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Capítulo 3: Dourado

Author: Helenmaria
last update publish date: 2026-08-27 06:30:44

E foi exatamente isso que aconteceu. Os nossos pais casaram-se apenas dois meses depois do nosso jantar formal. Foi um casamento na praia, numa ilha privada no sul. Sempre pensei que a mãe estava a brincar quando dizia que o noivo era rico, mas não estava. Vivíamos com conforto quando o pai era vivo, mas não assim. Isto era um mundo completamente diferente. Ele levou-nos da cidade cinzenta até à ilha no seu próprio avião. Pagou tudo: quartos de hotel maravilhosos para todos os convidados, o casamento inteiro e até pequenos detalhes que ninguém esperava. Quase todos os convidados compareceram. Havia pessoas famosas em vestidos longos, políticos a apertar mãos e homens de negócios importantes que pareciam poderosos. Foi então que a verdade me atingiu. O novo marido da mãe, o Tio Greg, era um bilionário que possuía um império de empresas.

 

O casamento realizou-se à medida que o sol se punha lentamente, tingindo o céu de rosa e laranja. Decorreu numa areia branca e limpa, rodeada por uma água azul cristalina. No centro erguia-se um arco de flores feito de orquídeas brancas raras, com detalhes em ouro brilhante que cintilavam como pequenas estrelas ao entardecer. Cem lanternas brancas pendiam das árvores de palmeira, a sua luz quente a mexer-se com o vento, e os convidados estavam sentados em cadeiras de teca cobertas de seda cor-de-rosa. A tenda da festa parecia saída de um sonho. Espelhos enormes do chão ao teto faziam tudo parecer duas vezes mais belo e luzes feitas de conchas verdadeiras projetavam sombras coloridas no chão. Um chef com estrela Michelin, que tinha viajado meio mundo só para aquele dia, preparou uma comida maravilhosa. Até o bolo de sete camadas, com pérolas comestíveis que brilhavam como gotas de água e flores tropicais frescas, foi enviado da Suíça. Quando escureceu, os fogo-de-artifício iluminaram o céu, ao som de uma banda ao vivo que tocava músicas clássicas românticas e enchia os corações de todos. Foi um casamento perfeito, aquele com que todas as raparigas sonham.

 

Passaram quase um mês a viajar pelo mundo em lua-de-mel e, quando regressaram, a mãe insistiu que me mudasse para a mansão do marido. Quis dizer que não, que ficássemos no nosso antigo apartamento, mas sabia que ela recusaria e não podia ignorar o facto de que iríamos poupar uma fortuna em renda.

 

E foi assim que as nossas vidas mudaram, como se o mar nos levasse para um lugar novo. A mãe e eu mudámo-nos e tudo passou a ser diferente. A mansão era deslumbrante, com salões amplos e silenciosos, jardins cheios de flores e o meu quarto parecia o de uma princesa. Havia dezenas de empregados e um mordomo, todos a moverem-se com silêncio e eficiência. A casa estava cheia de divisões: uma sala de estar grandiosa onde a luz entrava por janelas altas, uma sala de jantar elegante perfeita para grandes reuniões e uma biblioteca acolhedora cheia de livros.

 

A mãe mudou-me da escola pública para uma escola privada de prestígio. O Tio Greg arranjou um motorista para me levar à escola e a mesada que me dava todos os meses era quase igual ao que eu ganhava a trabalhar longas horas no café durante um ano. O estilo de vida da mãe também mudou. Começou a usar roupas e bolsas caras que a faziam parecer uma rainha aos meus olhos. Passava os dias a fazer compras e a almoçar com amigas. O Tio Greg comprava-lhe coisas constantemente, bolsas e roupas dispendiosas e até joias.

 

Resumindo, passámos de uma vida simples para uma de riqueza. Não vou mentir e dizer que não gosto. Estou feliz que a nossa vida se tenha tornado mais fácil e que a mãe já não precise de se preocupar com contas. E guardo no coração uma promessa silenciosa de nunca abusar da bondade do Tio Greg e de nunca esquecer de onde viemos.

 

Mas há um único problema. Theo. É evidente que ele odeia a mãe e me odeia a mim. É educado com ela, mas comigo é outra história. Senti-o desde o primeiro dia em que nos mudámos, um frio que nada tinha a ver com os grandes salões da mansão.

 

Estava eu a passear pela sala de estar, admirada com tudo, a passar os dedos pela madeira lisa de uma mesa que devia valer mais do que o nosso antigo apartamento. Foi então que ele me viu.

 

— Aposto que é a primeira vez que vês uma casa tão grande e luxuosa — disse ele, com a voz carregada de sarcasmo. — Pareces maravilhada com tudo, não é?

 

Eu estava a admirar os móveis e a decoração porque eram belos e pareciam muito caros. Mas depois olhei para ele e vi que me estava a fitar com desdém. Aquele olhar de superioridade que me fez doer o peito. Sabia exatamente o que havia nos seus olhos: insulto e zombaria. Tinha tido razão desde o início. A tentativa dele de fazer as pazes comigo no jantar há dois meses não passou de um teatro. Não que a minha tivesse sido sincera também, para ser honesta. Se ele não gosta de mim, eu gosto ainda menos dele.

 

— O que tem de mal admirar? — respondi-lhe, com a voz a tremer-me apesar de tudo. — Nunca tivemos nada assim em casa... não te preocupes, não tenciono roubar nada da tua mansão.

 

— Ainda bem — disse ele, com a voz cortante. — E nem penses em tentar. Se o fizesses, nunca conseguirias. Conheço todos os truques das pessoas como vocês.

 

Que tipo de pessoa é ele? O que pensa que eu sou? Uma ladra?

 

— Olha, seu idiota! — gritei, antes de conseguir conter as palavras. — Podemos ser pobres, mas não somos ladras!

 

— Ainda bem — disse ele, sem sequer pestanejar. — Fica bem claro. Deixa-me explicar de forma simples. Não gosto de ti, por isso nem penses em aproximar-te de mim. — Arqueou uma sobrancelha, com os olhos frios e duros, e as palavras bateram-me como um soco.

 

— E quem disse que quero aproximar-me de ti? Não me associo a pessoas com uma atitude tão má — retruquei.

 

— E aviso-te. Não quero que andes por aí e que me cruze contigo nesta casa — disse ele, com a voz baixa e ameaçadora.

 

Olha para este tipo. Está mesmo a avisar-me, como se eu fosse uma praga de que ele se queira livrar.

 

— Podes ficar descansado — disse eu, forçando um sorriso falso que parecia que me ia partir a cara.

 

— Também não quero ver-te. Como se fosses algum galã — murmurei para mim mesma, com a voz carregada de raiva e mágoa.

 

— Disseste alguma coisa? — cortou ele. Os olhos estreitaram-se e vi a raiva, aquela mesma raiva que tinha tido desde o momento em que nos conhecemos.

 

— Nada — disse eu, forçando a voz a manter-se firme enquanto cerrava os punhos ao lado do corpo. — Ouviste-me dizer alguma coisa?

 

— Pois bem, estamos de acordo. Sim, podemos ser irmãos de criação porque os nossos pais se casaram, mas não somos irmãos de verdade. E mais uma coisa, quando formos para a rua, finge que não me conheces. A não ser que os nossos pais estejam presentes, claro — disse ele com dureza.

 

— Podes ficar descansado — respondi, com a voz mais dura do que pretendia. — É exatamente isso que eu também quero. — E então tudo se desvaneceu. A novidade da mansão, a esperança que sentira pela felicidade da mãe, tudo se desfez num sentimento de vergonha e raiva.

 

Com isso, virou-se e afastou-se a passos largos. Os seus passos ecoavam no grande corredor enquanto eu ficava sozinha no meio daquela sala bela mas fria, a ferver de raiva que me queimava as bochechas.

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