LOGINPOV: Aurora
O Projeto Fênix não era um plano completo, mas uma coleção de ameaças organizadas. Havia fotografias dos oficiais dos Renegados, horários de troca da guarda, mapas das empresas e registros de pagamentos feitos a nomes codificados. O arquivo mais recente continha uma lista de alvos: Ghost, Marco, Caio, Sofia e, por último, Aurora.
Ela ficou diante do painel da sala de guerra enquanto os outros discutiam. Ver seu rosto entre pessoas que viviam cercadas por armas produziu uma calma estranha. O medo era pior quando não tinha contornos. Agora havia datas, setas e números; Aurora sabia trabalhar com números.
— As iniciais C.F. não identificam uma pessoa — afirmou Aurora. — São “contas-fantasma”. Meu pai usava esse termo para pagamentos temporários que desapareciam depois de três transferências. Se seguirmos apenas o destinatário final, chegaremos a laranjas. Precisamos procurar o ponto em que os valores foram divididos.
Ledger folheou as planilhas.
Ledger voltou a se manifestar:
— Essa divisão pode ter ocorrido fora do nosso sistema.
— Não ocorreu — respondeu Aurora. — Veja estes centavos repetidos: quarenta e sete, depois treze, depois oitenta e nove. Meu pai usava os centavos como marcação para indicar a ordem. Ele queria poder reconstruir o caminho caso o parceiro tentasse enganá-lo.
Sofia aproximou três extratos.
— Ela está certa. Quarenta e sete aparece na Vértice, treze numa empresa de segurança e oitenta e nove numa oficina de fachada.
Caio lançou um olhar duro para Ledger.
— Como nosso tesoureiro não viu isso?
Enzo retirou os óculos e limpou as lentes.
Ledger voltou a se manifestar:
— Porque administro doze empresas, folha de pagamento e impostos, não os hábitos supersticiosos de Rafael Valente. Se deseja me acusar, faça isso na mesa.
— Chega — disse Ghost. — Sofia e Aurora rastreiam os valores. Ledger entrega os acessos e permanece disponível. Marco revisa a segurança. Caio vai comigo ao depósito da zona norte.
— Eu também vou — declarou Aurora.
Ghost voltou os olhos para ela.
— Não.
— O endereço estava nos documentos do meu pai. Posso reconhecer arquivos, códigos e pessoas que vocês não conhecem.
Ghost retomou o ponto com objetividade:
— Também é um alvo identificado.
— Ficar dentro do clube não impediu que um homem chegasse ao escritório nem que incendiassem o galpão. Se quer minha ajuda, pare de tratá-la como útil apenas quando estou sentada.
Marco olhou para Ghost.
— Leve Sofia na caminhonete blindada com ela. Caio e eu abrimos o caminho. É um risco controlável.
Ghost parecia disposto a discutir até o inverno, mas assentiu.
O depósito era um prédio de tijolos entre ferros-velhos. Por dentro, estava vazio, exceto por uma mesa, uma impressora queimada e um armário com pastas. Aurora reconheceu a letra do pai em etiquetas de datas. Encontrou também uma caixa com objetos pessoais: o relógio dele, duas camisas e um frasco de remédio para o coração.
— Ele esteve aqui — disse, segurando o relógio. — Meu pai jamais o tirava.
Ghost aproximou-se.
— Pode ter deixado de propósito.
— Eu sei. É isso que torna pior. Tudo com ele era afeto ou manipulação, e às vezes era ambos.
Sofia chamou do outro lado do depósito. Atrás de uma divisória falsa, havia fotografias antigas dos Corvos de Ferro e uma gravação em fita digital. Aurora apertou o botão.
A voz de Rafael encheu o espaço:
— Se está ouvindo isto, alguém chegou mais longe do que deveria. O dinheiro nunca foi o objetivo, apenas o combustível. Os Renegados precisam cair por dentro antes que os Corvos possam renascer. Dante Moretti acredita que matou a guerra com homens, mas guerras são ideias, e ideias aprendem a esperar.
A gravação terminou. Ghost permaneceu tão imóvel que parecia esculpido.
Aurora não conseguiu defendê-lo nem odiá-lo. Apenas perguntou:
— Por que meu pai faria isso com vocês?
— Talvez não seja o único falando — respondeu Ghost. — A gravação pode ter sido feita sob ameaça.
Caio encontrou uma fotografia de Rafael ao lado de Silas Rocha, presidente dos Abutres, e de um terceiro homem cujo rosto fora riscado.
Antes que pudessem procurar mais, sirenes se aproximaram. Marco verificou a janela.
— Polícia. Três viaturas e uma equipe tática. Alguém denunciou armas e reféns.
— Há armas registradas nos veículos, mas este local não é nosso — disse Sofia. — Se formos detidos, o clube fica sem metade da liderança.
Aurora abriu a pasta do pai e encontrou uma escritura.
— O depósito pertence à minha consultoria. Legalmente, sou a proprietária. Guardem as armas no compartimento da caminhonete e deixem que eu fale.
Ghost segurou o braço dela antes que saísse.
— Se algo der errado, não tente nos proteger.
— Não estou protegendo vocês. Estou protegendo a chance de descobrir por que meu pai planejou a morte de todos nós.
Ela recebeu os policiais com a escritura, a carteira da Ordem de Isadora por videochamada e uma explicação sobre invasão de propriedade. Quando o comandante perguntou pelos homens de colete, Aurora respondeu com serenidade:
— São seguranças contratados depois de um atentado contra minha residência. Se pretende revistá-los ou entrar sem meu consentimento, minha advogada solicita que apresente um mandado.
As viaturas foram embora vinte minutos depois. Caio a encarou como se a visse pela primeira vez.
— Você mentiu para uma equipe tática sem piscar.
— Eu disse verdades cuidadosamente escolhidas. Advogados cobram caro para ensinar isso, mas Isadora me dá desconto.
Ghost não sorriu. Ele observava um envelope encontrado sob a impressora. Dentro havia uma cópia da certidão de óbito da mãe de Aurora e um laudo médico mostrando que ela não morrera apenas de câncer. A dose fatal de analgésico fora administrada por alguém.
No rodapé, Rafael escrevera: “Dante conhece o homem
POV: CaioBeatriz Leme correu como mãe.Foi isso que a tornou fácil de prever e difícil de odiar naquele momento específico.Caio a viu pela primeira vez na estrada de serviço atrás do mercado, dirigindo um carro roubado com uma imprudência que não combinava com a mulher fria da casa de vidro. Ela cortou uma curva, quase bateu em um caminhão de entrega e continuou sem reduzir. Quem olhasse de longe veria fuga. Caio via desespero.Tainá, no banco ao lado dele, também via.— Álvaro sabe que ela viria por aqui — disse.— Então onde está a armadilha?Sofia respondeu pelo rádio:— Tenho dois veículos sem placa parados perto da entrada de serviço do condomínio. E uma van da Fundação Recomeçar saindo pelos fundos.— Clara está na van — Tainá falou.Caio acelerou.— Beatriz ainda não viu.— Vai ver.Como se a estrada obedecesse à frase, o carro de Beatriz freou bruscamente ao avistar a van. Ela abriu a porta antes mesmo de estacionar direito e correu para o meio da rua.— Clara!A van não par
POV: TaináO beijo aconteceu onde não deveria.Não houve música, silêncio perfeito, chuva delicada ou tempo suspenso. Houve fumaça, vidro quebrado, gente ferida, rádio chiando e dona Lúcia gritando que alguém precisava tirar entulho da porta antes que ela mesma fizesse “com a coluna ruim e ódio suficiente”.Tainá estava no corredor lateral da sede, lavando fuligem das mãos em uma torneira externa. A água escorria preta pelos dedos. Caio apareceu com uma toalha limpa, ficou ao lado e não falou nada por quase um minuto.O silêncio dele já não parecia ausência.Parecia cuidado tentando não invadir.— Você está me olhando como se eu fosse quebrar — ela disse.— Estou te olhando como se você tivesse quase explodido.— Tecnicamente, foi o muro.— Não ajuda.Tainá pegou a toalha. Os dedos deles se tocaram. Um toque pequeno, comum, ridículo para tudo que já tinham enfrentado. Ainda assim, a pele dela pareceu lembrar antes da cabeça.Caio percebeu e retirou a mão devagar.Ela não deixou.Segur
POV: CaioCaio ouviu a explosão pelo rádio antes de ver a fumaça.O som atravessou o canal e rasgou tudo que ele tinha acabado de conseguir segurar. Núcleo São Pedro estava salvo. As crianças respiravam no banco de trás da van de Lobo. As mulheres choravam, vivas, sendo encaminhadas para a rota de Marisa. Por dois minutos, ele achou que o pior tinha passado.Então a sede da Rede Helena explodiu na tela de Sofia.E Tainá estava lá.O velho Caio assumiu o volante dentro dele.Gritou para correr, derrubar porta, arrancar Tainá do lugar, colocá-la em qualquer quarto trancado e matar o mundo do lado de fora. O velho Caio tinha respostas rápidas, brutais, confortáveis. Quase sempre erradas.Ele apertou o rádio.— Tainá, relatório.A voz dela veio com estática, tosse e firmeza.— Explosão externa. Provável carro-bomba pequeno ou cilindro no muro. Sem queda estrutural. Aurora comigo. Sofia ferida leve no braço. Marisa bem. Dona Lúcia xingando, então viva.O ar voltou, mas não inteiro.— Onde
POV: TaináA Rede Helena não queimou de uma vez.Queimou em pontos.Uma denúncia falsa no abrigo antigo. Um princípio de incêndio na Casa Três. Um carro suspeito parado perto da escola de uma criança protegida. Uma viatura que não devia saber endereço nenhum. Mensagens anônimas chegando a mulheres que haviam trocado de nome. O Argos não atacava como gangue. Atacava como doença espalhada pelo sangue.Tainá ficou na central da sede com três telefones, dois mapas e a sensação de que cada segundo perdido podia custar uma vida.Aurora estava ao lado dela, comandando com uma calma que parecia impossível. Sofia rastreava acessos. Marisa ligava para padarias, vizinhas, entregadores e mulheres que sabiam mais da rua do que qualquer câmera. Isadora gritava com autoridades no viva-voz. Ghost distribuía Renegados. Caio estava na rua, seguindo o plano dela.Aquilo ainda parecia errado e certo ao mesmo tempo.Ele seguir.Ela comandar.— Casa Três evacuada — Sofia informou. — Incêndio controlado. Se
POV: CaioCaio queria quebrar o pen drive.Queria esmagar o pequeno objeto preto sob a bota, reduzir plástico e metal a pó, jogar tudo no lixo e fingir que Álvaro Nassar não tinha passado tempo suficiente estudando sua cabeça para nomear um arquivo de Projeto Sargento.Não quebrou.Entregou a Isadora.Depois entregou a Tainá a escolha que realmente importava.— Você não precisa ler isso comigo.Estavam na sala de análise da sede, horas depois da operação no Cemitério São Dimas. Otávio fora levado sob custódia. As vítimas resgatadas recebiam atendimento. Clara estava em local protegido, sem saber ainda que a guerra mudara de forma ao redor dela. Beatriz exigira notícias e não recebera detalhes. Álvaro permanecia invisível, como todo homem poderoso que mandava outros sangrarem antes dele.Tainá ficou diante da mesa onde Sofia preparava o arquivo em um notebook isolado.— Você também não precisa ler sozinho.— Pode ter fotos suas.— Eu sei.— Pode ter coisa feita para te machucar.— Eu s
POV: TaináO Cemitério São Dimas não parecia assustador de fora.Tinha muros altos, árvores antigas e uma capela pequena perto da entrada principal. As lápides brancas se alinhavam em silêncio respeitável, como se ali repousassem apenas histórias encerradas. Tainá sabia melhor. Lugares de morte também podiam esconder gente viva.A noite estava úmida. A terra cheirava a chuva antiga. Os Renegados se posicionaram antes do primeiro carro funerário chegar. Ghost e Marco cobriam a entrada de serviço. Silas e dois Abutres vigiavam a passagem lateral. Sofia coordenava câmeras de uma van sem identificação. Isadora estava a três quadras, com policiais de confiança e um mandado que ainda dependia de flagrante para não desmoronar diante de algum juiz comprado.Caio ficou com Tainá no muro norte.Não porque ela precisasse dele como sombra. Porque aquele era o melhor ponto para reconhecer o padrão que Beatriz descrevera.— Portão lateral abre primeiro — Tainá sussurrou. — Se for igual à Santa Mart







