홈 / Romance / A Rainha que pediu Divórcio ao Rei / Capítulo 4 — O que não posso tocar

공유

Capítulo 4 — O que não posso tocar

작가: J. Wells
last update 게시일: 2026-10-20 03:05:01

POV — Ronan

Maíra não falou comigo durante o caminho de volta ao palácio.

A carta da mãe dela estava dobrada em sua mão. A frase parecia ter sido gravada no papel com fogo: conte a ela quem você teve que matar para salvá-la.

Eu sabia que aquele dia chegaria. Só não esperava que fosse acontecer depois de um ataque, de um pedido de divórcio e da chegada de Soren — o homem que amava minha esposa sem carregar o peso de tê-la decepcionado todas as manhãs.

— O rei Soren ficará no palácio? — perguntei quando o guarda fechou a porta dos nossos aposentos.

— Ele é um rei. Não posso expulsá-lo sem motivo.

— Você tem motivos suficientes.

Ela deixou a carta sobre a mesa e começou a soltar os fechos do vestido. O braço ferido dificultava os movimentos; mesmo assim, não pediu ajuda.

— Não vou expulsá-lo porque você está com ciúmes.

— Não estou.

— Então é uma pena. Seria a primeira emoção honesta que você demonstra hoje.

Tirei a capa e a pendurei junto à porta.

— Ele quer se casar com você.

— Eu sei.

— E você ainda o considera um bom amigo.

— Considerava. — Ela puxou uma cadeira para se sentar e examinou o curativo. — Agora estou tentando descobrir quantas mentiras cabem numa amizade.

A resposta me atingiu. Soren não era o único a quem ela não sabia se podia confiar. Eu tinha passado dois anos mantendo segredos para protegê-la e chamando isso de amor.

Maíra levantou-se e foi até o biombo perto do armário.

— Vou trocar o curativo. Vire-se.

Fiz o que pediu.

Ouvi o farfalhar do vestido caindo sobre o tapete. Depois, o ruído mais baixo do tecido deslizando de seus ombros. Mantive os olhos na parede, atento demais à distância de cada som. Conhecia o corpo dela. Já o havia tocado, beijado, adorado. Mesmo assim, naquela noite, a lembrança da intimidade parecia pertencer a outra vida.

— A faixa está apertada — disse ela.

— Quer que chame a curandeira?

— Não. Quero que pegue a caixa de pomada. Está na mesa.

Virei-me para buscar. O biombo escondia apenas parte dela. Maíra estava nua, com o vestido caído aos pés, uma das mãos segurando o curativo e a outra tentando alcançar a faixa sobre a mesa.

Meus olhos pararam nela antes que eu pudesse impedir.

Não vi uma rainha, nem a mulher que acabara de pedir o divórcio diante de uma corte inteira. Vi Maíra: a pele marcada por uma cicatriz fina no ombro, o cabelo preso de qualquer jeito, a expressão concentrada enquanto lutava com uma faixa que ela não conseguia prender com uma mão só.

A lembrança de nossas noites veio sem pedir licença. A maneira como ela costumava procurar minha mão no escuro. O riso abafado quando eu errava os laços do vestido. O calor dela encostada em mim antes de o silêncio ocupar nosso quarto.

Então ela ergueu os olhos.

— Você está olhando.

Poderia ter mentido. Poderia ter virado as costas e fingido que nada acontecera.

— Estou.

— Não vai desviar?

— Se você pedir.

Maíra sustentou meu olhar. Por um instante, não havia rei nem rainha entre nós, apenas o risco de atravessar uma linha que ambos conhecíamos bem.

Ela não pediu que eu olhasse. Também não se cobriu.

— A caixa — disse, por fim.

Peguei a pomada e a faixa. Entreguei tudo sem me aproximar mais do que o necessário.

— Obrigada.

Ela aplicou a pomada ao redor do corte. Fez uma careta ao tocar a pele.

— Deixe que eu faço — ofereci.

— Você já fez o bastante por mim sem pedir autorização.

Minha mão parou no ar.

— Eu mereci isso.

— Mereceu coisas piores.

Ela prendeu a faixa com dificuldade. Quando os dedos falharam pela terceira vez, não consegui continuar parado.

— Posso?

Maíra hesitou, depois estendeu o braço.

Aproximei-me devagar. A pele dela ainda estava morna sob meus dedos. Ajustei o curativo sem apertar demais, atento a cada sinal de desconforto. Quando terminei, ela não afastou a mão imediatamente.

— O que você fez para me salvar? — perguntou.

A pergunta era simples. A resposta, não.

Naquela noite, eu matei um homem que Maíra amava.

— Ainda não posso contar — respondi.

Ela retirou o braço.

— Não pode ou não quer?

— Não quero que a verdade pareça uma desculpa.

— Você não decide como vou recebê-la.

— Eu sei.

— E, mesmo assim, continua decidindo o que posso saber.

Vesti a camisa que estava sobre a poltrona. A ferida no meu ombro repuxou, mas ignorei.

— Vou contar quando estivermos fora do palácio.

— Por quê?

— Porque há ouvidos atrás das paredes.

— Então fale mais baixo.

Ela tinha razão. Eu estava usando a segurança como escudo, como sempre fizera. Maíra merecia saber. O problema era que, depois de ouvir, talvez nunca mais olhasse para mim da mesma forma.

— De manhã — falei. — Depois que sairmos daqui.

— Se você mentir de novo, Ronan…

— Eu não vou mentir.

— Já disse isso antes.

Ela escolheu uma camisola simples no armário e a vestiu sem esconder o rosto de mim. Dessa vez, virei-me para a janela. O vidro refletia sua silhueta, mas mantive os olhos no jardim escuro.

— Você não precisa fingir que não me deseja — disse ela atrás de mim.

Fechei os dedos na moldura da janela.

— Não estou fingindo.

— Então por que passa a vida inteira tentando me manter longe?

— Porque você merece escolher sem que eu use o que sinto para prendê-la.

— E Soren não faria isso?

— Não sei. Mas ele não tem os meus pecados.

Ela subiu na cama e se acomodou do lado mais distante. Deixei a espada ao alcance da mão e me deitei por cima das cobertas, sem tirar as botas. A distância entre nós era grande o bastante para caber o pedido de divórcio, a carta da mãe dela e tudo o que eu não conseguira dizer.

— Você vai dormir assim? — perguntou.

— A guarda está em alerta.

— A guarda fica do lado de fora.

— E eu fico aqui.

Ela não respondeu. Ouvi o colchão se mover quando se virou para a parede.

A respiração dela demorou a ficar tranquila. A minha não acompanhou.

Quando pensei que tivesse adormecido, abri a mão sobre a coberta. Na palma, ainda sentia o peso daquela noite antiga.

Uma linha pálida cruzava minha palma, lembrança de uma noite em que o sangue de alguém que ela amava ficara nas minhas mãos.

이 작품을 무료로 읽으실 수 있습니다
QR 코드를 스캔하여 앱을 다운로드하세요

최신 챕터

  • A Rainha que pediu Divórcio ao Rei   Capítulo 15 — A mulher no túnel

    POV — MaíraCorri atrás dos passos antes que Ronan pudesse me deter.— Maíra, espere!A escuridão engoliu o corredor. A cada passada, o som da mulher ficava mais distante, misturado ao eco de água correndo sob as pedras. Estendi a mão à parede para não tropeçar. Meus dedos roçaram uma fenda úmida.Atrás de mim, ouvi Dain perder o fôlego.— Não consigo acompanhar vocês — ele disse.— Volte para a câmara e espere — ordenei.— Não vou deixar que enfrente isso sozinha.— Não pedi que enfrentasse. Pedi que esperasse.Ronan alcançou meu braço, mas não me puxou.— A passagem pode ter armadilhas.— Então avise antes que eu pise em uma.Ele soltou meu braço. A escuridão tornava tudo mais próximo: a respiração dele junto à minha, o calor da mão que por um instante quase tocara minha cintura. Eu não confiava nele. Ainda assim, quando um ruído seco veio de algum ponto adiante, encontrei sua mão às cegas e a segurei.Ronan não disse nada. Apenas apertou meus dedos uma vez.A chama da tocha reacend

  • A Rainha que pediu Divórcio ao Rei   Capítulo 14 — A passagem sob a rainha

    POV — MaíraA palavra Avelor continuava gravada na pedra, mas já não me parecia um epitáfio. Parecia um aviso.— O escrivão disse para procurar sob a pedra do nome — falei.Ronan examinou a inscrição, espada em punho. Dain se apoiou na borda do sarcófago, ainda fraco demais para fingir que não estava.— Talvez tenha algo escondido atrás da placa — sugeriu ele.Passei os dedos pelo mármore. A parte inferior do nome da minha mãe tinha uma saliência quase imperceptível. Pressionei. A pedra cedeu com um estalo seco.Ronan se colocou entre mim e a tumba.— Afaste-se.— Não.— Maíra…— Se alguém escondeu algo sob o nome dela, não vou ficar olhando de longe.Ele sustentou meu olhar por um instante. Então recuou meio passo, sem guardar a espada.A placa se soltou. Atrás dela havia uma cavidade estreita, escavada no mármore. Não encontrei joias, documentos ou uma chave. Só um pequeno encaixe de metal, gasto pelo uso, e uma alavanca curta escondida sob a pedra.Dain reconheceu o mecanismo.— Is

  • A Rainha que pediu Divórcio ao Rei   Capítulo 13 — A sepultura vazia

    POV — Maíra— Vou voltar a Avelor — anunciei a Dain. — Preciso ver a tumba da minha mãe.Ele olhou para as correntes nos próprios pulsos. As marcas sob o metal estavam vermelhas e inchadas.— Então eu vou com você.— Está há dois anos preso naquela torre. Mal consegue ficar em pé.— Consigo ficar em pé o bastante para contar o que Cael me disse.Dain se levantou. As pernas vacilaram, mas ele se segurou na parede antes que alguém pudesse ajudá-lo. Não queria piedade. Eu conhecia aquela expressão; já a usara vezes demais.Olhei para Edric.— Solte-o.— Ele continua sendo meu prisioneiro — disse o governador.— E minha testemunha. Se o deixar aqui, Varyn pode mandar silenciá-lo antes que eu volte.Edric hesitou. Depois fez um sinal ao guarda, que abriu as algemas. Dain esfregou os pulsos, sem agradecer. Não o censurava. Dois anos de prisão não desapareciam com uma chave girando.— Ele vai sob minha responsabilidade — Edric disse. — Se fugir, a senhora responde por isso.— Aceito.— Ainda

  • A Rainha que pediu Divórcio ao Rei   Capítulo 12 — O corpo que nunca vi

    POV — RonanA mão de Maíra continuava fechada em torno do pulso do escrivão.— A data estava na ordem? — ela perguntou.O homem assentiu, respirando com dificuldade.— Três dias depois do massacre. Eu me lembro porque precisei registrar a entrada no arquivo.O curandeiro tentou afastá-lo da mesa.— Ele precisa de repouso, Majestade.— Vai ter repouso — Maíra respondeu. — Mas ninguém fica sozinho com ele.Edric chamou dois guardas para acompanharem o escrivão até a enfermaria. Maíra acrescentou mais quatro. Não discutiu quando o curandeiro insistiu que o ferimento precisava ser tratado; só exigiu que a porta permanecesse aberta e que um guarda ficasse dentro do quarto.Ela não confiava em ninguém. Nem sequer no próprio instinto, percebi, quando seus olhos encontraram os meus.— Você viu o corpo da minha mãe? — perguntou.A resposta me custou mais do que deveria.— Não.A expressão dela endureceu.— Você disse que soube da morte dela na manhã seguinte.— Meu pai me contou. Eu tinha vist

  • A Rainha que pediu Divórcio ao Rei   Capítulo 11 — Três dias depois

    POV — Maíra— Ele ainda está vivo? — perguntei.Abaixada ao lado do escrivão, pressionei os dedos contra o pescoço dele. Encontrei um pulso fraco, rápido demais para me tranquilizar.— Chamem o curandeiro! — ordenei. — E tranquem as saídas. O homem que fugiu não pode deixar o castelo.Os guardas se espalharam. Lorde Edric ajoelhou-se do outro lado do escrivão, enquanto Ronan mantinha a espada em punho, atento à porta lateral por onde o agressor escapara.— Ele não vai longe — disse Edric.— Não apostaria a vida dele nisso — respondi.O escrivão soltou um gemido. Seu rosto estava cinzento, e o sangue escorria por baixo da gola, manchando o colarinho. Quando abriu os olhos, tentou se levantar.— Fique quieto — ordenei.— Varyn… — murmurou.O nome fez Edric olhar para mim. Ronan baixou a espada, mas não se aproximou.— Eu sei que foi Varyn — falei. — Quero saber o que ele fez.O escrivão respirou com dificuldade. O curandeiro ainda não havia chegado. Segurei a mão dele, tentando impedir

  • A Rainha que pediu Divórcio ao Rei   Capítulo 10 — A metade escondida

    POV — Maíra— Abram a cela — ordenei.O guarda que nos acompanhava olhou para Edric, parado no arco do pátio. O governador não se opôs. Com um gesto, autorizou que a chave fosse usada.Ronan veio atrás de mim quando subi à torre.— Você pode esperar lá embaixo — falei.— Não posso.— Ainda está tentando me proteger?— Estou tentando ouvir a verdade inteira.— Pela primeira vez, estamos de acordo.A cela cheirava a pedra úmida e roupa guardada por tempo demais. Dain estava acorrentado a uma argola na parede. Quando me viu, não pediu que o soltassem.— Fale — ordenei. — O que Cael estava fazendo na noite da invasão?Dain lançou um olhar a Ronan.— Ele estava tentando tirar a senhora do palácio. Encontrou-a inconsciente perto da capela e a carregou até o corredor dos estábulos. Sua mãe pediu que ele não confiasse nos homens de Drevain.— E, mesmo assim, Ronan veio atrás de mim.— Veio com uma ordem do rei Orlan — disse Dain. — Para levá-la a Drevain.Olhei para Ronan. Ele não desviou o r

더보기
좋은 소설을 무료로 찾아 읽어보세요
GoodNovel 앱에서 수많은 인기 소설을 무료로 즐기세요! 마음에 드는 작품을 다운로드하고, 언제 어디서나 편하게 읽을 수 있습니다
앱에서 작품을 무료로 읽어보세요
앱에서 읽으려면 QR 코드를 스캔하세요.
DMCA.com Protection Status