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Capítulo 5

last update Fecha de publicación: 2021-09-08 02:58:21

Daily levantou-se e saiu dali. Não sabia ao certo para onde ir, só tinha certeza de que não queria mais ver aquela cena. Ninguém a entendia. E seu coração doía ao ver o Rei Pollo morto por seu pai. Ela não sabia mais quem era o certo e quem era errado naquela batalha entre os Kasenkinos e o reino de Machia.

Ela foi puxada bruscamente pelo braço, sendo obrigada a parar. Era Burt.

- O que você quer? – perguntou ela.

- Daily, você precisa voltar. Não quero que percebam sua falta... Não quero que seja castigada. Ahau ou Ahua podem dar sua falta. Sabe que quando o líder Kasenkino fala, todos devem estar lá... Não se pode dar as costas para ele.

Burt tinha razão. Ela precisava estar com todo seu povo ou poderia sofrer alguma punição por estar desrespeitando e não dando atenção à palavra do líder. Burt a abraçou, como forma de carinho, tentando fazer diminuir a dor que ela sentia dentro de si.

- Não acredito que os homens sejam capazes de tanta crueldade. – confessou ela.

- Infelizmente são capazes de coisas piores...

- E o mais difícil é ver que meu pai está entre estes homens que julgo sem coração.

- Erone não é um homem mau, Daily... Isso que você está sentindo vai passar. A cena foi forte para muitos... Mas o tempo apagará. Vamos voltar.

Daily retornou com o amigo para o lugar em que estavam anteriormente. Erone já estava sentado no chão, junto com os outros guerreiros. Já tivera seu momento de glória... Agora era inferior ao líder, como todos os outros Kasenkinos. Por isso ela se perguntava o motivo de ele ter feito aquilo? O que ganhava em troca? Dos Kasenkinos ela sabia que nada. Então fizera por orgulho próprio? Ou por simples vontade de trazer a cabeça daquele homem para longe de seu povo...

Ahau voltou a falar:

- Mais uma conquista do povo Kasenkino. – disse ele olhando satisfeito para as últimas chamas que queimavam o que sobrara do rei Pollo.

Daily olhava para todos atentos e em sua maioria com rostos parecendo felizes. Como os Kasenkinos não conseguiam ter um pingo de compaixão? Ela se sentia estranha naquele lugar e em seus pensamentos. Nunca se questionara tanto quanto naquele momento. Ela precisava conversar com alguém que a entendesse... Olhou para Burt, mas ele estava atento às palavras de Ahau, completamente envolvido naquela cena. Ela sabia que naquele momento precisava de Moa. Só ele a entenderia. Ela tentou ficar atenta ao que Ahau dizia:

- E outra coisa que quero dizer é que o reino vai querer se vingar. Sem contar os Naiguã, que apesar de bons comerciantes também ficam espreitando nossas terras. São um povo que não podemos confiar de forma alguma. Então a partir de amanhã, iniciaremos a construção deu um muro gigantesco de pedras. A muralha será construída por todos: homens, mulheres e crianças. Ninguém mais entrará em nossas terras. Cercaremos nosso espaço na floresta e no rio. A cabana do velho Moa ficará de fora, pois ele não pertence mais ao nosso povo. Depois de cada pedra no lugar, uma em cima da outra, a muralha será tão imensa que jamais alguém se atreverá a nos atacar novamente. Ninguém mais entrará em nosso povoado e também ninguém sairá. Passaremos a produzir tudo que precisamos. Será o sonho antigo do nosso povo realizado.

Ele fez uma pausa, visivelmente cansado. Respirou um pouco e continuou:

- E para finalizar, comunico que estou oficialmente procurando uma esposa.

Aquilo gerou polêmica e todos começaram a falar ao mesmo tempo, surpresos com o que Ahau acabara de dizer. Ele deu um grito e todos se calaram imediatamente.

- Peço que fiquem calmos, pois vou explicar como será. Na próxima lua, cada garota que tiver interesse será levada por seu pai até minha cabana. Que fique claro que ninguém é obrigado a ir... Será somente quem quiser. E a garota escolhida será minha esposa e liderará junto a mim nosso povo. A jovem escolhida, bem como toda sua família, ficará livre da construção da muralha, terá livre acesso a tudo que for plantado e ninguém de sua família precisava trabalhar mais.

Ele não deu maiores explicações... Se foi. Depois de todos os acontecimentos daquele dia, Daily ficou em pânico. Não sabia o que era pior: saber que seu pai matou e trouxe a cabeça do Rei Pollo, ter a obrigação de construir uma muralha que isolaria os Kasenkinos do restante do mundo, ou saber que Ahau procurava uma nova esposa. Parecia que tudo que Moa havia falado fazia sentido agora. Ela previa perigo neste casamento preparado por Ahau. Teria Erone coragem de entregá-la nas mãos do velho líder Kasenkino? Ela já não tinha mais certeza de nada. Erone sempre fora um homem muito reservado e rígido, mas a atitude depois daquela última batalha a estava preocupando ainda mais.

Os Kasenkinos foram se dirigindo às suas casas e Daily embrenhou-se no meio das pessoas. Logo estava em seu lar, se sentindo mais segura. Erone ainda não havia retornado. Ela iniciou a preparação do jantar. Mas o tempo passou, ela acabou de fazer a comida, jantou e seu pai não retornou. Já estava tarde, havia pouco movimento na rua e ela começou a ficar preocupada, pois Erone geralmente ficava em casa todos os dias e dormia cedo. Ela nem sabia o que conversar com o pai quando ele chegasse... Não tinha certeza se deveria falar sobre o seu sentimento quanto ao que ele fizera com o rei Pollo. Ela sempre tiver orgulho de Erone e eram muito conhecidos no povoado justo por ele ser reconhecido como o melhor guerreiro Kasenkino. No entanto a atitude dele nesta última batalha não havia sido motivo de orgulho para Daily. A morte do rei Pollo havia afetado muito seus pensamentos e sentimentos. Talvez por sua imensa vontade de um dia conhecer o reino de Machia e seu povo e nunca entender ao certo o motivo de tanta briga entre os dois povos. Ela não culpava tanto o pai por ter matado o rei Pollo, pois sabia que numa batalha a morte era inevitável... Mas o que a incomodava era o fato de ele ter trazido a cabeça do líder do reino de Machia como troféu. Ela sentiu um arrepio ao lembrar-se da cena da cabeça do rei Pollo queimando no meio do povoado. Provavelmente ele era como Ahau no reino... Era o homem mais importante para eles, o seu líder. Ela pediu aos espíritos Kasenkinos antigos que levassem a alma do Rei Pollo para o lugar onde as almas do povo dele ficavam... Que o ajudassem na passagem.

Na manhã seguinte ela iria visitar Moa. Precisava de alguém que a ajudasse a entender o que estava acontecendo com seu povo e o mundo em que ela vivia. Pensou em conversar com Burt a respeito, mas sabia que seu amigo jamais contestaria os preceitos Kasenkinos. Eles eram muito amigos, mas pensavam diferente na maioria das vezes. Mas Burt era um homem sincero e isto ela admirava nele. Sempre falava a verdade e o que pensava. Mas era um homem covarde... Preferia viver a vida fazendo armas a lutar na guerra. Também jamais julgara qualquer atitude do líder Kasenkino ou seu conselheiro.

Daily se considerava uma mulher muito corajosa. Não temia o que estava por vir e tinha mil desejos para realizar. Ela não tinha muita coragem de falar sobre seus pensamentos... Mas se atrevia sim a pensar sobre qualquer coisa, a questionar tudo que podia e achava errado. Seu povo acreditava no destino e que cada pessoa quando nascia já estava com seu futuro escrito, até mesmo o dia e a forma como morreria. Por isso não adiantava tentar mudar o que estava escrito. Daily se atrevia a pensar que sim, o destino estava traçado, mas poderia ser mudado por algumas pessoas que tentassem e não aceitassem algumas coisas que a vida lhes impunha. Ela pensou que poderiam dizer que o destino dela era se casar com Ahau... No entanto ela poderia fugir, mudando seu destino. Jamais aceitaria se casar com aquele homem. Enquanto seus pensamentos a consumiam, ela tentou se tranquilizar e imaginar que Erone jamais lhe ofereceria em casamento a Ahau. Ela era sua única filha... Ele provavelmente quereria que ela se casasse com um jovem guerreiro, que lhe desse netos... Isto a deixou esperançosa. Ela preferiria morrer a ser esposa de Ahau. E seu pai não deixaria que fizessem com ela o que haviam feito com sua mãe um dia.

Depois de muito pensar, ela acabou adormecendo sem perceber. Ela acordou antes do sol nascer e foi preparar um chá, pois sabia que talvez aquele fosse o último dia que veria Moa. Logo que o muro estivesse pronto ela jamais veria seu amigo novamente. Enquanto ela tomava rapidamente o chá, Erone surgiu no cômodo.

- Por que não me esperou na noite passado para voltarmos juntos? – perguntou ele.

- Eu estava cansada. – foi a curta resposta dela, apesar de ter muitas perguntas a fazer ao pai.

Ela não conseguia olhar nos olhos de Erone. Ele serviu-se de uma caneca de chá e sentou-se à mesa.

- O que tem errado? – perguntou ele.

Ela respirou fundo e disse:

- Por que fez aquilo, papai?

- Do que você está falando?

- Como pode não saber, meu pai? Eu nem acredito que foi capaz... Às vezes penso que tudo que vi foi um pesadelo... Que não foi real.

Daily não pode evitar as lágrimas.

- Não me condene, Daily. Foi preciso.

- Foi preciso? Não dava para ter deixado o corpo dele inteiro para que pudesse ser levado pelo seu povo para a vida eterna dele? Ahau lhe pediu isso?

- Daily, não culpe nosso líder por isso. Ahau não pediu sequer que eu matasse o rei Pollo. – confessou ele.

- Então por quê?

- Ahau não me pediu que matasse o rei Pollo porque jamais imaginou que alguém conseguiria.

- E o senhor conseguiu, meu pai. A minha pergunta é: o que o senhor ganhou com isso?

- Reconhecimento do meu povo e talvez dos espíritos antigos.

- Mais reconhecimento do que já tem? Todos sabem que o senhor é o melhor guerreiro Kasenkino de todos os tempos. Mas isso jamais nos deu algo de melhor na nossa vida no povoado, meu pai.

- Daily, eu não me arrependo do que fiz.

- Jamais vou entender sua atitude.

- Me senti imensamente satisfeito quando vi a alegria do meu povo ao ver a cabeça do Rei de Machia nas minhas mãos.

- E eu me senti imensamente triste de ver aquele ato vindo de você, meu pai. – confessou ela.

- Pelo visto você foi a única pessoa que não gostou, Daily. Nem parece uma Kasenkina às vezes. Espero que Ahau nunca descubra os questionamentos que você faz acerca das tradições do nosso povo.

- Sempre procuro ficar do lado que julgo certo... E só falo sobre isso com você, meu pai. Se um dia Ahau souber, será o senhor quem lhe falou.

- Então você sabe que eu jamais faria isso, não é mesmo?

- Papai, lamento dizer, mas parece que não sei mais o que pensar sobre o senhor.

- Daily, acho melhor você rever seus pensamentos e se desculpar por suas palavras de desgosto contra mim e seu povo ou serei obrigado a tomar atitudes que não gostaria.

- Peço desculpas por minhas palavras se o ofenderem ou ofenderam nosso povo, papai. – falou ela imediatamente.

-Eu desculpo.

Era evidente a raiva que Erone sentia, mas ele tentava ficar calmo e Daily percebia que havia ido longe demais falando o que realmente pensava para o pai.

- Papai, eu gostaria de ver Moa depois.

- Foi na casa dele enquanto eu estive fora?

- Sim, uma vez. – confessou ela.

- Então está muito claro seus pensamentos contra seu povo e sua audácia, Daily.

- Eu só fui até lá porque muito tempo havia passado e eu precisava saber se o senhor retornaria, papai.

- Aquele velho bruxo nunca foi assertivo em suas previsões. Não quero que procure ele.

- Papai, por favor.

- É minha resposta final.

Daily levantou-se do banco e disse:

- Ele não matou minha mãe... Ele não foi responsável por isso.

Dizendo isso ela foi para seus aposentos e deitou-se em sua cama, não conseguindo evitar as lágrimas. Agora seria também proibida de ver seu velho amigo, que tanto amava. O que lhe restaria? Somente Moa lhe falava sobre sua mãe e sobre o passado... Ninguém mais. Naquele povoado era como se Darla nunca tivesse existido, assim como para seu pai.

Erone apareceu ao lado dela de repente:

- Daily, pode ir ver Moa.

Daily olhou para o pai com os olhos ainda inchados de chorar e o véu encharcado. Levantou-se e lhe deu um forte abraço:

- Obrigada... É muito importante para mim.

Dizendo isso ela saiu imediatamente, subindo o rio em direção ao lugar onde Moa morava. Havia caminhado um bocado e começou a cansar. Quando criança não achava aquele caminho tão longo como agora. Ela e Burt iam brincando e correndo e quando se davam conta já estavam lá. Ela precisava muito contar a Moa que ele seria isolado para sempre do povoado Kasenkino e que nunca mais se veriam novamente.

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