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Capítulo 4: Olhares

Author: Helenmaria
last update publish date: 2026-08-27 06:31:21

Desde então, Theo e eu tivemos inúmeras discussões. Uma vez, passei pelo jardim e fiquei deslumbrada com as rosas, carregadas de flores vermelhas. As rosas vermelhas são a minha perdição e estavam tão belas e viçosas que não resisti e colhi algumas. Foi tarde quando o jardineiro me parou, avisando que eu ia ter problemas porque aquelas rosas eram proibidas de serem colhidas. Disse-me que tinham pertencido à falecida mãe de Theo, que as tinha plantado em sua memória, e que ele tinha proibido qualquer pessoa de as colher. Claro que me apanhou em flagrante, a segurar as flores proibidas, e repreendeu-me. No início, pedi desculpa e admiti o meu erro, mas quando aquele idiota ousou gritar e humilhar-me à frente dos empregados, perdi a cabeça. Com raiva, empurrei as rosas contra o peito dele e fui-me embora a passos largos, ignorando os seus gritos de fúria.

 

A minha mãe soube e repreendeu-me, explicando o quão próximo Theo era da mãe e o quanto prezava a memória dela, especialmente o jardim que ela amava. Eu sabia que tinha errado, mas as minhas mãos agiram por conta própria, atraídas pela beleza irresistível das flores. A mãe sugeriu que eu pedisse desculpa. Eu recusei, mas ela insistiu. Disse que o faria, mas a verdade é que não tencionava fazê-lo, sabendo que ele não aceitaria de qualquer forma. Já conseguia imaginar a cara dele, o maxilar cerrado, o frieza nos olhos e o sorriso de desprezo ao rejeitar o meu pedido. Provavelmente apenas me insultaria, então para quê pedir desculpa?

 

Uma manhã, decidi ir nadar. Costumava correr ao ar livre de manhã, mas a água da piscina parecia tão convidativa, fresca e calma, prometendo aliviar a tensão que carregava nos ombros há dias. Não sabia que Theo nadava todas as manhãs e que não queria mais ninguém na piscina a essa hora. Viu-me a divertir-me e ficou furioso, aproximando-se de mim de imediato.

 

— Quem te disse que podias nadar na piscina a esta hora? — perguntou, assustando-me.

 

Ergui a cabeça da água, ofegante, e ali estava ele, de pé à beira da piscina. Tinha o maxilar tão cerrado que se lhe viam os músculos a contrair. Não o tinha ouvido aproximar-se, nem sequer sabia que estava ali.

 

Estava de calções de banho e não pude deixar de reparar nos ombros bem definidos, nos músculos dos braços e do peito, e numa saliência proeminente nos calções que me fez prender a respiração. Fiquei paralisada, sem conseguir reagir, fascinada.

 

— Não me ouviste? Quem te deu permissão para usar a piscina de manhã, maldição! — A voz dele soou como um trovão e demorei um instante a processar as palavras.

 

— Q-Que foi? — gaguejei, apanhada de surpresa.

 

— Sai da piscina agora! — gritou, fazendo-me voltar à realidade de golpe.

 

— Qual é o teu problema? Por que gritas tão cedo de manhã? — respondi, irritada.

 

— Estás a tentar provocar-me de propósito ao nadar aqui a esta hora? — A voz dele era trovejante.

 

— E daí que eu esteja a nadar? Estás a dizer-me que não me é permitido? — perguntei, incrédula.

 

— Não quero que mais ninguém use a piscina quando eu a uso! Sai daqui agora! — O maxilar dele apertou e vi as veias a saltar no pescoço.

 

— Como é que eu havia de saber que a usas todas as manhãs? — retruquei, com a voz a tremer de raiva.

 

— És tão egoísta! Estive apenas uns minutos na água. Está bem, saio se é isso que queres! — disse, irritada. Tinha os dentes tão cerrados que doía o maxilar.

 

Para minha surpresa, chamou os empregados com um gesto furioso e eles acorreram ao seu lado de imediato.

 

— Não disseram a esta mulher que não quero que ninguém use a piscina de manhã quando eu a uso? — perguntou-lhes.

 

— Pedimos desculpa, Senhor! Esquecemo-nos de a avisar — pediram os empregados.

 

Uma delas aproximou-se de mim, quase com lágrimas nos olhos. — Senhorita Elyssa — disse ela suavemente, com a voz carregada de pesar —, por favor saia da piscina. O Senhor Theo não gosta que mais ninguém a use de manhã. Pedimos desculpa por não a termos avisado, foi mesmo um esquecimento nosso.

 

— Está bem. Já vou — disse eu, com a voz mais baixa do que pretendia.

 

Achei a escada da piscina e fui saindo, agarrando o metal frio com as mãos.

 

— O teu patrão é um idiota — murmurei para mim mesma.

 

— Disseste alguma coisa? — desafiou-me ele.

 

Saí da piscina a contragosto, fitando-o com raiva enquanto o fazia. Ciente de que usava um biquíni, sabia que ele me estava a observar. Não sei porquê, mas senti-me envergonhada por estar tão exposta ao seu olhar. Então, por um instante breve, os nossos olhos cruzaram-se. Naquele momento, vi algo passar-lhe pelo rosto. Não apenas raiva, mas um brilho de algo mais, de algo perturbado, antes de desviar o olhar tão depressa como se se tivesse queimado. Uma empregada estendeu-me uma toalha e aceitei-a agradecendo.

 

Quando me virei para ir embora, ele falou de novo, fazendo-me parar.

 

— Sabe qual é o teu lugar nesta casa. Não passas de uma hóspede indesejada, por isso aprende a comportar-te! — As palavras dele estavam carregadas de sarcasmo.

 

Tive na ponta da língua uma resposta dura e dolorosa, mas fechei a boca com tanta força que doeu e soltei um suspiro triste, guardando o que ia dizer. Sabia que não devia piorar a situação. Mais uma palavra e começava uma briga que eu não conseguiria parar. Fechei os punhos, cravando as unhas nas palmas das mãos, esforçando-me por não ceder.

 

Sentia-me tão furiosa que o meu rosto queimava. Olhei para as costas dele uma última vez. Já se tinha virado como se eu nem estivesse ali. Depois, caminhei com passos firmes pelas escadas da entrada e fui direta ao meu quarto para me trocar. As minhas mãos tremiam enquanto tirava o fato de banho molhado, com o coração ainda a ferver de raiva contida.

 

Desde então, Theo e eu somos como cão e gato, sempre em desacordo e em confronto.

 

Ele é um tirano com uma atitude horrível, chegando mesmo a mandar os empregados para me tratarem mal. Aguento tudo porque sei que vivo na casa dele. Cada encontro é uma oportunidade para ele me lançar insultos que me irritam profundamente. Por vezes perco a paciência e discutimos, mas outras vezes evito-o e ignoro os seus comentários para não criar conflito. É um adversário difícil, determinado a tornar a minha vida um inferno, e não sei por quanto tempo mais conseguirei suportar.

 

Há momentos em que desejo contar tudo à minha mãe, não para queixar-me mas para pedir o seu conselho, mas infelizmente ela está sempre ocupada com as suas novas amigas ricas, em compras ou no salão de beleza. Além disso, sinto-me demasiado crescida para ir queixar-me à mãe de que o meu meio-irmão me anda a perseguir. Ainda não chegou a haver violência física, por isso, na maioria das vezes, apenas aguento. Espero apenas ter força e paciência suficientes para aturar a atitude dele nos dias que hão de vir, quando os nossos caminhos se cruzarem inevitavelmente, quer eu queira quer não.

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