LOGINTerminamos de nos arrumar já perto das onze. Mat resmungava do sofá da sala, dizendo que se tivesse esperado mais cinco minutos, teria desistido. Emma ria enquanto retocava o batom pela terceira vez, e Llote reclamava que o vestido justo demais estava marcando sua calcinha.
Fui a primeira a ficar pronta. Bastou Mat soltar um “esse vestido tá te comendo viva” e eu nem quis mais experimentar outros. Um vestido bordô de alças finas, que colava no meu corpo como um segredo prestes a ser revelado. Não era o mais confortável — alguma etiqueta me pinicava as costas — mas naquele momento, meu desconforto era o de menos. Hoje, eu queria causar.
Chegamos ao pub pouco antes da meia-noite. A fila estava caótica, atravessando o quarteirão iluminado por postes amarelados e faróis dos carros. O vento quente da noite grudava meu cabelo no batom e o suor já começava a formar uma película na nuca. Olhei em volta: grupos de amigos rindo, casais se beijando sem pudor, meninas tropeçando de salto. Um típico sábado nova-iorquino.
Jones resolveu tudo com os seguranças em poucos minutos — às vezes eu esquecia que ele era filho de um dos maiores sócios do lugar. Quando passamos pela entrada, a batida grave do som eletrônico me atingiu no peito. Luzes vermelhas e violetas cortavam o ambiente em flashes. O cheiro de bebida doce misturado com perfume masculino tomava o ar.
Fomos direto pra pista. Emma me puxou pela mão, e Nicki Minaj já pulsava nos alto-falantes. Dançamos, rimos, gritei com Llote no ouvido que ela precisava parar de se preocupar com o vestido e só aproveitar. Depois de três músicas, a garganta arranhava e o corpo pedia um refresco.
— Vamos beber alguma coisa? — Llote gritou, com o rosto corado e os cabelos ruivos colados na testa.
— Vão indo, eu vou ao banheiro primeiro. Acho que tem alguma maldita etiqueta me furando aqui — respondi, coçando as costas.
Caminhei entre os corpos suados, escorregando por espaços apertados. Alguns conhecidos da faculdade acenaram. Sorri, mas continuei — sentia que precisava de um momento sozinha. Talvez também precisasse de um gole. O clima da festa me deixava inquieta, e um certo pressentimento dançava comigo desde que entramos.
No bar perto do corredor dos banheiros, pedi um shot de tequila. Bebi de uma vez, sem sal nem limão. Ardeu na garganta, mas ajudou a silenciar o barulho dos pensamentos.
Tomei outro.
E foi quando o vi.
Misa.
Parado em frente ao banheiro feminino como se fosse o dono do mundo — ou pelo menos, o dono da minha atenção. Cabelo castanho encaracolado, barba por fazer, olhos de gelo que me paralisavam mesmo quando eu queria correr. Vestia preto da cabeça aos pés, e o cheiro amadeirado familiar me acertou antes mesmo de eu chegar perto.
Meu coração bateu mais rápido — não de saudade, mas de tensão. De nervoso. De raiva. E desejo.
Me aproximei com um sorriso torto e um pouco zonzo.
— Sentiu saudades? — provoquei, tentando manter o equilíbrio no salto. — A July não quis brincar com o amiguinho hoje?
Ele sorriu de canto, cínico, como quem se diverte com a minha insolência.
— Você ama me provocar — disse, os olhos percorrendo meu corpo como se já me tivesse despido.
— E você me insultar — rebati, cruzando os braços e tentando manter a postura.
— Por que você não cala essa boca e me beija?
— Porque eu não sou sua bonequinha obediente. Eu não sou essa garota.
— Tá com ciúmes da July? — ele sussurrou perto demais, roçando a barba no meu pescoço. Arrepiei inteira.
Eu devia afastá-lo. Devia, mas bebi dois shots. E ele sabia disso.
— Ciúmes de ser corna? — ri com deboche, mesmo sentindo a tontura subir pela espinha. — Prefiro ser a outra a vida inteira do que ser ela.
Ele se afasta um centímetro, só o suficiente para me fuzilar com os olhos.
— E os babacas que te comeram com os olhos? Vai fingir que não viu?
— Quais?
— Aqueles que você cumprimentou antes de vir aqui. Quer que eu desenhe?
Dou um sorriso cínico.
— Agora eu te devo relatório também? Achei que na nossa relação incluía liberdade — rebato, me deliciando com o incômodo dele. — Não era você que dizia que queria me ver me esfregando em outros caras?
Ele cerra os punhos, mas não responde. Ao invés disso, agarra meu rosto e me beija. Um beijo possessivo, faminto, urgente. Nos afundamos naquela raiva disfarçada de desejo, até que a escuridão do corredor nos engole.
A porta da cabine do banheiro masculino se fecha atrás de nós.
(…)
Quando saímos, ele ainda me segura pela cintura. Me sinto marcada. Por dentro e por fora.
— Gostei do que você disse lá atrás — ele sussurra.
— Sobre o quê?
— Que prefere ser a outra pra sempre.
Me viro de leve, o encaro com seriedade. O torpor da bebida começa a passar. A consciência volta como uma maré incômoda.
— Foi só provocação — digo, firme. — Uma hora isso aqui vai ter que acabar.
Ele fica em silêncio.
— Você vai ter que decidir com quem quer ficar, Misa. — Aproximo minha boca do ouvido dele, arranhando com a unha sua nuca. — Você realmente acha que eu vou me contentar em dividir um homem pra sempre?
Ele respira fundo.
— A gente nunca conversou de verdade sobre isso — diz, com os olhos baixos.
— Talvez você devesse fazer uma autonalise — retruco, me soltando. — Vai ser mais honesto. O que você realmente quer?
Dou meia-volta e caminho decidida para a pista, o barulho das batidas abafando o som do meu coração acelerado.
Eu falei isso?
Uau.
E o Misa estava ali.Sentado na poltrona ao meu lado, postura mais ereta do que meses atrás, as mãos apoiadas nos braços da cadeira, os movimentos ainda cuidadosos, mas firmes. Ele ria, participava, se inclinava para frente quando queria dizer algo. Vez ou outra, sua mão encontrava a minha — um toque breve, automático, como se o corpo dele já soubesse onde era casa.Em algum momento, percebi que o burburinho foi diminuindo.Não porque alguém pediu silêncio.Mas porque o Misa se levantou.Demorou alguns segundos. Ele apoiou o peso com calma, respirou fundo, ajustou o equilíbrio. Meu coração disparou na mesma velocidade do primeiro dia em que o vi sair da cama sozinho. Instintivamente, fiz menção de levantar junto, mas ele apertou minha mão de leve.Deixa.Ele deu dois passos à frente, ficando no centro da sala. Pigorreou, claramente nervoso — o que arrancou um sorriso imediato da Emma.— Ih… — ela murmurou. — Lá vem coisa.Misa respirou fundo outra vez e apoiou a mão no encosto do sofá
Kate observava a cena. E, quando nossos olhares se cruzaram, ela fez algo que, meses atrás, eu jamais imaginei: sorriu para mim. Um sorriso pequeno, mas carregado de significado.— Eu tentei resistir — ela disse, quase como uma confissão. — Juro que tentei. Mas esses dois… — balançou a cabeça, rendida. — Eles não deixam.Eu ri, aliviada. Porque aquele perdão não tinha vindo por palavras ou explicações. Veio pelo caminho mais simples e mais poderoso: o amor pelos gêmeos.Aiden caminhou até o Misa.Houve um segundo de silêncio — não constrangedor, apenas carregado de tudo o que ainda não tinha sido dito. Então Aiden estendeu a mão, e Misa apertou. Não como empresários. Não como herdeiros. Mas como homens que dividiam algo muito maior do que uma empresa.— Feliz Natal, irmão — Aiden disse, e a palavra ainda parecia nova na boca dele.— Feliz Natal — Misa respondeu, com um sorriso que misturava surpresa e aceitação. — Que bom que você veio.— Eu não perderia — Aiden respondeu. — Já é trad
Becah correu primeiro. Não correu: marchou. E esticou os braços.— Vovó.Minha mãe derreteu. Meu pai ficou parado por um segundo, como se alguém tivesse apagado o chão.— Você tá enorme… — ele disse, a voz saindo mais baixa do que ele planejou.Liam veio logo depois e agarrou a barra do casaco do meu pai com a confiança de quem não sabe o que é rancor.Eu vi o rosto do meu pai mudar. Não foi um sorriso completo, ele e ainda era meio reseoso quando vinha aqui em casa.A última chegada me deu um choque silencioso.Elisa — mãe do Misa — entrou com um casaco claro, cabelo arrumado com uma simplicidade bonita, e ao lado dela um homem que eu não conhecia: o novo namorado. Ele tinha um sorriso contido, jeito de quem fala baixo e olha nos olhos. Elisa parecia… diferente. Mais viva. Mais dona de si. O divórcio do Antony não tinha sido só papel; tinha sido um resgate.— Feliz Natal, queridos — ela disse, me abraçando com carinho, depois indo direto nas crianças como se aquele fosse o centro do
Já é Natal.Essa constatação me atravessa enquanto observo a cidade pela janela do apartamento do Misa. Nova York lá embaixo parece outra coisa nessa época do ano: luzes quentes recortando o frio, vitrines exageradas, pessoas embrulhadas em casacos longos e cachecóis grossos, como se todo mundo estivesse tentando se proteger não só do inverno, mas do próprio cansaço do ano.Aqui em cima, o cheiro de pinheiro natural da árvore invade a sala de pé-direito alto. O apartamento de dois andares do Misa nunca pareceu tão vivo. Não é mais aquele espaço silencioso, quase solene, de antes. Agora há brinquedos espalhados, risadas ecoando pela escada em espiral, marcas de mão no vidro e uma sensação constante de casa — algo que, por muito tempo, eu achei que não saberia mais reconhecer.As crianças estão com dois anos.Dois anos.Às vezes ainda me assusto com isso.Becah corre pela sala usando um vestido de veludo verde-escuro, meia-calça grossa branca e um casaquinho de lã creme que escolhi com
Voltar para casa foi mais difícil do que sair do hospital.O apartamento continuava o mesmo: dois andares, linhas retas, concreto aparente, vidro demais. Tudo feito para alguém que sempre gostou de espaço, altura, liberdade. Agora, cada detalhe parecia me provocar. O degrau entre a sala e a varanda. O corredor estreito perto da escada. O banheiro que precisou ser reformado às pressas.A cadeira de rodas rangia baixo quando eu me movimentava. Ainda não me acostumei com o som. Nem com a sensação de depender dela.Nem de depender de alguém.Margo tentava não deixar isso evidente, mas eu via. Via quando ela desacelerava o passo para caminhar ao meu lado. Quando organizava tudo de forma que eu não precisasse pedir ajuda — o copo já na altura certa, a porta já aberta, o caminho livre.Eu sempre fui o homem que resolvia.Agora, precisava aceitar ser cuidado.— Devagar — disse o fisioterapeuta, Daniel, um cara grande, voz firme, mãos seguras. — Controla o tronco primeiro.Eu estava preso a ba
O corredor da ala cirúrgica parecia interminável.Branco demais. Frio demais.O som ritmado dos passos dos médicos misturava-se ao bip distante das máquinas e ao eco abafado das conversas sussurradas. O relógio na parede marcava o tempo com crueldade, como se cada segundo tivesse consciência do que estava em jogo.Misa estava lá dentro.Abri e fechei as mãos várias vezes, sem perceber. Meus dedos estavam gelados, apesar do ar abafado do hospital. Eu não conseguia sentar por muito tempo, nem ficar em pé. Caminhava dois passos, voltava, encostava na parede, respirava fundo… e falhava.Emma estava à minha direita. Llote à esquerda. Nenhuma das duas dizia nada — e eu agradecia por isso. Às vezes, Emma segurava meu braço quando percebia que minhas pernas iam ceder. Llote mexia distraidamente no celular, não por interesse, mas para fingir normalidade.— Vai dar certo — Emma murmurou em algum momento, mais para mim do que para si mesma.Eu não respondi.Não conseguia.Minha cabeça estava pre







