INICIAR SESIÓNVisão da Fernanda
Eu descobri que Thiago conseguia transformar uma frase de quatro palavras numa discussão de meia hora.
E o pior era que, naquela manhã, ele nem percebeu o que tinha feito.
Eu estava terminando o café — o meu, porque o dele continuava parecendo combustível de avião — quando o celular vibrou em cima da bancada.
Era Júlia.
Júlia: Você vai conseguir trocar o plantão de sexta?
Peguei o aparelho e comecei a responder.
— Quem é?
Levantei os olhos.
TH estava do outro lado da cozinha, encostado no balcão, me observando.
— Júlia.
— O que ela quer?
— Saber do meu plantão.
Ele assentiu, mas continuou olhando.
— Que foi?
— Nada.
— Thiago.
— Eu falei nada.
— Sua cara tá falando umas quinze coisas.
Ele soltou o ar pelo nariz.
— Você vai trabalhar sexta?
— Se eu não conseguir trocar, vou.
— Não vai.
Minha mão parou sobre o celular.
Devagar, coloquei o aparelho na bancada.
— Como é?
Talvez qualquer outra pessoa tivesse percebido o perigo naquela pergunta. Thiago, aparentemente, não.
— Depois do que aconteceu, não acho bom você fazer esse horário.
— Você não acha bom.
— Não.
— Então fala assim: “Nanda, eu tô preocupado com esse horário.”
Ele franziu a testa.
— Foi o que eu falei.
— Não. Você falou “você não vai”.
— Dá no mesmo.
Eu ri.
Sem humor nenhum.
— Não dá no mesmo nem fodendo.
TH endireitou o corpo.
— Fernanda, tem gente atrás de informação sobre você. Eu não vou fingir que isso não existe.
— E eu não pedi para você fingir.
— Então pronto.
— Pronto o quê?
— Sexta você fica aqui.
Cruzei os braços.
— Você tá ouvindo a si mesmo?
— Tô tentando manter você segura.
— E eu tô tentando explicar que segurança não te dá autoridade sobre a minha vida.
O maxilar dele travou.
— Você é minha mulher, porra. É óbvio que eu vou me preocupar.
O silêncio caiu na cozinha.
Ele percebeu um segundo tarde demais.
Eu fiquei olhando para ele.
— Eu sou o quê?
TH fechou os olhos por um instante.
— Nanda…
— Não. Repete.
— Eu falei errado.
— Falou.
Aproximei um passo.
— Eu não sou sua mulher.
Ele me encarou.
— Você sabe o que eu quis dizer.
— Sei. E é justamente por saber que eu tô falando.
Meu coração batia rápido, mas não era medo.
Era irritação. E alguma coisa mais difícil de admitir.
Porque eu gostava dele.
Gostava muito mais do que seria conveniente.
E talvez por isso eu precisasse deixar aquilo claro antes que sentimento virasse desculpa para coisas que eu não aceitaria.
— Eu não sou sua propriedade, TH.
— Eu nunca falei que era.
— Não precisa falar. Às vezes você age como se fosse.
Ele abriu a boca, mas eu levantei a mão.
— Eu entendo que você tem medo. Eu entendo que existe perigo de verdade. Só que você não pode pegar esse medo e transformar em ordem.
— Se alguma coisa acontecer com você…
— Você vai sofrer. Eu sei.
Minha voz baixou.
— E se você transformar minha vida numa prisão para evitar sofrer, quem vai sofrer sou eu.
Aquilo atingiu.
Vi no rosto dele.
TH desviou o olhar para a janela.
Por alguns segundos, não disse nada.
— Eu não sei fazer isso direito.
A raiva perdeu um pouco da força.
— Fazer o quê?
— Me importar com alguém sem querer resolver tudo.
A sinceridade me desmontou mais do que qualquer pedido de desculpa bonito desmontaria.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Quando eu vejo perigo, minha cabeça vai direto pro que precisa ser feito. Quem fica onde. Quem sai. Quem acompanha. O que muda.
— Eu não sou uma operação.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Ele demorou.
— Tô aprendendo.
Fiquei quieta.
Aquilo era provavelmente o mais perto que Thiago chegava de admitir que estava errado sem alguém arrancar a frase dele com um alicate.
— Então aprende uma coisa agora.
Ele voltou a me olhar.
— Você pode me dizer que está preocupado. Pode me contar o risco. Pode pedir para eu pensar em outra opção. Pode até discutir comigo.
— Isso eu sei fazer.
— Percebi.
Quase sorri.
— O que você não pode é decidir e depois me informar.
TH assentiu devagar.
— Tá.
— Tá de verdade ou tá só tentando encerrar a discussão?
— Tá de verdade.
Peguei o celular outra vez.
— Então vamos testar.
— Como?
— Sexta eu tenho plantão.
A testa dele imediatamente franziu.
— Nanda…
— Teste reprovado.
— Caralho.
Eu ri.
Dessa vez de verdade.
Ele balançou a cabeça, irritado consigo mesmo.
— Posso falar?
— Pode.
— Eu tô preocupado com você saindo naquele horário.
— Melhorou.
— E queria que você considerasse trocar.
— Muito melhor.
— Se não conseguir, a gente combina uma forma segura de você ir e voltar.
Olhei para ele por alguns segundos.
— Viu? Não morreu.
— Quase.
— Dramático.
— Você me estressa.
— E mesmo assim continua aqui.
Ele ficou sério.
— Continuo.
A palavra saiu simples.
Mas meu estômago virou do mesmo jeito.
Desviei o olhar para esconder.
Foi quando ouvimos passos.
ND apareceu na porta da cozinha com uma expressão desconfiada.
— Posso entrar ou vocês tão no meio de uma DR?
— Some — TH respondeu.
ND olhou para mim.
— Então é DR.
— Nathan.
— Já fui.
Ele deu dois passos para trás e ainda teve coragem de completar:
— Só queria avisar que o CK chegou.
O clima mudou imediatamente.
TH ficou atento.
— Alguma coisa?
ND parou de brincar.
— Pode ser.
Olhei de um para o outro.
Thiago percebeu.
Durante um segundo, vi o velho reflexo nele: mandar que eu fosse para outro cômodo, decidir o que eu deveria ou não ouvir.
Mas ele respirou.
— Quer ficar?
A pergunta me surpreendeu.
— Isso tem a ver comigo?
— Pode ter.
— Então quero.
Ele assentiu.
Simples assim.
Quando CK entrou, trouxe poucas certezas e perguntas demais. A informação sobre a noite do ataque continuava apontando para alguém que conhecia a rotina de TH melhor do que deveria.
Eu ouvi tudo o que dizia respeito a mim.
Sem ser retirada da conversa.
Sem alguém escolher por mim.
Mais tarde, quando ficamos sozinhos outra vez, TH se aproximou.
— Sobre o que eu falei antes…
— “Minha mulher”?
Ele fez uma careta.
— É.
— Continua errado.
— Eu sei.
— Ótimo.
— Mas um dia você pode ser.
Meu coração tropeçou.
— Thiago.
— Não tô mandando.
— Ainda bem.
— Tô falando que eu gostaria.
Fiquei olhando para ele.
Aquele homem realmente tinha o talento de me deixar irritada e mexida na mesma proporção.
— Primeiro aprende a pedir as coisas.
Um canto da boca dele subiu.
— Posso te beijar?
Eu pisquei.
— Filho da mãe.
— Perguntei direito.
Aproximei-me e segurei a camiseta dele.
— Pode.
O beijo foi curto.
Quase comportado.
Quando me afastei, encostei o dedo no peito dele.
— E não se anima. Eu continuo não sendo sua mulher.
— Ainda.
— TH.
Ele riu.
Eu também.
Mas, quando fui para o quarto naquela noite, fiquei pensando naquela palavra.
Ainda.
O problema não era imaginar um futuro com Thiago.
O problema era que eu começava a conseguir imaginar.
E, para esse futuro existir, ele precisaria aprender que amar alguém não era possuir.
E eu precisaria descobrir se conseguiria amar um homem como ele sem deixar de ser exatamente quem eu era.
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