Compartilhar

CAPÍTULO 17

last update Data de publicação: 2021-09-09 20:23:58

      “FT”, 16 de janeiro, sexta-feira.

      Estacionou a BMW a duzentos metros do ginásio.

      Havia dito para a esposa que precisava resolver um assunto urgente, de trabalho.

      Ela → acostumada a essas ausências → não questionou nem quis saber do que se tratava.

      Era uma excelente esposa!

      Vinte e tantos anos de casamento e continuava compreensiva, fiel e meiga! Fingia, inclusive, ignorar as diversas amantes que arrumava.

      A mulher perfeita!

      Olhou o relógio: 23h10min.

      Saiu da BMW. Usava terno preto, com gravata azul. A pistola se encontrava no coldre axilar, este oculto pelo terno. Adorava usar esse tipo de roupa.

      Notou que a temperatura estaria oscilando em torno dos vinte e dois ou vinte e três graus.        

      Rua deserta. Casas do lado esquerdo; muro da fábrica de cerveja do lado direito. No fim da rua, o ginásio, também do lado direito. Lado sul. Entre o ginásio e a fábrica, um terreno abandonado.

      Seguiu para lá, em passos cautelosos. Queria acabar com aquilo rapidamente. Atiraria quatro vezes → dois projéteis para cada um. Depois, desovaria os cadáveres em algum lugar. Com certeza era um cúmplice.

      Chegara à conclusão de que se tratava de um golpe.

      Claro! Devia saber que o tal de Macto não ficaria satisfeito apenas com a casa mobiliada, o carro e o dinheiro. A ganância sempre dominava esse tipo de gente.

      Os dois bolaram essa estória maluca, de testemunha, somente para extorquir dinheiro. Idiotas! O assassino, ao incomodá-lo, assinara sua própria sentença de morte. E levaria seu amigo com ele... para o túmulo.

      Teria ouvido um barulho? Havia alguém atrás da primeira coluna do ginásio? Recuou, diminuiu as passadas e ficou mais próximo do terreno. Essa manobra o salvou.

      POW!

      De repente, viu-se atingido na barriga.

      Não conseguiu ver de onde partira o tiro nem viu o atirador. Sentiu dor, mas não caiu. Instintivamente, correu para o terreno baldio. Mais dois tiros foram ouvidos.

      POW! POW!

      Passaram raspando.

      Entrou no terreno e viu-se protegido pela escuridão. Não viu seu algoz, que, com certeza, estaria correndo na sua direção. Estava atrás da coluna, com certeza.

      O terreno possuía um baixo matagal. Correu rumo às trevas, pisando folhas e raízes e viu o muro de alvenaria, nos fundos. Mesmo com dores pulou o muro, que não era tão alto, no momento em que mais dois tiros eram disparados.

      Caiu em outro terreno abandonado, com mais mato ao redor. Mato? Na verdade, eram... bananeiras. Sim. Centenas dela, por todo o terreno. Alguém teve a ideia de plantar bananas naquela área. Incrível.

      Uma vez no chão, puxou a pistola do coldre. Com a mão direita segurava a arma; com a esquerda, tapava o ferimento. Começou a correr, em passos trôpegos, por entre aquele amontoado de bananeiras.

      Na escuridão, vendo apenas vultos.

      Só não entendia uma coisa: por que o tal de Macto queria matá-lo, se o objetivo era extorquir mais dinheiro? Não tinha lógica!

      Teria ele sido descoberto? Estaria outra pessoa ali, tentando eliminá-lo? O assassino estaria morto?

      Correndo, tropeçou num tronco e caiu. Gritou de dor. No chão, retirou o terno e o colocou sobre o ferimento. Ergueu a mão e deu dois tiros na direção do bananal.

      → VOU MATÁ-LO, DESGRAÇADO! → gritou, com raiva. → SEJA VOCÊ QUEM FOR!

      Silêncio. Nenhum tiro em resposta. Ele sabia que o assassino, o tal de Macto, estava ali, perto do muro, esperando o momento certo, porém tentando se proteger. Macto ou outra pessoa.

      Deu mais dois tiros naquela direção.

      → VOCÊ NÃO VAI GANHAR MAIS DINHEIRO, SEU FILHO DA PUTA! E POR QUE ESTÁ TENTANDO ME MATAR?

      Ainda sentado, verificou que a rua ficava a quarenta metros do local onde se encontrava. Se alcançasse a rua, ficaria exposto aos ataques de seu algoz. Mas talvez pudesse pedir ajuda. Quem sabe um dos moradores...

      De repente, ciente de que o assassino não iria se aproximar, começou a pensar no passado.

      Sua memória entrou em sinistras elucubrações.

      Lembrou-se de sua infância, em que brigava constantemente com seus dois irmãos mais velhos. Cresceu numa família rica, mas sempre foi desonesto.

      Aos quinze anos, roubava doces de supermercados, mesmo tendo condições de comprá-los.

      Também roubava frutas de mercados.

      Aos dezoito anos, fumou seu primeiro cigarro. Depois, enveredou para a maconha. Deliciosa maconha. Vivia em festas regadas a drogas e sexo. Roubava casas. Entrava nos quintais e furtava botijão de gás. Adorava roubar botijões de gás, que vendia, para comprar maconha.

      Nunca foi preso. Era esperto demais para ser pêgo.

      Deu mais um tiro. Seu algoz não atirou mais, com certeza ciente de que sua morte seria uma questão de tempo. O filho da puta esperava, protegido pela escuridão.

      Estava tonto. E com dores na barriga. Sentiu a necessidade de ir para um hospital. Precisava, portanto, sair dali.

      Continuou suas elucubrações. O passado lhe veio à mente e não conseguia parar de pensar nele.

      Aos vinte anos, parou de roubar. Depois de duas tentativas, passou no vestibular e frequentou a universidade. Como prêmio, seus pais passaram a lhe dar mesada e não precisou trabalhar.

      Aos vinte cinco anos, formou-se em engenharia civil. Também se casou com sua atual esposa, após um namoro de um ano e meio. Tiveram um casal de filhos.

      Trabalhou no ramo da engenharia por dez anos, porém sem estar plenamente satisfeito com a profissão.

      Dez anos depois, encontrou o Bruno, seu amigo de universidade, que lhe propôs sociedade numa empresa.

      Juntos montaram a empresa, que prosperou e os deixou milionários. Paralelo a isso, seu casamento ia bem, apesar das amantes, que brotavam aos borbotões.

      Aí começaram as brigas. Discussões por motivos fúteis. Bruno sempre foi sério e honesto, apesar de ter arrumado essa amante. Sua primeira amante. Provavelmente estaria pensando em se separar. Talvez estivesse apaixonado pela amante. Vai saber.

      → Bruno, seu otário... → murmurou, com a voz engrolada.

      Já ele, era arruaceiro e fumador de maconha, que adorava festas, mulheres e vinho. Os dois simplesmente não combinavam.

      Certo dia tiveram uma briga feia e Bruno o empurrou. E disse que iria desfazer a sociedade.

      Foi a gota d’água. Se saísse da empresa, teria dificuldades financeiras. Talvez perdesse o alto padrão de vida que adquiriu.

      E foi aí que tomou a decisão de se livrar dele.

      Nunca havia matado ninguém antes. Portanto, a melhor opção era contratar um assassino.

      Contratou, antes, um detetive e disse que precisava encontrar um marginal em vias de reabilitação, para usá-lo como segurança. O detetive acreditou nessa estória e pesquisou. Dias depois, achou o tal de Macto. Parecia uma boa ideia, na época.

      Enganou-se, claro.

      Deu mais um tiro.

      → APAREÇA, SEU LIXO! → gritou. → IREI MATÁ-LO!

      A tontura aumentou. O silêncio do local era quase sepulcral. Teria o assassino ido embora? E porque queria matá-lo? Acharia ele que seria dedurado?

      → Que t-troço estranho...

      Mais um tiro. O silêncio. Teria atingido o sujeito?

      Deu mais outro tiro na direção do muro. Sua pistola tinha capacidade para vinte tiros. Teria que ter cuidado com isso.

      Tentou vislumbrar alguma coisa, mas não conseguiu. Só mato e escuridão. Provavelmente o miserável estaria lá, esperando o momento certo para atacar.

      Depois do mato havia a rua. Podia vê-la dali, iluminada e estreita. Teria que percorrer essa rua, até seu carro, que estava longe, na outra rua.

      Ou seja, suas chances eram pequenas.

      Não queria morrer. Não queria, justamente no momento em que iria ficar cada vez mais rico. Justamente no momento em que conseguira se livrar do miserável do Bruno, sujeito chato do caralho.

      A vida não poderia ser injusta com ele.

      Sua tontura aumentou. Estaria... morrendo???

      → Não posso morrer... → murmurou, em desespero →. Não posso... m-morrer...

      Tentou se erguer.

      Não pôde!

      Notou, em pânico, que a vida se esvaía de seu corpo.

      Se pudesse sair do terreno... Se pudesse ligar para alguém... Se pudesse alcançar o carro...

      O celular. Claro! Por que não pensou nele? Procurou o aparelho nos bolsos, mas... não o encontrou.

      No carro!

      Havia deixado o celular no carro. Que merda!!!

      → Como sou estúpido! Bosta!

      Teria que se por em ação. Não poderia mais ficar ali. Para fugir, primeiro rastejou por cinco metros, na direção da parede, mesmo correndo o risco de ser alvejado.

      Gemendo. A dores perturbando seus neurônios. O sangue começando a sair de sua boca. O terror no semblante!

      Delirou!

      Rastejou até a parede, enfim, a alcançando. Em seguida, com o apoio da parede, conseguiu se erguer. Notou que o terno estava empapado com um líquido viscoso.

      Olhou na direção das bananeiras.

      Teria visto um vulto, se esgueirando? Uma espécie de demônio bem ali, naquele sinistro bananal? Um vulto cadavérico, de olhos vermelhos fluorescentes, que se aproximava... lentamente?

      → N-Não... n-ão... pos... so...

      Tentou erguer a pistola, mas não conseguiu.

      O desgraçado do demônio estava ali, parado... como que oriundo do inferno... olhando... aguardando... aguardando o momento crucial...

      Tentou andar e chegou a dar quatro passos, na direção da rua, para depois... cair. Desabou de bruços no chão. A pistola fugiu de suas mãos e desapareceu na escuridão.

      Sangue começou a sair de suas narinas. A respiração se tornou ofegante e opressiva.

      De repente, a realidade surgiu, cruel e impiedosa!

      Estava morrendo. A dor no estômago era... era... doía demais. E o oxigênio... faltava...

      Não poderia morrer de modo tão estúpido! E pensar que era rico! E pensar que era dono → sozinho! → de uma gigantesca empresa! Tantos planos para nada! Não era justo! Não era jus...

      Sua esposa! Seus filhos!

      Por que, meu Deus?, pensou, em agonia.

      Não conseguia respirar! Não conseguia respirar!

      Morreu sem descobrir a verdadeira identidade de seu carrasco.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App
Comentários (2)
goodnovel comment avatar
Jccsantos Carlos
gostei muito da estória, porém uma pena ser tão curto, pois foi muito eletrizante!!!! Parabéns
goodnovel comment avatar
James Nungo
Este capítulo foi intenso. .........
VER TODOS OS COMENTÁRIOS

Último capítulo

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 18

    PARTE QUATRO - O FIM DO MISTÉRIO “FT”, 17 de janeiro, sábado. Encontraram-se no restaurante “Hutt Levidt Paladar”, naquela manhã ensolarada. Beijaram-se nas faces. Ocuparam uma mesa discreta, nos fundos do recinto. → Tudo bem? → ela quis saber. → Tudo. → O dia está lindo. → Realmente O sol está maravilhoso. → Vamos almoçar? Comeram lagosta, com arroz, macarrão, salada, feijão e farofa. E vinho branco, como acompanhamento. Em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensam

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 17

    “FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Estacionou a BMW a duzentos metros do ginásio. Havia dito para a esposa que precisava resolver um assunto urgente, de trabalho. Ela → acostumada a essas ausências → não questionou nem quis saber do que se tratava. Era uma excelente esposa! Vinte e tantos anos de casamento e continuava compreensiva, fiel e meiga! Fingia, inclusive, ignorar as diversas amantes que arrumava. A mulher perfeita! Olhou o relógio: 23h10min. Saiu da BMW. Usava terno preto, com gravata azul. A pistola se encontrava no coldre axilar, este oculto pelo terno. Adorava usar esse tipo de roupa.

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 16

    “FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Contou tudo! Desde a abordagem pelo contato, o roubo do Corsa, o treinamento, os tiros, o estupro, a fuga, até a chegada na casa, já tarde da noite. → É isso aí → disse, para finalizar a conversa →. É... isso... aí. Cara, preciso de um remédio. Tô com u-uma fodida dor no c-cérebro, entende? O tal de Bruno → após ouvir o bizarro relato → não proferiu uma palavra sequer. Parecia um robô sem alma, como que perdido em sua própria loucura. Guardou o maçarico na maleta e tirou um celular e uma pistola, preta, com silenciador. Destravou a arma. Ergueu a mão armada. Virou-se. → Ca

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 15

    “FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Enquanto isso... Vitorioso! Naquela noite, trancado na biblioteca da mansão → concentrado na elaboração do discurso → sentia-se o mais vitorioso dos homens! Nunca estivera tão satisfeito. Recapitulando os acontecimentos da semana, soubera da morte de Bruno no hotel, às oito da noite da terça-feira. Kleber → gerente de vendas da matriz → lhe dera a notícia. Estava realmente no norte do país. Portanto, bem distante das ações do assassino. Viajara para a cidade de “FT” na manhã do dia seguinte, fingindo estar chocado com o fato. Comparecera ao enterro. Claro!

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 14

    “FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Arregalou os olhos. Viu-se diante de um... “fantasma”??? O sujeito teria entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Alto, branco e loiro. Olhos azuis. Cultivava um bigode fino, no estilo dos mexicanos. Apesar do intenso calor, usava um terno preto, com gravata lilás. Na mão direita, uma pasta marrom. → Te matei! → gritou, surpreso → TE MATEI!!! Não pode ser! Não pode ser!!! → Você checou se eu estava realmente morto? → o homem falou e sua voz era extremamente parecida com a do Bruno Handel. → Tu morreu, cara! Puta que pariu!!! O homem depositou a maleta no c

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 13

    PARTE TRÊS - A VINGANÇA DO MORTO “FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Ao despertar, sentiu uma incômoda dor de cabeça. Dor chata! Como se agulhas perfurassem seu cérebro! Tentou se mexer, mas não conseguiu. Percebeu que estava amarrado a uma cadeira de aço → extremamente pesada → de espaldar alto. Cordas poderosas o prendiam por trás. Tentou de desenvencilhar, sem sucesso. → Merda! → vociferou, sem forças. Suava. O suor descia → lentamente → por seu rosto. Calculou ser quase meio-dia, com a temperatura na casa dos trinta e poucos

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status