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Terras do Norte

last update publish date: 2025-10-20 05:08:52

Alarë abriu os olhos devagar.

As pálpebras resistiam, pesadas como se tivessem sido costuradas ao sono bem devagar. A fadiga que a prendia ao leito não era comum; lembrava o cansaço que vinha após longos dias de viagem ou noites de febre — um desgaste antigo, sem origem clara.

A luz da manhã atravessava as peles esticadas sobre a abertura da parede, espalhando pelo quarto um tom quente, meio dourado, que não trazia conforto algum. Havia algo inquietante naquela claridade.

Seu corpo inteiro doía. Não uma dor aguda, mas profunda, entranhada nos músculos, a levando além do limite. Alarë inspirou com cuidado, esperando que o ar lhe devolvesse algum equilíbrio.

Onde estava?

Não era o quarto do oeste. Lá, tudo cheirava a sal, ervas envelhecidas e vinho ácido. As tapeçarias gastas protegiam pouco do frio, e o rangido constante da madeira fazia parte de suas noites.

Ali, o ar era diferente — mais limpo, mais duro. Trazia o cheiro de turfa queimada, de ferro aquecido, de peles recém-curtidas. Um cheiro selvagem.

O coração de Alarë acelerou. A sensação de deslocamento apertou-lhe o peito, e, antes que o medo se organizasse em pensamento, uma certeza antiga se insinuou em sua mente.

As terras do norte.

Sentou-se com esforço. As mãos trêmulas afundaram nas peles espessas que cobriam o leito — urso, talvez alce. O vestido de linho branco estava amarrotado, e no dedo anelar repousava um anel de ferro escuro, frio ao toque, gravado com runas que reconhecia apenas em parte. O martelo de Thor destacava-se no centro.

União viking.

Fragmentos de lembrança surgiram e se dissiparam: os olhares sobre si, mãos guiando as suas, um líquido quente descendo pela garganta, o gosto forte de ervas, risos distantes. Depois, nada. Apenas a escuridão.

Estava mesmo casada?

Com quem?

Com ele?

A pergunta latejou, mas o pânico não veio inteiro. Algo dentro dela parecia cansado demais até para o desespero.

Desde pequena, diziam que sua mente era frágil. Que precisava de cuidados. Que sem as infusões, os pensamentos se tornavam confusos, as sombras mais densas, as visões mais frequentes. Alarë aprendera a duvidar de si antes de duvidar dos outros.

Levantou-se devagar e caminhou até a janela. Precisou apoiar a mão na madeira para não perder o equilíbrio.

Uma leve brisa tocou-lhe o rosto. À frente, o mundo se abria em tons de cinza e verde: campos úmidos, casas de pedra espalhadas, fios de fumaça escapando pelos telhados. Ao fundo, montanhas erguiam-se como sentinelas cobertas de pinheiros. O ar era vivo, puro, encheu-lhe os pulmões de uma estranha lucidez.

Não era sua terra.

Não era seu lar.

Encostou a testa na madeira e fechou os olhos.

A porta rangeu atrás dela. Elarim entrou sem pressa, os movimentos suaves. Os olhos escuros observavam tudo, atentos. Alarë a conhecia desde a infância — e ainda assim, nunca soubera dizer o que a prima realmente pensava.

— Prima. Finalmente acordada. — O sorriso veio fácil. — Graças aos deuses, resististe à viagem.

Ela se aproximou trazendo uma taça pequena. O aroma doce de mel misturado a ervas espalhou-se pelo quarto, despertando algo familiar — o mesmo cheiro que acompanhara tantos de seus dias no oeste.

O estômago de Alarë se contraiu.

— Beba — Elarim pronunciou com suavidade. — Vai te ajudar a se acalmar. Estás sob muita mudança. Agora estás nas terras de Tharok. Teu marido.

A palavra marido soou estranha, quase irreal.

Alarë hesitou. Não por desconfiança clara, mas por cansaço, esgotamento. Parte dela desejava apenas recostar-se e deixar que tudo ficasse em silêncio novamente.

— Preciso de ar — murmurou, afastando levemente a taça.

Elarim piscou surpresa, logo substituiu o choque por um sorriso compreensivo.

— Tens de se cuidar melhor. Aqui não é como no nosso clã. As pessoas observam. Não entenderiam um… descontrole logo no início. — Aproximou-se um pouco mais. — Preocupo-me contigo.

As palavras continham algo sincero. Ou assim pareciam. Alarë nunca soubera distinguir.

Sem as infusões, os pensamentos vinham mais rápidos. As lembranças misturavam-se. As noites tornavam-se longas.

E se eles estivessem certos desde o início? Vamos falar a verdade a louca aqui era ela.

— Eu só… — interrompeu-se. Olhou novamente para as montanhas. Tudo nela queria sair, andar, respirar longe dali. Mas para onde iria? Sempre fora ensinada que, sozinha, não sobreviveria.

Elarim estendeu a taça outra vez.

— Foi a curandeira do clã que preparou.

Isso bastou.

Alarë levou o recipiente ao nariz. O cheiro de raízes maceradas, folhas secas, artemísia e milefólio tomou-lhe os sentidos. Ervas antigas. Conhecidas. Seguras, diziam.

Talvez aquilo fosse mesmo necessário. Talvez a estranheza em seu corpo fosse apenas medo. Talvez o mundo sempre tivesse sido assim, e era ela quem o sentia em excesso.

Bebeu devagar, gole por gole. O gosto amargo desceu pela garganta, espalhando um calor desconfortável no estômago, mas nada que não conhecesse.

— Pronto — Elarim tomou a taça. — Descanse. Em breve trarei o jantar.

Alarë apenas assentiu. Observou a prima sair e voltou o olhar para fora.

O vento agitava as copas das árvores. Por um instante, sentiu-se pesada outra vez, o chão a puxasse novamente para baixo.

Ouviu passos atrás de si e não se virou, certa de que Elarim retornara.

— Alarë. Acordaste.

A voz era grave, firme, carregada de uma distância difícil de decifrar.

— Como te sentes?

Ela se virou lentamente, sentindo o suor frio nas palmas das mãos.

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