INICIAR SESIÓNDaily estava cansada, mas finalmente avistava a cabana de Moa. Sempre que chegava perto ela corria para chegar mais rápido. Mas acabou caindo estreito de terra que levava à entrada. Levantou-se e seguiu. Bateu na porta com insistência e Moa demorou a atender, como sempre.
- Daily, querida. – disse ele surpreso ao vê-la.
- Oh, Moa, quanta saudade. – ela abraçou-o carinhosamente, sentindo-se bem mais calma ao ver aquele semblante de paz.
- O que a traz aqui, minha menina?
- Moa... – ela não conseguiu evitar as lágrimas. Tinha tantas coisas a dizer e tanta tristeza em seu coração.
Ele a abraçou e disse:
- Chore... Chore bastante, minha menina. Depois se sentirá melhor.
Ela entrou na cabana, mas as lágrimas insistiam em cair. Ela não falou nada, apenas chorou. Sentia-se muito a vontade ali. Moa logo lhe trouxe um copo com chá de ervas.
- O que tem no chá? – perguntou ela olhando.
- Ervas calmante... Irá se sentir melhor depois que tomar.
- Obrigada.
Ela tomou calmamente o chá e entre um gole e outro foi se acalmando e contando a Moa tudo que estava acontecendo no povoado Kasenkino.
- Os espíritos não mentem... Ahau quer tudo para ele... Vai escravizar o próprio povo em seu nome. – disse Moa.
- Você não se importa de ficar de fora da muralha, Moa?
- Não. – falou ele calmamente.
- Mas você é um Kasenkino, Moa. É seu direito ficar do lado de dentro, com seu povo.
- Será que somos um deles, Daily?
- Não entendi... – falou ela confusa.
- Somos Kasenkinos, Daily e disso eu não tenho dúvidas. Mas nós não somos como eles. E você sabe por quê?
- Não.
- Porque nós pensamos além do que eles pensam. Pensamos no mundo como um todo e não somente como os Kasenkinos.
- Me pergunto se o rei Pollo era um bom líder em Machia. Quantos terão chorado a morte dele? Sabe sobre isso, Moa?
- Não tenho certeza... Mas era um rei bem quisto pelo reino pelo que sei.
- Isso que você sabe é suficiente. Se era bem quisto por seu povo era um bom rei. Devia ser um homem bom... Não entendo porque meu pai fez isso.
- Entendo você, Daily. Lutar contra o rei Pollo seria suficiente. Trazer a cabeça dele como um troféu não era necessário.
- Exatamente... Entendo a luta, a morte talvez necessária... Mas trazer parte dele para o nosso povoado... Isso eu não aceito.
- Tente não ficar contra seu pai, minha menina. Entendo seus sentimentos, mas apesar de tudo, é com ele que você convive diariamente. Acho que não vale esta luta por alguém que você nem conheceu. Erone não fez o certo, mas é seu pai e você não pode ir contra ele por causa do rei Pollo, que você nem sabe ao certo quem era.
- Eu entendo...
- Quanto ao fato de Ahau querer uma nova esposa, tente não se preocupar com isso. Não acredito que seu pai ofereceria você depois de tudo que houve com sua mãe e o líder Kasenkino.
- Também tenho esta esperança.
- Daily... Eu preciso de um favor seu. – falou Moa de repente.
- Claro, Moa... Só pedir.
- Daily... Será que você poderia tentar encontrar Terry para mim? Preciso ter certeza pelo menos se ela está viva ou morta. Isso é muito importante para mim.
- Eu vou fazer isso, sim. Vou procurá-la para você, Moa.
- Sei que não será fácil, mas você é a única pessoa que pode me ajudar. Eu já não tenho mais como fazer isso.
- Eu entendo... Vou procurar.
- Sei que as chances de encontrá-la viva são poucas... Mas preciso ter certeza.
- Não há como perguntar aos espíritos antigos que falam com você?
- Não ouso perguntar... Não tenho coragem para a resposta eu acho. Apesar de ter quase certeza de que ela está morta, tenho esperanças de estar errado. Caso os espíritos me digam que Terry não existe mais, por qual motivo eu vou viver?
- Moa, me responda uma coisa.
- Fale, Daily.
- Você conhece alguém do reino?
- Não vou mentir para você: eu conheço. Algumas pessoas vêm aqui e me trazem comida em troca de visões do futuro.
- Como eles são?
- Você terá a oportunidade de saber por si própria.
- Tem certeza? – perguntou ela esperançosa.
- Tenho certeza. Você será muito conhecida no reino de Machia um dia... E também entre os Kasenkinos.
- Eu... Não sei o que dizer... – falou ela confusa e sentindo um arrepio de repente com as palavras de Moa.
- Não pense e não diga nada, menina. Espere as coisas acontecerem.
- Eu não vejo a hora de tudo acontecer na minha vida, Moa. Parece que estou esperando por isso a minha vida inteira, entende?
- Não pode somente esperar pelas coisas, Daily. É preciso ir atrás delas, entende? Você tem muitos sonhos e precisa dar asas a eles. Ás vezes é preciso lutar para que os sonhos se tornem realidade.
- Eu já sei como fazer isso. – disse ela firmemente.
- Muito bem, então faça o que achar melhor fazer para você. Jamais tenha medo ou pressa. O medo enfraquece sua alma e a pressa é inimiga.
- Moa, como eu gosto de ouvir você... Faz-me pensar que eu posso fazer qualquer coisa.
- E você pode fazer qualquer coisa, Daily. Lute pelo que você quer. Quebre as barreiras que irão se transpor para que você realize seus sonhos.
Daily estava se sentindo bem mais calma e tranquila depois de tudo que havia ouvido de Moa. Ele tinha o poder de sempre acalmar seu coração, desde que ela era criança. Ela não duvidava que ele falava com os espíritos Kasenkinos que viveram antes deles.
- Eu preciso ir, Moa. – disse ela olhando pela janela o movimento do sol.
- Mas chegou faz pouco... – observou ele.
- Preciso estar em casa antes do anoitecer.
- Mas não conseguirá chegar antes da noite... É impossível.
- Não se preocupe, Moa. Eu gosto da noite... Não tenho medo. Mas já foi difícil para meu pai aceitar que eu viesse... Não quero demorar.
- Você é a única pessoa no mundo que se importa comigo, Daily.
- Eu gosto muito de você, Moa. És muito especial para mim.
- Fico grato. Sinto o mesmo por você... Assim como sentia por sua mãe, minha velha amiga.
- Eu lhe prometo que acharei Terry. Mas sei que pode demorar... O outro lado do rio é escuro e o mato é muito alto... Além da correnteza do rio que é muito forte. Mas se Terry estiver viva, eu vou encontrá-la.
- Eu sei disso... E não duvido que se alguém pode encontrá-la, é você.
Daily sorriu feliz pela confiança que Moa depositava nela.
- Como ela era, Moa?
Ele respirou fundo e disse:
- A mulher mais linda que já vi.
- Isso você já me disse. – falou Daily sorrindo.
- Bem, muito tempo passou. Se a encontrar viva, não encontrará a Terry que eu conheci. Ela foi banida logo depois que você nasceu. Ela tinha a pele da cor da sua, talvez um pouco mais escura. Cabelos compridos e lisos, escuros como a noite e com o brilho da lua cheia. Olhos castanhos escuros e grandes. Ela gostava muito de usar pedras coladas pelo corpo, como uma Naiguã.
- Com estes traços eu a reconheceria se a encontrasse.
- Não a confunda com uma Naiguã... Ela só gostava das pedras no corpo igual às mulheres Naiguãs.
-Não se preocupe que jamais eu confundiria uma Kasenkina com uma Naiguã. Agora eu preciso ir... Obrigada por tudo que faz quando eu estou com você, Moa. Só você consegue acalmar meu coração e me ouvir sem julgar.
- Cuide-se... Não gosto de saber que você anda à noite pela floresta. Acho perigoso.
- Mas você disse que eu não deveria ter medo. E eu não terei, Moa.
Ele sorriu:
- Mas eu posso ter medo por você, minha forte menina Kasenkina.
Daily saiu correndo como sempre, com o vestido pendurado no braço para evitar que caísse no chão novamente. O sol logo começou a enfraquecer e em pouco tempo a lua apareceria. Ela parou e olhou para o céu, lembrando-se de uma história que seu pai lhe contava quando era criança, quando ela questionou por que de o sol não aparecer durante a noite. Erone dissera que o sol era tímido e a lua se apaixonou por ele. Ele acabou ignorando-a por medo dos próprios sentimentos. Ela foi insistente e ele acabou não resistindo aos encantos dela. Mas quando foi tocá-la, a queimou. Então nunca mais apareceu na noite, por medo de novamente machucar sua amada. Por este motivo ele sempre se esconde ao anoitecer atrás das montanhas. Lá ele fica, esperando para ver a lua aparecer, majestosa. E fica lá escondido a admirando por toda a noite, até ela ir embora. Só então ele aparece. E cada vez que chove, são as lágrimas dos dois, que se amam, mas não podem se tocar.
Daily conseguia sentir as mãos de Erone junto das dela. Não sabia o que sentia naquele momento com relação a ele. Uma vida inteira de mentiras... Sentimentos que ela não sabia mais identificar. Sentia afeto por ele. Fora bom com ela tantas vezes... Mas ainda assim a oferecera em casamento ao próprio pai. Quem conseguia fazer isso e depois viver normalmente? Ele, o homem que trouxera a cabeça do rei Pollo para ser queimada entre os Kasenkinos. O homem que matou mais pessoas que todos os Kasenkinos juntos. Como Darla pudera amar aquele homem? Quem era Darla na verdade? Nem sequer Moa sabia daquele segredo que os dois esconderam. Sentimentos bons e ruins se misturavam a dor horrível que ela sentia. Um líquido quente escorreu por suas pernas e ela sabia que o bebê iria nasce
- Mas... Por que fizeram isto, Burt?- Ahau lhes prometeu ouro, muito ouro, se eles ajudassem na construção da muralha. E assim eles fizeram...- E de onde Ahau tiraria ouro para lhes dar?- Não havia ouro algum... Ahua mentiu para eles. E agora eles vão matar todos. Será o fim dos Kasenkinos. – disse ele rindo nervosamente, com os olhos não parando de mexer nunca.Percebia-se que ele estava visivelmente abalado com tudo e não parecia estar pensando bem. Falava rápido, olhava para todos os lados, com muito medo.- Burt... Você tem certeza de que eram os Naiguãs?- Sim... Muitos deles... Nunca vi tantos... Todos montados nos cavalos, seres místicos dos deuses.- E Ahua?- Mataram Ademoore... E muita gente.Daily o abraçou. Ela tinha tanto medo, mas Burt parecia estar mais amedrontado do que ela.- Burt, meu amigo, o que fizeram
Daily percebeu que Ika estava falando devagar, parecendo ter dificuldade em pronunciar as palavras.- Ika, você está bem? – perguntou ela preocupada.- Não me sinto muito bem...Daily podia ver o suor escorrendo pelo rosto dela e parecia estar sem ar. Daily gritou em desespero por socorro. Logo os empregados vieram em seu auxílio. O nervosismo tomava conta de Daily. Percebeu em sua boca uma espuma esbranquiçada. Quando o doutor chegou, ela ainda segurava na mão de Ika.Não demorou até que fosse dado o motivo da morte:- Envenenamento. – disse o doutor.- Como? – perguntou Daily chocada.- Um veneno forte, com certeza. Mas nada mais pode ser feito por ela, infelizmente. Era uma boa mulher. Fiel criada do rei Pollo e depois do rei Mark.Daily olhou para a xícara de chá próxima da cama e gritou em lágrimas:- Não pode
Mark entrou no quarto rapidamente, muito preocupado.- Daily, o que houve? Eu soube que o médico veio vê-la. Você está doente? Passou mal?- Está tudo bem, Mark. – disse ela deitada confortavelmente na cama.- Eu sabia que Sherylin não a deixaria em paz... Foi por isso que eu a proibi de entrar no castelo.- Ela não teve culpa... Inclusive me pediu desculpas. Disse que irá embora de Machia.- Sherylin lhe pediu desculpas? Sinceramente eu não acredito nas desculpas sinceras dela.- Ela pode ter percebido que nosso amor é real, Mark. Talvez tenha decidido não mais acabar com nossa felicidade. Que de nada adiantaria nos fazer mal...- Daily, não se iluda com Sherylin. Se tem uma coisa que ela sabe muito bem é como manipular as pessoas.- Eu não me importo com Sherylin, Mark. Tenho coisas mais importantes a tratar com você.
Daily despertou com os raios de sol batendo em seu rosto. Ika estava abrindo a janela para o sol entrar no quarto. Ela olhou para o lado e percebeu que Mark não estava mais ali. Ela levantou a cabeça e sentiu-se muito bem. Nem parecia que havia estado péssima nos últimos dias.- Parece bem melhor, senhora. – disse Ika sorrindo.- Realmente Ika, pareço uma nova pessoa.- Gostaria de banhar-se?- Eu adoraria.- Então me acompanhe, por favor.Ika levou Daily até um enorme quarto de banho. Jamais ela imaginou tomar um banho com água quente e perfumada. Os Kasenkinos não acreditariam que aquilo era possível. Mais uma vez ela fez comparativos e ficou chocada de quantos costumes diferentes entre os dois povos que viviam tão próximos.- Você vai ficar me olhando? – perguntou Daily para Ika.- Sim... Caso a senhora queira que eu a esfre
Daily estranhava um pouco ter Ika o tempo inteiro com ela, perguntando se queria algo, anunciando quem chegava, o que acontecia. Servia-lhe o tempo todo. Talvez com o tempo acostumasse com aquilo, mas por enquanto sentia-se um pouco presa. Talvez sentisse falta de sua liberdade, seus vestidos folgados, seus cabelos soltos e seus pés descalços pela floresta. Era acostumada a fazer as coisas pelos outros e não o contrário. As mulheres Kasenkinas nasciam para servir e não pra serem servidas. Primeiro serviam os pais e as mães até se casarem e servirem ao marido e aos filhos.Ela olhou para o enorme travesseiro ao lado do seu. Passou a mão com carinho depois sentiu o cheiro de Mark. Nem acreditava que ele havia passado a noite com ela, lhe dando tanto carinho que ela jamais imaginou receber. Tudo parecia um sonho. E naquele momento ela teve certeza que entre a liberdade, os pés descalços e a floresta, ela escol







