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Aline

Autor: Amanda Nunes
last update Fecha de publicación: 2026-10-18 03:40:01

Capítulo 04 – Aline Narrando

Meu nome é Aline, mas aqui no morro

todo mundo me chama de Li. Tenho 19

anos, sou um pouco mais velha que a

Nanda, minha melhor amiga, que conheci

lá atrás, no sexto ano. Desde o primeiro

dia de aula, quando ela tava sentada

sozinha num canto da sala, eu sabia que a

gente ia se dar bem. E não errei. De lá pra

cá, a gente nunca mais se desgrudou.

Minha vida não foi fácil, mas também

nunca foi das piores. Minha mãe, dona

Cida, sempre fez de tudo pra criar eu e

meus dois irmãos. Ela é dessas mulheres

fortes que não se deixa abalar, que b**e de

frente se precisar, mas que também tem

um coração enorme. Foi ela que me

ensinou a nunca virar as costas pra quem

precisa de ajuda. Talvez seja por isso que a

Nanda sempre se sente bem em casa.

Aqui, ela não é visita, é família.

Meu pai? Esse sumiu quando eu era

pequena. Nem lembro do rosto dele.

Minha mãe segurou tudo sozinha,

trabalhando em casa de madame, lavando,

passando, cuidando de filho dos outros.

Muitas vezes, a gente ficava sem o que

comer, mas nunca faltou amor e cuidado.

Isso é o que mais admiro nela: mesmo

com tudo, nunca deixou de sorrir.

Eu cresci no meio da favela, com o funk

tocando nas esquinas, os moleques no

corre, as crianças jogando bola na laje e as

mulheres cochichando da vida alheia.

Sempre gostei desse barulho, desse

movimento. O morro pode ser perigoso,

mas também é vida, é resistência, é onde a

gente aprende a se virar.

Sou diferente da Nanda em algumas

coisas. Enquanto ela prefere passar

despercebida, abaixar a cabeça e fingir que

não vê, eu já sou mais de falar, de rir alto,

de olhar nos olhos. Não sou de me meter

em confusão, mas também não deixo

ninguém me diminuir. No morro, respeito

se conquista, e eu aprendi isso cedo.

Com 15 anos, já trabalhava em salão de

beleza, lavando cabelo, varrendo o chão,

aprendendo a fazer unha e escova. Hoje,

ajudo uma amiga da minha mãe no salão

dela, mas meu sonho mesmo é ter meu

próprio espaço, ser dona de alguma coisa

que eu construa com minhas mãos.

Sempre falo isso pra Nanda: “a gente pode

ser cria do morro, mas não precisa morrer

no mesmo lugar.”

Ela sempre me olha meio triste quando

eu digo isso. Sei que a Nanda carrega uma

dor que não sai nunca — a perda da mãe

dela. Eu tento distrair, levo ela pro salão,

pras festas de família aqui em casa, pro

pagode que rola no fim de semana, mas sei

que quando ela volta pra casa, tudo

desmorona de novo. E isso me dói, porque

eu queria poder fazer mais.

Aqui no morro, eu conheço todo mundo.

Desde os mais velhos que ficam na birosca

jogando dominó até os moleques que

seguram o corre do TH. Não que eu seja

envolvida, longe disso. Mas no morro não

tem como não cruzar com eles. E eu cresci

ouvindo falar de TH e ND, esses dois que

comandam a Rocinha com mão firme.

Todo mundo respeita, todo mundo teme.

Eu mesma nunca falei com nenhum dos

dois, mas já vi de longe em alguns bailes.

Eles têm uma presença que cala o

ambiente.

Minha mãe sempre fala: “Aline, cuidado

com as companhias. A favela tem olhos, e

quem se mistura demais acaba caindo.” Eu

sei que ela tem razão, mas também sei que

aqui a gente não escolhe muito. A vida nos

coloca em situações que não dá pra fugir.

O que eu faço é manter a postura, respeitar

quem tem que ser respeitado e seguir a

minha vida.

Eu sou aquela amiga que fala o que a

Nanda não gosta de ouvir. Quando ela

abaixa demais a cabeça, eu puxo e digo:

“ergue essa cara, menina. Se não mostrar

firmeza, vão pisar em você.” A gente se

equilibra assim: ela é mais na dela, e eu

sou mais de encarar o mundo.

Mas, apesar das diferenças, o que une a

gente é o coração. Quando eu olho pra

Nanda, eu vejo uma irmã. Vejo alguém

que eu protegeria com tudo o que tenho. E

talvez seja por isso que ela encontra paz

na minha casa. Porque aqui ela sabe que

não vai ser julgada, não vai ser

desrespeitada. Aqui, ela pode respirar,

pode rir um pouco, pode ser só a Nanda,

sem o peso do mundo nas costas.

Minha vida não é perfeita. Às vezes eu

choro escondida, cansada de ver minha

mãe se matando pra segurar tudo sozinha,

cansada de não ter dinheiro pra nada,

cansada de ver os sonhos tão distantes.

Mas eu também sei que desistir não é

opção. A gente luta, a gente corre atrás, a

gente dá um jeito. É isso que a favela

ensina: se cair, levanta; se perder, tenta de

novo.

E assim eu sigo, vivendo um dia de cada

vez, cuidando da minha mãe, e da Nanda.

A vida aqui não é fácil, mas também não é

só dor. Tem amizade, tem música, tem

amor. E eu sei que, de um jeito ou de

outro, a gente ainda vai escrever uma

história bonita, mesmo que tenha

começado na favela.

Porque, no fundo, eu acredito nisso: a

gente pode nascer cercada de dor e

violência, mas ainda assim merece sorrir,

merece sonhar, merece viver de verdade.

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