MasukAcordei no meio da madrugada com o peso de uma cabeça no meu ombro.A lua entrava pelas janelas abertas, desenhando uma faixa pálida nos lençóis. Alice dormia virada para mim, uma perna entre as minhas, a mão aberta sobre meu peito. O cabelo escuro espalhado pelo meu braço. Um dos ombros nu, coberto de marcas pequenas que eu mesmo tinha deixado.Fiquei olhando para elas.Havia algo primitivo no que eu sentia. Uma satisfação silenciosa, feroz, de saber que ela estava ali, na minha cama, marcada por mim, e uma vergonha quase imediata por sentir isso.Eu tinha prometido que ela não era minha.Então por que meu corpo discordava?— Você pensa alto — Alice murmurou.— Eu não disse nada.— Pensou.Ela abriu os olhos, ainda sonolentos, e me olhou com a calma de quem não tem pressa de acordar.— Em que você pensa?— Que eu não mereço isso.— Isso é lógica de CEO?— É lógica de homem que deixou você sozinha.Ela ficou me observando.— Lucas.— Hm.— Se você vai passar a noite se punindo, eu vou
Theo foi dormir na casa de um amigo no sábado.Foi uma negociação de quarenta minutos.— O Pedro mora a dois quarteirões — Lucas dizia, andando de um lado para o outro da sala, com o celular na mão. — A mãe dele eu não conheço. Posso pedir ao Rafael que levante...— Lucas.— Ou mando alguém da segurança ficar na rua.— Lucas.Ele parou.— Regra número um — falei.— Essa regra é sua. Ele é meu filho.— É um menino de quatro anos que quer dormir na casa do melhor amigo. — Cruzei os braços. — A mãe do Pedro é a loira da festa. Aquela que me chamou de mãe do Theo. Tem dois filhos, um cachorro e um sorriso que não esconde nada.Ele me olhou por um segundo.— Você anda observando as pessoas.— Aprendi com você.Theo, sentado no tapete com a mochila de dinossauro abraçada ao peito, nos observava com a expressão de quem espera o resultado de um julgamento.— Pode? — perguntou.Lucas respirou fundo.— Pode.— Oba!Ele saiu correndo para pegar o travesseiro.Lucas ficou parado.— Eu odeio isso.
Acordei antes do despertador, com o corpo dolorido e uma sensação estranha de que alguma coisa tinha mudado de lugar dentro de mim.O escritório estava cinza. A cortina entreaberta deixava passar uma faixa fina de luz do amanhecer. O paletó escorregara até a cintura de Alice, e ela dormia de lado, com a mão fechada sobre meu peito, o cabelo espalhado pelo braço do sofá.Não me mexi.Fiquei olhando.Eu tinha estado com outras mulheres nos últimos quatro anos. Nenhuma passou a noite. Nenhuma conheceu a casa. Eu tinha regras, e elas me protegiam de qualquer coisa que se parecesse com isso.Agora estava deitado num sofá de couro duro, com o braço dormente, e não queria me mover por nada neste mundo.Aquilo devia me assustar.Assustava.Mas não o suficiente para me fazer sair dali.— Você está me olhando — Alice murmurou, sem abrir os olhos.— Estou.— É estranho.— Você dormiu comigo na faculdade e nunca reclamou.— Eu tinha vinte anos. Não sabia que você olhava.— Eu sempre olhei.Ela ab
Theo dormiu cedo naquela noite, cansado da festa, com o cartaz da família preso na parede por uma fita adesiva torta.— Você vai dormir aqui hoje? — ele perguntou, já de olhos fechados.— Vou.— No quarto de hóspedes?— No quarto de hóspedes.— Tá bom.Fiquei sentada na beira da cama até a respiração dele ficar funda e regular. Depois apaguei o abajur e saí sem fazer barulho.No corredor, parei.A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Havia uma fresta de luz dourada sob a porta do escritório, no fim do corredor.Eu tinha passado a tarde inteira repetindo a pergunta que Lucas me fez dois dias antes. E quando não tiver ninguém?Agora eu sabia a resposta.Esse era o problema.Caminhei até a porta, bati uma vez e abri sem esperar.Lucas estava de pé diante da janela, sem paletó, o colarinho aberto, um copo de uísque na mão que ele não tinha bebido. Virou quando me ouviu e ficou imóvel.— Theo?— Dormindo.— Aconteceu alguma coisa?— Não tem ninguém — falei.Ele demorou a
Remarquei a reunião do conselho três vezes para estar naquela escola na sexta-feira.Minha assistente me olhou como se eu tivesse pedido para cancelar o Natal.— O senhor nunca remarcou nada por causa do Theo.— Então está na hora.Não expliquei mais.A escola ficava num bairro arborizado, com um pátio cheio de bandeirinhas coloridas e mesas dobráveis. Pais de terno, mães de salto, babás de uniforme, avós de bolsa grande. Theo nos esperava na entrada, com uma camiseta de dinossauro por cima do uniforme, segurando um cartaz com a palavra FAMÍLIA escrita em letras tortas.— Vocês demoraram!— Cheguei na hora — falei.— Dois minutos atrasado — Alice disse ao meu lado, e sorriu.
Não dormi.Fiquei deitada de olhos abertos até o teto ficar cinza, repassando os mesmos dez segundos. As mãos dele no meu cabelo. O balcão frio nas costas. A voz baixa pedindo que eu mandasse parar.Eu mandei.E ele parou.Era isso que me assustava. Não o que eu tinha sentido, mas a facilidade com que ele obedeceu. Eu passei quatro anos aprendendo a desconfiar de quem toma o que quer. Não sabia o que fazer com um homem que se afasta ao primeiro sinal.Levantei às seis. Tomei banho, prendi o cabelo, vesti a roupa mais sem graça que tinha na bolsa. Uma armadura de algodão cinza.Desci repetindo a mesma frase: você é a babá, você é a babá, você é a babá.Lucas já estava na cozinha.Camisa branca abotoada até o colarinho, paletó, gravata no lugar. O rosto, uma máscara de negócios. Do homem que me beijou contra um balcão restava apenas o perfume.— Bom dia, Alice.— Bom dia.— Há café.— Obrigada.Ele voltou ao tablet. Nem um olhar além do necessário.Era exatamente o que eu tinha pedido.







