LOGINCapítulo 05 – TH na Boca
TH acordava cedo, mas não porque precisava. Quem manda não tem hora, quem manda é respeitado em qualquer instante. Ainda assim, ele curtia levantar antes de todo mundo, abrir a janela e sentir o morro respirando. A Rocinha era dele, cada viela, cada beco, cada barraco. Tudo passava pelo crivo de TH. Naquela manhã, ele desceu pra boca. O movimento já tava frenético. Os “vapor” correndo de um lado pro outro, cliente subindo e descendo com a cara de perdido, e o caixa cheio de nota. O som do funk rolava baixinho, só pra dar clima, porque no meio do expediente não tinha espaço pra distração. Assim que ele apareceu, os moleques pararam. O respeito era imediato. — Salve, TH — disse um dos vapores, meio nervoso, ajeitando o boné. — Salve, cria… segue o bonde. — respondeu ele, firme, voz calma, mas que fazia qualquer um tremer. ND já tava lá, sentado numa cadeira de plástico, fumando e rindo com uns moleques. Braço direito não à toa, ele era os olhos e ouvidos de TH. Se TH era a mente fria, ND era a ação rápida. Os dois se completavam. — Chefe, ontem o bagulho rendeu bonito. — falou ND, mostrando uma sacola de dinheiro. — A boca da laje estourou, o pessoal de lá não tá dando conta sozinho. TH olhou pros moleques, depois pra sacola. Contar dinheiro não era mais a parada dele, mas cada nota representava controle, poder. Ele não sorria, não comemorava. Só acenou com a cabeça. — Bom. Quem trabalha certo, continua. Quem vacilar, tá ligado o que acontece. O clima ficou pesado na hora. Todo mundo sabia o que aquilo significava. Vacilo não tinha perdão. TH nunca precisou gritar. Nunca. A forma dele falar já dizia tudo. Ele andou pelo beco, observando os movimentos, os carros subindo, gente descendo. Reparava em tudo. Nenhum detalhe escapava. O que mantinha ele no topo não era só a frieza, era a visão. Ele pensava três passos à frente, sempre. Um moleque novo, magro, devia ter uns 14 anos, veio correndo entregar um recado. — TH, polícia tá descendo lá pelo outro lado, mas tão devagar, acho que tão só fazendo pressão. TH parou, ficou em silêncio por uns segundos. O moleque tremia. — Fica de olho. Manda dois lá pra vigiar. Se entrar, avisa na hora. — respondeu. O garoto saiu voado. ND riu: — Esses cana tão achando que metem medo ainda… não sabem que aqui é tudo no rádio. TH só olhou de canto, sério: — O erro deles é achar. O nosso é esquecer. Nunca esquece que eles querem derrubar nóis. Essa era a diferença dele pros outros donos que já passaram. TH não se cegava com o poder. Sabia que um vacilo, um cochilo, e tudo ia pro chão. De repente, um usuário apareceu causando, gritando que tava sem dinheiro mas queria fiado. Dois vapores tentaram acalmar, mas o cara tava alterado. TH se aproximou devagar, a mão no bolso, o olhar gelado. — Aqui não tem fiado, maluco. Tá pensando que isso aqui é o quê? O cara gaguejou, recuou, mas ainda quis falar mais alguma coisa. Foi ND que levantou na hora, dedo na cara dele: — Some daqui antes que tu desapareça de vez. O silêncio voltou, e o cliente saiu tropeçando morro abaixo. TH só balançou a cabeça, voltou a andar, como se nada tivesse acontecido. A presença dele bastava pra ninguém testar de novo. Lá no fim da rua, uma criançada jogava bola, rindo alto. TH parou pra olhar. O contraste era estranho: de um lado, a boca fervendo; do outro, moleques só querendo brincar. Ele não se deixou emocionar, não deixava o coração falar mais alto. Mas, lá no fundo, sabia que aquele ciclo não ia acabar nunca. Quem não crescia jogando bola, crescia correndo pros vapores. ND chegou perto, batendo no ombro dele: — Chefe, cê pensa demais. — É por pensar que eu tô aqui até hoje. — respondeu TH, seco. O dia foi seguindo, dinheiro entrando, rádio chiando com informação de tudo que acontecia na favela. TH sabia de cada passo, cada esquina. A boca não era só droga. Era o centro de poder, onde se decidia quem subia, quem caía, quem vivia e quem morria. E ele? Ele era o rei daquele tabuleiro. Um rei frio, calculista, que nunca deixava ninguém chegar perto demais. No morro, amizade de verdade ele só tinha uma: ND. O resto, era só respeito e medo. Quando a noite caiu, os bailes começaram a estourar. A boca continuava rodando, sem parar. E TH, no meio daquele caos organizado, só observava. Porque quem manda de verdade não precisa gritar, nem aparecer muito. Basta estar ali, que todo mundo já sabe: o morro tem dono.. A boca não parava, mas TH não precisava ficar a noite inteira ali. O bonde já sabia como tocar o barco, cada vapor no seu canto, cada segurança na sua função. Ele e ND subiram juntos pro baile. No caminho, o morro já pulsava diferente. O som grave do funk ecoava nos becos, luzes piscando, criançada correndo, mulherada descendo arrumada. O baile da Rocinha não era só festa, era vitrine, era ponto de encontro, era onde se via quem tinha moral de verdade. Assim que TH chegou, o clima mudou. Não precisou abrir caminho, o caminho se abriu sozinho. Todo mundo respeitava. Uns abaixavam a cabeça, outros cumprimentavam com a mão no peito. O olhar dele era firme, nunca de cima pra baixo, mas de igual pra igual — só que pesado, daquele que ninguém sustentava por muito tempo. — Salve, chefe — gritou um cria, entregando um copo de whisky. TH pegou, deu só um gole, deixou o resto na mão de ND. Ele não curtia ficar bêbado, sempre preferia estar sóbrio. Quem manda não pode se perder. O DJ mandava as mais estouradas do momento, e o público vibrava. Molecada de boné, camisa de time, correntes pesadas, rebolando com as minas que desciam até o chão. A fumaça no ar, cheiro de maconha e perfume barato se misturando. ND já tava no meio da resenha, rindo alto, dançando, cumprimentando os moleques. Ele era comunicativo, sempre mais “caloroso” que TH. — Vem, chefe, se solta um pouco! — disse ND, já cercado de duas minas. TH só riu de canto, aquele riso curto que pouca gente via. — Cada um no seu corre, parceiro. Tu anima, eu observo. E era isso que ele fazia: observava. Cada detalhe. Quem se aproximava de quem, quem olhava torto, quem parecia desconfortável. O baile era diversão, mas também era campo de guerra silenciosa. Ali dava pra saber quem tava crescendo, quem tava com inveja, quem tava planejando alguma coisa. As minas passavam, olhavam de lado, algumas encaravam direto, mordendo o lábio. TH sabia do efeito que tinha. A figura do chefe atraía, era poder, era status. Mas ele não deixava ninguém se aproximar demais. Uma morena alta, corpo escultural, chegou perto, dançando colada, tentando chamar a atenção. — Oi, TH… nunca te vejo curtindo. Tá muito sério, chefe. — falou, encostando no braço dele. Ele desviou devagar, sem grosseria, mas deixando claro. — Seriedade mantém a vida. Curte lá. Ela riu sem graça e se afastou. Todo mundo via que TH não era de se envolver. Não dava brecha, não se apaixonava. Pra ele, sentimento era fraqueza, e fraqueza custava caro no morro. Enquanto isso, ND já tava no auge da curtição, levantando o copo, cantando junto as rimas do funk, cercado de respeito. Era o braço direito, e todo mundo sabia. Quem mexia com ND, mexia com TH. No meio do baile, um cria chegou perto: — Chefe, ouvi que uns cara lá do outro lado tão querendo testar o bonde, falaram em expandir a boca deles… TH ficou calado alguns segundos, só olhando a multidão dançando. Depois respondeu: — Então eles vão aprender que aqui não tem espaço pra dois donos. Mas não é hoje que a gente resolve isso. Hoje é baile, amanhã é guerra. O recado foi passado, simples e direto. ND ouviu e completou, batendo no peito: — Deixa com nóis, chefe. Quem tentar subir vai descer de caixão. E o baile continuou. Fogos estouravam no céu, o som aumentava, a favela parecia vibrar junto com o grave. TH, no meio de tudo, permanecia frio, calculista, controlando sem precisar levantar a voz. Porque a Rocinha tinha dono, e o baile inteiro sabia quem era.Uma Nova HistóriaNarrado por TJNunca pensei que assumir o lugar do meu pai seria tão diferente de tudo que imaginei.Durante anos, ouvi que um dia aquela responsabilidade seria minha. Cresci observando TH, acompanhando suas decisões e tentando entender como ele conseguia manter tanta coisa nas mãos sem demonstrar o peso que carregava.Quando era mais novo, achava que bastava chegar aos dezoito anos para provar que estava pronto.Hoje sei que estava errado.Um título não transforma ninguém em alguém preparado. O que faz diferença são as escolhas, a capacidade de ouvir e, principalmente, a coragem de reconhecer quando estamos errados.E eu já tinha aprendido isso da maneira mais difícil.Estava sentado à mesa quando João Pedro entrou sem bater.— Bom dia, chefe.Levantei os olhos.— Começou?Ele abriu um sorriso.— Estou treinando. Preciso me acostumar.— Se continuar me chamando assim, vou mandar você embora.— Não pode. Sou seu melhor amigo e braço direito. Tem contrato vitalício.R
A Despedida do ComandoNarrado por FernandaEu sabia que aquele dia chegaria, mas isso não significava que estava preparada para vivê-lo.Durante muitos anos, minha vida esteve ligada às decisões de TH. Conheci o homem por trás das responsabilidades, acompanhei suas noites difíceis e aprendi a reconhecer sua preocupação mesmo quando ele tentava escondê-la.Agora, depois de tanto tempo, ele finalmente estava pronto para deixar aquela etapa para trás.E nosso filho estava prestes a começar uma nova fase.Naquela manhã, acordei antes de TH. Fiquei alguns minutos observando seu rosto enquanto ele dormia. Havia uma tranquilidade diferente nele, mas também percebi a tensão que tentava disfarçar.Quando abriu os olhos, sorriu.— Está me olhando por quê?— Tentando descobrir se você está nervoso.Ele soltou uma risada baixa.— Um pouco.Passei a mão pelo rosto dele.— Você passou anos esperando por esse momento.— Esperei. Só não imaginava que seria tão estranho quando chegasse.Beijei sua te
O Nome Que Vou ConstruirNarrado por TJDurante muito tempo, achei que precisava provar alguma coisa para todo mundo.Ser filho de TH significava carregar um sobrenome que chegava aos lugares antes de mim. Algumas pessoas me respeitavam sem me conhecer. Outras duvidavam da minha capacidade antes mesmo de me ouvirem.Eu queria ser reconhecido pelo que era, não apenas por quem era meu pai.Mas, depois de tudo que aconteceu, comecei a entender que estava tentando provar isso da maneira errada.Meu pai tinha razão em algumas coisas. Eu precisava aprender a ouvir, controlar meu temperamento e pensar nas consequências antes de agir.O erro que cometi ainda me incomodava. Não porque alguém tinha me chamado de despreparado, mas porque eu sabia que poderia ter evitado aquele problema.E não queria repetir aquilo.Encontrei João na varanda, como quase sempre acontecia quando precisávamos conversar sem que alguém interrompesse.— Está ocupado? — perguntei.Ele levantou os olhos do celular.— Dep
O Último ConselhoNarrado por NDConheci TH antes de muita coisa mudar em nossas vidas.Vi aquele homem enfrentar momentos que teriam feito muita gente desistir. Estive ao lado dele em dias bons e ruins, acompanhei suas decisões, seus erros e as consequências que vieram depois.Durante anos, fomos mais do que parceiros. Construímos uma amizade que resistiu ao tempo, às dificuldades e até às diferenças que surgiram pelo caminho.Mas agora tudo estava mudando.TH havia decidido se afastar definitivamente, e TJ começava a ocupar um espaço que, durante muito tempo, pertenceu ao pai.Às vezes, eu olhava para aquele garoto e ainda enxergava o menino que corria pela casa com Sofia. Agora, os dois estavam adultos o suficiente para tomar decisões próprias, mesmo que ainda tivessem muito a aprender.E eu também precisava aprender a deixá-los crescer.Encontrei João Pedro na varanda, mexendo no celular.— Posso conversar com você?Ele guardou o aparelho.— Claro, ND.Sentei-me ao lado dele.— Vo
A Decisão de THNarrado por THEu passei muitos anos acreditando que precisava estar no controle de tudo.Aprendi a tomar decisões difíceis, a carregar responsabilidades e a esconder minhas preocupações para que ninguém percebesse quando alguma coisa estava me atingindo. Mas, com o passar do tempo, comecei a entender que não poderia viver daquela maneira para sempre.TJ estava crescendo. Cometeu erros, enfrentou as consequências e começou a perceber que responsabilidade não era apenas ter voz nas decisões.E eu precisava cumprir minha parte.Naquela manhã, encontrei Fernanda no quarto, organizando algumas coisas.— Preciso conversar com você — falei.Ela levantou os olhos.— Aconteceu alguma coisa?— Tomei uma decisão.Fernanda deixou o que estava fazendo de lado.— Sobre seu afastamento?Assenti.— Vou iniciar a etapa final. Não quero mais prolongar isso.Ela se aproximou.— Tem certeza?— Tenho. Quero organizar os próximos passos e deixar claro para todos que, quando a transição est
Mais Que Uma AmizadeNarrado por SofiaEu sempre achei TJ irritante.Desde pequenos, ele tinha aquela mania de querer ter resposta para tudo. Se eu dizia alguma coisa, ele encontrava um jeito de discordar. Se eu ficava quieta, perguntava o que tinha acontecido. E, quando queria me provocar, fazia isso com uma tranquilidade que dava vontade de jogar alguma coisa nele.Só que, nos últimos tempos, comecei a perceber que havia algo diferente.Talvez fosse o jeito como ele tentava esconder as preocupações. Ou a maneira como olhava para o pai quando achava que ninguém estava prestando atenção. Talvez fosse porque, pela primeira vez, eu estava vendo o garoto que conheci crescer diante dos meus olhos.E isso estava me confundindo.Depois do problema que ele causou, fiquei decepcionada. Não porque esperava que TJ fosse perfeito, mas porque sabia que ele tinha capacidade de agir melhor. Ele parecia tão preocupado em provar que estava pronto que esqueceu de ouvir as pessoas que queriam ajudá-lo.







