Share

CAPÍTULO 18

last update publish date: 2021-09-09 20:24:50

PARTE QUATRO - O FIM DO MISTÉRIO

      “FT”, 17 de janeiro, sábado.

      Encontraram-se no restaurante “Hutt Levidt Paladar”, naquela manhã ensolarada.

      Beijaram-se nas faces.

      Ocuparam uma mesa discreta, nos fundos do recinto.

      → Tudo bem? → ela quis saber.

      → Tudo.

      → O dia está lindo.

      → Realmente O sol está maravilhoso.

      → Vamos almoçar?

      Comeram lagosta, com arroz, macarrão, salada, feijão e farofa. E vinho branco, como acompanhamento. Em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos.

      Começaram a conversar, assim que o garçom recolheu os pratos.

      → Deu certo? → ela perguntou, meio que ansiosa, após tomar uma dose do vinho.

      → Sim → ele respondeu, depois de também tomar uma dose do vinho →. Os corpos foram encontrados ontem pela manhã.

      → Você foi esperto.

      → Trabalho na Polícia Federal. Sei como funcionam as coisas.

      → Pois é.

      → E tudo começou quando você me procurou, para dizer que achava que o Bruno tinha uma amante.

      → Isso mesmo. O cheiro do perfume dela era muito forte. Não tive como não perceber, apesar dos banhos que o crápula do Bruno tomava, para disfarçar. Não tive dificuldade em somar um mais um. E você era o único que poderia me ajudar.

      → Isso mesmo. O cara certo.

      → O cara certo. Pode contar como foi feito?

      → Está preparada?

      → Estou. Muito.

      → Vamos lá. Para confirmar a infidelidade, aluguei um Scort prata, pedi dispensa do trabalho e comecei a seguir o Bruno. Na segunda-feira, ele agiu normalmente. Na terça, porém, foi para a casa dela. Deixei o Scort a alguns metros da residência e fiquei de mutuca. Confirmei a traição. Uma morena bonita, por sinal. Bonita e sexy.

      → É a fraqueza dos homens. Nunca ficam satisfeitos com uma só vagina.

      → Pois é. Acho que é a lei da natureza → sorriu.

      → Nem me fale. Continue.

      → Já me preparava para ir embora quando vi o sujeito.

      → O que o fez desconfiar?

      → Quando ele cobriu a mão com o lenço, para abrir o portão pequeno. Aquilo não foi uma atitude normal! Seguindo meu instinto profissional, decidi esperar. Ao sair da casa, o homem usava luvas. Já pensou? Na hora não pensei duas vezes. Segui o sujeito.

      → Qual foi o momento de maior estresse?

      → Quando entrei na estradinha de terra batida e dei de cara com ele, andando no sentido contrário, disfarçado de militar. Naquele instante imaginei que seria descoberto, uma vez que ele já tinha visto meu carro antes. Para minha sorte, o indivíduo, que era meio travado intelectualmente, não relacionou os dois veículos. E só descobri que ele havia tirado o disfarce de empresário porque cheguei ao fim da estradinha e não vi mais o Corsa. Logo percebi, pela experiência de anos lidando com a escória, que o militar e o empresário loiro, de terno azul-marinho, eram a mesma pessoa.  

      → E depois?

      → Voltei, a tempo de vê-lo entrando no ônibus. Segui o coletivo, claro. Outro problema foi quando o indivíduo me viu, na rodoviária da cidade de “PQ...”, sentado, fingindo ler um jornal. Ainda bem que consegui esconder meu rosto. Depois disso, ele não percebeu em nenhum momento que estava sendo seguido. Era um idiota.

      → Você o seguiu até a casa dele?

      → Isso mesmo. Descobri a casa dele, muita bonita e luxuosa, incompatível com sua função de lavador de carros. Deve ter sido dada a ele por alguém, pensei. Uma vez tendo descoberto a casa dele, bolei um plano. Para que esse plano desse certo, eu precisava abordá-lo antes que lesse o jornal do dia. Ele só acreditaria que eu seria o Bruno e que havia sobrevivido aos tiros se não houvesse lido nada a respeito, antes. Caso contrário, tudo iria por água abaixo. Uma vez na casa dele, dei uma porrada bem na nuca e desmaiei o psicopata. Em seguida, coloquei o corpo no porta-malas e segui viagem. Chegando aqui em “FT”, consegui realizar a proeza de alugar uma casa na mesma hora. Conversei com a dona, paguei adiantado e pronto. Sem recibos e sem contrato. O dinheiro sempre fala mais alto. Corri riscos, claro. Imagina se alguém me pega com o corpo no porta-malas. Seria catastrófico. O bom é que a dona do imóvel não desconfiou de nada. Depois que ela foi embora, e sem ninguém na rua, coloquei o sujeito na casa, o amarrei e, naquele instante, senti vontade de... matá-lo. Juro. Quando você me contou a respeito dos crimes, num primeiro momento, repleto de ódio, pensei em matar o filho da puta. Ele estava bem ali, na minha frente. Mas depois me acalmei e comecei a raciocinar. Era óbvio que o bandido não havia agido sozinho. Não tinha inteligência para isso. Precisava, portanto, descobrir quem estava por trás daquela crueldade. Tive, então, uma ideia. Consegui, pela internet, as fotos das pessoas que suspeitava...

      → Incluindo uma foto minha...

      → Desculpe, Tereza, mas eu precisava ter certeza!

      → Tudo bem. Eu compreendo.

      → De posse das fotos, me disfarcei.

      → Um disfarce.

      → Sim. O disfarce perfeito.

      → Quer dizer, você colocou o bigode postiço, igual ao do Bruno, e mais as bandagens no torso, pintadas com extrato de tomate.

      → Exatamente. Disse-lhe que havia fugido do hospital e que tinha uma das balas ainda alojadas no meu corpo. O bandido acreditou que estava conversando com o Bruno. → riu → Precisava ver a reação dele, ao me ver!

      → Posso imaginar. No fundo, ele não tinha como saber.

      → Concordo. Ninguém perceberia mesmo. Uma vez na casa que aluguei, ameacei-o com o maçarico e ele, covarde que era, contou tudo! Nem precisei queimá-lo.

      → Você teria coragem?

      → Claro! Queimaria aquele desgraçado com prazer!

      → E depois?  

      → O resto você já sabe. Obriguei o tal de Macto a ligar para o Victor, marcando encontro no ginásio Fred Xinder. Ele, covarde que era, conseguiu convencer a Victor a embarcar nessa fria. Matei em seguida o Macto, com um tiro, para surpresa dele, que pensou que eu não teria coragem. Pensou que seria apenas preso, é mole? Um otário mesmo.

      → No fundo, todos eles são covardes.

      → Certo. Continuando, levei o cadáver dele comigo e, perto do ginásio, esperei. Minutos depois, Victor apareceu. Veio de modo lento e cauteloso, com certeza pronto para qualquer coisa. Um verme astuto. Sem me deixar ver, atirei no Victor. Acertei um tiro bem na barriga dele. Mesmo assim, o desgraçado não caiu. Em vez disso, conseguiu correr para um terreno baldio, acredita?

      → Nossa!

      → Ele correu, pulou um muro e ainda atirou na minha direção, no outro terreno, que era um bananal. Um risco! Me escondi no meio daquelas bananeiras e, ciente de que meu tiro foi mortal, fiquei esperando. Vi que o Victor se sentou no chão sujo e atirou algumas vezes. Chegou a gritar ameaças e até se levantou para fugir, mas não conseguiu. O cara desabou e... morreu. Não precisei acertá-lo com outro tiro. O desgraçado se foi. Em seguida, juntei os dois cadáveres na frente do ginásio, com suas respectivas armas, e deixei um bilhete, informando a polícia.

      → Bilhete? Você extraiu as letras de jornais?

      → Sim. O velho método das letras de jornais. Como nos filmes policiais → sorriu →. Fiz o serviço usando luvas, claro.

      → Muito bom. E o que estava escrito?

      → Uma frase simples e objetiva: “Eis os assassinos de Bruno Handel.

      → Bastante objetiva mesmo. A polícia acreditará?

      → Com certeza.

      → Seremos suspeitos?

      → A polícia não investigará mais nada. Eles sabem que alguém já fez o serviço deles e serão gratos a essa pessoa misteriosa. Optarão por mentir → tomou uma dose do vinho →. Divulgarão para a imprensa que, após minuciosas investigações, descobriram que Victor, para ficar com a posse total da empresa, contratou o pistoleiro Macto para matar seu sócio Bruno. E que Victor e Macto, ao serem plotados pelos policiais, reagiram, sendo mortos num confronto. Agindo dessa forma, evitarão um serviço extra e sem necessidade. Ou seja, eles já são heróis, pois desvendaram um caso que chocou a cidade de “FT” e mostraram ao povo que o crime não compensa. Arquivarão o caso como “solucionado”.

      → Olha lá, hein?

      → Vá por mim. Sou tira e sei como os tiras pensam.

      → É um mundo podre.

      → Todos nós somos podres. Por sorte, os bons são maioria.

      → E você vai dormir bem, hoje?

      → Sim → seus olhos brilharam →. Hoje estou feliz, pois vinguei meu irmão gêmeo. Além do mais, o fato de sermos parecidos ludibriou completamente o tal de Macto. Ele simplesmente pensou que o morto tinha retornado do além, para se vingar. Eheheh. Um otário total.

      → Um grande idiota. Obrigado, amigo.

                                                            FIM

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 18

    PARTE QUATRO - O FIM DO MISTÉRIO “FT”, 17 de janeiro, sábado. Encontraram-se no restaurante “Hutt Levidt Paladar”, naquela manhã ensolarada. Beijaram-se nas faces. Ocuparam uma mesa discreta, nos fundos do recinto. → Tudo bem? → ela quis saber. → Tudo. → O dia está lindo. → Realmente O sol está maravilhoso. → Vamos almoçar? Comeram lagosta, com arroz, macarrão, salada, feijão e farofa. E vinho branco, como acompanhamento. Em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensam

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 17

    “FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Estacionou a BMW a duzentos metros do ginásio. Havia dito para a esposa que precisava resolver um assunto urgente, de trabalho. Ela → acostumada a essas ausências → não questionou nem quis saber do que se tratava. Era uma excelente esposa! Vinte e tantos anos de casamento e continuava compreensiva, fiel e meiga! Fingia, inclusive, ignorar as diversas amantes que arrumava. A mulher perfeita! Olhou o relógio: 23h10min. Saiu da BMW. Usava terno preto, com gravata azul. A pistola se encontrava no coldre axilar, este oculto pelo terno. Adorava usar esse tipo de roupa.

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 16

    “FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Contou tudo! Desde a abordagem pelo contato, o roubo do Corsa, o treinamento, os tiros, o estupro, a fuga, até a chegada na casa, já tarde da noite. → É isso aí → disse, para finalizar a conversa →. É... isso... aí. Cara, preciso de um remédio. Tô com u-uma fodida dor no c-cérebro, entende? O tal de Bruno → após ouvir o bizarro relato → não proferiu uma palavra sequer. Parecia um robô sem alma, como que perdido em sua própria loucura. Guardou o maçarico na maleta e tirou um celular e uma pistola, preta, com silenciador. Destravou a arma. Ergueu a mão armada. Virou-se. → Ca

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 15

    “FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Enquanto isso... Vitorioso! Naquela noite, trancado na biblioteca da mansão → concentrado na elaboração do discurso → sentia-se o mais vitorioso dos homens! Nunca estivera tão satisfeito. Recapitulando os acontecimentos da semana, soubera da morte de Bruno no hotel, às oito da noite da terça-feira. Kleber → gerente de vendas da matriz → lhe dera a notícia. Estava realmente no norte do país. Portanto, bem distante das ações do assassino. Viajara para a cidade de “FT” na manhã do dia seguinte, fingindo estar chocado com o fato. Comparecera ao enterro. Claro!

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 14

    “FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Arregalou os olhos. Viu-se diante de um... “fantasma”??? O sujeito teria entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Alto, branco e loiro. Olhos azuis. Cultivava um bigode fino, no estilo dos mexicanos. Apesar do intenso calor, usava um terno preto, com gravata lilás. Na mão direita, uma pasta marrom. → Te matei! → gritou, surpreso → TE MATEI!!! Não pode ser! Não pode ser!!! → Você checou se eu estava realmente morto? → o homem falou e sua voz era extremamente parecida com a do Bruno Handel. → Tu morreu, cara! Puta que pariu!!! O homem depositou a maleta no c

  • A VINGANÇA DO MORTO   CAPÍTULO 13

    PARTE TRÊS - A VINGANÇA DO MORTO “FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Ao despertar, sentiu uma incômoda dor de cabeça. Dor chata! Como se agulhas perfurassem seu cérebro! Tentou se mexer, mas não conseguiu. Percebeu que estava amarrado a uma cadeira de aço → extremamente pesada → de espaldar alto. Cordas poderosas o prendiam por trás. Tentou de desenvencilhar, sem sucesso. → Merda! → vociferou, sem forças. Suava. O suor descia → lentamente → por seu rosto. Calculou ser quase meio-dia, com a temperatura na casa dos trinta e poucos

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status