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Quase

作者: Amanda Nunes
last update publish date: 2026-11-06 00:27:58

Capítulo — O Medo de Querer

Visão da Fernanda

Passei dois dias tentando não pensar que quase tinha beijado TH.

Falhei miseravelmente.

Lembrava do toque dele no meu rosto, da proximidade e, principalmente, da boca que ficou tão perto da minha.

— Fernanda!

Pisquei. Júlia estava parada na minha frente.

— Oi.

— Estou falando com você há quase um minuto.

— Desculpa. Estou cansada.

Ela estreitou os olhos.

— Isso tem nome?

— O quê?

— Homem.

Quase engasguei.

— Vocês estão todos malucos!

— Então existe alguém?

— Não aconteceu nada.

— Mas quase aconteceu?

Fiquei quieta.

Júlia abriu um sorriso.

— Eu sabia!

— Fala baixo!

Ela me puxou para um canto e perguntou se era o homem que tinha mandado comida e colocado segurança perto de mim. Quando confirmei sem querer, seu sorriso desapareceu.

— Fernanda, ele é perigoso?

— Não quero conversar sobre isso.

— Só toma cuidado, amiga. Não quero ver você se metendo em uma situação que possa machucar sua família.

Assenti. Era justamente o que eu tentava fazer: pensar antes de permitir que aquela aproximação fosse mais longe.

No fim do plantão, encontrei Davi me esperando.

— Tudo tranquilo? — perguntei.

— Tudo.

Começamos a andar e, depois de alguns minutos, acabei perguntando:

— TH está bem?

Davi sorriu.

— Está.

— O curativo?

— Acho que também.

— Por que está sorrindo?

— Nada.

Meu celular vibrou.

TH: Falando de mim?

Olhei para Davi, que jurou não ter contado nada.

Eu: Convencido.

TH: Então estava.

Eu: Não.

TH: Davi está com você?

Eu: Sim.

TH: Tudo tranquilo?

Eu: Sim. E você trocou o curativo?

TH: Sabia.

Eu: Sabia o quê?

TH: Que estava pensando em mim.

Revirei os olhos.

Eu: É minha obrigação me preocupar com o curativo que fiz.

TH: Não está no seu plantão.

Eu: Trocou ou não?

TH: Troquei. Não sangrou. Só dói um pouco.

Eu: Então descansa.

A resposta demorou alguns segundos.

TH: Você podia vir conferir.

Eu: Nem sonha.

TH: Já sonhei.

Balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso.

Eu: Sonha sozinho.

Bloqueei o celular antes que ele conseguisse me provocar novamente.

Visão do TH

— Está flertando por mensagem na minha frente?

Levantei os olhos. ND estava sentado do outro lado da mesa.

— Estou resolvendo uma coisa.

— Sorrindo?

— Podemos trabalhar?

Ele riu, mas logo CK colocou algumas informações sobre a mesa.

— O homem que seguiu Fernanda ainda não foi identificado. Conseguimos outras imagens, mas ele mudou o comportamento depois que percebeu que ela tinha segurança.

— E Renan?

— Continua encontrando Vini. Ainda não temos provas de envolvimento no ataque.

Meu maxilar travou.

— Então continuem observando. Ninguém mexe com eles sem confirmação.

CK explicou que Vini também havia aparecido perto de uma pessoa que recebeu uma das informações falsas do nosso teste. Aquilo estreitava o círculo, mas ainda não era suficiente para concluir nada.

— E Samuca? — perguntei.

— Nada concreto.

Assenti. Não queria transformar desconfiança em condenação.

Meu celular vibrou.

Fernanda: E nada de esforço.

Sorri.

ND bateu na mesa.

— Agora é ela!

— Vai cuidar da sua vida.

Ele começou a rir.

Visão da Fernanda

Dois dias depois, fui ao mercado comprar algumas coisas para minha mãe. Não levei Davi porque era perto e achei desnecessário.

Só não contava com a chuva.

Em poucos minutos, o céu desabou. Corri para debaixo da cobertura de uma loja fechada e mandei uma mensagem avisando minha mãe que estava esperando a chuva diminuir.

Meu celular tocou.

TH.

— Oi.

— Onde você está?

— Boa tarde para você também.

— Boa tarde. Onde está?

— Perto do mercado. Por quê?

— Está chovendo.

Olhei para a rua.

— Percebi.

Ele pediu minha localização e disse que estava por perto. Recusei a ajuda inicialmente, mas TH deixou claro que não era uma ordem, apenas uma carona.

Acabei aceitando.

Menos de dez minutos depois, o carro chegou. ND estava dirigindo e TH vinha no banco de trás.

Entrei, colocando as sacolas no chão.

— Você está molhada — TH comentou.

— Chuva costuma fazer isso.

Ele me entregou uma toalha pequena.

— Toma.

— Por que tem uma toalha no carro?

ND respondeu antes dele:

— Porque ele mandou comprar quando soube que você estava esperando na chuva.

Olhei para TH, que apenas deu de ombros.

— Obrigada.

Enquanto o trânsito permanecia parado por causa da chuva, perguntei sobre o curativo. Ele respondeu que estava bem e, quando pedi para conferir, levantou um pouco a camiseta.

O ferimento parecia limpo. Toquei cuidadosamente a região ao redor.

— Está melhorando.

— Falei.

— Não se anima. Ainda precisa descansar.

Quando levantei os olhos, percebi que estava perto demais. Minha mão continuava apoiada no abdômen dele.

TH olhou para minha mão e depois para mim.

— Você está fazendo de novo.

— Fazendo o quê?

— Me olhando.

— Estou vendo o curativo.

— O curativo fica mais embaixo.

Retirei a mão rapidamente.

— Convencido.

Ele sorriu.

— Nervosa.

— Você me provoca!

— Porque funciona.

A chuva continuava forte. ND recebeu uma ligação e precisou resolver um problema ali perto. Antes de sair, perguntou se estava tudo bem. Confirmei, e ficamos sozinhos no carro.

TH levantou a mão, mas parou antes de tocar meu rosto.

— Posso?

Assenti discretamente.

Os dedos dele tocaram minha bochecha. Era o mesmo gesto da outra vez, mas agora não havia ninguém para nos interromper.

Ele se aproximou devagar. Minha mão foi parar no peito dele, e senti o coração acelerado sob meus dedos.

— Seu coração está rápido — murmurei.

— Culpa sua.

Olhei para a boca dele. TH também olhava para a minha.

Eu queria aquele beijo.

Mas, quando ele se aproximou mais, as lembranças daquela noite voltaram: os tiros, o sangue, os homens armados e o medo de perder alguém diante dos meus olhos.

Também lembrei de Renan, das ameaças e da possibilidade de alguém estar usando minha presença para atingir TH.

Afastei o rosto.

— Não.

Ele parou imediatamente e retirou a mão.

— Tá.

— Desculpa.

— Não precisa pedir desculpa.

Respirei fundo.

— Eu queria, mas tenho medo.

— De mim?

— Não. De tudo que vem com você.

Expliquei que queria estudar, trabalhar, cuidar da minha família e ter uma vida tranquila. Desde que TH apareceu, minha rotina tinha mudado. Eu tinha recebido segurança, sido seguida e passado a conviver com ameaças que nunca fizeram parte da minha realidade.

— Eu quase vi você morrer uma vez — confessei. — Não quero viver com medo de acontecer de novo.

Ele ficou em silêncio antes de responder:

— Eu entendo.

— Então entende por que isso não pode acontecer?

TH olhou para mim.

— Posso entender e não concordar. Mas não vou forçar nada.

— Atração não é suficiente.

— Eu sei.

— Então precisamos parar.

Ele demorou alguns segundos.

— Se é isso que você quer.

Assenti, embora a resposta doesse.

Quando ND voltou, encontrou os dois em silêncio. Não fez perguntas e nos levou até minha casa.

Ao chegar, minha mãe perguntou quem tinha me trazido.

— Consegui uma carona.

Não queria explicar mais nada naquele momento.

Fui para o quarto e sentei na cama. Eu tinha feito o que considerava certo, mas isso não impedia que sentisse falta de algo que nem chegou a acontecer.

Meu celular vibrou.

TH: Chegou bem?

Eu: Cheguei.

Depois de alguns minutos, ele respondeu:

TH: Boa noite, Fernanda.

Não me chamou de Nanda.

Eu: Boa noite, Thiago.

Bloqueei o celular e tentei afastar aquela sensação de vazio.

Visão do TH

ND percebeu meu silêncio durante o caminho.

— Ela recuou?

— Sim.

— Por quê?

— Minha vida.

Fernanda queria uma vida normal. Faculdade, trabalho e tranquilidade para cuidar da família. E eu sabia que meu mundo não oferecia nada disso com facilidade.

— Vai fazer o quê? — ND perguntou.

— Respeitar.

— E o que você sente?

Soltei uma risada sem humor.

— Não importa o que eu sinto se ela não quer.

Ele ficou quieto.

Quando chegamos, CK nos chamou. Tinha conseguido melhorar a sequência de imagens da noite do ataque.

— Tem uma coisa que não percebemos antes — explicou.

Na gravação, o homem que depois havia seguido Fernanda aparecia observando a cena logo depois de eu ser baleado.

— Ele ficou ali? — perguntei.

— Sim. E viu Fernanda atendendo você.

Meu corpo ficou tenso.

— Então ele sabe quem ela é.

— Pelo menos desde aquela noite.

A imagem confirmou algo que eu temia: Fernanda não tinha sido seguida por acaso. Aquele homem sabia que ela havia me ajudado.

— Ela precisa saber — ND comentou.

Assenti.

Queria contar imediatamente, mas não apareceria na casa dela depois de ter pedido distância. Decidi conversar pessoalmente no dia seguinte.

Também mantive o combinado: Davi continuaria acompanhando Fernanda, sem aumentar a segurança ou interferir na rotina dela sem uma razão concreta.

Mais tarde, abri nossa conversa e reli a última mensagem.

Eu queria Fernanda perto. Mas querer não me dava direito algum sobre ela.

Ela tinha razão em ter medo. Minha vida já havia colocado a dela em risco, mesmo sem que tivesse escolhido fazer parte daquele mundo.

Por enquanto, eu respeitaria o espaço que ela pediu.

Mesmo que cada parte de mim quisesse fazer exatamente o contrário.

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