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last update publish date: 2026-09-30 23:35:54

A porta da cobertura fechou-se com um baque mecânico pesado, trancando do lado de fora o mundo barulhento, cheio de hipocrisia e de ameaças de morte. Assim que se viu dentro do ambiente seguro, Isadora Cavalcanti sentiu toda a energia do seu corpo esvair-se num instante. Suas pernas fraquejaram e, se não fosse pelos braços de Hélio que a seguraram com firmeza pela cintura, ela provavelmente teria desabado no chão de mármore frio.

Hélio a puxou para mais perto. O abraço era forte, possessivo, porém controlado. Isadora fechou os olhos, encostando a cabeça no peito largo do homem. Por baixo do terno caro, o coração de Hélio batia de forma constante, um ritmo firme em meio à tempestade de emoções que se alastrava dentro dela.

— Você está exausta — a voz de Hélio soou baixa, quase um sussurro logo acima da sua cabeça. Não havia tom gélido ou ordem categórica ali; restavam apenas os resquícios de uma adrenalina ainda em brasa.

— Eu não estou exausta, Hélio. Eu... eu só estou esmagada pela situação — respondeu Isadora com a voz trêmula. Ela ergueu o rosto, fitando os olhos negros do homem iluminados fracamente pela luz do lustre. — O rosto da Beatriz... você viu a expressão dela quando entramos há pouco? Ela parecia estar vendo um fantasma que veio cobrar uma dívida.

Hélio abriu um sorriso discreto, um sorriso cínico, perigoso, mas fascinante. Seus dedos grandes estenderam-se, retirando devagar o pequeno grampo de cabelo cravejado de diamantes da cabeça de Isadora, deixando que as longas mechas pretas caíssem soltas, emoldurando seus ombros.

— Ela viu um fantasma mesmo, Isadora. E esse pavor é apenas o começo — sussurrou Hélio, com o polegar acariciando suavemente a maçã do rosto dela. O toque contrastava com a aura mortal que sempre o envolvia. — Você viu como o Otávio tremeu quando pronunciei o meu sobrenome perto do ouvido dele?

Isadora concordou com um gesto leve de cabeça.

— Ele reconheceu o nome Valente. Por quê, Hélio? Qual é a ligação da família Valente com a ruína de Otávio dez anos atrás?

Hélio respirou fundo. Seu maxilar travou e os músculos do pescoço tencionaram-se. Por um segundo, a máscara de serenidade que ele sempre vestia pareceu trincar, deixando transparecer o clarão de uma ferida passada muito profunda. Contudo, antes que Isadora pudesse insistir mais, Hélio negou com a cabeça em silêncio.

— Ainda não é o momento, Isadora. Cada informação é uma arma, e eu a entregarei a você quando estivermos totalmente prontos para disparar — disse Hélio com o tom absoluto que não admitia contestação. Ele desfez o abraço aos poucos, embora seu olhar nunca se desviasse do rosto dela. — Agora, tire este vestido. Você precisa descansar. Amanhã começaremos a segunda fase do nosso plano.

Isadora observou as costas de Hélio enquanto ele se virava e caminhava até o bar para servir um copo de água. Havia uma distância física criada por ele, mas a tensão entre ambos tornava-se cada vez mais espessa, preenchendo cada centímetro daquela espaçosa sala de estar.

Na manhã seguinte, o sol iluminava o Rio de Janeiro com um calor sufocante. Isadora acordou em seu próprio quarto, encontrando uma xícara de café preto e um prato com um café da manhã leve dispostos na pequena mesa de cabeceira. Havia um bilhete com a letra de Hélio ao lado da xícara: Não saia do quarto antes que eu volte. Há um visitante indesejado no saguão.

O coração de Isadora disparou. Um visitante indesejado? Será que Otávio já havia descoberto o paradeiro deles?

Tomada por uma curiosidade ardente e por uma angústia sufocante, Isadora ignorou a ordem de Hélio. Ela levantou-se da cama, vestiu um roupão de seda e caminhou na ponta dos pés para fora do quarto. Através da fresta da parede divisória da sala de estar que dava para a entrada principal, ela pôs-se a escutar a gritaria do lado de fora.

— ...eu exijo entrar! Eu sou membro da família Cavalcanti! — a voz esganiçada de Beatriz soava claríssima, transbordando fúria e pânico.

— A senhorita não tem jurisdição nesta propriedade privada — a voz de um dos seguranças contratados por Hélio soou fria e monótona, bloqueando o caminho.

Do seu esconderijo, Isadora viu Beatriz parada perto da entrada, acompanhada por dois seguranças particulares. O rosto da prima estava pálido e a maquiagem falhava em disfarçar as olheiras profundas — prova evidente de que ela não dormira a noite inteira, aterrorizada com o reaparecimento de Isadora.

De repente, a porta de ligação da cobertura abriu-se por fora. Hélio entrou acompanhado por dois de seus homens. O homem parecia perfeitamente calmo, vestindo uma camisa cinza-escuro com as mangas dobradas, irradiando uma aura de domínio absoluto que fez Beatriz calar-se na mesma hora.

Hélio fechou a porta atrás de si e postou-se bem diante de Beatriz. A altura e a postura militar dele faziam com que Beatriz parecesse incrivelmente miúda e frágil.

— Pois não, senhorita Cavalcanti? O que a traz à toca do tigre sem ser convidada? — perguntou Hélio com uma voz de barítono que cortava como navalha.

Beatriz engoliu em seco, forçando o queixo para cima embora sua voz tremesse um pouco.

— Onde está a Isadora? Eu sei que ela está aqui! Vocês a estão chantageando, não é? Esse maldito com certeza a sequestrou!

— Chantageando? — Hélio soltou uma risada abafada, uma risada totalmente desprovida de calor. Ele deu um passo à frente, obrigando Beatriz a recuar. — Ela é minha esposa legalmente. Nosso casamento foi registrado ontem de manhã. Portanto, meça suas palavras, Beatriz, ou eu processarei você por difamação e ameaça de morte.

Ao ouvir aquilo, o sangue de Beatriz ferveu.

— Acha que casando com ela vai conseguir proteger a herança dos Cavalcanti?! Você não sabe quem é meu pai! Não tem ideia do que o Otávio é capaz de fazer com você!

— Uma ameaça fascinante — Hélio sorriu com sarcasmo. — Diga ao Otávio que, se quiser conversar comigo, venha diretamente aqui. Não mande criancinhas para testar a minha paciência.

Do seu esconderijo atrás da parede, Isadora prendeu a respiração. A coragem de Hélio ao enfrentar diretamente a ameaça da família Cavalcanti a deixava enfeitiçada e amedrontada ao mesmo tempo. Aquele homem não estava blefando; Hélio estava inteiramente preparado para destruir quem ousasse atravessar o seu caminho.

Beatriz bufou de raiva, compreendendo que não possuía poder de barganha perante Hélio Valente.

— Isso não vai ficar assim! A Isadora não vai se dar bem com um homem assassino como você! — berrou Beatriz antes de virar as costas e marchar furiosa, seguida pelos seguranças.

A porta fechou-se com firmeza outra vez.

Hélio deu um longo suspiro e virou o corpo devagar. Seus olhos cravaram-se no canto da sala onde Isadora se escondia.

— Pode sair, Isadora. Eu sei que você estava ouvindo tudo — chamou Hélio em tom plano.

Isadora sobressaltou-se. Com passos hesitantes, ela emergiu de trás da parede, parando no meio do cômodo vestindo apenas o roupão.

— Me desculpe... eu desobedeci à sua ordem de ficar no quarto.

Hélio aproximou-se dela em poucos passos largos. Seu olhar examinou o corpo de Isadora de cima a baixo, certificando-se de que nada lhe acontecera. Ao constatar que ela estava inteiramente bem, Hélio soltou um suspiro pesado, encostando a própria testa na dela.

— Nunca mais desobedeça às minhas ordens, Isadora — sussurrou Hélio, com a voz soando frustrada e aliviada ao mesmo tempo. — Eles são perigosos. Se a Beatriz a visse agora pouco, poderia ter tomado uma atitude impensada.

— Eu não posso continuar me escondendo no quarto para sempre, Hélio — disse Isadora, fitando fixamente o fundo daqueles olhos escuros. A distância entre eles era tão mínima que Isadora conseguia sentir a respiração morna dele contra os seus lábios. — Eu quero lutar contra eles. Não quero ser apenas uma espectadora da minha própria ruína.

Hélio a encarou por um longo momento, buscando qualquer sinal de hesitação naqueles olhos castanhos. No entanto, tudo o que encontrou foram brasas — o mesmo fogo de vingança que consumia sua alma havia dez anos. Um sorriso sutil brotou nos lábios de Hélio.

— Você é realmente sangue do sangue dos Cavalcanti, teimosa até o fim — sussurrou Hélio com voz grave. Sua mão ergueu-se, segurando a nuca de Isadora e puxando-a para mais perto até que não restasse nenhum espaço entre os corpos deles. — Se quer entrar neste campo de batalha, Isadora... terá de aprender a nunca demonstrar fraqueza diante de ninguém, nem mesmo de mim.

Isadora engoliu em seco, com o coração disparando descontroladamente.

— Me ensine — pediu ela, num desafio aberto.

O pedido funcionou como o detonador de uma bomba. Hélio não conteve mais impulso algum. Ele uniu os lábios de ambos em um beijo selvagem, exigente, transbordando uma fome contida desde a véspera. Isadora gemeu baixinho, retribuindo o beijo com a mesma intensidade, enlaçando os braços ao redor do pescoço dele.

Aquele beijo incendiou os últimos vestígios de dúvida entre os dois. Hélio ergueu o corpo de Isadora com facilidade, fazendo com que ela, por reflexo, envolvesse a cintura dele com as pernas. Hélio deu passos para trás enquanto continuava a beijá-la, carregando Isadora através da sala até que as costas dela batessem contra a parede do quarto com a porta aberta.

Do lado de fora da janela, a chuva forte desabou de repente sobre o Rio de Janeiro, açoitando os vidros da cobertura com um estrondo abafado pelas paredes acústicas. Contudo, dentro daquele quarto, o mundo parecia ter parado de girar. Só existiam as respirações ofegantes, o atrito da pele em brasa e a união de duas almas atadas pela vingança, pelo contrato e por uma paixão irrefreável.

Hélio afastou os lábios por um instante, fitando o rosto ruborizado de Isadora, com os lábios inchados e o olhar entorpecido pelo desejo.

— Você é minha agora, Isadora — sussurrou Hélio de voz rouca, soando tanto como uma promessa quanto como uma condenação. — E não há um único ser humano neste mundo capaz de tirar você de mim.

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