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TH na boca

Author: Amanda Nunes
last update publish date: 2026-10-18 03:42:54

Capítulo 05 – TH na Boca

TH acordava cedo, mas não porque

precisava. Quem manda não tem hora,

quem manda é respeitado em qualquer

instante. Ainda assim, ele curtia levantar

antes de todo mundo, abrir a janela e sentir

o morro respirando. A Rocinha era dele,

cada viela, cada beco, cada barraco. Tudo

passava pelo crivo de TH.

Naquela manhã, ele desceu pra boca. O

movimento já tava frenético. Os “vapor”

correndo de um lado pro outro, cliente

subindo e descendo com a cara de perdido,

e o caixa cheio de nota. O som do funk

rolava baixinho, só pra dar clima, porque

no meio do expediente não tinha espaço

pra distração.

Assim que ele apareceu, os moleques

pararam. O respeito era imediato.

— Salve, TH — disse um dos vapores,

meio nervoso, ajeitando o boné.

— Salve, cria… segue o bonde. —

respondeu ele, firme, voz calma, mas que

fazia qualquer um tremer.

ND já tava lá, sentado numa cadeira de

plástico, fumando e rindo com uns

moleques. Braço direito não à toa, ele era

os olhos e ouvidos de TH. Se TH era a

mente fria, ND era a ação rápida. Os dois

se completavam.

— Chefe, ontem o bagulho rendeu

bonito. — falou ND, mostrando uma

sacola de dinheiro. — A boca da laje

estourou, o pessoal de lá não tá dando

conta sozinho.

TH olhou pros moleques, depois pra

sacola. Contar dinheiro não era mais a

parada dele, mas cada nota representava

controle, poder. Ele não sorria, não

comemorava. Só acenou com a cabeça.

— Bom. Quem trabalha certo, continua.

Quem vacilar, tá ligado o que acontece.

O clima ficou pesado na hora. Todo

mundo sabia o que aquilo significava.

Vacilo não tinha perdão. TH nunca

precisou gritar. Nunca. A forma dele falar

já dizia tudo.

Ele andou pelo beco, observando os

movimentos, os carros subindo, gente

descendo. Reparava em tudo. Nenhum

detalhe escapava. O que mantinha ele no

topo não era só a frieza, era a visão. Ele

pensava três passos à frente, sempre.

Um moleque novo, magro, devia ter uns

14 anos, veio correndo entregar um

recado.

— TH, polícia tá descendo lá pelo outro

lado, mas tão devagar, acho que tão só

fazendo pressão.

TH parou, ficou em silêncio por uns

segundos. O moleque tremia.

— Fica de olho. Manda dois lá pra vigiar.

Se entrar, avisa na hora. — respondeu.

O garoto saiu voado.

ND riu:

— Esses cana tão achando que metem

medo ainda… não sabem que aqui é tudo

no rádio.

TH só olhou de canto, sério:

— O erro deles é achar. O nosso é

esquecer. Nunca esquece que eles querem

derrubar nóis.

Essa era a diferença dele pros outros

donos que já passaram. TH não se cegava

com o poder. Sabia que um vacilo, um

cochilo, e tudo ia pro chão.

De repente, um usuário apareceu

causando, gritando que tava sem dinheiro

mas queria fiado. Dois vapores tentaram

acalmar, mas o cara tava alterado.

TH se aproximou devagar, a mão no

bolso, o olhar gelado.

— Aqui não tem fiado, maluco. Tá

pensando que isso aqui é o quê?

O cara gaguejou, recuou, mas ainda quis

falar mais alguma coisa. Foi ND que

levantou na hora, dedo na cara dele:

— Some daqui antes que tu desapareça

de vez.

O silêncio voltou, e o cliente saiu

tropeçando morro abaixo. TH só balançou

a cabeça, voltou a andar, como se nada

tivesse acontecido. A presença dele

bastava pra ninguém testar de novo.

Lá no fim da rua, uma criançada jogava

bola, rindo alto. TH parou pra olhar. O

contraste era estranho: de um lado, a boca

fervendo; do outro, moleques só querendo

brincar. Ele não se deixou emocionar, não

deixava o coração falar mais alto. Mas, lá

no fundo, sabia que aquele ciclo não ia

acabar nunca. Quem não crescia jogando

bola, crescia correndo pros vapores.

ND chegou perto, batendo no ombro

dele:

— Chefe, cê pensa demais.

— É por pensar que eu tô aqui até hoje.

— respondeu TH, seco.

O dia foi seguindo, dinheiro entrando,

rádio chiando com informação de tudo que

acontecia na favela. TH sabia de cada

passo, cada esquina. A boca não era só

droga. Era o centro de poder, onde se

decidia quem subia, quem caía, quem

vivia e quem morria.

E ele? Ele era o rei daquele tabuleiro.

Um rei frio, calculista, que nunca deixava

ninguém chegar perto demais. No morro,

amizade de verdade ele só tinha uma: ND.

O resto, era só respeito e medo.

Quando a noite caiu, os bailes

começaram a estourar. A boca continuava

rodando, sem parar. E TH, no meio

daquele caos organizado, só observava.

Porque quem manda de verdade não

precisa gritar, nem aparecer muito. Basta

estar ali, que todo mundo já sabe: o morro

tem dono..

A boca não parava, mas TH não

precisava ficar a noite inteira ali. O bonde

já sabia como tocar o barco, cada vapor no

seu canto, cada segurança na sua função.

Ele e ND subiram juntos pro baile.

No caminho, o morro já pulsava

diferente. O som grave do funk ecoava nos

becos, luzes piscando, criançada correndo,

mulherada descendo arrumada. O baile da

Rocinha não era só festa, era vitrine, era

ponto de encontro, era onde se via quem

tinha moral de verdade.

Assim que TH chegou, o clima mudou.

Não precisou abrir caminho, o caminho se

abriu sozinho. Todo mundo respeitava.

Uns abaixavam a cabeça, outros

cumprimentavam com a mão no peito. O

olhar dele era firme, nunca de cima pra

baixo, mas de igual pra igual — só que

pesado, daquele que ninguém sustentava

por muito tempo.

— Salve, chefe — gritou um cria,

entregando um copo de whisky.

TH pegou, deu só um gole, deixou o

resto na mão de ND. Ele não curtia ficar

bêbado, sempre preferia estar sóbrio.

Quem manda não pode se perder.

O DJ mandava as mais estouradas do

momento, e o público vibrava. Molecada

de boné, camisa de time, correntes

pesadas, rebolando com as minas que

desciam até o chão. A fumaça no ar, cheiro

de maconha e perfume barato se

misturando.

ND já tava no meio da resenha, rindo

alto, dançando, cumprimentando os

moleques. Ele era comunicativo, sempre

mais “caloroso” que TH.

— Vem, chefe, se solta um pouco! —

disse ND, já cercado de duas minas.

TH só riu de canto, aquele riso curto que

pouca gente via.

— Cada um no seu corre, parceiro. Tu

anima, eu observo.

E era isso que ele fazia: observava. Cada

detalhe. Quem se aproximava de quem,

quem olhava torto, quem parecia

desconfortável. O baile era diversão, mas

também era campo de guerra silenciosa.

Ali dava pra saber quem tava crescendo,

quem tava com inveja, quem tava

planejando alguma coisa.

As minas passavam, olhavam de lado,

algumas encaravam direto, mordendo o

lábio. TH sabia do efeito que tinha. A

figura do chefe atraía, era poder, era

status. Mas ele não deixava ninguém se

aproximar demais.

Uma morena alta, corpo escultural,

chegou perto, dançando colada, tentando

chamar a atenção.

— Oi, TH… nunca te vejo curtindo. Tá

muito sério, chefe. — falou, encostando

no braço dele.

Ele desviou devagar, sem grosseria, mas

deixando claro.

— Seriedade mantém a vida. Curte lá.

Ela riu sem graça e se afastou. Todo

mundo via que TH não era de se envolver.

Não dava brecha, não se apaixonava. Pra

ele, sentimento era fraqueza, e fraqueza

custava caro no morro.

Enquanto isso, ND já tava no auge da

curtição, levantando o copo, cantando

junto as rimas do funk, cercado de

respeito. Era o braço direito, e todo mundo

sabia. Quem mexia com ND, mexia com

TH.

No meio do baile, um cria chegou perto:

— Chefe, ouvi que uns cara lá do outro

lado tão querendo testar o bonde, falaram

em expandir a boca deles…

TH ficou calado alguns segundos, só

olhando a multidão dançando. Depois

respondeu:

— Então eles vão aprender que aqui não

tem espaço pra dois donos. Mas não é hoje

que a gente resolve isso. Hoje é baile,

amanhã é guerra.

O recado foi passado, simples e direto.

ND ouviu e completou, batendo no peito:

— Deixa com nóis, chefe. Quem tentar

subir vai descer de caixão.

E o baile continuou. Fogos estouravam

no céu, o som aumentava, a favela parecia

vibrar junto com o grave. TH, no meio de

tudo, permanecia frio, calculista,

controlando sem precisar levantar a voz.

Porque a Rocinha tinha dono, e o baile

inteiro sabia quem era.

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