sobre a mesa.
Ele interrompeu o beijo, ofegante. Seus olhos, normalmente frios, agora estavam escuros e selvagens. Observou Isadora — lábios inchados, cabelo bagunçado, olhar perdido.
— Treinamento encerrado — disse, ainda rouco.
Ele se afastou, arrumando a camisa como se nada tivesse acontecido, embora Isadora percebesse que nem tudo podia ser disfarçado.
Ela permaneceu sentada na mesa, tentando recuperar o fôlego, sentindo o frio tomar seu corpo à medida que ele se afastava.
— Vá tomar banho — disse Hélio, sem olhar para trás, pegando o celular. — O maquiador e a equipe de figurino chegam em trinta minutos. Eles vão transformá-la na arma que destruirá a família Cavalcanti esta noite.
Hélio caminhou até a varanda, deixando Isadora ainda trêmula. Ela tocou os próprios lábios, ainda pulsando. Percebeu algo assustador: já não tinha apenas medo de ser morta por sua família — tinha mais medo de se apaixonar pelo homem que a salvou.
Na varanda, Hélio apertou o corrimão de ferro até os nós dos dedos ficarem brancos. Olhou para o mar, tentando controlar o desejo intenso que quase o fez perder o controle.
Isadora não era apenas uma isca. Era sua ruína.
E, se não tivesse cuidado, o plano de vingança que levou anos para construir seria consumido por um desejo que nunca deveria existir.
— Foque, Valente — murmurou para si mesmo. — Ela é só uma ferramenta. Só uma ferramenta.
Mas, no fundo, Hélio sabia que estava mentindo para si mesmo.
O lobby do Copacabana Palace naquela noite brilhava sob a luz de um enorme lustre de cristal, refletindo o luxo intoxicante da alta sociedade do Rio de Janeiro. O cheiro de perfumes caros, o aroma de charutos e o tilintar de taças de champanhe preenchiam o ar. Em um canto do salão, Beatriz Cavalcanti estava de pé, usando um vestido vermelho sangue que abraçava seu corpo perfeitamente. Ela sorria amplamente, tomando seu drink enquanto recebia condolências veladas de colegas de negócios.— Uma pena sobre a Isadora — sussurrou uma socialite mais velha. — Um acidente trágico na estrada… a polícia disse que o carro dela queimou completamente, não foi?Beatriz tocou o canto dos olhos secos com uma atuação impecável.— Estamos devastados. Ela era tão jovem, tão imprudente com seu carro esportivo. Nossa família ainda está de luto, mas esta ação beneficente precisa continuar. Isadora teria desejado isso.Otávio Menezes estava ao lado dela, vestindo um caro smoking preto. Seus olhos percorriam
A luz do sol do Rio de Janeiro se infiltrava timidamente pelas frestas das cortinas automáticas do penthouse de Hélio. Isadora despertou com uma dor latejante nas têmporas. Por alguns segundos, esqueceu onde estava, até perceber a camisola de seda preta colada ao seu corpo — um presente do homem que agora era dono da sua vida.Ela se levantou da cama, os pés descalços tocando o chão de madeira frio. Ao abrir a porta do quarto, foi recebida pelo aroma forte de café e de pão tostado. Mas havia outro cheiro ainda mais dominante: o aroma masculino de Hélio, que agora parecia o próprio oxigênio daquele ambiente.Hélio estava sentado à mesa de jantar de granito, olhando para o laptop com óculos de leitura de armação preta, o que o fazia parecer dez vezes mais perigoso — inteligente e letal ao mesmo tempo. Já estava bem vestido; a camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos revelava as veias salientes nos braços que, na noite anterior, haviam segurado a cintura de Isadora.— Você es
O beijo em seu pescoço foi breve, mas deixou uma marca ardente na pele de Isadora, como ferro em brasa selando posse. Hélio a soltou com um leve impulso, deixando-a cambaleante, com a respiração irregular. A camisa branca larga que vestia escorregou de um ombro, revelando a clavícula delicada e a pele ainda úmida do vapor do banho.Hélio a observava com expressão neutra, como se a reação do corpo de Isadora — o coração acelerado e o rubor nas bochechas — fosse apenas uma variável técnica em sua missão.— Sente-se — ordenou.Ele não esperou resposta. Caminhou até o pequeno bar no canto da sala, servindo um líquido âmbar em um copo de cristal. O som do gelo batendo contra o vidro ecoou alto no silêncio do apartamento isolado.Isadora obedeceu. Sentia as pernas fracas.— Por que você fez isso? — sua voz saiu rouca, quase um sussurro. — Aquele beijo… não estava no contrato.Hélio se virou, deu um gole no uísque e apoiou o quadril no balcão. Seus bíceps se destacavam sob a luz baixa.— Aqu
Hélio Valente movia-se como uma sombra no meio da tempestade. Isadora só conseguiu fechar os olhos, enterrando o rosto na curva do pescoço dele enquanto atravessavam a escuridão do jardim. O cheiro de Hélio — uma mistura de chuva, pele e um aroma masculino intenso — parecia entorpecer seus sentidos, fazendo-a esquecer por um instante que aquele homem era um estranho que acabara de arrancá-la da beira da morte.Quando a porta de um SUV preto escondido atrás dos arbustos se abriu, Hélio não foi gentil. Ele praticamente lançou Isadora no banco traseiro frio antes de saltar para o banco do motorista. O motor ronronou baixo, quase inaudível, e o veículo disparou, deixando para trás a Barra da Tijuca.Durante trinta minutos, o silêncio dentro do carro foi tão denso que Isadora podia ouvir o próprio coração disparado. Hélio não disse uma palavra. Seus olhos permaneciam fixos no retrovisor, monitorando cada movimento atrás deles com a atenção de um predador.Por fim, chegaram a um apartamento
A tempestade que atingiu o Rio de Janeiro naquela noite não era apenas uma chuva de verão comum; era um dilúvio que parecia querer lavar os pecados impregnados no mármore Carrara da mansão da família Cavalcanti.No distrito da Barra da Tijuca, as palmeiras se curvavam sob o chicote do vento, e o som dos trovões ecoava pelas paredes de vidro da sala de estar como o rugido de uma fera aprisionada.Isadora Cavalcanti caminhava apressada pelo corredor da ala oeste. O tecido frio de seda do vestido de grife que vestia roçava em suas pernas, um lembrete constante da vida privilegiada que sempre levara. Mas, naquele momento, todo aquele luxo parecia sufocante.Ela só precisava pegar seu celular. Havia deixado o aparelho sobre a mesa de carvalho no escritório de seu pai depois de um jantar de negócios que durou horas — um jantar no qual, como sempre, fora tratada apenas como uma peça de exibição, bonita e silenciosa.Ao se aproximar da sólida porta de madeira de teca, Isadora percebeu que ela







