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A Promessa do Conde Soturno
A Promessa do Conde Soturno
Autor: Vilenir Reed

O Preço da Liberdade

Autor: Vilenir Reed
last update Fecha de publicación: 2026-08-21 23:58:17

O aroma de chá de jasmim e feno-grego que costumava trazer paz ao salão de recepção do Chalé Montgomery agora parecia sufocante. Anne segurava a carta de cobrança entre os dedos com tanta força que o papel encorpado ameaçava rasgar. As dívidas deixadas pelo falecido pai não eram apenas numéricas; eram uma sentença que arrastaria sua mãe e suas duas irmãs mais novas para a miséria completa antes da próxima estação em Londres.

— Você não precisa fazer isso, minha querida — sussurrou Lady Clara, a mãe de Anne, com a voz embargada enquanto ajustava com mãos trêmulas o xale de lã sobre os ombros. — Encontraremos outro meio. Posso vender as últimas joias da família...

— As joias não pagam nem um terço dos juros de hipoteca deste mês, mamãe — respondeu Anne, mantendo a voz firme, embora seu peito apertasse. — E não permitirei que minhas irmãs sejam despejadas.

Anne caminhou até a janela que dava para a rua de paralelepípedos. A carruagem negra, ostentando o brasão gravado em prata da Casa Blackwood, acabara de parar em frente à entrada. A portinhola se abriu, e de dentro dela emergiu a figura imponente do Conde.

Lord Edmund Thorne parecia moldado a partir das próprias sombras da noite. Alto, de ombros largos sob o casaco de corte impecável e trajes num luto perpétuo, ele carregava uma aura que afastava qualquer tentativa de aproximação social. A aristocracia comentava em sussurros sobre o homem que se fechara no interior após a morte trágica de sua noiva, Lady Beatrice, consumida por uma febre misteriosa anos atrás. Diziam que seu coração havia morrido junto com ela no túmulo.

Quando os passos pesados de Edmund ecoaram pelo corredor e ele entrou na sala de estar, a temperatura do ambiente pareceu despencar. Seus olhos cinzentos e gélidos varreram o cômodo com escrutínio frio até pousarem em Anne.

— Lady Anne — disse ele. A voz era grave, ressonante e desprovida de qualquer calor. — Acredito que já saiba o motivo da minha visita sem anúncios prévios.

— Sei que o senhor possui as notas promissórias da minha família, Lord Blackwood — Anne deu um passo à frente, recusando-se a abaixar o olhar diante da postura intimidadora do nobre. — E sei que não veio aqui por mera caridade.

Edmund esboçou um meio sorriso sem um pingo de humor, tirando um envelope selado de dentro do sobretudo.

— Caridade é uma virtude para homens fracos, minha senhora. Eu estou aqui para propor um negócio. O testamento de meu pai exige que eu me case antes do meu trigésimo aniversário para manter o controle total das propriedades e do título de Blackwood. Caso contrário, tudo passa para a tutela do meu tio.

Ele deu mais dois passos em direção a ela, diminuindo a distância entre os dois até que Anne pudesse sentir a pressão da sua presença.

— Minha proposta é simples: o seu sobrenome em uma certidão e a sua presença em minha propriedade. Em troca, quito cada centavo das dívidas da sua família, garanto uma pensão vitalícia para sua mãe e o dote completo para suas irmãs.

Anne sustentou o olhar, sentindo o pulso acelerar.

— E quais são as suas exigências em relação a mim?

Edmund inclinou-se ligeiramente, baixando o tom de voz para que apenas ela ouvisse, um aviso cortante velado de civilidade:

— Você terá meu sobrenome, minha fortuna e o conforto da mansão. Mas não haverá demonstrações públicas de afeto, não haverá intromissão nos meus assuntos pessoais e, acima de tudo, Lady Anne... jamais espere encontrar afeição ou amor nesta união. Meu coração pertence ao passado.

A frieza daquelas palavras teria feito qualquer jovem da sociedade recuar, mas Anne apenas ergueu o queixo, assimilando a proposta com pragmatismo.

— Negócio fechado, milorde. Mas fique sabendo: não vendo minha dignidade. Exijo ter total liberdade para gerenciar o lar e acesso irrestrito à biblioteca de Blackwood Manor.

Um brilho fugaz de surpresa passou pelos olhos cinzentos de Edmund — a primeira rachadura em sua máscara de pedra —, mas ele rapidamente recuperou o controle. Ele estendeu o documento sobre a mesa de centro.

— Assine na linha indicada. A cerimônia será privada, em três dias.

Anne pegou a pena, molhou-a na tinta e assinou seu nome com mão firme, selando seu destino com o homem mais temido e enigmático da Inglaterra.

— Excelente — murmurou Edmund, guardando o documento. — Arrume suas malas. Na manhã após o casamento, partimos para o interior. Prepare-se, Lady Anne. A vida em Blackwood Manor não costuma ser gentil com estranhos.

Três dias depois, o som das rodas da carruagem cortava a estrada de terra sob uma chuva torrencial. O céu noturno estava carregado de nuvens escuras quando os portões de ferro fundido de Blackwood Manor se abriram.

Anne olhou pela janela e sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A mansão erguia-se como um gigante de pedra entre as árvores antigas, com pouquíssimas janelas iluminadas.

Edmund, sentado à sua frente em silêncio absoluto durante toda a viagem, finalmente se moveu quando o veículo parou diante da entrada principal.

— Chegamos — disse ele, abrindo a porta e oferecendo a mão envolta em luva de couro para ajudá-la a descer.

Assim que os pés de Anne tocaram o solo encharcado, um trovão ensurdecedor cortou o céu, iluminando a fachada da mansão por um segundo. Naquele relance de luz, Anne olhou para o segundo andar e prendeu a respiração.

Em uma das janelas mais altas do ala oeste — a ala que Edmund declarara estar estritamente proibida —, a silhueta de uma mulher vestida de branco observava a chegada da carruagem.

Antes que Anne pudesse piscar, um novo relâmpago clareou o local, mas a janela agora estava completamente vazia.

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