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O Traidor

Author: Amanda Nunes
last update Petsa ng paglalathala: 2026-11-06 00:52:03

Visão do TH

— Marcelo.

Repeti o nome depois que Fernanda falou. Não porque não tivesse ouvido, mas porque meu cérebro se recusava a aceitar.

O mesmo homem que sentou comigo depois do atentado. Que perguntou quem eu achava que tinha feito aquilo. Que se colocou à disposição quando começamos a desconfiar de vazamento. Que admitiu conhecer Vini e justificou o encontro com uma suposta dívida.

Ele estava perto de mim. Perto de ND. Perto da investigação.

Perto demais.

— TH? — Fernanda chamou.

— Tô aqui.

— Você ficou quieto.

— Tô pensando.

Olhei para CK. Ele já tinha entendido minha expressão.

— Eu conheço esse homem há anos — falei.

— Eu sei — Fernanda respondeu. — É justamente por isso que funcionou.

A frase me atingiu.

O atentado só tinha funcionado porque eu confiava nele.

— Preciso que você me conte tudo antes de eu chegar aí.

— Tô dentro de uma loja. Tem uma mulher comigo, e a polícia já foi chamada.

— Não sai daí. Vou com CK.

— Tá.

Respirei fundo.

Cada parte de mim queria correr, mas Fernanda tinha passado dias tentando sobreviver usando a cabeça. Eu não seria o idiota que estragaria tudo naquele momento.

Ela contou sobre Samuca, o homem mais velho, o garoto, a fuga e a conversa com Marcelo.

— Ele disse que você ocupava um lugar — explicou. — Que tudo tinha um ciclo.

Coloquei o telefone no viva-voz para CK ouvir.

— E a pessoa que tirou a foto naquela noite? — perguntei.

— Marcelo confirmou que alguém ficou observando para ter certeza de que você morreria.

CK murmurou:

— Então a foto não foi curiosidade. Era confirmação.

Meu estômago virou.

— E Renan?

— Marcelo disse que ele foi útil porque conhecia pessoas, circulava e tinha interesse em mim. Mas não confirmou quanto Renan sabia.

Mesmo sequestrada, Fernanda continuava separando fatos de conclusões.

— E Samuca?

Ela demorou um pouco.

— Admitiu que passou sua localização. Disse que sabia que fariam alguma coisa com você, mas que Marcelo falou que seria apenas um susto. Segundo ele, só descobriu depois que a intenção era matar.

— E ficou quieto.

— Ficou.

Fechei os olhos.

— Então escolheu.

— Foi o que eu falei.

Depois, ela contou que Samuca também tinha criado uma oportunidade para sua fuga.

— Uma coisa não apaga a outra — Fernanda ressaltou. — Ele ajudou no que fizeram comigo e depois ajudou na minha fuga. As duas coisas são verdade.

Passei a mão pelo rosto. Ela não me deixaria transformar aquela história em algo simples.

— Marcelo queria usar você para me trazer até ele.

— Foi o que entendi.

A mensagem que eu tinha recebido, exigindo que fosse sozinho, finalmente fazia sentido.

O primeiro atentado falhou. Então Fernanda virou a segunda oportunidade.

— Ele ia tentar de novo — falei.

— Acho que sim.

— Nanda, estou indo.

Houve um breve silêncio.

— Tá.

Uma palavra, mas significava muito. Ela estava me permitindo chegar.

— Vou com CK. Não sozinho.

— Melhor.

Quase ri.

— Obrigado por sobreviver.

Ouvi um pequeno choro do outro lado.

— Eu tentei pra caralho.

Fechei os olhos.

— Eu sei.

Visão da Fernanda

Quando desliguei, minhas mãos começaram a tremer de verdade.

Até aquele momento, meu corpo tinha funcionado porque precisava observar, pensar, responder, correr e sobreviver.

Agora eu estava sentada numa cadeira de plástico, dentro de uma loja, com uma mulher que eu nunca tinha visto colocando um copo de água na minha frente.

— Bebe devagar — ela aconselhou.

— Eu ia falar isso pra um paciente.

— Então agora obedece.

Soltei uma risada que virou choro.

Meu braço estava marcado, minha cabeça ainda incomodava e minhas pernas tremiam. Eu estava livre, mas meu corpo ainda não tinha entendido.

Quando a porta abriu, levantei tão rápido que derrubei a cadeira. Não era Marcelo nem Samuca. Mesmo assim, meu coração disparou.

Eu tinha escapado, mas qualquer carro diminuindo parecia uma ameaça. Qualquer homem entrando parecia perigo.

Algum tempo depois, vi CK aparecer na rua.

Atrás dele estava TH.

Por alguns segundos, nenhum de nós se mexeu. Thiago parecia acabado: roupa amassada, olhos vermelhos, barba por fazer e um pequeno corte na mão.

Ele me olhava como se não tivesse certeza de que eu era real.

Deu um passo, mas parou.

Esperou.

— Você tá horrível — falei.

A boca dele tremeu.

— Você também.

— Idiota.

— Chata.

Comecei a chorar e atravessei o espaço entre nós.

Fui eu que o abracei.

TH me segurou com força, mas sem me machucar. Enterrei o rosto no peito dele e senti seu corpo inteiro tremer.

— Porra, Fernanda...

Ele beijou meu cabelo e minha testa, depois se afastou um pouco.

— Tá doendo?

— Um pouco.

— Onde?

— Depois.

— Você bateu a cabeça?

— Sim.

Ele ficou pálido.

— Vamos pro hospital.

— Vamos.

Olhei para ele, surpresa por não discutir.

— O quê? — perguntou.

— Nada. Tava esperando você mandar.

Ele respirou fundo.

— Eu ia.

— Eu sei.

— Mas você precisa ser avaliada.

— Eu sei.

— Então?

— Eu vou.

Ele assentiu.

CK se aproximou e perguntou se Marcelo tinha falado sobre o aviso da rua fechada.

— Não diretamente. Mas ele explicou que o atentado foi dividido. Parecia que ninguém tinha todas as informações.

— Compartimentalização — CK explicou. — Cada pessoa fazia uma parte sem necessariamente conhecer o plano inteiro.

Assenti.

— Por isso Samuca podia estar falando a verdade quando dizia que não sabia que iam matar TH.

Thiago ficou sério.

— Pode.

— Não estou defendendo ele. Só não quero que você transforme hipótese em certeza porque está com raiva.

Ele me encarou.

— Você acabou de fugir de um sequestro e ainda está me corrigindo?

— Alguém precisa.

CK virou o rosto para esconder um sorriso.

Por alguns segundos, pareceu que éramos nós outra vez. Mas eu sabia que uma coisa não apagava a outra.

Eu tinha escapado de Marcelo. Isso não consertava o que havia acontecido entre mim e TH.

Visão do ND

Quando vi o nome de TH no celular, atendi imediatamente.

— Achou?

— Achei.

Fechei os olhos.

— Viva?

— Viva.

Soltei um palavrão e agradeci a Deus, embora nem lembrasse direito como.

— Quero falar com ela.

— Ela está indo para o hospital.

— Passa o telefone, Nathan.

Ouvi movimento e, depois, a voz dela.

— Oi.

— Você é uma desgraçada.

— Que recepção bonita.

— Eu quase morri.

— Eu fui sequestrada.

— Sempre competitiva.

Ela riu, mas logo chorou. Eu também.

— Você está bem?

— Não sei ainda.

— Resposta honesta.

Contei que precisava falar com CK e ela concordou.

Antes de desligar, falei:

— Você fez bem.

— No quê?

— Em não esperar.

— Eu tava com medo pra caralho.

— Uma coisa não exclui a outra.

Depois que desligamos, comecei a reconstruir a investigação.

Marcelo tinha participado das revisões do atentado desde o início. Estava presente quando desconfiamos da rota alterada e quando Renan apareceu ligado a Vini. Sempre tinha uma explicação pronta.

A suposta dívida justificava seu encontro com Vini. As informações pareciam contraditórias porque ele usava caminhos diferentes.

Samuca era uma peça importante. Conhecíamos seu hábito de acrescentar detalhes às informações que recebia, transformando algo incompleto em certeza.

O primeiro aviso tinha feito exatamente isso: uma informação sobre risco virou a afirmação de que a rua de baixo estava fechada. O detalhe falso foi suficiente para mudar a rota de TH.

Depois, durante os testes de vazamento sobre Fernanda, o padrão se repetiu. A informação verdadeira era que ela tinha recebido uma ligação. Em outra versão, virou a afirmação de que ela havia reconhecido uma voz.

Samuca ajudava a alterar informações, mas isso não fazia dele necessariamente o cérebro de tudo.

Marcelo sabia usar essa característica.

Ele tinha encontrado a ferramenta perfeita.

Visão do TH

Fernanda estava sendo examinada quando CK me chamou para fora.

— ND refez a linha inteira — ele explicou.

— E?

— Marcelo fecha com o conjunto de evidências.

Pedi que mostrasse tudo.

CK começou pelo aviso original. A informação verdadeira tinha sido alterada durante o caminho. Samuca participou da mudança, mas Marcelo forneceu o contexto falso de que a rua estava comprometida.

— Então Marcelo me mandou para aquela rota — falei.

— Sim. Mas não sozinho. Não conseguimos provar que Samuca conhecia o objetivo final naquele momento.

Assenti. Não inventaria uma certeza só porque estava com raiva.

Depois vieram a confirmação da minha localização, os contatos com Vini e Léo e a investigação que Marcelo acompanhou de perto.

— Ele ajudou a gente a procurar o próprio plano — concluí.

— Queria saber o que vocês descobriam.

Lembrei dele dizendo que precisávamos olhar para dentro.

Ele mesmo tinha me mandado procurar o traidor dentro do nosso círculo.

— E Renan?

— Os contatos com Vini e Léo estão confirmados. Mas ainda não sabemos exatamente quanto ele sabia.

— Então não inventa.

— Não vou.

Marcelo tinha construído caminhos diferentes para manter distância da execução. Samuca, Vini e Léo cumpriam funções distintas, enquanto ele permanecia próximo o suficiente para acompanhar tudo.

— Ele não precisava criar uma mentira perfeita — falei. — Só precisava colocar a mentira na boca certa.

Voltei para o quarto.

Márcia e Lucas já tinham chegado. Quando Lucas viu a irmã, chorou e a abraçou com força.

— Sua filha da puta!

— Olha a boca!

— Você sumiu!

— Eu sei.

Márcia abraçou os dois. Fiquei perto da porta, sem querer invadir aquele momento.

Ela me viu e fez um pequeno gesto para que eu me aproximasse.

Fernanda levantou os olhos.

— Descobriram?

— Sim. Marcelo é o mandante, considerando o conjunto de evidências que temos. Samuca participou do repasse e confirmou minha localização. Vini e Léo fizeram partes da conexão externa. Renan continua com participação indefinida.

— Melhor — ela respondeu.

Lucas olhou de um para o outro.

— Vocês estão falando disso como se fosse reunião de trabalho.

— É o único jeito de impedir seu cunhadão de sair acusando metade do planeta — Fernanda respondeu.

Ela percebeu o que tinha dito e ficou sem graça.

— Foi força do hábito.

Meu peito apertou, mas não transformei aquilo em uma promessa.

Mais tarde, quando Márcia e Lucas saíram, fiquei sozinho com ela.

— Você precisa dormir — falei.

— Daqui a pouco.

— Quer que eu vá?

Ela me olhou.

— Você quer?

— Não.

— Então por que perguntou?

— Porque querer ficar não me dá direito de ficar.

Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Pode ficar.

Continuei na cadeira, sem me aproximar.

Fernanda contou que Marcelo a chamou de acidente. Ela não deveria ter passado naquela rua. Eu deveria morrer, e a pessoa que observava esperava a confirmação.

— Você mudou tudo — falei.

— Eu só fiz primeiros socorros.

— Você salvou minha vida.

Ela desviou os olhos.

— E isso quase acabou com a minha.

Não tentei negar.

— Eu sei.

— Não, você não sabe. Fiquei pensando que, se tivesse passado cinco minutos depois, você podia ter morrido. Se tivesse passado cinco minutos antes, talvez nada disso tivesse acontecido comigo.

As lágrimas apareceram.

— Eu fiquei com raiva de você. Sei que não foi você que mandou atirar, mas fiquei.

— Pode ficar.

— Também fiquei com raiva de mim.

— Não...

Ela me interrompeu:

— Não decide o que eu posso sentir.

Parei.

— Desculpa.

Depois de um tempo, ela disse:

— Eu faria de novo.

Olhei para ela.

— O quê?

— Se voltasse àquela noite sem saber de nada, ajudaria de novo. Não consigo olhar alguém sangrando e ir embora.

Engoli seco.

— Mas queria que salvar sua vida não tivesse custado tanto da minha — completou.

Não existia resposta capaz de consertar aquilo.

— Eu também — falei.

Visão do ND

CK chegou ao hospital perto do amanhecer.

— Marcelo sumiu — informou.

— Depois que Fernanda escapou?

— Sim.

— E Samuca?

— Também.

Encostei a cabeça no travesseiro.

— Então o traidor foi revelado e ainda temos problemas.

— Achou que apareceria crédito final?

Ri, apesar da dor.

CK explicou que Marcelo não tinha criado sozinho toda a insatisfação dentro do grupo. Havia pessoas querendo mais espaço, incomodadas com a concentração de decisões nas mãos de TH.

Marcelo explorou esse descontentamento e provavelmente prometeu vantagens.

— Samuca era um exemplo — concluiu CK.

— O herói depois de criar o problema — murmurei.

— É.

Pensei em Fernanda.

— Perdeu para uma técnica de enfermagem com uma pulseira quebrada.

CK quase sorriu.

— Isso deve doer.

Visão do TH

O dia amanheceu e Fernanda dormia.

Eu continuava na cadeira.

Marcelo tinha plantado uma informação falsa dentro de uma informação verdadeira. Samuca ajudou a carregá-la até mim. Vini e Léo criaram distância entre o mandante e a execução. Renan circulou na borda da rede e depois perto de Fernanda, embora ainda precisássemos descobrir quanto sabia.

O observador ficou na rua para confirmar minha morte e encontrou Fernanda.

Depois vieram a foto, as ligações, as perguntas e os vazamentos.

Sempre o mesmo padrão: um pouco de verdade, um detalhe falso e uma pessoa confiável para carregar a mentira.

Minha confiança tinha sido a peça principal.

Fernanda se mexeu e abriu os olhos.

— Você ainda tá aí?

— Você deixou.

— Verdade. Dormiu?

— Não.

— Idiota.

— Provavelmente.

Ela me observou.

— E agora?

Eu sabia que não perguntava apenas sobre Marcelo.

— Agora a gente não confunde as coisas. Descobrir quem fez isso não conserta o que eu fiz com você.

O olhar dela mudou.

— Você foi sequestrada. Eu quase te perdi. Isso não me dá passe livre para fingir que nossa briga desapareceu. Também não me dá o direito de usar seu medo para te trazer de volta.

— Você entendeu.

— Demorei.

— Bastante.

— Pra caralho.

Ela soltou uma risada pequena.

— Então primeiro você melhora.

— E Marcelo?

— A verdade sobre ele vai aparecer.

— Sem fazer merda — ela avisou.

— Vou tentar.

Meu telefone vibrou. Era CK.

Encontramos Samuca.

Mostrei a mensagem a Fernanda.

— Vivo?

Perguntei a CK. A resposta veio segundos depois: sim, e ele queria falar.

Fernanda ficou séria.

— Ele pode fechar o que falta. Inclusive sobre Renan e Marcelo.

— Pode.

Olhei para ela.

— Você quer saber o que ele disser?

— Quero. Mas me fala o que é confirmado e o que não é.

— Tá.

— Sem escolher por mim.

— Sem escolher por você.

Ela estendeu a mão. Segurei seus dedos.

Aquilo não significava que tínhamos voltado. Não significava perdão, nem que tudo estava bem.

Significava apenas que, naquele momento, ela queria minha mão.

Meu celular vibrou novamente. Outra mensagem de CK.

Li e senti o corpo ficar tenso.

— O que foi? — Fernanda perguntou.

Dessa vez, não escondi a tela.

— Samuca disse que consegue provar que Marcelo planejou minha morte.

— Como?

— CK ainda não explicou. Ele guardou alguma coisa.

Fernanda respirou fundo.

— Então agora ele vai ter que explicar.

Apertei sua mão.

Finalmente entendia por que as pistas tinham demorado tanto para apontar para Marcelo. Nós procurávamos alguém que tivesse feito tudo, mas ele tinha dividido o plano entre várias pessoas.

Usou Samuca para transformar informações, contatos externos para criar distância, minha confiança para mudar a rota e a proximidade de Renan com Fernanda quando ela se tornou um problema.

Também usou o próprio lugar dentro do nosso círculo para acompanhar a investigação.

Quando o primeiro atentado falhou, tentou usar Fernanda para terminar o que tinha começado.

Ela nunca esteve nos planos dele.

Era apenas uma desconhecida que passava pela rua e decidiu ajudar um homem ferido.

Mas sobreviveu, observou, juntou as peças e escapou.

Olhei para Fernanda. Estava exausta, machucada e assustada, mas viva.

Agora eu sabia quem tinha me traído.

Marcelo.

Não um inimigo do lado de fora. Não um desconhecido que precisou invadir meu círculo.

Ele já estava nele.

Eu não tinha aberto a porta para o traidor.

Tinha passado anos chamando aquele homem de aliado.

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