FAZER LOGINÀ noite, a cena se repetiu. Luna a buscou no quarto e a conduziu até a sala de jantar menor — que, na verdade, era tão grande quanto toda a casa dos Antonelli.
Uma mesa de madeira maciça no centro, dois lugares postos com talheres de prata e taças de cristal. Velas acesas, luz amena, pratos requintados.
O ambiente era suavemente iluminado por abajures e candelabros discretos, projetando sombras cuidadosas sobre cada detalhe. Quase acolhedor…, mas apenas para quem não soubesse olhar além das aparências. Para Dayse, aquilo era uma peça meticulosamente montada, um cenário criado para parecer algo que nunca seria real. Um teatro.
Enzo já estava lá, instalado como se fosse parte do próprio ambiente, uma taça de vinho repousando entre seus dedos. Nem se deu ao trabalho de levantar quando ela entrou — apenas indicou a cadeira à sua frente com um gesto preciso.
— Sente-se.
Ela o fez. Não por obediência, mas por estratégia, às vezes, aceitar o jogo era a única forma de aprender suas regras.
O jantar chegou sem cerimônia, colocado diante deles com a precisão de um ritual.
Pratos impecáveis, ingredientes sofisticados, uma apresentação que poderia ter encantado qualquer olhar menos treinado. Mas para Dayse, tudo aquilo era insípido. Bonito na superfície, vazio na essência. E engolir qualquer coisa naquela noite… seria mais difícil do que parecia.
Dayse segurou os talheres por um momento, mas a comida parecia ter gosto de silêncio. A cada garfada, era como mastigar um vazio denso, uma ausência palpável que se espalhava pelo peito.
Do outro lado, Enzo ‘jazia’ ... calado e imóvel — E aquilo… aquilo doía mais do que se ele tivesse escolhido ser cruel. Porque a indiferença é um veneno lento. E Dayse sabia disso melhor do que ninguém.
Enzo permaneceu inerte durante todo o jantar. Não a encarava diretamente. Não fazia perguntas. Não mostrava interesse. Estava ali como quem cumpre uma obrigação contratual.
Por um tempo, apenas o som dos talheres preenchia o espaço. Dayse não sabia se aquilo era um teste, uma tortura psicológica ou apenas o jeito dele.
Ela também não falou.
Aquilo não era um encontro. Era a entrega simbólica de uma função.
Quando o jantar terminou, ele falou com a precisão de quem dita regras:
— A partir de amanhã, você começará o protocolo médico. Os profissionais virão até a propriedade. Não será necessário sair.
Dayse ergueu o olhar, deixando escapar uma provocação que parecia mais um desafio disfarçado:
— É sempre assim que você… se relaciona com suas esposas?
Enzo pausou, observando-a por cima da taça de vinho, como quem avalia se a pergunta merece uma resposta.
— Eu não tenho esposas. Só tenho este acordo com você.
A resposta veio seca, calculada, como um golpe de precisão. Mas havia algo mais ali, algo que escapava à superfície. Um cansaço que parecia pesar em seus ombros, ou talvez um desprezo que ele não se preocupava em esconder.
Dayse não conseguiu decifrar. Mas sabia que, por trás daquela frieza, havia algo mais profundo. Algo que ele não deixaria transparecer tão facilmente.
Dayse largou os talheres com uma calma calculada, cruzando os braços sobre a mesa, como quem se prepara para um duelo silencioso.
— Entendo. Então serei tratada como um item do inventário Bellucci. Até que cumpra meu prazo de validade?
Enzo se recostou na cadeira, a postura impecável, a expressão impenetrável.
— Seria mais fácil para todos se você não romantizasse as coisas.
Dayse inclinou-se ligeiramente, apoiando os cotovelos na mesa, os olhos fixos nos dele, como lâminas afiadas.
— E seria mais digno se você ao menos fingisse ser humano. — Sua voz era firme, carregada de uma ironia que cortava o ar como vidro.
— Já tentou isso alguma vez, Sr. Bellucci? Ser... real? Ou o protocolo também exige alma embalsamada?
O silêncio que se seguiu parecia pulsar entre eles, carregado de tensão e algo mais profundo — uma batalha de vontades que nenhum deles estava disposto a perder.
Dayse sabia que a balança pendia mais fortemente para o lado dele, mas isso só tornava o momento ainda mais desafiador.
Pela primeira vez, Enzo não sabia se estava sendo insultado... ou atraído.
A resposta dela foi tão direta que o ar pareceu gelar por um segundo. Enzo não respondeu imediatamente. Mas algo se moveu em seu olhar. Uma fissura na muralha.
Enzo terminou o vinho com calma deliberada, deixando a taça sobre a mesa com precisão. Seu olhar permaneceu distante, como se a conversa já não lhe pertencesse mais.
— Você vai descobrir com o tempo que dignidade é um luxo que nem todos podem bancar.
A sentença pairou no ar, cortante, despida de qualquer hesitação.
— Boa noite. Pode se retirar agora — finalizou ele, frio, sem ao menos levantar os olhos para ela.
Dayse sustentou a postura impecável, sem demonstrar qualquer reação além do necessário.
— Sim, senhor — concordou, a voz tranquila, mas carregada de um peso silencioso.
Se levantou, mantendo a elegância de cada gesto, e fez um leve aceno de cabeça.
— Boa noite.
E saiu sem olhar para trás. Mas algo dentro dela resistia. Que luxos ele achava que ela não poderia bancar? Ele entenderia, cedo ou tarde, que a dignidade dela não estava à venda.
Dayse voltou ao quarto com os pensamentos em ebulição. O homem era frio. Preciso. Controlado. Mas havia algo nele que não se encaixava. Um silêncio interno que gritava. Um vazio que parecia pulsar por trás de cada palavra cuidadosamente escolhida.
Assim que fechou a porta do quarto, Dayse encostou as costas na madeira fria e deslizou até o chão...
Não havia lágrimas, mas um nó no peito que parecia querer sufocá-la.
Apertou os punhos, como se com isso pudesse manter as emoções sob controle. Estava cansada de ser forte. Só por um instante, desejou que alguém a visse. Que alguém... a escolhesse e cuidasse dela.
Deitou-se na cama, mas não dormiu. A frieza do lençol sob sua pele lembrava que nada ali seria confortável. Nem físico. Nem emocional. Ela puxou as cobertas e se virou de lado, os olhos abertos, fixos na parede, o coração alertando o cérebro.
“Ele nem olhou para mim de verdade... preciso descobrir o que ele esconde.”
Uma certeza se formava dentro dela, clara como uma pedra no fundo do rio.
O jogo estava só começando...
“Recomeço não apaga cicatriz. Só muda o lado da janela.” — (Anotação de R.)A luz da manhã em Split escorre pela pedra clara como se tivesse sido polida para este dia.O vento vem salgado do Adriático e mexe de leve nas fitas presas ao corrimão do terraço onde vai acontecer a cerimônia.Não há arco de flores gigantes, nem palco, nem holofotes. Só cadeiras brancas, uma mesa simples de madeira com um vaso de jasmim, e nós — mais inteiros do que já fomos.“É aqui,” digo em voz baixa, e Matheo sorri daquele jeito que parece costurar o mundo no lugar.Pequeno salto no tempo e na respiração: chegamos cedo, sem alarde; os amigos chegam aos poucos, rindo com cuidado, como quem entra numa igreja de mar.Dayse me abraça primeiro — apertado, verdadeiro — ela puxa as trigêmeas, já com aquele brilho danado de gente que ocupa o espaço sem pedir licença.Os quadrigêmeos correm em volta da mesa do jasmim, e em cada passo eu reconheço ecos de um ontem que, por milagre, não me fere mais.Enzo está por p
“Às vezes fechar o passado é só escolher pra onde olhar primeiro.” — (Anotação de R.)A televisão fala baixo na sala, como quem não quer me assustar.Não precisa.Eu já reconheço os sons: o plástico de provas entrando em malotes, o interfone da portaria que toca em coro quando a polícia chega, o “não tenho nada a declarar” repetido em voz de advogado cansado. As legendas correm, os portais pipocam.A Casa sangra por vários andares ao mesmo tempo. Prisões preventivas. Bens bloqueados. Mandados cumpridos antes do sol nascer. O jornalista enumera endereços e eu enumero respirações. Uma, duas, três.Aurélia não aparece. Nem foto antiga, nem tomada de costas, nem dublê de cabelo. É como se tivesse evaporado deixando apenas perfume — jasmim com ferrugem. Fantasma solto; rede em ruínas. Eu não comemoro em voz alta. Só apoio as mãos na bancada da cozinha e deixo o corpo entender: não é o fim de nada, mas é um marco. Uma linha de corte no mapa.No escritório, o dia corre como sempre — papéis,
“Às vezes, respirar fundo é um ato revolucionário.” — (Anotação de R.)...Antes do pôr do sol, o grupo de mensagens cifradas apita no aparelho preto. Joana atende, ouve, anota uma linha, e enfim sorri: pequeno, funcional. Rafael olha por cima do ombro.— O promotor aceitou a entrada noturna — ela diz. — A gente protocola às 22h. O juiz de plantão é o bom. Mandados saem até 1h. Cumprimento às 6h, simultâneo. Clínica, Casa, escritório.Eu fecho os olhos por um segundo. Não pra rezar. Pra encaixar os órgãos no esqueleto.— Eu não vou — falo, e é uma promessa a mim mesma. — Agora é com a justiça. Mas estarei aqui. Com o telefone ligado. Com as portas trancadas. E com a janela aberta.Rafael recolhe as pastas como quem recolhe pássaros que voltarão com provas novas. Alexandre me encara mais um segundo do que seria socialmente aceitável.— Você fez muito mais do que qualquer vítima tem obrigação de fazer — ele diz, e dessa vez a palavra não me arde.— Eu não sou só vítima — respondo. — Eu
“Justiça não é terapia, mas às vezes ajuda a respirar melhor.” — (Anotação de R.)...A mesa do meu apartamento virou campo de batalha. Não tem flor no copo hoje, nem chá, nem pão queimado. Só café forte, pastas numeradas e um gravador de áudio no centro, como um coração mecânico impondo ritmo. Abro as cortinas; a luz da manhã entra reta, quase cirúrgica. Melhor assim: tudo à vista.— Vamos começar — digo, e minha voz soa diferente até pra mim. Não é fria. É nítida.Rafael deixa o laptop, Joana abre o caderno duro de capa preta. Alexandre encosta na parede, braços cruzados, o rosto anônimo que ele aprendeu a vestir. Ninguém senta primeiro. Eu sento, e eles me seguem.Empurro a primeira pasta.— Dossiê Casa dos Jasmins: estrutura, nomes de fachada, rotas recorrentes, “clientes cativos”, imóveis de apoio. O que recuperei da Casa. Aqui tem fotografia, cópia de chaveiro, cartões com a flor em baixo relevo, contatos, listas de plantão.Passo a segunda.— Clínica Santa Albina: Ala sem regis
“Saber tudo não é obrigação. Escolher o que fazer com o que sabe, é.” — (Dra. Iasmim)Eu acordei e não me levantei. O teto tinha a mesma cor de sempre, mas hoje parecia um lençol puxado por dentro. O corpo sabia antes da cabeça: não era dia de produzir, responder, resolver. Era dia de sentir. Um verbo que eu sempre evitei, porque sentir é ineficiente, não cabe em planilha, não manda e-mail de volta.Fiquei ali até a luz mudar de ângulo no quarto.Levantei só para abrir a janela e deixar o ar bater, não no rosto, mas no lugar exato onde a respiração emperra quando a gente tenta engolir o impossível. Café? Não. Banho? Depois. Me sentei no chão, encostei as costas na cama e puxei o diário.Escrevi devagar, como quem assina a própria certidão:“Eu tive um filho.Eu perdi um filho.E só estou sabendo de tudo o que aconteceu agora.”Só isso. Fechei. Se eu abrisse mais, afogava.Desliguei o celular e depois liguei de novo. Modo avião é quase uma fé: a gente suspende o mundo e finge que ele r
“Procedimento, não fé.” — (Anotação de R.)[... continuando flashbacks e narrativas de Guilherme, no presente]— A notícia da sua volta chegou forte em muita gente grande — ele continuou, voltando ao tom mais prático.— Ouvi do mesmo advogado de sempre que a Aurélia queria “atrair a menina de volta” pra dentro do raio dela. Esse “atrair” costuma começar com recados que parecem ajudar: alguém te “salva” de um quase acidente, alguém “avisa” sobre perigos, uma capela vira ponto de encontro.— As mãos que empurram são as mesmas que seguram pra foto. Eu não podia deixar você virar objeto de novo. Não por ela, e nem por mim.— Por isso me contou da pulseira? — eu perguntei.— Por isso te falei tudo — ele confirmou — pra você não ficar se expondo em busca da verdade.Ele ficou alguns segundos em silêncio e, quando retomou, o tom dele mudou: menos defesa, mais pedido.— Renata, eu errei com você várias vezes — ele disse, falando com calma, sem exagerar na dramatização.— Na sala de assinatura







