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Os Segredos da Ala Oeste

Author: Vilenir Reed
last update publish date: 2026-08-22 00:04:07

O vento uivava entre as frestas das janelas de carvalho, trazendo consigo o cheiro de chuva recente e terra molhada. A mansão de Blackwood era ainda mais intimidadora por dentro. Lustres de cristal empolceirados pendiam do teto alto, mas a iluminação das poucas velas acesas criava sombras dançantes nas paredes cobertas por papéis de parede em tom vinho escuro.

Anne deu um passo à frente, ajustando a capa de viagem sobre os ombros. Seus olhos se voltaram imediatamente para a grande escadaria de madeira nobre que se dividia em duas alas.

— Algum problema, Lady Anne? — a voz grave de Edmund ressoou logo atrás dela, cortando o silêncio pesado do salão.

Ela se virou devagar, mantendo a postura ereta para não demonstrar o sobressalto que o trovão anterior lhe causara.

— Vi uma iluminação na janela do segundo andar assim que a carruagem parou — disse Anne, encarando-o com firmeza. — A ala oeste parecia ter alguém observando a nossa chegada.

Um silêncio tenso pairou no ar. O maxilar de Edmund travou por um fração de segundo, uma reação quase imperceptível que não passou despercebida pelos olhos atentos da jovem. Ele deu um passo em direção a ela, a sombra de sua figura cobrindo a luz fraca das velas.

— A ala oeste está trancada e desabitada há anos — declarou ele, com um tom de voz implacável que não admitia questionamentos. — Foi apenas o reflexo dos relâmpagos nas vidraças. Recomendo que não dê asas à sua imaginação neste lugar, minha senhora.

Antes que Anne pudesse replicar, um homem idoso vestindo trajes impecáveis de mordomo aproximou-se com uma reverência discreta.

— Seja bem-vinda a Blackwood Manor, Milady. Sou Arthur. Os seus aposentos na ala leste já foram preparados conforme as instruções do Lorde.

— Obrigado, Arthur — disse Edmund, retirando as luvas de couro. — Conduza Lady Anne até suas acomodações. Pretendo me recolher ao meu gabinete para tratar de correspondências urgentes.

Sem uma palavra de despedida ou um olhar de cortesia, o Conde girou sobre os calcanhares e desapareceu pelo corredor escuro do térreo.

Anne suspirou baixinho, seguindo o mordomo pelos degraus largos da escadaria. A ala leste era espaçosa e confortavelmente decorada com uma lareira acesa, uma cama de dossel com lençóis de linho e uma escrivaninha de madeira escura. Era um ambiente caloroso, mas a sensação de estar sendo observada recusava-se a abandoná-la.

Após se trocar e dispensar os serviços da criada, Anne deitou-se na cama. O cansaço da viagem deveria tê-la feito adormecer imediatamente, mas o som do vento batendo nas janelas e os pensamentos sobre o mistério daquela casa a mantiveram desperta.

Passava da meia-noite quando um barulho sutil cortou o ruído da tempestade.

Noc. Noc. Noc.

Eram passos curtos e o ranger suave de tábuas de madeira no corredor do lado de fora.

Anne sentou-se na cama, o coração martelando contra as costelas. Pegou o castiçal sobre a mesa de pabeceira, acendeu a vela e caminhou até a porta. Ao abri-la devagar, encontrou o corredor completamente vazio, mas um rastro de ar frio soprava na direção da passagem que levava à ala proibida.

Movida por uma mistura de coragem e curiosidade obstinada, Anne seguiu a corrente de ar. Seus passos eram silenciosos sobre os tapetes pesados. Ela atravessou o arco que dividia a casa e se viu diante da imponente porta de carvalho duplo que selava a ala oeste.

Para sua surpresa, a porta não estava trancada; estava entreaberta por uma fresta mínima.

Anne empurrou a madeira pesada, que rangeu baixo. O corredor à sua frente estava imerso em uma escuridão profunda, coberto por lençóis brancos sobre os móveis e uma camada fina de poeira. O ar ali cheirava a mofo, alfazema seca e algo mais... um perfume floral doce e inconfundível.

Ela deu três passos para dentro do cômodo mais amplo daquela ala. Ao erguer a vela, a luz amarela revelou um retrato gigante emoldurado em ouro na parede principal.

Na pintura, uma mulher jovem de cabelos claros e sorriso enigmático ostentava um vestido de cetim azul. Aos seus pés, uma inscrição em letras cursivas dizia: Beatrice, o eterno amor de Blackwood.

— Eu deixei bem claro que esta ala era proibida, Lady Anne.

A voz de Edmund surgiu das sombras atrás dela, fria e perigosa como o aço de uma lâmina. Anne se virou bruscamente, assustada, e a luz da vela iluminou o rosto do Conde — mas não era apenas raiva que se lia em seus olhos cinzentos. Havia uma dor devastadora e um segredo sombrio que ele tentava desesperadamente esconder.

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