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Uma Informação Impossível

Autor: Amanda Nunes
last update Data de publicação: 2026-11-06 00:28:34

CAPÍTULO — O CAMINHO DA TRAIÇÃO

Visão da Fernanda

Descobri que pedir distância era muito mais fácil do que lidar com ela depois.

TH respeitou.

Esse era o problema.

Nenhuma mensagem de bom dia. Nenhum “comeu?”. Nenhuma implicância com meu plantão. Nenhum “Nanda”.

Nada.

Depois da nossa conversa no carro, ele realmente tinha entendido. Eu disse que aquilo entre nós não podia acontecer, e ele não insistiu, não apareceu e nem inventou desculpas para me convencer do contrário.

Fez exatamente o que pedi.

E eu odiei.

— Isso é ridículo — murmurei.

— O quê?

Levantei os olhos. Júlia estava sentada à minha frente, comendo uma bolacha.

— Nada.

— Você está falando sozinha agora?

— Sempre falei.

— Não nesse nível.

Peguei meu café, mas ela continuou me observando.

— Você está estranha desde ontem.

— Cansaço.

— Homem.

— Meu Deus!

— Acertei.

— Não acertou nada.

— Quase-homem?

Quase engasguei.

— Para com isso!

Ela riu.

— Então aconteceu alguma coisa.

— Não aconteceu.

E era verdade. Por poucos centímetros, mas era.

Júlia apoiou os braços na mesa.

— Quer conversar?

— Não.

— Quer reclamar?

Pensei por alguns segundos.

— Talvez.

Ela sorriu, satisfeita.

— Manda.

Respirei fundo.

— Hipoteticamente, se você conhecesse alguém cuja vida fosse completamente incompatível com a sua…

— Homem.

— Júlia!

— Continua.

— Você gosta de estar perto, conversa bem, ri junto… existe uma atração.

— Tesão?

— Atração! — corrigi, sentindo o rosto esquentar. — Mas a vida dessa pessoa traz problemas que você não quer para a sua.

O sorriso dela diminuiu.

— Aí você precisa decidir se gosta da pessoa real ou da versão dela quando está com você.

A frase me atingiu.

— Como assim?

— Todo mundo consegue ser maravilhoso durante algumas horas. Mas, se você entra na vida de alguém, entra na vida inteira. Não só na parte bonita.

Fiquei quieta.

Era exatamente esse o problema.

Eu tinha visto TH com Lívia, Dona Sônia, Camila e ND. Tinha conhecido o homem que ria, que respeitou meu não e que comprou uma toalha porque eu estava molhada.

Mas também conheci TH numa viela, coberto de sangue depois de levar tiros.

As duas versões eram ele.

Eu não podia escolher apenas uma.

Mais tarde, durante um atendimento, precisei pressionar um curativo. O paciente reclamou que estava apertado, e expliquei que precisava manter a pressão por mais alguns segundos.

A palavra me levou de volta àquela noite.

Minha mão pressionando o ferimento de TH. A respiração dele falhando. A voz fraca, tentando dizer alguma coisa.

Por um instante, parei.

— Nanda? — Júlia chamou.

Voltei a olhar para o paciente.

— Desculpa. Já terminei.

Concluí o procedimento, mas minha cabeça estava longe.

Eu lembrava de uma frase. Uma palavra que TH tinha murmurado enquanto estava quase apagando.

Naquela noite, achei que fosse delírio.

Agora, a lembrança voltava em pedaços.

A viela. O sangue. Minha mão pressionando o ferimento.

“Não era…”

Meu coração acelerou.

Não era o quê?

Fechei os olhos, tentando reconstruir a cena.

“Não era pra…”

Peguei o celular e abri a conversa com TH. Fazia algum tempo que não conversávamos.

Digitei antes de mudar de ideia.

Eu: Preciso falar com você.

Ele visualizou quase imediatamente.

TH: Aconteceu alguma coisa?

Eu: Não sei.

O telefone tocou. Atendi.

— Oi.

— Você está bem? — perguntou, sério.

— Estou.

— Sua mãe? Lucas?

— Os dois estão bem.

— Então o que aconteceu?

Respirei fundo.

— Lembrei de uma coisa da noite em que você levou o tiro. Não quero falar pelo telefone.

Houve uma pausa.

— Onde você está?

— No hospital. Saio daqui a pouco.

— Você quer que eu vá?

A pergunta me desmontou um pouco. Ele estava realmente tentando respeitar meu espaço.

— Quero. E traz o ND.

— Por quê?

— Talvez seja importante.

— Estou indo.

Desliguei, com o coração acelerado.

Visão do TH

— Ela lembrou de alguma coisa daquela noite — falei.

ND ficou sério imediatamente.

— Do quê?

— Não explicou.

Peguei a chave.

— E você vai?

— Ela pediu.

Ele abriu um sorriso pequeno.

— Ela pediu você.

— Não começa.

— Não comecei.

— E pediu você também.

O sorriso desapareceu.

— Aí perdeu a graça.

Saímos. No caminho, liguei para CK.

— Fica disponível. Fernanda lembrou de alguma coisa da noite do ataque.

— É importante?

— Ainda não sei. Depois te ligo.

Desliguei e voltei a olhar pela janela.

Não queria admitir o quanto aquela ligação tinha mexido comigo. Não apenas pela lembrança, mas porque ela tinha me procurado depois de pedir distância.

Eu tinha decidido respeitar sua escolha. E respeitaria.

Mas isso não significava que tinha parado de querer estar perto.

— Você está pensando demais — ND comentou.

— Dirige.

— Ela falou que não quer se envolver. Não falou que nunca mais quer conversar com você.

— Nathan.

— Só estou dizendo.

— Eu sei o que ela falou.

— E vai respeitar.

— Vou.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

— Mas, se ela te beijar…

— Vai tomar no cu.

ND começou a rir.

Visão da Fernanda

Quando saí do hospital, os dois já estavam esperando.

ND estava encostado no carro, enquanto TH permanecia do outro lado. Parecia melhor, andando normalmente.

— Oi — falei.

— Oi — TH respondeu.

ND olhou entre nós.

— Eu também estou aqui.

— Oi, ND.

— Obrigado.

Entramos no carro.

— Quer conversar aqui? — TH perguntou.

Olhei ao redor.

— Melhor não.

— Minha casa?

Hesitei, lembrando do quase beijo da última vez.

— Pode ser.

ND sorriu pelo retrovisor.

— Nem começa — avisei.

— Eu nem fiz nada.

Chegando à casa, encontramos CK esperando.

Sentamos, e os três ficaram olhando para mim.

— Assim vou esquecer de novo — reclamei.

TH se colocou à minha frente.

— Conta do jeito que você lembra. Não tenta completar o que não tem certeza.

Assenti.

— Naquela noite, antes de seus homens chegarem, você falou alguma coisa. Eu achei que fosse delírio.

— O quê? — TH perguntou.

Respirei.

— Você disse: “Não era pra eu passar por lá.”

O silêncio tomou conta da sala.

CK se inclinou.

— Tem certeza?

— Não. Lembro de “não era pra”, depois alguma coisa sobre passar ali ou passar por lá.

TH olhou para ND.

— O que foi? — perguntei.

Ele voltou a atenção para mim.

— Eu não deveria passar por onde fui atacado naquela noite.

— Então você lembra?

— Lembro de ter pensado nisso.

— Por que passou?

TH respirou fundo.

— Porque houve uma mudança de rota pouco antes.

— Vocês já me contaram isso.

— Você sabe que eu mudei a rota — ele explicou. — Mas não sabe que eu não decidi mudar sozinho.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Alguém me passou uma informação naquela noite. Disseram que o caminho que eu faria normalmente estava comprometido.

Meu estômago apertou.

— Então mandaram você passar pelo lugar onde atiraram em você?

— Pode ser.

CK interrompeu:

— Precisamos reconstruir isso antes de apontar qualquer nome. A informação pode ter passado por mais de uma pessoa.

ND se levantou.

— Até agora estávamos tentando descobrir quem sabia da rota depois que ela mudou. Agora precisamos descobrir quem provocou a mudança.

— Porque pode ser a mesma pessoa — TH completou.

Senti um arrepio.

— Meu Deus.

Tentei lembrar de mais alguma coisa.

Fechei os olhos. A viela voltou à minha cabeça, junto com a voz fraca de TH.

— Tem outra palavra…

— Qual? — ele perguntou.

— Acho que você falou “recado”.

ND ficou sério.

— Recado?

— Talvez “o recado”. Não lembro do contexto.

CK pediu que eu não forçasse a memória. Assenti, mas TH parecia pensativo.

— Naquela noite, recebi um aviso de que havia movimentação estranha na minha rota normal — explicou.

— Quem trouxe o aviso? — ND perguntou.

— Um homem que apenas repassou a informação. Precisamos descobrir quem falou com ele primeiro.

CK pegou o celular.

— Vou reconstruir essa sequência.

— Sem acusar ninguém antes de termos provas — TH reforçou.

— Entendido.

CK saiu para começar a investigação.

Eu continuava tentando organizar tudo quando outra lembrança surgiu.

— Espera…

TH se aproximou um pouco.

— O que foi?

— Acho que lembrei de mais uma frase.

— Fala.

Engoli em seco.

— Você disse: “Ele sabia que eu ia acreditar.”

O rosto de TH mudou completamente.

— Tem certeza?

— Não absoluta, mas lembro dessas palavras.

ND ficou imóvel.

— Caralho.

— O que significa? — perguntei.

TH passou a mão pelo rosto.

— Significa que, mesmo quase apagando, eu já desconfiava que aquele aviso tinha sido feito para me manipular.

— Você lembra de quem?

Ele fechou os olhos por alguns segundos.

— Não.

ND pegou o celular para chamar CK de volta.

Olhei para TH.

— Se você acreditou no aviso sem conferir, então veio de alguém em quem confiava muito.

O silêncio confirmou que eu tinha acertado.

Não era apenas alguém que conhecia sua rotina. Era alguém cuja palavra tinha peso suficiente para fazê-lo mudar de caminho poucos minutos antes de um ataque.

Alguém que sabia exatamente o que dizer.

E que sabia que TH acreditaria.

Depois que fui embora, CK voltou e os três começaram a reconstruir a sequência de mensagens, ligações e recados daquela noite.

— Ela tem razão — CK falou.

— A gente estava olhando para a lista errada — ND completou.

— Não errada. Incompleta — corrigi.

Até então, a pergunta era quem sabia da rota nova.

Agora existia outra: quem me convenceu a usar aquela rota?

— Reconstrói tudo — ordenei. — Desde antes da mudança. Quero saber de onde nasceu aquele aviso.

CK assentiu e saiu para começar.

ND permaneceu comigo.

— Fernanda acabou de entregar a melhor pista que tivemos.

— Eu sei.

— Mulher impressionante.

Olhei para ele.

— Cuidado.

Ele sorriu de canto.

— Ah…

— Ah, o quê?

— Nada.

Ignorei a provocação e peguei o celular. A conversa com Fernanda continuava aberta.

Eu: Você ajudou muito hoje.

Fernanda: Espero que sirva para alguma coisa.

Eu: Já serviu.

Depois, sem pensar muito, escrevi:

Eu: Obrigado, Nanda.

Ela demorou um pouco.

Fernanda: Você voltou a me chamar de Nanda.

Olhei para a tela.

Eu: Quer que eu pare?

A resposta demorou ainda mais.

Fernanda: Não.

Sorri discretamente.

Eu: Então boa noite, Nanda.

Fernanda: Boa noite, Thiago.

Deixei o celular de lado.

Existiam dois problemas diferentes na minha vida.

Um deles eu queria perto demais.

O outro estava perto de mim havia tempo demais.

A lembrança de Fernanda tinha provado que o ataque não começou quando os homens apontaram as armas.

Começou antes.

Com um aviso. Um recado. Uma mentira feita sob medida para mim.

Por alguém que me conhecia o suficiente para saber exatamente em que eu acreditaria.

E agora, pela primeira vez desde aquela noite, estávamos procurando não apenas quem puxou o gatilho.

Estávamos seguindo o caminho de quem me colocou diante dele.

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