LOGINO som da voz de Edmund congelou o sangue nas veias de Anne por um segundo. A chama da vela oscilou, projetando sombras longas e distorcidas nas paredes do grande salão abandonado.
Ela se virou devagar. Edmund estava parado sob o umbral da porta, enquadrado pela escuridão do corredor. Ele não usava a casaca rigorosa de mais cedo; vestia apenas uma camisa branca de linho com os primeiros botões abertos e as mangas levemente dobradas, o que tornava sua presença ainda mais intimidadora e visceral.
— Milorde... — Anne começou, tentando manter o tom de voz sereno a fim de mascarar a aceleração de seu peito. — A porta estava entreaberta e ouvi passos no corredor. Pensei que pudesse haver alguém aqui.
Edmund deu um passo lento em direção a ela. O olhar dele não estava fixado em Anne, mas sim na pintura de Beatrice que pairava sobre a lareira fria.
— Esta ala foi selada no dia em que Beatrice faleceu — disse ele, a voz baixa, carregada de um peso antigo. — Ninguém da servidão tem permissão para entrar aqui. Se ouviu algo, foi apenas o vento nas frestas das estruturas antigas.
— O vento não deixa marcas de passos na poeira, Lorde Blackwood — Anne retrucou suavemente, apontando com a vela para o chão, onde pequenas marcas recentes cortavam o feltro cinzento de poeira acumulada. — Nem deixa um cheiro tão vívido de alfazema fresca.
Edmund parou a pouca distância de Anne. O olhar dele finalmente desceu do retrato para fixar-se nos olhos dela. A rigidez em seu rosto cedeu por uma fração de segundo, dando lugar a uma expressão de exaustão e tormento que ele escondia do resto do mundo.
— A alfazema era o perfume favorito dela — sussurrou ele. — E a febre que a levou... começou em uma noite tempestuosa exatamente como esta. Em questão de dias, a vida simplesmente escapou de seu corpo, sem que nenhum médico de Londres pudesse explicar a causa.
Anne sentiu um aperto involuntário no coração. A empatia, que ela tentara sufocar sob a armadura do pragmatismo, veio à tona. Ela podia ver agora que a frieza de Edmund não era arrogância ou desdém; era um escudo erguido para proteger as ruínas de um homem devastado pela culpa e pela impotência.
— O senhor se culpa por não ter conseguido salvá-la — disse Anne, em um tom desprovido de qualquer julgamento.
Edmund soltou uma risada curta e sem vida.
— Eu prometi protegê-la. Prometi-lhe um futuro neste mesmo lugar. E observe o que sobrou: panos cobrindo memórias e uma casa transformada em um mausoléu.
Ele deu mais um passo, encurtando a distância entre eles até que Anne pudesse sentir o calor emanando de seu corpo contra o ar gélido da ala abandonada. Ele olhou para ela — para os olhos atentos de Anne, para a determinação firme em seu queixo e para a forma como ela não recuava diante da dor dele.
— É por isso que não posso oferecer a você o que uma esposa esperaria — Edmund continuou, sua voz descendo a um registro grave e rouco. — O amor exige entregar uma parte de si mesmo. E a minha parte já foi enterrada há muito tempo.
— Eu não pedi seu coração, Edmund — Anne respondeu, mantendo o olhar fixo no dele. — Pedi apenas respeito e a chance de salvar minha família. Mas não pretendo viver como um fantasma em sua casa. Se vamos compartilhar este teto, não deixarei que as sombras desta mansão consumam a mim... e nem a você.
Por um momento suspenso no tempo, o ar entre os dois tornou-se denso de uma tensão eletrizante. Edmund encarou os lábios dela, e a distância entre eles pareceu desaparecer por completo. A mão dele ergueu-se devagar, os dedos roçando suavemente o contorno do rosto de Anne, um toque quente e hesitante que fez a respiração dela falhar.
Mas antes que as barreiras caíssem completamente, um som metálico e seco ecoou no fundo do corredor da ala oeste.
Clac.
O barulho de uma chave girando na fechadura de uma das portas do fundo fez Edmund se afastar bruscamente. Ele se virou na direção do som, com os músculos tensionados.
— Volte para os seus aposentos agora mesmo, Anne — ordenou ele, o tom ríspido retornando instantaneamente. — E tranque a porta.
— Edmund, o que foi isso? — perguntou ela, sentindo o perigo no ar.
— Agora! — ele exclamou, avançando rapidamente em direção ao corredor escuro de onde viera o barulho, deixando Anne sozinha diante do retrato enigmático de Beatrice.
A carruagem do Conde de Blackwood cruzou os imponentes portões de ferro batido ao final da tarde do segundo dia de viagem. O sol de outono declinava no horizonte, tingindo o céu de nuances alaranjadas e violetas que se projetavam sobre os carvalhos seculares do domínio. Anne mantinha a cortina de veludo ligeiramente afastada, observando a silhueta da mansão aproximar-se.À medida que o veículo avançava pela alameda principal, as marcas do recente ataque tornavam-se visíveis. A ala oeste, antes uma imponente estrutura de pedra simétrica, exibia vigas enegrecidas e janelas emolduradas pela fuligem. No entanto, onde Anne esperava encontrar um ar de desolação, havia um movimento vibrante de trabalho. Dezenas de artesãos, carpinteiros e pedreiros locais movimentavam-se pelo pátio, descarregando blocos de pedra nova, tábuas de carvalho
A névoa espessa que descia das colinas de Mayfair misturava-se à poeira da estrada de terra, transformando o trecho isolado da floresta em um cenário sombrio. Os cavalos relinchavam inquietos, batendo as patas no chão enlameado, enquanto o rangido da madeira da carruagem ecoava no silêncio tenso da noite.Edmund desembarcou com a postura ereta e a expressão impecável de quem não conhecia o medo. Trajava sua casaca escura e mantinha uma das mãos ocultas sob o tecido grosso, segurando com firmeza o cabo de pederneira. A alguns passos de distância, o Capitão Vane dava uma risada curta e debochada, cercado por cinco mercenários armados com sabres e pistolas de cano curto.— O nobre senhor parece calmo demais para quem está prestes a perder a fortuna e a vida — provocou Vane, dando um passo à
A manhã em Grosvenor Square amanheceu suave, banhada por uma luz dourada que atravessava as cortinas de veludo do quarto principal. Sobre o linho macio, Anne despertou sentindo o peso acolhedor do braço de Edmund ao redor de sua cintura. Pela primeira vez desde que pisara em Blackwood Manor, a sensação de constante vigilância fora substituída por uma plenitude profunda.Edmund já estava desperto, observando-a em silêncio. Ao ver os olhos escuros de Anne se abrirem, um sorriso genuíno e relaxado surgiu em seus lábios — uma imagem que teria parecido impossível semanas atrás.— Bom dia, Condessa — sussurrou ele, inclinando-se para selar os lábios nos dela em um beijo demorado e quente.— Bom dia, meu Conde — respondeu Anne, acariciando o rosto mar
Os dias que se seguiram na capital foram marcados por um recolhimento estratégico. Edmund enviou ordens estritas para que a guarda do porto de Bristol assumisse a apreensão dos navios mercantes, enquanto reforçava a escolta pessoal da residência em Grosvenor Square.Naquela noite, a brisa fresca da primavera entrava pelas cortinas de veludo do quarto principal, trazendo consigo o perfume dos jardins de Londres. Pela primeira vez desde que o contrato fora assinado, o peso das desconfianças, dos perigos e das sombras dera lugar a um silêncio íntimo e carregado de uma tensão inteiramente nova — suave, quente e inevitável.Anne estava sentada diante da penteadeira de madeira nobre, trajando apenas uma camisola de seda marfim que deslizava delicadamente sobre a pele. Seus cabelos escuros caíam em ondas espessas pelas costas.
Edmund recebeu os documentos selados das mãos do magistrado, rompendo a cera vermelha com um abridor de prata,com uma calma surpreendente ele leu cada documento. O silêncio na sala de estar era quebrado apenas pelo farfalhar dos papéis timbrados que revelavam a vastidão dos esquemas de Thomas.— O que encontramos, Milorde — começou o magistrado, o tom formal, cauteloso e um pouco temeroso —, não se trata apenas de chantagem política. Durante a auditoria nos cofres privados que Lorde Thomas mantinha em um banco sob nome falso, descobrimos contratos de financiamento marítimo altamente questionáveis.Anne aproximou-se, lendo por cima do ombro de Edmund. Os documentos listavam nomes de navios mercantes e rotas comerciais, mas havia um padrão estranho nas mercadorias declaradas e nas somas exorbitantes associadas
A notícia do incêndio e da trágica "desaparição" de Lorde Thomas nas águas revoltas do riacho correu pela alta sociedade de Londres com a velocidade de um rastro de pólvora. Quando a carruagem do Conde de Blackwood parou novamente diante do número 14 da Grosvenor Square, três semanas após o incidente, o ar da capital não era mais impregnado por desconfiança, mas por uma curiosidade respeitosa.Anne desembarcou acompanhada de Edmund. A leve cicratiz que ela trazia no antebraço, coberta pela renda delicada de sua manga, era o único vestígio físico da noite do ataque.Dentro da residência da cidade, papéis e jornais acumulavam-se sobre a mesa de centro da sala de estar. As manchetes da imprensa aristocrática eram categóricas: a Coroa encerrara oficialmente as in







