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Café, Implicância e Ciúme

作者: Amanda Nunes
last update publish date: 2026-11-06 00:31:21

Visão da Fernanda

No terceiro dia morando temporariamente com TH, descobri que ele tinha um defeito imperdoável: fazia café forte demais.

Dei um gole e fiz uma careta.

— Meu Deus! Isso é café ou castigo?

TH levantou os olhos do celular.

— Café.

— Parece que você dissolveu uma colher dentro da caneca.

Ele sorriu.

— Ontem você tomou.

— Ontem eu estava com sono. Hoje minhas papilas gustativas estão funcionando.

— Faz você amanhã.

— Vou fazer. E você vai descobrir que café não precisa causar taquicardia.

Ele riu, e eu tentei esconder meu sorriso atrás da caneca.

Na mesa havia dois pratos com pão e ovo. Um deles preparado exatamente do jeito que eu gostava.

— Você não precisava fazer meu café da manhã.

— Estava fazendo o meu.

— Com dois pratos?

— Coincidência.

— E com meu ovo do jeito que eu gosto?

Ele deu de ombros.

— Observação.

Meu coração fez aquela coisa irritante.

Eu estava começando a gostar daquela rotina. Das conversas na cozinha, das pequenas provocações e até das discussões sobre coisas completamente inúteis.

TH também estava aprendendo meus hábitos. Sabia que eu colocava três alarmes, esquecia o elástico de cabelo em qualquer lugar e precisava comer alguma coisa doce depois do almoço.

Era uma intimidade nascendo sem beijo, sem namoro e sem definição.

Talvez justamente por isso fosse tão perigosa.

Mais tarde, procurei meu elástico pela sala.

— Cadê meu elástico?

Sem tirar os olhos do celular, ele respondeu:

— Banheiro.

— Como você sabe?

— Você deixou perto da pia.

Fui conferir e, como sempre, ele estava certo.

Quando voltei, TH estava sorrindo.

— Você presta atenção demais — reclamei.

— Você fala demais.

Peguei uma almofada e joguei nele. TH conseguiu segurá-la antes que acertasse seu rosto.

— Você tentou me agredir.

— Foi uma almofada!

— Começa assim.

A brincadeira continuou até ele mencionar que eu nunca tinha negado que queria beijá-lo.

O sorriso desapareceu dos nossos rostos.

— Thiago...

Ele levantou as mãos.

— Parei.

A tensão voltou a ocupar o espaço entre nós. Peguei a almofada do chão e mudei de assunto.

— Vai trocar o curativo.

Ele riu.

— Mudança de assunto muito discreta.

— Vai logo!

E ele foi, ainda sorrindo.

Visão do TH

Morar com Fernanda estava mudando minha casa.

Agora havia frutas na geladeira, um shampoo que não era meu no banheiro e uma bolsa ocupando uma cadeira que sempre ficava vazia.

Também havia barulho. Ela cantava enquanto arrumava as coisas, conversava com a mãe por vídeo e reclamava do meu café.

E eu gostava.

Gostava mais do que deveria.

Naquela tarde, ND ligou e perguntou, sem nenhuma vergonha:

— Tudo tranquilo aí no casamento?

— Vou desligar.

Fernanda ouviu e pediu que eu colocasse no viva-voz.

Em poucos minutos, os dois estavam rindo das nossas discussões por causa do café, do controle remoto e das toalhas.

— Vocês precisam de terapia de casal — ND provocou.

— A gente não é casal! — Fernanda respondeu.

O silêncio que veio depois foi suficiente para fazer ND rir ainda mais.

Desliguei antes que ele piorasse a situação.

Meu celular vibrou com uma mensagem dele:

ND: VOCÊS ESTÃO MUITO FODIDOS.

Bloqueei a tela.

Ele não precisava me explicar. Eu já sabia.

Visão da Fernanda

Antes de sair para o plantão, TH apareceu na cozinha.

— Davi está esperando.

— Eu sei.

— Celular carregado?

— Oitenta e sete por cento.

— Me avisa quando chegar?

— Posso.

Ele ainda parecia querer fazer mais perguntas. Coloquei a mão sobre a boca dele para interrompê-lo.

Só percebi o que tinha feito quando nossos olhos se encontraram.

Retirei a mão rapidamente.

— Desculpa.

Ele segurou o sorriso.

— Você podia pedir.

— Você não parava de falar!

— Funcionou.

Peguei minha bolsa.

— Tchau, TH.

— Se cuida, Nanda.

No hospital, o plantão estava tranquilo. Durante uma pausa, Júlia apareceu acompanhada do doutor Rafael, um médico de vinte e nove anos com quem eu conversava de vez em quando.

— Sobreviveu ao último plantão? — ele perguntou.

— Por pouco.

Rafael apontou para a máquina de café.

— Agora aceita um café?

Aceitei. Conversamos sobre trabalho e alguns pacientes. Nada demais. Eu sabia que ele tinha interesse em mim, mas nunca havia ultrapassado meus limites.

Meu celular vibrou.

TH: Tudo bem?

Eu: Sim.

TH: Comeu?

Eu: Ainda não.

Quando Rafael me entregou o café, outra mensagem chegou.

TH: Tá ocupada?

Eu: Tomando café.

TH: Sozinha?

Franzi a testa.

Eu: Por quê?

TH: Perguntei.

Resolvi provocar.

Eu: Tô com Rafael.

A resposta demorou pouco.

TH: Quem é Rafael?

Eu: Um médico.

TH: O médico?

Quase ri em voz alta.

Eu: Você investigou o Rafael?

TH: Investigar é uma palavra forte.

Pouco depois, ele ligou.

— Você investigou o Rafael?

— Boa tarde — respondeu, com a maior tranquilidade.

— Não me dá boa tarde. Responde!

— Não investiguei. Perguntei quem era.

— Para quem?

— Davi.

— Por quê?

Houve uma pausa.

— Curiosidade.

Comecei a rir.

— Você está com ciúme?

— Não.

A resposta veio rápida demais.

— Meu Deus, você está!

— Não começa.

— Você perguntou ao meu segurança quem era um médico que conversa comigo.

— Não é seu segurança.

— Foco, Thiago!

Ele soltou um suspiro.

— Não gostei de saber que você estava tomando café com um cara que quer você.

Parei de rir.

— Então é ciúme.

— Chama como quiser.

— Quero chamar de ciúme.

— Então chama.

A voz dele ficou mais séria.

— Mas eu sei que não tenho direito de dizer com quem você pode ou não tomar café.

Aquilo me surpreendeu.

— Ainda bem.

— Não significa que eu precise gostar.

Sorri novamente.

— Pelo menos está sendo sincero.

— Vai tomar seu café, Fernanda.

Desliguei ainda sorrindo.

Rafael percebeu.

— Namorado?

— Não.

— Quase?

— Não existe quase.

Ele riu, mas não insistiu.

— Só para deixar registrado: eu gosto de você, mas sei que você nunca me deu abertura. Não vou transformar isso em problema.

— Gosto de você também, Rafael. Como amigo.

— Eu sei.

E era por isso que nossa amizade continuava tranquila.

Visão do TH

— Você está com ciúme — ND afirmou assim que percebeu minha expressão.

— Vai se ferrar.

Ele começou a rir.

— Quem é o homem?

— Um médico. Rafael.

— E qual é o problema? Ele fez alguma coisa?

— Não.

— Então?

Passei a mão pelo rosto.

— Ele gosta dela.

ND ficou sério por alguns segundos.

— Fernanda é bonita. Vai ter gente interessada nela.

Eu sabia disso. O problema era lembrar que Rafael representava uma vida muito diferente da minha.

Uma vida normal. Sem ameaças, sem homens armados e sem alguém precisando de segurança para ir trabalhar.

— Você está pensando besteira — ND comentou.

— Só estou dizendo que ela tem razão em ter medo da minha vida.

— Ter medo não significa que você decide por ela.

— Eu sei.

— Nem para ficar, nem para ir.

Fiquei em silêncio.

Meu celular vibrou.

Fernanda: Rafael mandou dizer que o café estava ótimo.

Respondi:

Eu: Diz para o Rafael que eu não perguntei.

Fernanda: Ciumento.

Dessa vez, resolvi não fugir.

Eu: Tá. Estou com ciúme.

Ela demorou um pouco.

Fernanda: 😳

Sorri.

Eu: Perdeu a fala?

Fernanda: Vai trabalhar.

ND balançou a cabeça quando percebeu minha expressão.

— Nunca vi você assim.

— Assim como?

— Bobo.

Ignorei.

Mas a palavra que ele usou depois ficou na minha cabeça.

Apaixonado.

Visão da Fernanda

Cheguei à casa de TH depois das nove e senti cheiro de comida.

— Você cozinhou?

— Sei sobreviver — respondeu.

Na cozinha havia arroz, carne e legumes.

— Estou impressionada.

— Para de agir como se eu fosse incapaz.

Sentei e olhei para ele.

— Isso é uma tentativa de superar o Rafael?

TH me encarou.

— Você vai falar dele a noite toda?

— Talvez.

— Já admiti que fiquei com ciúme. Não precisa tentar arrancar outra confissão.

Sorri.

— E não vai me dizer para parar de conversar com ele?

— Quero dizer.

— Mas?

— Mas você não é minha.

A frase me deixou estranhamente quieta.

— Mesmo se fosse minha namorada, você também não mandaria em mim.

TH sorriu.

— Claro que essa seria sua resposta.

— E está errada?

— Não.

Jantamos conversando e, depois, discutimos sobre quem lavaria a louça. Acabamos fazendo isso juntos.

A cozinha era pequena, e nossos braços se encostavam de vez em quando. Quando TH passou atrás de mim, colocou a mão na minha cintura para evitar que eu esbarrasse nele. Retirou-a imediatamente.

— Desculpa.

— Tudo bem.

Continuamos em silêncio por alguns segundos.

Então ele perguntou:

— Você gosta do Rafael?

— Gosto. Como amigo.

Percebi o alívio no rosto dele.

— Ele já quis alguma coisa comigo, mas eu nunca tive interesse. E sempre respeitou isso.

— Bom.

— Ele vai continuar sendo meu amigo.

TH respirou fundo.

— Certo.

— Mesmo se um dia a gente tiver alguma coisa, isso não vai mudar.

Ele me olhou com atenção.

— Mesmo se um dia a gente tiver alguma coisa?

Meu rosto esquentou.

— Você está muito convencido hoje.

— Não estou pressionando. Só estou perguntando.

— Não existe a gente, TH.

— Ainda.

Olhei para ele, sem saber o que responder.

— Você é insuportável.

— Você gosta.

— Às vezes.

A palavra escapou antes que eu pudesse impedir.

TH ficou imóvel.

— O quê?

— Da sua comida!

— Mentira.

Larguei o pano e saí da cozinha.

— Boa noite!

Ouvi a risada dele atrás de mim.

Já no quarto, meu celular vibrou.

TH: Você esqueceu seu elástico na cozinha de novo.

Eu: Guarda para mim.

TH: Agora virou minha função?

Eu: Sim.

TH: Folgada.

Sorri.

Eu: Boa noite, ciumento.

TH: Boa noite, chata.

Alguns segundos depois, chegou outra mensagem.

TH: E eu não gostei do Rafael.

Eu: Eu percebi.

TH: Mas confio em você.

Li aquela frase mais de uma vez.

Não era apenas sobre Rafael. Era sobre minhas escolhas e sobre TH aprender a sentir ciúme sem transformar aquilo em controle.

Eu: Boa noite, Thiago.

TH: Boa noite, Nanda.

Deixei o celular ao lado da cama.

A ameaça tinha me colocado naquela casa, mas não era ela que me fazia começar a gostar de voltar para lá.

E admitir isso, mesmo só para mim, dava muito mais medo do que eu gostaria.

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