登入Visão da Fernanda
Descobri que sentir falta de alguém era uma coisa ridícula.
Não aparecia apenas nos momentos importantes. Às vezes, estava nas coisas mais simples, como tomar café e perceber que o gosto não era o mesmo.
— Você tá olhando pra essa caneca faz uns dois minutos — Lucas comentou.
— E você tá me olhando olhar pra caneca faz dois minutos.
— Porque é preocupante.
Peguei o café e experimentei. Fiz uma careta.
— Forte? — ele perguntou.
— Não. Só não tá igual.
Lucas sorriu de lado.
— Igual ao do cunhadão?
— Ele não é seu cunhadão.
Meu irmão ficou quieto por um instante.
— Vocês terminaram?
A pergunta que ninguém tinha feito diretamente.
— Não sei.
— Você ama ele?
Olhei para Lucas.
— Amo.
— Ele ama você?
— Ama.
— Então por que vocês não estão juntos?
Suspirei.
— Porque amor não resolve tudo. Ele tomou uma decisão por mim, escondeu uma informação importante e achou que tinha o direito de escolher o que eu podia saber.
— E você foi embora mesmo amando?
— Fui.
Lucas assentiu devagar.
— Deve ser uma merda.
Soltei uma risada sem humor.
— É.
— Quer que eu pare de chamar ele de cunhadão?
Meu peito apertou.
— Por enquanto.
— Tá. Mas eu ainda gosto dele.
— Eu também, Lucas.
Ele me olhou com compreensão.
— Esse é o problema, né?
— É.
Fazia seis dias desde que eu tinha saído da casa de Thiago. Seis dias sem beijos, abraços ou conversas cara a cara. Mas também seis dias em que ele respeitava o espaço que eu havia pedido.
Não ligou, não apareceu, não mandou presentes e não tentou usar minha família para chegar até mim.
No começo, senti alívio. Depois, raiva. Em seguida, saudade.
Agora, estava apenas tentando organizar meus próprios pensamentos.
No hospital, a vida continuava. Pacientes chegavam, os corredores permaneciam movimentados e eu ainda tinha responsabilidades, contas e planos.
Eu continuava sendo Fernanda, mesmo sem TH ao meu lado.
— Terra chamando Fernanda.
Pisquei. Rafael estava parado na minha frente.
— Oi.
— Você tá segurando essa prancheta ao contrário.
Olhei para minhas mãos.
— Merda.
Ele riu.
— Tá tudo bem?
— Mais ou menos.
— Quer conversar?
— Não muito.
— Então não precisa.
Agradeci mentalmente por ele não insistir.
Pouco depois, Júlia apareceu.
— O doutor bonito continua bonito.
— Nem começa.
— Só uma constatação científica.
— Júlia, eu tenho namorado.
Nós duas paramos.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Tem?
Fechei os olhos.
— Não sei.
— Interessante.
— Cala a boca.
Ela sorriu, mas logo ficou séria.
— Você não precisa decidir tudo agora.
— Eu sei. Mas amar o TH não significa que preciso voltar. E sentir saudade também não apaga o que aconteceu.
— Exatamente.
Na saída, não encontrei Davi nem nenhum carro conhecido. Eu havia pedido que não colocassem segurança escondida, e Thiago estava cumprindo.
Pedi um carro por aplicativo e fui para a casa da minha tia.
Naquela noite, Lucas apareceu na cozinha.
— Aquele cara ainda tá aqui.
Levantei a cabeça.
— Que cara?
— O do carro cinza. Tá lá embaixo.
Fui até a janela e olhei discretamente. Havia um homem dentro de um carro estacionado mais distante.
Peguei o celular e liguei para ND.
— Tem um carro aqui.
— Onde você tá?
— Na casa da minha tia.
— É cinza?
— Nathan, é de vocês?
Ele demorou um instante.
— É.
Fechei os olhos.
— Eu disse que não queria segurança escondida.
— Eu sei.
— TH concordou comigo.
— Concordou. Mas apareceu uma informação concreta relacionada aos seus deslocamentos.
Meu corpo esfriou.
— Que informação?
— Não posso explicar tudo por telefone.
— Então manda TH me ligar. Agora.
Pouco depois, meu celular tocou.
— O carro é seu? — perguntei assim que atendi.
— É.
— Por quê?
Thiago explicou que um contato ligado a Vini havia perguntado sobre o endereço onde minha família estava ficando.
— Quando você soube?
— Duas horas atrás.
— E por que não me contou?
Ele respirou fundo.
— Eu ia esperar CK confirmar se era uma pergunta sem importância ou uma tentativa real de localizar vocês.
Soltei uma risada sem humor.
— Você está fazendo de novo?
Houve um silêncio.
— Sim. Em parte, estou.
A sinceridade me surpreendeu.
— Minha primeira reação foi colocar alguém perto da casa. Depois percebi que deveria ter conversado com você antes.
— Exatamente.
— Se você quiser, retiro o homem agora.
Olhei novamente pela janela. A raiva ainda estava ali, mas o medo começava a ocupar espaço.
— Não. Quero que ele fique por enquanto. Mas quero saber quem é, onde vai ficar e até quando.
— O nome dele é André. Davi o conhece. Vai permanecer no carro, sem entrar ou interferir com sua família. Amanhã cedo reavaliamos.
— E você vai me contar o que descobrir, mesmo que não tenha confirmação?
— Vou. Mesmo que não tenha nada.
Respirei fundo.
— Certo.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Fernanda…
— Fala.
— Senti sua falta.
A frase apertou meu peito.
— Eu também senti.
— Tá — ele respondeu baixinho.
Desligamos sem prolongar a conversa.
Visão do TH
Fiquei olhando para o celular depois que Fernanda desligou.
— Ela deixou o homem ficar? — ND perguntou.
— Deixou.
— Bom.
— Mas me chamou de Thiago.
Ele fez uma careta.
— Isso é ruim?
— Não sei.
ND sentou diante de mim.
— Você quase repetiu o mesmo erro.
— Eu sei.
— Mas dessa vez reconheceu.
— Depois que já tinha feito.
— Então, na próxima, reconhece antes.
Passei a mão pelo rosto.
— Minha primeira reação foi proteger sem perguntar.
— Você faz isso há anos. Não vai desaparecer de uma hora pra outra.
— Não é desculpa.
— Não falei que era.
Fiquei quieto.
Fernanda tinha sentido minha falta, mas aquilo não significava perdão. Muito menos confiança.
Eu precisava mudar mesmo que ela nunca voltasse.
Era a parte mais difícil de aceitar.
Visão da Fernanda
Na manhã seguinte, Thiago ligou às oito e quinze.
— Posso falar sobre a informação de ontem?
A pergunta me chamou atenção.
— Pode.
Ele explicou que CK havia confirmado a existência da pergunta sobre o endereço, mas ainda não sabia se aquilo representava uma tentativa real de localizar minha família.
— Quem perguntou?
— Um homem ligado indiretamente a Vini.
— Ele sabe onde estou?
— Até onde sabemos, não.
Perguntei sobre minha mãe, Lucas e o hospital. Ele respondeu sem esconder o que sabia.
Depois sugeriu algumas possibilidades de segurança.
— Davi pode voltar a te levar. Ou podemos combinar alguém acompanhando seus deslocamentos à distância, mas você sabendo. Você escolhe.
— Davi — respondi. — Só trabalho e casa. E nada de pedir para ele contar com quem converso.
— Certo.
— Rafael existe, Thiago.
Ele soltou um suspiro.
— Infelizmente.
Acabei rindo.
Por alguns segundos, pareceu que estávamos conversando como antes.
— E eu não voltei — deixei claro.
— Eu sei.
— Aceitar ajuda não significa reconciliação.
— Eu entendi.
Depois de desligar, contei à minha mãe.
— Ele me deu opções — expliquei.
Márcia assentiu.
— Que bom.
— Só isso?
— Quer que eu dê parabéns para um homem adulto por conversar?
Ri.
Minha mãe tinha razão. Respeitar minha escolha não era favor. Era o mínimo.
Nos dias seguintes, Davi voltou a me acompanhar. Sempre perguntava antes de aparecer, respeitava meus horários e não interferia na minha rotina.
Comecei a perceber que aceitar ajuda não significava perder minha independência. Liberdade também era poder escolher quando precisava de apoio.
Na sexta-feira, durante o caminho para casa, Davi comentou que Thiago não estava dormindo direito.
Meu coração apertou.
Peguei o celular, abri nossa conversa e fiquei alguns segundos pensando.
Por fim, escrevi:
Eu: Come alguma coisa.
A resposta chegou rapidamente.
TH: Isso foi preocupação?
Eu: Foi uma ordem.
TH: Você não manda em mim.
Eu: Vai tomar no cu.
TH: Saudade também.
Sorri, apesar de mim mesma.
Eu: Come.
TH: Tá. Obrigado por perguntar.
Não respondi, mas passei o restante do caminho com o celular nas mãos.
Visão do TH
A mensagem dela continuava aberta na tela.
— Por que tá sorrindo? — ND perguntou.
— Não tô.
— Tá sim. Foi a Fernanda?
Virei o celular.
— Ela mandou eu comer.
ND começou a rir.
— O homem mais temido do morro feliz porque recebeu uma bronca.
— Vai trabalhar, Nathan.
Ele ainda ria quando saiu.
Eu queria vê-la, ligar e dizer que estava com saudade. Mas não fiz nada disso.
Ela precisava de espaço, e eu precisava aprender a respeitá-lo.
Visão da Fernanda
Uma semana virou dez dias. Depois, doze.
Nós trocávamos poucas mensagens, quase sempre sobre segurança e investigação. Às vezes, escapavam pequenas conversas pessoais.
TH: Sua presilha continua no sofá.
Eu: J**a fora.
TH: Não.
Eu: Então para de reclamar.
Eram conversas simples, sem cobranças ou pedidos para voltar.
No décimo terceiro dia, encontrei Dona Sônia perto do hospital. Ela me abraçou e perguntou pela minha mãe, por Lucas e pelo trabalho.
Depois, convidou-me para tomar um café.
— Eu não vim falar por ele — avisou.
— Eu sei.
— Mas queria saber como você está.
— Estou tentando ficar bem.
Ela segurou minha mão.
— Tá doendo?
— Muito.
— Nele também. Mas não estou dizendo isso para você voltar.
Agradeci com um sorriso pequeno.
— A senhora acha que ele consegue mudar?
Sônia pensou antes de responder.
— Acho que Thiago consegue aprender. Mas passou muitos anos acreditando que sobreviver dependia de controlar tudo ao redor dele. Isso não desaparece só porque se apaixonou.
Fiquei em silêncio.
— E você não tem obrigação de aguentar enquanto ele aprende — completou.
Aquelas palavras ficaram comigo.
— Tenho medo de voltar e tudo se repetir. Mas também tenho medo de não voltar e perder uma coisa boa.
Sônia apertou minha mão.
— Os dois sentimentos são legítimos. Só não deixe o medo decidir tudo por você.
Quando cheguei em casa, pensei muito naquela conversa.
Eu não queria desaparecer dentro de um relacionamento. Queria continuar trabalhando, estudar, cuidar da minha família, sair com Júlia e construir meu futuro.
E também queria poder amar Thiago.
Uma coisa não precisava destruir a outra.
Visão do TH
CK colocou alguns documentos sobre a mesa.
— Temos uma informação nova.
ND ficou sério.
— Confirmada?
— Parte dela. Um dos contatos de Renan cruza com uma pessoa que aparece perto de informações sobre o ataque mais vezes do que deveria.
Meu corpo ficou tenso.
— Isso prova participação?
— Não. Mas aproxima essa pessoa da rede.
Olhei para os documentos e depois para ND.
— Fernanda precisa saber.
Dessa vez, não esperei confirmação completa para conversar com ela.
Peguei o celular e liguei.
— Apareceu uma informação nova — expliquei. — Parte está confirmada, mas ainda não sabemos o que significa.
Contei tudo o que CK havia encontrado, sem esconder dúvidas ou transformar suspeitas em certezas.
Quando terminei, ela ficou em silêncio.
— Então vocês ainda não sabem se isso é importante.
— Não sabemos.
— Pode não dar em nada.
— Pode.
— E você está me contando mesmo sem ter certeza.
— Estou.
Ela demorou um pouco para responder.
— Obrigada.
Aquela palavra significou mais do que ela imaginava.
— Você está bem? — perguntei. — Não precisa responder se não quiser.
— Estou assustada. Mas prefiro estar assustada sabendo.
Fechei os olhos.
— Eu entendi.
— Espero.
Antes de desligar, ela me chamou:
— TH.
Meu coração acelerou.
— Oi?
— Boa noite.
Sorri.
— Boa noite, Nanda.
Ela não reclamou do apelido.
Não era uma reconciliação, mas também não era um adeus.
E eu não precisava transformar aquilo em mais do que realmente era.
Visão da Fernanda
Naquela noite, deitada na cama, pensei em Thiago.
Não no dono da Rocinha, nem no homem que quase morreu ou no namorado que havia escondido uma verdade.
Pensei nele como pessoa.
Ele ainda tinha defeitos, alguns que eu não aceitaria. Outros talvez pudesse aprender a compreender. Continuava errando, mas começava a interromper os próprios impulsos.
Isso não reconstruía a confiança de uma hora para outra.
Mas talvez fosse o primeiro tijolo.
Meu celular vibrou.
TH: Esqueci de falar uma coisa. A informação que te contei não muda nada na segurança de hoje. Se mudar, eu aviso.
Eu: Tá bom.
Pensei um pouco antes de escrever novamente.
Eu: Obrigada por contar antes de ter certeza.
TH: Tô aprendendo.
Eu: Devagar.
TH: Pra caralho.
Ri sozinha.
Fiquei olhando para a conversa. Meu dedo pairou sobre o teclado antes de finalmente escrever:
Eu: Sinto sua falta.
Enviei e quase me arrependi.
A resposta chegou poucos segundos depois.
TH: Eu sinto a sua todos os dias.
Outra mensagem apareceu.
TH: Mas não vou usar isso pra te pedir pra voltar.
Meus olhos ficaram cheios de lágrimas.
Talvez fosse exatamente disso que eu precisava: espaço para pensar, respirar e descobrir o que realmente queria.
Ainda não sabia se voltaria. Não sabia quando, nem se conseguiria confiar novamente.
Mas começava a entender que amar alguém não precisava significar entregar minha liberdade.
Eu continuava sendo Fernanda.
Técnica de enfermagem, filha de Márcia, irmã de Lucas e amiga de Júlia. Uma mulher que queria fazer faculdade, trabalhar, ter seu dinheiro, suas escolhas, sua casa e sua própria voz.
E também era uma mulher apaixonada por Thiago.
Uma coisa não precisava destruir a outra.
Se algum dia eu voltasse para ele, seria assim: inteira.
Ou não seria.
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