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Capítulo 2: Fios

작가: Helenmaria
last update 게시일: 2026-08-27 06:29:53

Ainda me lembro de como nos conhecemos há dois meses, ou pelo menos, creio que foi nessa altura. A memória está nítida, como o cheiro de café expresso fresco que ainda se me agarra à roupa depois de cada turno.

 

— É ele. É mesmo bonito, não é? — ouvi a Ella dizer baixinho. A sua voz quase se perdia no murmúrio suave das conversas e no som da máquina de leite do café.

 

Um homem alto entrou acompanhado de uma mulher loira. Os sapatos dela faziam um som forte no soalho de madeira antigo. Revirei os olhos e depois olhei para eles. Já tinha visto isto acontecer tantas vezes que já sabia o que esperar.

 

— Só que parece que vem com uma nova rapariga outra vez — acrescentou a Sierra, apoiada no balcão onde se exibiam os bolos numa vitrine de vidro.

 

Ele era um cliente habitual, sim. Aparecia quase sempre com uma mulher diferente ao lado, cada uma vestida de forma elegante e dispendiosa, o que fazia com que os nossos uniformes simples parecessem ainda mais humildes.

 

— Vai até eles, Ella, e anota o pedido — disse a Sierra à nova colaboradora, que andava a brincar com a caneta entre os dedos, nervosa.

 

— Não quero. Estou nervosa — respondeu a Ella, com a voz suave. Era doce, tímida e irremediavelmente romântica. Tinha sempre uma queda pelos clientes ricos e bem-vestidos do café e sonhava com um namorado rico que a tirasse dos turnos da noite e das bebidas derramadas.

 

— O que estás a dizer? É a tua oportunidade, vai lá! — insistiu a Sierra, a nossa caixa, a bater com os dedos na registadora.

 

— Além disso, ele vem com a namorada. Ela pode não reparar em mim — hesitou a Ella, com os olhos fixos no casal que se sentava numa mesa no canto, perto da janela.

 

Olhei para a mulher loira, que fazia gestos impacientes a pedir atendimento, mas ainda ninguém tinha ido até lá.

 

— Então, vais tu ou vou eu? — perguntei à Ella.

 

— Está bem, vai tu, Elyssa. Sou demasiado tímida — murmurou ela, com as bochechas coradas.

 

Acenei e fui até à mesa deles.

 

— O que desejam pedir, senhora? — perguntei, forçando um sorriso.

 

— O que demoraste tanto tempo? Estou a chamar há imenso tempo — disse ela, com rispidez. Os olhos estreitaram-se de raiva enquanto acenava com a mão bem cuidada. Depois senti o perfume forte dela, tão doce e intenso que me fez franzir o nariz.

 

— Peço desculpa — disse baixinho.

 

— O patrão sabe que andam a fofocar em vez de trabalhar? Empregadas medíocres como vocês deviam ser despedidas — acrescentou.

 

A raiva cresceu no meu peito, quente e aguda. Uma mulher mimada e cruel, dessas que se acham no direito de tudo. Já tinha lidado com muitas assim antes, mas mordi a língua, lembrando-me da pilha de contas que me esperavam em casa.

 

— Peço imensa desculpa. Posso anotar o pedido agora?

 

— Quero um café com leite gelado e uma fatia de bolo de baunilha — disse ela, com dureza, sem tirar os olhos de mim.

 

— E o senhor? — Virei-me para o homem, apenas para o encontrar a olhar-me de cima a baixo, devagar e sem pressa. Um sorriso malicioso curvou-lhe os lábios enquanto os olhos demoravam-se no meu peito, de forma grosseira e sem qualquer remorso, antes de encontrar o meu olhar com um brincar provocador que me fez arrepiar.

 

Respirei fundo, com calma, para tentar acalmar a irritação que me subia. Não era a primeira vez que um cliente me olhava daquela forma no café. Com dezasseis anos, o meu corpo já fazia virar a cabeça aos rapazes.

 

Acho que herdei isso da minha mãe, embora nunca o tenha pedido. Curvas que pareciam demais para a minha idade, uma cintura fina e pernas longas que pareciam ainda mais longas nas nossas saias pretas de empregada.

 

As pessoas reparavam, quer eu quisesse quer não. Sabia como homens como ele se comportavam, como se os olhos deles tivessem o direito de vaguear onde quisessem. O descaramento dele era tal que me estava a observar mesmo acompanhado. A audácia fez-me cerrar os dentes.

 

— Posso anotar o seu pedido, senhor? — repeti, com a voz tensa de irritação.

 

— O costume — disse ele, com a voz baixa.

 

— Peço desculpa, senhor. Qual é o seu costume? Com tantos clientes habituais, não consigo lembrar-me do pedido de todos — expliquei educadamente.

 

Como é que eu havia de saber? Tinha servido dezenas de pessoas só naquela semana.

 

— Anotaste o meu pedido há poucos dias e fizeste a mesma pergunta. É assim tão difícil lembrar-se de um café americano gelado? — cortou ele, cerrando o maxilar.

 

Fechei os punhos ao lado do corpo, com as unhas a cravar-se nas palmas das mãos. Alguns clientes eram realmente insuportáveis, como se o mundo girasse apenas em volta do pedido de café deles.

 

— Vês como alguns funcionários são incompetentes? Deviam ser despedidos, sabes? — interveio a mulher, atiçando ainda mais a minha raiva até sentir que estava prestes a explodir.

 

Maldição. Se não precisasse deste emprego, se não precisasse do dinheiro para ajudar com a renda e os meus estudos, já lhes teria dito tudo o que pensava naquele instante.

 

Anotei o pedido com as mãos a tremer e voltei depressa para o balcão, dizendo à Sierra o que tinham pedido.

 

— Causaram-te problemas? — perguntou a Sierra, suavizando o olhar ao notar a minha tensão.

 

— Têm uma atitude horrível — queixei-me, com a voz a tremer ligeiramente. — Como se ao entrarem aqui, passássemos a ser servos deles.

 

Reparei que a Ella me olhava e parecia tão curiosa quanto eu sobre o que tinha acontecido. Era como se nunca tivesse imaginado que o rapaz de quem gostava pudesse ter uma atitude tão má. Só porque alguém é bonito e rico não significa que seja perfeito. Era isso que desejava poder ter-lhe dito naquele momento.

 

— Queres que o Nate os sirva em teu lugar? — Estendeu a mão e apertou-me o braço, um pequeno gesto de conforto que me soube bem.

 

— Sim, por favor, se puderes — pedi. — Estava quase a perder a paciência com eles. Mais uma palavra dura e ter-lhe-ia dito algo de que me iria arrepender.

 

O Nate foi depressa. Preparou o café com leite gelado e cortou a fatia de bolo com mãos firmes. Levou a bandeja até à mesa com um sorriso e, por instantes, consegui respirar de alívio. Mas poucos minutos depois, ouvi os passos dele na porta da cozinha e o meu coração afundou-se. Estava ali com a bandeja na mão, com a testa franzida, a falar baixinho com a Sierra.

 

— O que aconteceu? Por que trazes isso de volta? — perguntei.

 

— Querem que sejas tu a servir — disse ele, coçando a nuca, como se também não conseguisse acreditar.

 

Mas eu sabia que tinha de evitar mais problemas. O meu emprego estava em jogo, por mais que não parecesse grande coisa. Tirei-lhe a bandeja das mãos, agarrando-a com força, e voltei até à mesa deles.

 

— Aqui têm o que pediram, senhora, senhor — disse eu, pondo toda a educação que conseguia reunir na minha voz enquanto colocava os pratos com cuidado, como se pudessem partir com um movimento brusco.

 

— Sabes, odeio o serviço daqui. É tão pouco profissional — queixou-se a mulher ao homem, sem sequer me olhar. Falava alto o suficiente para que os outros clientes olhassem. — O dono do café não é amigo do teu pai? Por que não te queixas para que sejam punidos?

 

Algo dentro de mim partiu-se. Toda a frustração, toda a humilhação, todas as vezes que mordi a língua, transbordou. — Com toda a consideração, posso perguntar que comportamento nosso a fez dizer que somos pouco profissionais? — A minha voz era firme, mas por dentro a raiva fervia como água a ferver no lume.

 

— O que fizeste antes! Claramente não querias servir-nos e por isso mandaste a tua colega — atirou ela, estreitando os olhos. — Pelo que sabemos, podias ter posto alguma coisa na nossa comida. Quem sabe do que pessoas como tu são capazes?

 

Não estava completamente errada. Tinha pedido ao Nate para tomar o meu lugar para não perder a paciência com ela. Mas a acusação de pessoas como tu fez-me ferver em raiva.

 

— Estava a ajudar na cozinha e a minha colega substituiu-me — menti. — E não pomos nada na comida por estarmos zangadas. Não somos assim. Se tem dúvidas, posso mandar fazer tudo de novo agora mesmo.

 

— Não, está bem. Podes ir — disse o homem, acenando com a mão como se eu fosse uma mosca que queria afastar. Virei-me para ir, com os ombros caídos, aliviada por voltar para a cozinha.

 

Então senti um golpe forte no tornozelo. Ela tinha esticado a perna de propósito. Caí e o meu corpo bateu no chão frio e duro. A bandeja caiu ao meu lado com um som estrondoso. Por um instante, tudo ficou em silêncio. Depois, os dois riram-se. O riso deles era alto, cruel e ecoou pelo café. Todos os presentes me estavam a olhar. A raiva que tinha contido até então explodiu, forte e avassaladora.

 

— Tu! Por que fizeste isso? — gritei, erguendo-me do chão.

 

— Não sei do que estás a falar. E não te atrevas a gritar comigo! — gritou ela de volta, com o rosto contorcido de raiva. — Não passas de uma empregada medíocre neste café! Não tens o direito de falar assim comigo!

 

— Sua cobarde! — As palavras saíram como um rosnar. Já tinha tido o suficiente. O suficiente para ser desprezada, gozada e tratada como lixo.

 

Dei um passo na direção dela, com as mãos cerradas em punhos, mas o homem interpôs-se e empurrou-me com força no peito. Recuei e as minhas costas bateram numa mesa vizinha com um som seco, fazendo tilintar os copos. Uma dor percorreu-me a coluna, mas nada se comparava à raiva que sentia no peito.

 

— Mas que raio? Estás a tentar atacá-la? — gritou ele, com o rosto vermelho de fúria.

 

— Querido, ajuda-me. Ela vai magoar-me! — choramingou ela, fingindo esconder-se atrás dele, com os olhos arregalados de medo fingido.

 

— Seu canalha! — gritei, com a voz a tremer. Sem pensar, peguei no café gelado que estava na mesa deles e atirei-lhe para cima. O líquido frio e escuro embebeu-lhe a camisa branca, escorrendo pelo peito até ao chão.

 

— Sua cobarde! — rugiu ele, lançando-se na minha direção com o punho erguido. Mas o Nate apareceu de imediato, colocando-se entre nós e agarrando-lhe o braço.

 

— Peço imensa desculpa, senhor. Por favor, acalmemo-nos — suplicou o Nate, segurando o homem que tentava libertar-se.

 

Mas eles não recuaram. A mulher gritou ainda mais alto, com a voz aguda e furiosa, e os dois uniram-se contra mim, atirando insultos e ameaçando mandar-me despedir.

 

— Vou fazer com que sejas despedida por isto! — gritou o homem, com os olhos brilhantes de raiva.

 

E conseguiu. Nesse mesmo dia, o dono chamou-me ao escritório e disse-me que estava despedida. Saí do café com a mala na mão e as lágrimas a correrem-me pela cara, tendo de procurar um novo emprego na manhã seguinte. Contei tudo à minha mãe nessa noite. Ela abraçou-me enquanto eu chorava e ficou furiosa com o que tinha acontecido.

 

Nunca, em toda a minha vida, pensei que aquele mesmo idiota estivesse sentado à minha frente agora, num restaurante elegante com toalhas brancas e luz de velas, a jantar com os nossos pais. Nunca imaginei que teria de olhar para a cara dele outra vez, muito menos saber que ele é o filho do homem com quem a minha mãe vai casar.

 

Olho para ele com raiva enquanto come calmamente ao lado do pai, a garfo a mover-se devagar no bife como se nada tivesse acontecido. Como se não me tivesse arruinado o dia, custado o emprego e feito sentir que não valia nada.

 

Ele vai ser o meu meio-irmão. Será que vou conseguir viver com alguém que ainda tem uma atitude tão desprezível? Será que algum dia conseguirei olhar para ele sem sentir aquela mesma raiva quente a crescer dentro de mim?

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