INICIAR SESIÓNVisão da Fernanda
Descobri que meu namoro tinha deixado de ser segredo antes mesmo de conseguir contar para as pessoas mais próximas.
E descobri durante o plantão.
— Fernanda?
Levantei os olhos do computador. Uma funcionária de outro setor estava parada diante de mim, sorrindo de um jeito curioso.
— Oi.
— Posso perguntar uma coisa?
— Depende.
Ela olhou ao redor e se aproximou.
— É verdade que você e o TH estão juntos?
Minha mão parou sobre o teclado.
— De onde você ouviu isso?
— Ah, menina, está todo mundo comentando!
Respirei fundo.
— Entendi.
— Então é verdade?
Não respondi. Ela interpretou meu silêncio como confirmação e abriu ainda mais o sorriso.
— Meu Deus! Que máximo! Inclusive, queria te pedir uma coisa. Meu primo está com um problema e pensei que talvez você pudesse conversar com o TH...
Fechei os olhos por um instante.
Era exatamente o que eu imaginava.
— Não posso ajudar com isso.
— Mas é só perguntar!
— Se seu primo precisa de alguma coisa, ele deve procurar os caminhos adequados. Não vou usar meu relacionamento para conseguir favores.
O sorriso dela diminuiu.
— Tá bom. Desculpa.
Ela saiu, e eu voltei para o computador, incomodada.
Não tinha vergonha de estar com Thiago. Mas não queria que as pessoas começassem a me enxergar como uma porta de entrada para ele.
Júlia apareceu pouco depois.
— Bom dia, namorada do chefe!
— Não começa.
Ela percebeu minha expressão.
— O que aconteceu?
Contei sobre a funcionária e o pedido.
— Já começaram a aparecer interessados? — perguntou.
— Parece que sim.
— E você está preocupada?
— Não é só isso. Eu não quero que as pessoas pensem que podem conseguir alguma coisa através de mim.
Meu celular vibrou.
TH: Bom dia, namorada.
Sorri discretamente, mas logo escrevi:
Eu: Você contou para alguém?
Ele respondeu que apenas ND e a família sabiam. Contei sobre a abordagem no hospital.
TH: Alguém te incomodou?
Eu: Não exatamente. Só pediu um favor para o primo.
TH: Nome.
Eu: NÃO. Eu resolvi. Não quero que você vá atrás de ninguém por causa de fofoca.
A resposta demorou um pouco.
TH: Não vou interferir só porque estão comentando sobre nós.
Sorri.
Eu: Obrigada.
TH: E eu gosto quando você confia em mim.
Guardei o celular.
Júlia estava me observando.
— Você sorriu.
— Trabalha, Júlia.
Ela riu, mas depois ficou séria quando contei que outra colega, Paula, tinha me visto no corredor e mudado de direção.
Eu ainda não sabia se aquilo tinha relação com meu namoro. Mas, depois de mandar uma mensagem e não receber resposta, comecei a desconfiar.
No almoço, outro funcionário se aproximou para perguntar se eu poderia conversar com TH sobre um negócio.
Recusei novamente.
Quando encontrei Júlia, desabafei:
— Ontem eu era só Fernanda. Hoje parece que virei acesso.
Ela segurou minha mão.
— Algumas pessoas vão se aproximar por interesse. Outras podem se afastar por medo.
— Eu sei. Mas é diferente sentir isso.
Visão do TH
Eu sabia que os comentários começariam. O que não queria era que Fernanda precisasse carregar o peso do meu nome.
ND estava comigo quando contei sobre as pessoas que tinham procurado minha namorada no hospital.
— Vai acontecer mais vezes — ele comentou.
— Eu sei.
— Gente querendo favor, gente querendo chegar até você...
— E gente com medo dela.
ND assentiu.
— Seu nome chega antes, TH.
Passei a mão pelo rosto.
— Não quero que tratem ela diferente.
— Você não controla como as pessoas enxergam você. Muito menos quem está do seu lado.
Eu sabia que ele tinha razão.
— Mas posso deixar claro que ninguém deve usar o nome dela para chegar até mim.
— Isso você pode fazer.
CK entrou e trouxe uma atualização sobre a investigação. Renan continuava circulando e havia aumentado o contato com Vini. Léo permanecia ligado ao mesmo grupo, mas ainda não existiam provas suficientes para acusar ninguém.
Depois, CK comentou que também estavam chamando Fernanda de “a nova protegida do TH”.
Meu maxilar travou.
— Ela não é isso.
— Eu sei — ND respondeu. — Mas algumas pessoas já começaram a enxergar dessa maneira.
Respirei fundo.
— Ninguém usa o nome dela para pedir favor. Se alguém vier até mim dizendo que Fernanda pediu alguma coisa, a resposta será não.
— Certo — CK respondeu.
— E ninguém vai atrás de funcionário do hospital por causa de comentário.
ND me observou.
— Está aprendendo.
— Não começa.
Ele riu.
Mas eu sabia que aquilo não seria simples. Precisava respeitar o que Fernanda tinha pedido, mesmo quando meu instinto mandasse resolver tudo.
Visão da Fernanda
Quando cheguei à casa de TH, encontrei-o na cozinha.
Depois de contar sobre o dia, ele me falou das novidades da investigação e dos comentários que estavam circulando.
— Estão me chamando de nova protegida? — perguntei.
— Algumas pessoas.
Abri a geladeira, sem saber exatamente o que procurava.
— Hoje duas pessoas vieram me pedir favor porque acham que agora podem falar com você através de mim.
TH ficou sério.
— Eu não vou aceitar isso.
— Eu sei. Mas também não quero que você saia atrás de ninguém.
— Não vou.
Contei sobre Paula e a mensagem que ela tinha visualizado sem responder.
Ele ouviu sem interromper.
— Talvez não seja por mim — comentou.
— Talvez.
Mas eu suspeitava que fosse.
— Desculpa — ele disse.
— Não precisa pedir desculpas como se tivesse feito alguma coisa hoje.
— Mas meu nome está pesando na sua vida.
— Está. Mas fui eu que escolhi ficar.
TH segurou minha mão.
— Não quero que você desapareça dentro disso.
— Então não deixe que nossa relação vire uma coisa em que você decide por mim.
— Não vou.
— Quero continuar sendo Fernanda.
Ele sorriu discretamente.
— A técnica de enfermagem que me corrige toda vez que chamo de enfermeira.
— Com razão.
— Que quer fazer faculdade.
— E vou fazer.
— Que tem uma mãe que me interroga e um irmão folgado.
Comecei a rir.
— Muito folgado.
— Você existia antes de mim, Nanda. E vai continuar existindo comigo.
A frase me tocou.
— É isso que eu quero.
No dia seguinte, Paula finalmente respondeu.
Paula: Não queria ser grossa. Prefiro não me envolver.
Perguntei do que ela estava falando.
Paula: Fernanda, não é com você. Só não quero problema.
Fiquei olhando para a tela.
Eu: Eu nunca te coloquei em problema nenhum.
Paula: Eu sei.
E a conversa terminou ali.
Doeu mais do que eu esperava. Não éramos melhores amigas, mas trabalhávamos juntas havia meses. Eu gostava dela.
Rafael percebeu que eu estava quieta e me ofereceu um café.
Sentamos por alguns minutos, conversando sobre o hospital e meus planos de estudar Enfermagem.
— Você ainda quer fazer faculdade? — perguntou.
— Quero. Já estou pesquisando algumas opções.
— Se quiser, posso te passar algumas informações de pessoas que estudaram enquanto trabalhavam.
Sorri.
— Sério? Obrigada.
Ele não perguntou sobre os comentários nem tentou conseguir alguma coisa através de mim.
Em determinado momento, perguntou diretamente:
— Vocês estão juntos?
— Estamos.
Rafael ficou em silêncio por um instante.
— Entendi. Eu sei que você nunca me deu abertura. Gosto de você, mas entendo que é como amigo.
— Não quero que fique estranho.
— Não vai ficar.
Ele apontou para o hospital.
— Eu conheço a Fernanda daqui. A que reclama da escala, quer fazer faculdade e fica brava quando alguém confunde sua profissão. Seu namorado não muda isso.
Sorri.
Naquele momento, percebi o quanto precisava de pessoas que continuassem me enxergando da mesma maneira.
Visão do TH
ND apareceu rindo.
— Soube que você corrigiu um cara hoje.
— Quem contou?
— Tenho fontes.
Ele imitou minha voz:
— O nome dela é Fernanda.
Revirei os olhos.
— Foi isso mesmo.
— Depois perguntaram se ela era sua mulher.
— E eu disse que era minha namorada.
ND abriu um sorriso.
— Com uma cara de idiota apaixonado.
Meu celular vibrou.
Nanda: Hoje tomei café com Rafael.
Fechei a cara.
Eu: Parabéns.
Nanda: Sua mensagem teve cara.
Eu: Não gosto dele.
Nanda: Eu sei. Mas ele continua sendo meu amigo.
Respirei fundo antes de responder.
Eu: Eu sei.
Nanda: Orgulhosa.
Fiquei olhando para a mensagem.
Eu: Estou tentando.
Nanda: Eu percebo.
ND tentou espiar a tela.
— E aí? Vai mandar o médico embora?
Olhei sério para ele.
— Nunca mais faz essa piada.
O sorriso dele desapareceu.
— Foi mal.
— Não quero que ela pense que estar comigo transforma as amizades dela em risco.
ND assentiu.
— Entendi.
Visão da Fernanda
Naquela noite, jantamos na casa de Dona Sônia.
Camila estava lá, Lívia não desgrudava de mim e ND apareceu para completar a bagunça.
Durante o jantar, Lívia perguntou:
— A tia Nanda agora é namorada do tio TH?
Olhei para Thiago. Ele não respondeu por mim.
Sorri.
— Sou.
A menina abriu um sorriso enorme.
— Eu sabia!
Todos começaram a rir.
Dona Sônia me abraçou e depois olhou para o filho.
— E você se comporta.
— Mãe...
— Estou falando sério.
Camila entrou na brincadeira:
— Qualquer coisa, Nanda, a gente fica do seu lado.
— Obrigado pela família — TH resmungou.
A mesa caiu na gargalhada.
Por alguns minutos, ser namorada de Thiago foi apenas isso: um jantar em família, conversas, brincadeiras e carinho.
Mas, na saída, uma mulher que passava cumprimentou TH e depois olhou para mim.
— Essa que é a nova protegida?
Meu sorriso desapareceu.
— Meu nome é Fernanda — respondi.
Ela ficou sem jeito e pediu desculpas.
Quando entramos no carro, TH perguntou se eu estava bem.
— Estou. Eu resolvi.
Ele assentiu, sem tentar tomar a situação das minhas mãos.
Olhei pela janela.
— Acho que estou começando a entender o que significa esse apelido.
— Não gosto que te chamem assim.
— Eu também não. Mas não posso controlar o que dizem.
— Nem eu.
A resposta me surpreendeu.
— Então vou ter que aprender a não deixar que isso diga quem eu sou.
TH segurou minha mão.
— E eu vou aprender a não tentar calar todo mundo.
Sorri.
— Vai ser difícil.
— Pra caralho.
Apoiei a cabeça no banco.
Naquele dia, algumas pessoas tinham se aproximado por interesse. Outras tinham se afastado por medo. Paula tinha preferido distância, enquanto Rafael continuava me tratando como sempre.
E eu precisava aprender a reconhecer a diferença.
Eu continuava sendo filha da Márcia, irmã do Lucas e amiga da Júlia. Continuava sendo técnica de enfermagem, trabalhando e sonhando em entrar na faculdade.
Agora também era namorada de Thiago.
Gostava disso. Gostava dele.
Mas não queria ser apenas uma extensão do nome dele.
— Nanda? — TH chamou.
— Oi?
— Está pensando demais?
— Sempre.
Ele beijou minha mão.
— Não precisa enfrentar tudo sozinha.
Olhei para ele.
— Eu sei. Mas também não quero que você enfrente tudo por mim.
Ele sorriu.
— Combinado.
Encostei a cabeça no ombro dele.
Podiam continuar me chamando de “a nova protegida do Dono do Morro”.
Mas eu sabia quem era.
Meu nome era Fernanda Oliveira.
E não pretendia deixar que ninguém esquecesse disso, nem mesmo eu.
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