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O Traidor Está Perto

Autor: Amanda Nunes
last update Fecha de publicación: 2026-11-06 00:45:40

Visão do ND

Eu conhecia TH desde criança. Conhecia suas manias, seus defeitos e até os silêncios que ele tentava esconder de todo mundo.

E aquele silêncio não era normal.

Ele estava sentado do outro lado da mesa havia quase cinco minutos, com os braços apoiados na madeira e os olhos fixos nos documentos espalhados à sua frente. Não mexia em nada. Não perguntava nada. Apenas olhava.

Eu conhecia aquela expressão. Era a mistura de raiva, preocupação e desconfiança que aparecia quando alguma coisa saía do controle.

CK estava ao meu lado, com o notebook aberto e algumas anotações organizadas. Também não parecia muito confortável com aquela reunião.

— Se continuar olhando assim pra mesa, ela vai confessar — comentei, tentando quebrar o clima.

TH levantou os olhos lentamente.

— Vai tomar no cu.

Soltei uma risada curta, mas ela morreu quando percebi que ele continuava sério.

— Bom, pelo menos ainda sabe conversar — murmurei.

CK ignorou minha tentativa de descontração e virou o notebook na direção de TH.

— Preciso que você repita o que encontrou — TH pediu.

CK respirou fundo antes de responder.

— A informação vazou. E agora não estamos mais trabalhando com uma suspeita baseada em coincidências.

TH inclinou o corpo para a frente.

— Explica.

CK abriu alguns arquivos e começou a apresentar os registros.

— Durante os últimos dias, tivemos informações aparecendo em lugares onde não deveriam estar. Primeiro, foram coincidências pequenas. Pessoas em locais errados, perguntas que não faziam sentido e movimentações que pareciam antecipadas. Depois, tivemos aquela mensagem com detalhes que deveriam estar restritos.

— A rota — TH comentou.

— Também. E o observador. Sem contar a ligação para Fernanda.

O nome dela fez TH apertar a mandíbula.

Eu permaneci quieto, acompanhando a conversa. Sabia que a ligação tinha mudado muita coisa. Até então, existiam dúvidas sobre quem estava por trás da mensagem e sobre o motivo de Fernanda ter sido envolvida. Agora, parecia que as peças começavam a se encaixar de uma maneira muito pior.

CK continuou:

— Para confirmar de onde vinha o vazamento, fizemos um teste. Enviamos versões diferentes de determinadas informações para grupos distintos. Cada versão tinha um detalhe específico, justamente para conseguirmos identificar de onde sairia qualquer informação repassada.

TH olhou para o notebook.

— E saiu?

— Sim. Um dos detalhes apareceu do outro lado. Era uma informação que não estava nas outras versões.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

TH passou a mão pelo rosto.

— Quem recebeu essa versão?

CK consultou as anotações.

— Poucas pessoas. Quatro, considerando quem teve acesso direto ou indireto.

— Nomes — TH ordenou.

CK não respondeu imediatamente. Olhou para mim por um segundo, depois voltou a atenção para TH.

— Um homem que trabalha próximo de nós há anos. Outro que participou de decisões específicas. Samuca… e ND.

Por um instante, tive vontade de rir.

Não porque aquilo fosse engraçado, mas porque a situação era tão absurda que meu cérebro procurou uma maneira de reagir sem demonstrar o que realmente estava sentindo.

Soltei uma risada sem humor e me recostei na cadeira.

— Claro. Pode colocar meu nome também.

TH levantou a cabeça na mesma hora.

— Não começa.

— Não estou começando nada. Estou dizendo que, se a regra é investigar todo mundo que teve acesso à informação, eu também entro nessa lista.

— Você estava comigo quando…

— Não importa — interrompi, mantendo os olhos nele. — Não importa onde eu estava, há quanto tempo estamos juntos ou quantas coisas já enfrentamos. Eu tive acesso. Então meu nome precisa estar ali.

TH ficou em silêncio.

Eu sabia que ele não gostava daquela conversa. Também sabia que, se dependesse dele, meu nome seria retirado antes mesmo de a investigação começar.

Mas não era assim que as coisas funcionavam.

— Você é meu irmão — ele disse, com a voz mais baixa.

Aquelas palavras pesaram mais do que eu esperava.

Olhei para ele e respirei fundo.

— Exatamente por isso. Se você começar a tirar da lista quem ama, a investigação acabou antes de começar.

TH desviou o olhar por um instante.

— Eu confio em você.

— E você confiava em quem mandou aquele recado.

Vi a expressão dele mudar. Não precisava dizer mais nada para entender que aquela frase tinha atingido o ponto certo.

Não falei aquilo para machucá-lo. Muito menos para diminuir o que existia entre nós. Mas a confiança não podia ser usada como desculpa para ignorar uma possibilidade.

TH ficou alguns segundos olhando para os documentos.

— Você tem razão — admitiu.

— Eu sei que é difícil.

— Não é sobre ser difícil.

— Então é sobre o quê?

Ele levantou os olhos para mim.

— É sobre não querer acreditar que alguém próximo seja capaz de fazer isso.

Não respondi imediatamente.

Porque eu também não queria acreditar.

Passei anos ao lado daquele homem. Conhecia sua história, suas decisões e o preço que pagava por manter todo mundo protegido. Pensar que alguém de dentro poderia estar entregando informações era uma coisa. Pensar que essa pessoa poderia ser alguém em quem confiávamos era outra completamente diferente.

CK permaneceu quieto, esperando a decisão.

TH finalmente olhou para ele.

— Coloca o ND na lista.

CK assentiu e fez a anotação.

Não senti medo ao ouvir aquilo. Senti tristeza.

Era estranho perceber que, naquele momento, eu precisava aceitar ser tratado como suspeito para provar que a investigação seria justa. Mas, se havia um traidor entre nós, não podíamos permitir que a proximidade impedisse a descoberta.

E eu não permitiria que TH cometesse esse erro.

Mesmo que, no caminho, ele precisasse desconfiar de mim.

Visão da Fernanda

TH chegou em casa diferente.

Eu estava sentada à mesa, com o caderno da faculdade aberto e a calculadora ao lado. Havia quase uma hora tentava terminar alguns exercícios, mas minha concentração já tinha ido embora fazia tempo.

Às vezes, eu olhava para os números e pensava que a vida adulta parecia aquilo: calcular o mesmo dinheiro vinte vezes, tentando descobrir como fazer ele render mais do que realmente podia.

Quando ouvi a porta, levantei os olhos.

— Oi.

— Oi.

Foi uma resposta curta. Sem brincadeira, sem comentário sobre a faculdade e sem aquele olhar que costumava me procurar assim que entrava.

Observei enquanto ele deixava as coisas de lado e se aproximava.

Alguma coisa tinha acontecido.

Fechei o caderno devagar.

TH se inclinou e beijou minha testa. Depois puxou uma cadeira e se sentou diante de mim.

— Quer café? — perguntei.

— Não.

A resposta me fez prestar ainda mais atenção.

Ele quase sempre aceitava. Mesmo quando não estava com vontade, costumava dizer que tomaria só um pouco.

— Então aconteceu alguma coisa.

TH apoiou os braços na mesa.

— A informação vazou.

Senti meu estômago apertar.

— Que informação?

— A investigação. Uma informação que deveria estar restrita ao nosso círculo apareceu onde não deveria.

Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando organizar o que ele estava dizendo.

— Então alguém de dentro está passando informações?

— É o que estamos investigando.

— Vocês têm certeza?

— Temos certeza de que houve vazamento. Ainda não sabemos quem fez isso, mas já conseguimos identificar algumas pessoas que tiveram acesso ao conteúdo.

Aproximei as mãos uma da outra sobre a mesa.

— Quantas pessoas?

Ele demorou um pouco para responder.

— Algumas.

— TH…

— Não quero te passar nomes sem ter certeza de nada.

— Eu não estou pedindo que você acuse alguém. Estou pedindo que me conte o que sabe.

Ele abaixou os olhos por um instante.

— Samuca está entre as pessoas que serão investigadas.

Meu corpo ficou imóvel.

Eu conhecia o nome. Sabia que Samuca era próximo deles, alguém respeitado e que fazia parte daquele círculo havia bastante tempo.

— Samuca? — perguntei, quase sem perceber que tinha repetido.

— Sim.

— Mas ele é alguém de confiança.

TH soltou o ar devagar.

— Era o que eu pensava.

Aquela resposta me deixou desconfortável. Não porque eu tivesse alguma certeza sobre Samuca, mas porque percebi o quanto aquela situação estava mexendo com ele.

— Quem mais?

TH mencionou dois homens que eu conhecia apenas de nome. Não tinha convivência com eles, então não sabia dizer muita coisa.

Depois, ele ficou quieto.

Aquele silêncio me chamou a atenção.

— Tem mais alguém?

Ele não respondeu imediatamente.

Meu coração acelerou quando entendi.

— ND também?

TH levantou os olhos para mim.

— Sim.

Por alguns segundos, não consegui dizer nada.

ND era praticamente um irmão para ele. Eu sabia disso. Não precisava conhecer todos os detalhes da história dos dois para entender o tamanho daquela ligação.

— Você acha que foi ele?

TH respondeu sem hesitar:

— Não.

A firmeza da resposta me surpreendeu.

— Então por que ele está na lista?

— Porque ele mesmo pediu.

Franzi a testa.

TH explicou que ND tinha dito que, se todos os que tiveram acesso à informação precisavam ser investigados, o nome dele também deveria constar. Não queria ser excluído só porque era próximo de TH.

— Ele disse que, se você começar a tirar da lista quem ama, a investigação acaba — TH completou.

Baixei os olhos por um instante.

— Ele está certo.

TH soltou uma respiração pesada.

— Eu sei.

— Mas você não gostou.

— Não é uma questão de gostar, Nanda. Eu confio nele com a minha vida.

Aproximei um pouco a cadeira.

— Eu sei.

Ele passou a mão pela nuca, claramente incomodado.

— É estranho olhar para uma lista dessas e encontrar o nome de alguém que esteve comigo em praticamente tudo.

— Imagino.

— Não quero desconfiar dele.

— Mas precisa descobrir a verdade.

TH ficou me olhando.

Continuei, escolhendo as palavras com cuidado:

— Talvez esse seja justamente o problema. Quem fez isso precisava ser alguém em quem você confiasse. Ou alguém que conhecesse bem você e soubesse em quem você acreditaria.

Ele não respondeu de imediato.

— É — disse depois de alguns segundos. — Foi o que pensei.

O silêncio se instalou entre nós.

Olhei para o caderno fechado, mas já não tinha nenhuma vontade de voltar aos exercícios. Minha cabeça estava ocupada demais com a ligação, com a mensagem e com a possibilidade de alguém próximo estar acompanhando cada passo que dávamos.

— Você me contou tudo? — perguntei.

TH sustentou meu olhar.

— Tudo que consigo confirmar.

Balancei a cabeça.

— Não foi isso que eu perguntei.

Ele entendeu.

Por alguns segundos, pareceu avaliar se deveria continuar. Depois se ajeitou na cadeira.

Contou que a equipe tinha enviado versões diferentes de algumas informações para descobrir por onde o conteúdo estava escapando. Explicou que um detalhe específico apareceu fora do grupo que deveria recebê-lo e que, por isso, algumas pessoas passaram a ser investigadas.

Também me contou que ND tinha pedido para entrar na lista.

Ouvi tudo sem interromper.

Quando terminou, fiquei olhando para ele.

— Obrigada por me contar.

TH franziu a testa.

— Não precisa me agradecer.

— Preciso, sim.

— Por quê?

— Porque eu sempre vou agradecer quando você fizer alguma coisa que antes não faria.

Ele soltou uma risada curta, quase um sorriso.

— Vai jogar minha evolução na minha cara para sempre?

— Provavelmente.

O sorriso apareceu um pouco mais, mas desapareceu rápido.

Eu também não estava com vontade de brincar por muito tempo.

— A informação que vazou tinha relação com a ligação? — perguntei.

TH assentiu.

— Tinha.

— Com a ligação para mim?

— Em parte.

Senti um arrepio percorrer meus braços.

Ele explicou que as informações vazadas mostravam que a ligação tinha feito a equipe olhar com mais atenção para a sequência de acontecimentos e para o caminho percorrido pela mensagem.

— Então quem fez aquela ligação pode estar recebendo informações de dentro — concluí.

— Ou pode estar envolvido diretamente.

Olhei para ele.

A possibilidade era pior do que eu gostaria de admitir.

Alguém sabia que eu estava envolvida na investigação. Alguém sabia que a ligação tinha sido importante e, agora, também poderia saber quais passos TH e os outros estavam dando para descobrir a verdade.

Levantei da cadeira.

— Preciso de um minuto.

Caminhei até a pia e apoiei as mãos na bancada. Não estava com sede nem precisava lavar nada. Só precisava me movimentar, porque ficar sentada parecia fazer todas aquelas informações pesarem ainda mais.

— Merda — murmurei.

— Nanda.

Fechei os olhos.

— Não. Eu estou tentando não entrar em pânico.

Esperei que ele se levantasse e viesse até mim. Uma parte de mim ainda esperava aquele impulso antigo, aquela necessidade dele de resolver tudo imediatamente, de me afastar do perigo mesmo sem perguntar o que eu queria.

Mas TH não fez isso.

Não me puxou pelo braço. Não tentou me abraçar à força. Não disse que estava tudo bem quando nenhum de nós sabia se estava.

Apenas perguntou:

— Quer que eu chegue perto?

Abri os olhos devagar.

A pergunta simples me atingiu de um jeito inesperado.

Mesmo no meio daquela confusão, mesmo preocupado com o vazamento e com a possibilidade de alguém estar nos observando, ele ainda se preocupava em respeitar meu espaço.

Respirei fundo e permaneci alguns segundos em silêncio.

Eu não precisava que ele fingisse que nada estava acontecendo. Precisava que continuasse sendo sincero comigo e que entendesse que eu também tinha o direito de decidir como enfrentar aquilo.

Virei o rosto na direção dele.

— Quero.

TH se aproximou devagar.

E, naquele instante, percebi que a investigação não estava apenas tentando descobrir quem havia traído a confiança deles.

Também estava colocando à prova tudo o que nós dois tínhamos construído.

Porque, dali em diante, não bastaria descobrir quem estava mentindo. Teríamos que aprender a reconhecer em quem ainda podíamos confiar.

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